Proibição do Burqini na França – Reflexão antropológica

Burqini é a roupa de banho utilizada por mulheres muçulmanas para ir à praia. Imagine uma roupa de surfista, agora mentalize que ela também tem um capuz. O burqini é basicamente isso. As mulheres muçulmanas atendem ao chamado de Allah, expresso no Corão, para que se cubram como forma de demonstrar submissão e obediência a Ele, seu único Deus. A modéstia da vestimenta funciona de forma dupla, ao mesmo tempo em que protege a mulher do mundo exterior, a dá segurança para enfrenta-lo. Da mesma forma, a veste ajuda a modelar o olhar da usuária. Uma vez que seu corpo não é visto, ela passa a se educar para não querer ver outros corpos também. Essas, pelo menos, foram algumas das explicações que eu recebi das mulheres muçulmanas com quem convivi enquanto produzia a minha monografia de graduação no curso de Ciências Sociais.

Exemplo de um Burqini
Exemplo de um Burqini

A priori, elas não se sentiam confortáveis na praia. Porque não conseguiam evitar de receber olhares, justamente pelo contraste que causavam, uma vez que frequentavam o espaço usando vestes que cobriam todo o seu corpo, enquanto as outras pessoas estavam seminuas. Uma das minhas interlocutoras falou com tom de espanto “eu não imaginava que as pessoas circulavam pela cidade com as mesmas roupas que vão à praia”, quando voltou de uma semana em cidade litorânea no verão. Ou seja: o estranhamento é uma via de mão dupla.

Nem todas as mulheres fazem uso do burqini propriamente dito, visto que, aqui no Brasil, ele não é fácil de ser encontrado e costuma ser caro. Conversei com muçulmanas que vão à praia com calças legging e uma túnica por cima, com seu véu e as vezes um chapéu. Não há uma regra estrita onde deve-se usar o burqini, elas só não querem mostrar os seus corpos. E, se elas conseguirem fazer isso sem ter que ver outras bundas passando por perto delas, é potencialmente melhor.

Mulher oriental, com roupas, na praia. Qual a diferença dela para uma muçulmana?
Mulher oriental, com roupas, na praia. Qual a diferença dela para uma muçulmana? No Twitter, de onde retirei a imagem, estava escrito “é assim que muitas mulheres japonesas vão à praia, espero que fiquem longe da França“.

A primeira vez em que eu vi mulheres na praia com roupa, foi quando fui ao Rio de Janeiro e um grupo de orientais chegou na praia. Todos com calças e blusas, além de sombrinhas para se proteger do sol. As pessoas até olharam estranho, mas deixaram para lá. A primeira vez em que eu ouvi falar sobre burqini foi quando uma amiga da Malásia me disse que seu sonho era ir ao Brasil para poder usar um biquíni. Isso fez com que eu perguntasse a ela “mas como você vai para a praia?”, porque sei que a Malásia tem praias lindas e que ela conhece também a Indonésia, Tailândia e Austrália. Foi então que ela me mandou uma foto de um burqini e explicou que o utilizava para ir à praia.

Essa minha amiga, Elleena, é muçulmana desde que nasceu e escolheu usar hijab quando tinha nove anos, por achar bonito. Ninguém da sua família faz uso, mas ela realmente gosta do véu. Foi ela que me mostrou o primeiro tutorial que vi, ensinando novos estilos de amarração. Ela que me explicou sobre texturas e cores de lenços e me fez perceber que o hijab era muito mais do que um pedaço de pano. Mas, ela é jovem e tem contato com a cultura ocidental/secular, então acaba tendo vontade de conhecer um pouco sobre o nosso lado da moeda.

Quando eu mostrei a ela uma foto em que eu usava um biquíni, ela ficou em choque “você é tão certinha, como pode ter coragem?” e eu, mais uma vez, fiquei extasiada com a existência da alteridade e das diferenças culturais e religiosas, que nos permitem ter experiências diversas.

E é exatamente toda essa experiência que atitudes como a da corte francesa querem fazer acabar. Algumas ideias entram em colapso quando vemos a corte de um país secular que se estrutura sob a premissa de “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” barrar o uso de uma roupa de banho específica, por considera-lo “político” e uma “desculpa de islamistas para inserirem seu modo de vida no nosso”.

