Muçulmanas online – Conhecendo o Islã através delas

A mulher muçulmana é constante alvo de críticas por parte do Ocidente americano e europeu, que as considera fortemente reprimidas pelo Islã e pelos Estados de maioria islâmica. Tais críticas supõem submissão da mulher em relação ao homem muçulmano. O processo é explicitado pela indumentária feminina costumeira entre as muçulmanas, vista como prova empírica desta submissão, pois demonstraria privação perante seu próprio corpo. Percebe-se que a origem da crítica é o preconceito, inflamado desde o atentado ao World Trade Center, em 2001, a partir do qual informações direcionadas a prejudicar os muçulmanos começaram a ser espalhadas mundialmente, aumentando o desconhecimento e o ódio.

Sabe-se, porém, que a religião islâmica não se restringe ao Oriente Médio, tendo muitos adeptos na Ásia, África, Oceania e, mais recentemente, também na Europa e América. Com isso, a necessidade de conviver com o Outro é reificada e as vezes se torna uma necessidade de sobreviver ao outro, no caso de opressões generalizadas, como as que ocorrem, especialmente, após atentados terroristas.

A ideia do senso comum é que a mulher muçulmana passa os dias em casa, reprimida e não pode realizar atividades sem a autorização de seu marido. O que elas mostram na internet, é que são mais livres e independentes do que se pensa. A internet é, então, utilizada com pelo menos três intenções distintas. A primeira seria fazer com que elas sejam ouvidas e levadas a sério, a segunda seria mostrar que elas existem para além da religião e a terceira, mostrar que a religião não é malvada.

Émile Durkheim (2012) aponta a dualidade da natureza humana, afirmando que a mesma seria dividida entre uma racionalidade sensível e uma racionalidade conceitual e ambas coexistiriam sempre, apesar dos conflitos. Essa dualidade é presente em qualquer análise sobre artifícios religiosos, embora talvez não condiga com a natureza humana como um todo. A religião se demonstra em um eterno conflito entre seguir os conceitos estritamente ou modulá-los conforme os contextos em que aparecem. No caso do Islã, como exemplificado por Geertz (1971) essas diferenças contextuais têm relevância evidente, de forma que se torna impossível definir a religião como unívoca e nos leva a observar as performances realizadas em decorrência dela. Desta forma, apesar de uma muçulmana o ser para sempre, graças à multiplicidade que compõe seu ser, ela pode ser várias outras coisas.

distribuição populacional muçulmanos 2014
Distribuição populacional de muçulmanos pelo mundo. Dados de 2014.

Mas voltemos ao preconceito. Paula Zahra e Luciana Velloso foram vítimas de atentados islamofóbicos em novembro de 2015, dias após o atentado ao Bataclan, em Paris. Velloso foi apedrejada por um senhor que caminhava na rua com sua neta e realizou o ato enquanto a caluniava verbalmente. Zahra, por sua vez, foi alvo de uma cusparada advinda de um passageiro de ônibus que passava próximo a ela. As duas residem em Curitiba e afirmaram que até então não haviam passado por situações mais constrangedoras que olhares e piadas de mal gosto.

Em 2011 uma muçulmana foi impedida de realizar a prova do DETRAN por estar utilizando véu islâmico. O mesmo se deu com Charlyane, que foi interrompida em março de 2015, durante a prova da OAB, onde exigiram que ela comprovasse ser muçulmana para que pudesse prosseguir na realização da prova com o uso do véu. O mesmo se deu com Mony Bouanaka, em março de 2016, que teve que retirar o véu islâmico para completar sua prova do concurso para trabalhar na prefeitura de Curitiba. Casos como esses são mais comuns do que a gente imagina. Mulheres são impedidas de trabalhar e frequentar determinados locais, simplesmente por utilizarem véu islâmico.

Frente a estas situações, é necessário haver um posicionamento que migre positivamente os pensamentos relativos à religião islâmica. Como lembrado por Francirosy Barbosa (2015):

[…] os muçulmanos terão que ser mais propositivos em tentar ensinar ao Ocidente do que se trata o Islam, e não bastam discursos religiosos. É preciso ocupar o espaço público/político de forma positiva, fazer com que a sociedade veja quem são os muçulmanos e no que eles acreditam. Enquanto os muçulmanos estiverem escrevendo e falando para eles mesmos, a mensagem não será comunicada. É preciso sair da defensiva e “contra-atacar” com um discurso que o ocidente compreenda. (BARBOSA, 2015, p. 159).

