Frankenstein ou o Prometeu Moderno – Análise Mitológica

Frankenstein ou O Prometeu Moderno, obra de Mary Shelley, foi publicada originalmente em 1818 de maneira anônima. Alguns anos depois, em 1923, surgiu uma segunda edição, agora devidamente reconhecendo os créditos da autora.

Mary Shelley nasceu em trinta de agosto de 1797. Filha de uma das primeiras feministas, Mary Wollstonecraft, a qual havia escrito a obra A Vindication of the Rights of Woman, publicada em 1792, e de William Godwin, pensador político que havia se tornado reconhecido pela obra Enquiry Concerning Political Justice (1793). Entretanto, logo após o nascimento de Mary, sua mãe faleceu por conta uma infecção (MORRISON; STONE, 2003).

Em um jantar de meados de maio de 1814, Mary conheceu Percy Bysshe Shelley. Este havia abandonado sua esposa, e passou a frequentar constantemente a residência de Godwin ao se mostrar bastante interessado pela sua “filosofia”. No mês seguinte, a dupla fugiu da Inglaterra em uma “aventura” em território francês. Curiosamente, o casal não seguiu sozinho, e foram acompanhados da meia-irmã de Mary, Jane Calirmont, a qual adotou o nome de Claire (SCHOR, 2003).

Mary Wollstonecraft Shelley
Mary Wollstonecraft Shelley

Posteriormente o trio iria fazer amizade com Lorde Byron, bem como seu médico, Polidori. E, em uma ocasião noturna, lança-se a aposta de qual deles seria capaz de escrever um conto de terror. Apenas Shelley acaba se lançado nessa empreitada, e o texto fica pronto em maio de 1817.

Como explica Maurice Hindle, na introdução da edição brasileira publicada pela Companhia das Letras, a questão mitológica de Prometeu é fundamental para a obra. Havendo, ao menos, duas grandes versões, Shelley foi responsável por “mesclar ambas em uma única” (HINDLE, 2015, p. 27). A denotação do comentador é válida, desde que consideremos que o mito de Prometeu não está ligado apenas com o roubo do fogo, que seria a versão popular contemporaneamente, e sua versão romana, na qual o Titã aparece “como um artífice, uma figura que cria e manipula o homem pela vida em vez de salvá-lo” (HINDLE, 2015, p. 28).

A história de Prometeu invoca, antes destas duas considerações, a noção de que a humanidade atual não é a primeira a existir. A primeira raça humana a existir, dentro da mitologia grega, estava diretamente relacionada com o Titã Cronos, bem como seu reinado. De acordo com Mircea Eliade, comentando a obra de Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, “o mundo e os deuses foram formados por uma cisão inicial, a que se seguiu um processo de procriação”. De tal forma que tal “como existiram várias gerações divinas, houve cinco raças de homens, as raças de ouro, de prata, e de bronze, a raça dos heróis e a raça de ferro” (ELIADE, 2010, p. 243).

A primeira raça, já mencionada, é caracterizada por Hesíodo de uma maneira que os aproxima dos deuses. Não existia qualquer tipo de trabalho, doença e a morte era uma espécie de sono. Para Eliade, é importante perceber que há uma “distinção fundamental” que “já existia na época da raça de ouro: os homens gozavam da felicidade e da amizade dos deuses, mas não da imortalidade” (ELIADE, 2010, p. 244).

Ainda na pista de Hesíodo, a idade de prata seguiu. Entretanto, estes humanos recusaram-se a oferecer sacrifícios aos deuses, de tal forma que Zeus, o qual já havia vencido a Titanomaquia, optou por eliminá-los. O chefe do Olimpo então fabricou uma terceira geração, composta por “homens violentos e belicosos que acabaram matando-se uns aos outros até não restar nenhum”. Seguiu-se uma nova geração, dos heróis, os quais “muitos conheceram a morte, mas os outros foram instalados por Zeus nos confins da Terra, na ilha dos Bem-Aventurados”. Por fim veio a quinta e última raça – aquela que Hesíodo identificou como de “ferro”, que é a atual. Convém ressaltar que para Eliade, “o mito das idades sucessivas não representa a opinião unânime referente à origem dos homens”. Ou seja, não era um problema grego, os quais “estavam mais interessados na origem de determinado grupo étnico, de uma cidade e de uma dinastia”  (ELIADE, 2010, p. 244–245).