O secularismo francês prevê a separação entre Estado e política, garantindo que um não interfira sobre o outro. Até aí, tudo certo. No entanto, ele considera que qualquer tipo de demonstração religiosa em espaços públicos ou seculares é abusiva, pois pode ser considerada como “imposição” ao outro. É mais ou menos como quando estamos dentro de um ônibus e alguém entra ouvindo uma música muito alto e impondo que todos os outros passageiros escutem junto. Para a França, uma mulher muçulmana andar com véu na rua gera esse tipo de desconforto e imposição. Porém, a coisa é descaradamente seletiva, visto que o véu de religiosas católicas nunca foi questionado, assim como o uso de crucifixos ou imagens de santos.

Proibir o burqini é apenas o ápice de uma política que tenta garantir a igualdade por supressão da diferença, o que é muito irônico se pensarmos que é justamente o país que deu origem à filosofia da diferença, que postula o exato oposto. A meu ver, a França se enfia em incoerências cada dia mais. E se isso fosse uma questão fechada, tudo bem, mas ela acaba influenciando a vida de muitas pessoas e é esse o problema.

polícia pede para senhora tirar o burqini
Policial pedindo para que a senhora muçulmana retirasse sua vestimenta, em Nice, cidade do sul da França.

A foto da senhora que estava na praia em Nice e foi abordada por policiais que pediram para que ela retirasse a roupa ou saísse da praia, comoveu o mundo na última semana. A senhora mostrava que não estava usando um burqini, apenas uma calça, camiseta e uma túnica com seu véu. Ela estava na praia por motivos recreativos, como todas as outras pessoas. Mas acabou indo embora, provavelmente se sentindo humilhada.

As mulheres têm seus corpos medidos independente da cultura ou religião que façam parte, porque vivemos em um mundo onde há um machismo estrutural e intrínseco ao nosso modo de vida. Como Judith Butler (2014) alerta, tratar o patriarcado como único é tão perigoso quanto dizer que “ser mulher” é uma classe identitária suficiente para mobilizar alguma ação. No entanto, esquecer que o patriarcado existe e oprime todas as mulheres do mundo diariamente, mesmo que de formas diferentes, é bastante perigoso.

A presunção política de ter de haver uma base universal para o feminismo, a ser encontrada numa identidade supostamente existente em diferentes culturas, acompanha frequentemente a ideia de que a opressão das mulheres possui forma singular, discernível na estrutura universal ou hegemônica da dominação patriarcal ou masculina. […] Esta forma de teorização feminista foi criticada por seus esforços de colonizar e se apropriar de culturas não ocidentais, instrumentalizando-as para confirmar noções marcadamente ocidentais de opressão, e também por tender a construir um “Terceiro Mundo” ou mesmo um “Oriente” em que a opressão de gênero é sutilmente explicada como sintomática de um barbarismo intrínseco e não ocidental. A urgência do feminismo no sentido de conferir um status universal ao patriarcado, com vistas a fortalecer aparência de representatividade das reivindicações do feminismo, motivou ocasionalmente um atalho na direção de uma universalidade categórica ou fictícia da estrutura de dominação, tida como responsável pela produção da experiência comum de subjugação das mulheres. (BUTLER, 2014, p. 20-21).

policial medindo comprimento do maiô de uma mulher
Foto da década de 1920, onde um policial mede o comprimento do maiô que a mulher veste.

Mohammad Matter, jornalista palestino, falou nessa semana que “não há diferença entre aqueles que obrigam uma mulher a se cobrir e aqueles que a obrigam a se despir”, o que é um ponto de vista bastante válido. Muçulmanas ou não, as mulheres sofrem por padrões de vestimenta todos os dias e todos os dias elas repensam, antes de sair de casa, se a roupa que elas estão usando está boa o suficiente para fazer com que elas cheguem em casa sem terem sido estupradas no meio do caminho. Isso porque, não importa onde, a noção de que a roupa que a mulher usa é responsável pelo assédio que ela sofre existe. Mesmo para as mulheres muçulmanas, que estão cobertas.