É este o esforço realizado por Nazma Khan, criadora da iniciativa World Hijab Day, que engloba um website, redes sociais e um evento anual, que ocorre no dia 01 de fevereiro. O evento consiste em uma mobilização mundial para que as mulheres saiam às ruas vestindo hijab, independente de sua religião ou localização geográfica. A intenção é fazer com que pessoas não-muçulmanas saibam como é passar um dia com a mais popular veste islâmica.

Organizado exclusivamente online, o movimento organiza palestras sobre a utilização do hijab e produz textos e vídeos ao longo do ano sobre os prazeres e agruras da utilização da veste, com foco para os países de minoria islâmica. A ideia de estender a experiência a mulheres não islâmicas ganha mais adeptos a cada ano e as histórias de como foi utilizar o hijab são narradas e publicadas, junto com as fotos das usuárias, na página “My Story” do site do movimento. A repercussão do evento no Brasil ainda é pequena e muito restrita às muçulmanas, que não conseguem tanto apoio de mulheres de outras religiões, nem através da divulgação online.

Para além desta iniciativa, as mulheres muçulmanas estão utilizando a internet com maior ênfase para desestigmatizar sua religião e o uso da vestimenta islâmica, que é associada por mulheres Ocidentais à coerção machista e repressão. Sobre este tema, Lila Abu-Lughod (2012), afirmou a não necessidade, por parte das muçulmanas, de uma salvação Ocidental que traria a premissa de inferioridade por parte do Oriente. Ela explicou que a veste islâmica funciona como uma casa-móvel. A casa seria um ambiente seguro e puro e a veste islâmica seria um prolongamento dessa sensação de segurança e pureza, tornando a mulher mais forte e resistente às intermitências existentes na vida fora de casa. A veste islâmica seria uma proteção a esse corpo, sagrado e puro, e estenderia a separação entre público e privado análoga a estar em casa e estar na rua para qualquer ambiente em que essa mulher transite (ABU-LUGHOD, 2012).

Percebe-se, pois, um movimento duplo entre as muçulmanas usuárias de internet: ao mesmo tempo em que querem se reafirmar enquanto religiosas, utilizam a rede mundial de computadores para mostrar que fazem coisas para além da religião. Esse é um movimento importante para a dissociação da ideia orientalista de que há submissão exacerbada do feminino entre as islâmicas.

Entre as realizações de mulheres brasileiras que vão de encontro com os fatos apontados, destaco três em especial. O primeiro é o caso da Gabriela, autora do blog “Diário de uma Muçulmana Brasileira”, em que relata seu dia-a-dia na religião. Embora as publicações não sejam frequentes, é visível o esforço da autora para tornar sua religião compreensível para pessoas que não compartilham do credo. Mas, para além de falar sobre sua religião e a vivência dela no Brasil, também são abordados outros temas de seu interesse, deixando claro que há mais em sua vida do que o Islã, embora ele seja sua fonte de paz.

Professora Érica Renata em seu vídeo sobre amizade
Professora Érica Renata em seu vídeo sobre amizade, em que fala sobre Harry Potter e homenageia o recém falecido Alan Rickman.

Os casos de Mag Halat e Érica Renata, são um pouco diferentes. As duas se utilizam da internet para falar sobre as coisas de que gostam, através de seus blogs e vídeos publicados no Youtube. Porém, como são usuárias de véu, acabam abordando temas relacionados à religião islâmica. Entretanto, é evidente que não é este o foco de suas publicações.

Nos canais de comunicação de Érica Renata, por exemplo, seu nome vem sempre acompanhado de sua profissão, que é de professora. Dessa forma, é possível encontrar textos e vídeos sobre livros que ela leu recentemente, assim como dicas de maquiagem e falas sobre Harry Potter e outras coisas não-religiosas. No meio de tudo isso, porém, há postagens que valorizam seu ethos religioso e demonstram a importância que ela dá para esta parte de sua vida. Um ponto interessante, por exemplo, é o fato de que há vídeos frequentes intitulados “Hijabeando e falando”, onde ela mostra um modo diferente de amarrar o véu islâmico (hijab), enquanto relata algum fato de seu cotidiano. É uma forma bastante interessante de tornar seus tutoriais únicos, visto que há diversos canais no Youtube que fazem vídeos ensinando diferentes modos de amarrar o hijab.

Já o caso de Mag se faz interessante pelo fato de seus textos serem a respeito de moda e beleza, algo que não é comumente associado a muçulmanas. Há uma grande discussão entre as fiéis sobre usos de maquiagem e concepções sobre beleza e vaidade e a possível contradição desses usos para com os ensinamentos da fé islâmica. Esses não parecem ser os problemas de Mag, que aborda a temática sem ressalvas por ser muçulmana, pelo contrário, utiliza os artifícios religiosos para criar um estilo único e falar sobre ele. Seu canal no Youtube tem mais de mil inscritos (o que é um número bastante razoável) e além de moda e beleza, ela fala sobre seu dia-a-dia e também faz alguns tutoriais mostrando maneiras diferentes de amarrar o hijab. Destaco o vídeo em que Mag contou sua história com o véu islâmico e deixou claro que a escolha pelo uso partiu unicamente dela e de seus anseios religiosos.