Gravura realizada para a peça "The fate of Frankenstein", de 1823.
Gravura realizada para a peça “The fate of Frankenstein”, de 1823. Primeira adaptação da obra de Shelley.

Mas, então, que relação tem o titã Prometeu com a obra de Mary Shelley? Primeiramente é preciso compreender de que maneira a autora estruturou a obra. Os relatos iniciais são apresentados na forma de correspondência, entre o Capitão Robert Walton, que estava se dedicando em uma jornada de exploração do Polo Norte e sua irmã, Margaret Walton Saville.

Na região polar, a tripulação de Walton acaba encontrando um homem que estava a beira da morte – Victor Frankenstein. Este, que estava em busca de uma outra figura que também havia sido vista por Walton e seus subordinados, fornece para o capitão sua história de vida. É esta que irá servir como base para a apresentação da criatura.

A narrativa de Victor Frankenstein parte de sua infância, marcada pela adoção, realizada por sua família, da jovem Elizabeth Lavenza, que posteriormente seria sua esposa. Na juventude, Victor teve acesso aos escritos de Cornélio Agrippa, bem como de Paracelso e Alberto Magno. Assim, sua formação científica foi marcada pela saída de um pensamento filosófico medieval. A transição para a modernidade propriamente dita só ocorre anos depois, quando ele vai estudar na Universidade de Ingolstad, na Alemanha. Lá, seu interesse alquímico é abandonado em prol das ciências emergentes, sendo a química e a biologia duas das principais.

É neste momento que Victor Frankenstein se fascina com a anatomia humana. Insatisfeito com a ausência de sentido da morte, ele passa a explorar cemitérios e montar uma criatura de partes de corpos diferentes. A criatura tem proporções bastante significativas, e finalmente em uma noite de novembro ela desperta:

Com uma ansiedade que beirava a agonia, reuni perto de mim os instrumentos essenciais com os quais eu poderia introduzir uma fagulha de existência na coisa sem vida que jazia a meus pés. Já era uma da manhã: a chuva batucava sinistramente nas vidraças e minha vela tinha queimado quase até o fim quando, sob o brilho daquela luz semiapagada, vi o opaco olho amarelo da criatura se abrir; sua respiração era pesada, e um movimento convulsivo agitou-lhe os membros. (SHELLEY, 2015, p. 131)

Entretanto, não há qualquer diálogo inicial entre a criatura e seu criador. O cientista, após o sucesso em sua empreitada, abandona-a a sua própria sorte e entra em depressão. Leva algum tempo para que seu melhor amigo possa finalmente encontrá-lo e restituí-lo. Victor Frankenstein é convencido a retornar para casa, ocasião que começa a ser marcada por uma série de assassinatos de parentes próximos. Não tarda para Victor suspeitar que se trata da criatura, que está em uma jornada de vingança.

Após várias intempéries, finalmente a criatura e Frankenstein se encontram. O monstro toma a fala, e passa a narrar como foi sua vida desde o despertar no laboratório de Victor. Perdido, ele é tomado por “uma estranha multiplicidade de sensações”, incapaz de distinguir entre o toque, a audição ou o olfato. Algo que irá levar um tempo significativo até ser discriminado pela criatura.

Todas as suas tentativas de interação com outros humanos fracassaram. Estes, ao encontrar com a criatura, ou corriam em desespero, ou eram agressivos. Após várias fugas das investidas humanas, a criatura se abrigou em um cômodo abandonado que o permitiu observar a vida de uma pequena família camponesa, bem como ter seu primeiro contato com a literatura: Paraíso Perdido de John Milton, Vidas Paralelas de Plutarco e Os Sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe.

Assim, a partir da observação e da imitação, a criatura aprende a ler e falar. Quando isto se consolidou, a criatura se apresentou para um dos moradores. Este, cego, tratou-a bem. Mas, bastou que os outros habitantes do chalé voltassem para o caos se instaurar e a criatura ter que fugir novamente. Decidido em buscar uma companhia, o monstro foi atrás de seu criador com o intuito de pedir que este fizesse para ele uma companheira.