Logo, uma coisa é todas as mulheres se unirem em prol da não imposição de um terceiro por sobre a vestimenta que ela usa. Outra coisa, é as mulheres ocidentais não muçulmanas falarem que sentem “pena” das muçulmanas, porque são “oprimidas e forçadas a usar roupas quando não querem”. Esse foi um dos argumentos do primeiro ministro francês quando questionado sobre a proibição do burqini, veja bem.

É importante ressaltar, como falei no início do texto, que a grande maioria das mulheres muçulmanas que usam hijab escolheram isso. Elas não são obrigadas, a religião não as obriga e sua família não as obriga. Elas escolhem por vontade própria, seja para seguir uma prescrição religiosa ou simplesmente por achar bonito, como a minha amiga Elleena. Mas, o fato de que essa é a regra, não pode nos fazer esquecer da existência da exceção.

Comparação entre a atitude dos policiais franceses (que pedem para a senhora se descobrir) e os wahabistas sauditas (que pedem para as mulheres se vestir).
Comparação entre a atitude dos policiais franceses (que pedem para a senhora se descobrir) e os wahabistas sauditas (que pedem para as mulheres se vestir).

Marjane Satrapi, em sua maravilhosa história em quadrinhos, Persépolis (2007), nos mostra a transição de governos no Irã e a imposição do uso de vestimentas determinadas. Ela não se identificava com aquilo e teve sorte de vir de uma família com posses o suficiente para a tirar do país. Mas, milhares de meninas e mulheres cresceram sob essas regras estritas de vestimenta e sem a oportunidade de escolha.

Na vertente literalista da religião islâmica, o Wahabismo, que basicamente aplica os ensinamentos de Allah sem contextualizá-los, o que é extremamente criticado pelas outras vertentes da religião, a vestimenta também é imposta e obrigatória. O país onde há mais wahabistas é a Arábia Saudita e muito provavelmente é a razão para que a desigualdade de gênero seja tão grande por lá. A repressão chega no nível de proibir que mulheres muçulmanas sequer frequentem a praia. Independente da roupa que estejam usando.

Mas, novamente, o Islã é a segunda religião do mundo com mais adeptos. Eles passam de um bilhão de pessoas, o que é realmente muita gente. Há muçulmanos em todos os lugares do mundo e não é necessário ser árabe para ser muçulmano. Você pode ser brasileiro, ter nascido católico ou ateu e depois se reverter para a religião. O termo “reversão” é utilizado pelos muçulmanos, ao invés de “conversão”, visto que acreditam que todos nascem na religião, mas apenas alguns retornam a ela.

O Islã é enorme e possui diversas vertentes diferentes, da mesma forma que o Cristianismo. Olhar para os muçulmanos e achar que formam uma classe única é tão errado quanto olhar para os cristãos e achar que todos seguem a mesma premissa (convenhamos, existem católicos ortodoxos e apostólicos, além de diversas subdivisões de igrejas protestantes). É uma generalização tão vazia quanto dizer que o feminismo é uma luta única, porque “todas as mulheres sofrem as mesmas opressões, vindas do patriarcado” e tão vazio quanto dizer que existe apenas um patriarcado e uma opressão. Vocês conseguem entender?

tweet sobre mulheres muçulmanas e praia
Tweet wahabista, que diz “islamicamente, mulheres muçulmanas estarem na praia com homens/mulheres pelados por perto é totalmente proibido, mesmo se elas estiverem com hijab!” e uma das respostas diz “para mulheres, estar na praia é totalmente absurdo, é odioso”.

Eu vi essa imagem no Twitter, seguida de uma frase sobre “é por isso que precisamos do feminismo” e, confesso, fiquei triste. É como se nós fôssemos capazes de entender e agir sobre qualquer realidade, simplesmente por sermos mulheres. E isso não é certo, em absoluto.

Há mulheres muçulmanas que são impedidas de ir à praia por pessoas de sua mesma religião? Sim. Mas há também mulheres muçulmanas impedidas de ir à praia por um país europeu secular. Da mesma forma, há mulheres muçulmanas que vão à praia com burqini e outras que vão com outras roupas, além das que escolhem não ir, por se sentirem desconfortáveis. “Há islãs, há ocidentes”, como disse Mustapha Chérif (2013, p. 45). E aí, o problema está na religião ou no fato das pessoas insistirem que podem mandar nos corpos dos outros?