Mag Halat no vídeo em que conta sua história com o hijab.
Mag Halat no vídeo em que conta sua história com o hijab.

Em âmbito internacional, há outras iniciativas além do “World Hijab Day”. O instagram Queenofluna é alimentado por uma maquiadora malaia que realiza imitações de personagens da cultura nerd/pop e utiliza o hijab como se fosse o cabelo das personagens. Há maquiagens de personagens da Disney, Marvel, DC Comics e é impressionante a habilidade da maquiadora e as transformações possíveis de se realizar com um lenço. Ressalto ainda a existência do site “Mvslim”, que publica textos e notícias sobre muçulmanos que se destacam pelo mundo. A iniciativa aponta para a necessidade de quebrar as barreiras do desconhecimento para com a religião, como forma de enfrentar o preconceito. Além do site, há uma página no Facebook.

A partir dos estudos do departamento de Antropologia Digital da UCL, divulgados através do projeto Why we Post, é impossível ignorarmos as discrepâncias do modo de usar as redes sociais e os diferentes impactos que isso causa em seu contexto de utilização. Sinto-me incapaz de discorrer a respeito das iniciativas internacionais, mas reforço a sua importância: se a abrangência delas fosse unicamente nacional, eu não teria tido acesso a estas fontes. Vale reforçar que o número de compartilhamentos e curtidas nas páginas aqui apresentadas é bastante grande, o que demonstra sua popularidade. A influência que elas têm por sobre o pensamento do senso comum ainda é pequena, pois, ainda mais se tratando do Brasil, é necessário considerar que o acesso à internet não é igual. Se a informação não é acessível, é inocência acreditar que uma mudança de pensamento de grande porte possa estar em curso no momento. Mas, acredito que os acontecimentos recentes estejam encaminhando mudanças na forma de tratamento para com as religiões minoritárias, em específico a religião islâmica. Ainda mais com a percepção de que essa tomada de atitude por parte deles esteja se tornando evidente para eles, como vimos com Barbosa (2015).

Sara Swati, a @queenofluna
Sara Swati, a @queenofluna em sua série de personagens X-men em pop art.

Dado o fato de que o desconhecimento predomina entre os países ditos Ocidentais, iniciativas que tentem amenizá-lo e promover inserções sábias sobre o assunto no cotidiano, para que aos poucos os não islâmicos se acostumem com o fato de que ser muçulmano não torna a pessoa menos pessoa, são muito bem-vindas.

Os casos de islamofobia no Brasil ainda são isolados, mas sofrem picos de aumento após cada atentado realizado pelo “Estado Islâmico”, pois ainda há uma associação direta entre todos os muçulmanos e os atentados. A mulher, por se diferenciar do resto ao utilizar o hijab, acaba sendo alvo mais comum de atentados provocados por ódio religioso. Devido ao fato de as informações não chegarem a todos da mesma forma, seja por causa das bolhas digitais ou pelo lapso de acesso ao conteúdo digital que envolve o território brasileiro, é essencial que haja ações afirmativas potentes o suficiente para transparecerem na televisão aberta do país. Porém, é igualmente importante que haja ativismo virtual por parte dos muçulmanos brasileiros, visto que o acesso à internet é crescente no país.

REFERÊNCIAS

ABU-LUGHOD, L. As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação? Reflexões antropológicas sobre o relativismo cultural e seus outros. Revista Estudos Feministas, v. 20, n. 2, p. 451–470, 2012.

BARBOSA, F. C. Charlie Hebdo e Islamofobia. Malala, v. 3, n. 5, 2015.

DURKHEIM, É. O problema religioso e a dualidade da natureza humana. Debates do NER, v. 13, n. 22, p. 27–61, 2012.

GEERTZ, C. Islam Observed – Religious development in Morocco and Indonesia. Londres: The University of Chicago Press, 1971.

MILLER, D.; COSTA, E.; HAYNES, N.; et al. How the world changed social media. Londres: UCL Press, 2016.

Texto por Mayra Sousa Resende – @iansyra

*Esse texto foi originalmente apresentado, em forma mais completa, no VII Seminário Nacional de Sociologia e Política, realizado entre 11 e 13 de maio de 2016, na UFPR. A versão completa do texto pode ser acessada aqui.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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