Victor acaba concordando com a demanda, mas quando estava prestes a concluir seu trabalho, destroi sua segunda criação. A criatura, em fúria, promete vingança, e assola a vida do cientista. Após o assassinato de Elizabeth, Victor se lança em uma jornada para capturar o monstro, que o levou até o Polo Norte, ocasião onde encontrou o Capitão Walton e a história havia começado.

É de fundamental importância destacar que a criatura não é um zumbi, ou algum tipo de entidade desprovida de razão. Pelo contrário, da maneira como Shelley a caracterizou, ela é superior ao homem tanto em termos físicos quanto intelectuais. Em minha dissertação de mestrado, afirmo que se trata de uma espécie de protótipo de máquina, que irá anos depois invadir o imaginário da ficção científica.

Em vista disto, a questão que poderíamos levantar é a seguinte – quem é o Prometeu Moderno? A criatura ou seu criador? Quando pensamos na categorização feita por Hesíodo e anteriormente apresentada, podemos inferir que Victor Frankenstein faz parte daquela humanidade de ferro, que atinge seu ápice através da ciência. É esta ciência, entendida nos termos de uma modernização, que torna possível que o cientista integre diferentes partes de corpos, e por fim dê vida a criatura. Em termos míticos, é como se a distinção entre deuses e homens fosse rompida através dos avanços da técnica.

Victor Frankenstein e a criatura
Victor Frankenstein e a criatura, em uma das adaptações cinematográficas.

A identificação divina é ainda maior quando percebemos que o cientista acabou abandonando a empreitada em construir uma companheira para a criatura. Isto porque a prole poderia vir um dia a causar horrores ainda maiores do que aqueles que o monstro havia cometido, e, portanto, a humanidade estaria em risco. Assim, tal como Zeus, Victor decide destruir sua criação.  Qualquer comparação com os Cylons de Battlestar Galactica não seria mero acaso.

Imputar em Mary Shelley a origem da ficção científica a partir desta narrativa é uma tarefa complexa. Há, inclusive, quem diga que se trata de uma obra “anti-científica”, pois coloca em relevo a falta de ética nas ações do criador perante a sua criatura. Ao meu ver, é de fundamental importância perceber que o eixo básico está na percepção da incapacidade humana em aceitar a diferença (HITCHCOCK, 2010).

O despertar da criatura não é um frenesi, mas a busca por alguém que a auxilie a compreender seu papel social, bem como sua existência. A criatura lança-se na constante busca pelo sentido da existência, e encontra apenas violência e ódio. Incapaz de ser integrada na sociedade, o fruto da modernidade acaba não sendo a beleza em ter criado uma forma de vida a partir daquilo que estava morto, mas na supressão da alteridade. Algo que está nitidamente marcado no imaginário popular, quando percebemos que, com o tempo, a criatura acabou recebendo o nome de seu criador – Frankenstein.

REFERÊNCIAS

ELIADE, Mircea. História das Crenças e das Ideias Religiosas. Volume I: Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis. Tradução Roberto Cortes De Lacerda. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

HINDLE, Maurice. Introdução. In: SHELLEY, MARY (Org.). Frankenstein ou O Prometeu Moderno. Tradução Christian Schwartz. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015.

HITCHCOCK, Susan Tyler. Frankenstein: as muitas faces de um monstro. Tradução Henrique Amat Rêgo Monteiro. São Paulo: Larousse doBrasil, 2010.

MORRISON, Lucy; STONE, Staci. A Mary Shelley Encyclopedia. London: Greenwood Press, 2003.

SCHOR, Esther (Org.). The Cambridge Companion to Mary Shelley. Princeton: Princeton University Press, 2003.

SHELLEY, Mary. Frankenstein ou O Prometeu Moderno. Tradução Christian Schwartz. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015.

Este texto é uma versão adaptada de uma reflexão maior que realizei durante minha dissertação de mestrado para o Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Paraná.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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