Lila Abu-Lughod (2012), importante teórica feminista muçulmana, falou sobre essa incrível necessidade que os Ocidentais têm por “salvar” e “libertar” as mulheres muçulmanas de sua opressão. Em resposta a uma carta de Laura Bush, Abu-Lughod ressaltou que toda liberdade é culturalmente construída, fazendo com que a opressão também o seja. Dessa forma, o desejo salvacionista do ocidente acaba sendo tão opressor quanto aquilo que eles desejam combater, por acharem que apenas a forma ocidental de viver e agir é correta e verdadeiramente livre.

A conclusão que podemos tirar de toda essa discussão é muito simples: as pessoas mais adequadas para resolverem seus problemas são aquelas que estão sofrendo eles. É possível a existência de mediadores externos, mas eles nunca devem tomar o lugar e o espaço daqueles que estão realmente sendo afetados pelas coisas. Isto é, se as mulheres muçulmanas da França não tivessem se incomodado com o banimento do burqini, não haveria nada que o resto do mundo pudesse fazer por elas. A partir do momento que elas se indignaram e mobilizaram outras pessoas em prol da queda do decreto, ele se fez possível.

Enquanto não-muçulmana e usuária convicta de biquínis, eu certamente não poderia frequentar uma praia na Arábia Saudita, visto que nem as mulheres muçulmanas podem frequentar praias por lá. No entanto, em países como a Malásia e o Paquistão, onde há convivência pacífica entre muçulmanos e não muçulmanos e onde o uso do hijab não é absoluto, eu poderia utilizar um biquíni. No entanto, é certo que me sentiria desconfortável, mas isso sou eu. Da mesma forma, mulheres muçulmanas vão às praias no Brasil, com burqinis ou outras adaptações que as faça sentir confortáveis e podem ou não se sentirem afetadas pelos olhares dos outros. Vai de cada uma delas.

Eu e meu biquíni podemos ser considerados um produto do imperialismo Ocidental. Podem me ver como alguém que se veste com poucas roupas para agradar homens e me sentir bonita/bem com isso. Da mesma forma, a mulher muçulmana e o burqini dela podem ser considerados um símbolo da opressão religiosa, por terem que se vestir de acordo com os anseios de seus maridos. Em ambas as situações, a verdade é relativa. Essas coisas podem ser, ao mesmo tempo, verdadeiras e falsas, dependendo da perspectiva de análise. Elas podem também ser corretas para algumas pessoas em alguns casos e erradas para outras pessoas, em outros casos. Não cabe a mim ou a você julgar, a torto e a direito, sem conhecer e perguntar como essas mulheres se sentem. Se não pelo anseio de liberdade, pelo senso de que detestaríamos que fizessem isso com a gente.

As mulheres muçulmanas que nós vemos como oprimidas podem não se sentir assim e cabe a nós respeitá-las. Não temos que lutar para que o mundo inteiro seja igual a nós, como se fôssemos superiores e livres, primeiro porque nós não somos e segundo porque o mundo simplesmente não é igual. A antropologia inteira é sobre isso. Há mais de cem anos pessoas se dispõem a passar um tempo com grupos diferentes e relatar como eles vivem e o resultado em geral é o seguinte: todo mundo está sobrevivendo, mesmo que não da mesma forma que a gente. Já passou da hora de todo mundo entender isso e simplesmente dar oportunidade para que as pessoas sejam aquilo que elas quiserem ser.

REFERÊNCIAS

ABU-LUGHOD, L. As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação? Reflexões antropológicas sobre o relativismo cultural e seus outros. Revista Estudos Feministas, v. 20, n. 2, p. 451–470, 2012.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero – Feminismo e subversão da identidade. Editora Civilização Brasileira: Rio de Janeiro. 2014.

CHÉRIF. Mustapha. O Islã e o Ocidente – Encontro com Jaques Derrida. Belo Horizonte: Editora UFMG. 2013.

SATRAPI, Marjane. Persépolis. Editora Companhia das Letras. 2007.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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