Stranger Things – Análise antropo-filosófica

Stranger Things é uma série norte-americana de ficção científica e horror, herdeira direta de X-Files e Fringe. Criada pelos irmãos Duffer — Matt e Ross –, sua primeira temporada foi ao ar pela Netflix em 15 de julho de 2016, contando com oito episódios que funcionam como “capítulos”.

Situando-se em 1983, na cidade de Hawking, Indiana (EUA), o elemento que impulsa a movimentação da história é o desaparecimento de Will Byers (Noah Schnapp) após uma incrível partida de Dungeons & Dragons com seus amigos, Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin), Mike Wheller (Finn Wolfhard) e Dustin Henderson (Gaten Matarazzo). Estes, logo que souberam do desaparecimento do amigo, embrenharam-se na floresta, à noite, mas acabaram encontrando alguém inesperado: Eleven (Millie Bobby Brown). Esta, por sua vez, era um experimento do Governo Norte-Americano, chefiado por seu pai, Dr. Martin Brenner (Matthew Modine). Sua mãe Terry (Aimee Mullins), foi sujeitada há diversos testes com tanques de privação dos sentidos, bem como substâncias psicotrópicas, enquanto estava grávida de Eleven. Por conta disto, esta desenvolveu uma série de poderes psíquicos capazes de manipular e alterar a realidade.

Eleven
Eleven

A mãe de Will, Joyce Byers (Wynona Ryder) pede ajuda para o Xerife de Hawkings, Jim Hooper (David Harbour). Essa transição para um segundo conjunto de personagens é bastante impressionante pois acaba criando uma densidade significativa para a série. De um lado, é apresentado os aspectos disfuncionais do ex-marido de Joyce, Lonie Byers (Ross Partridge), o qual optou por abandonar sua esposa e seus dois filhos. A figura de um pai que tem uma nitidez existencial é do próprio Jim, que perdera sua filha, anos antes.

Isso contrasta com a família de Mike, composta por Ted Wheller (Joe Chrest), a figura de um pai totalmente desconectado com as vivências de seus filhos, e a omissa Karen Wheller (Cara Buono). Esta, excessivamente ocupada em manter as aparências dentro da sociedade suburbana norte-americana, é incapaz de perceber o que estava acontecendo em sua própria casa.

O terceiro eixo de personagens, que é capaz de interligar o primeiro com o segundo, é propriamente adolescente. O protagonismo de Nancy Wheller (Natalia Dyer), irmã mais velha de Mike, vai para além das relações com seu namorado, Steve Harrigton (Joe Keery), e construindo um laço de amizade e confiança com Jonathan Byers (Charlie Heaton). Todavia, isto só acontece após sua melhor amiga, Barbara Holland (Shannon Purser), ter sido raptada pelo monstro (Mark Steger).

A trilha sonora de Stranger Things se mescla com a estética visual da série, na medida em que ambas fazem uso de diferentes elementos de inspiração, mas ao mesmo tempo são capazes de demonstrar nitidamente que é uma narrativa contemporânea. A banda Survive, composta por Kyle Dixon e Michael Stein, fez um trabalho belíssimo e estrondoso, pois teve a capacidade de criar uma ambientação única – uma trilha sonora de 1983 que não deixa, em momento algum, de ter elementos contemporâneos.

O que mais me chamou atenção, no conjunto da obra como um todo, foi seu título: Stranger Things, que ao ser pensado a partir de uma visão conceitual revela aspectos bastante intrigantes. Deixando de lado as excelentes traduções populares, como Bagulhos Sinistros e Trecos Estranhos, sugiro algo mais literal: Coisas Estranhas.

O conceito de coisa é costumeiramente definido em oposição a “nós”. Isto é, a coisa é entendida como um objeto, e não um sujeito. Essa distinção, feita por René Descartes (1596-1650) em seu projeto filosófico das Meditações Metafísicas (1641) aponta, implicitamente, a ideia de que o sujeito se define por aquilo que pensa, seja sobre si ou sobre outros, enquanto o objeto seria desprovido de cogito. Isto é, apesar de não existir uma garantia sobre a verdade ou falsidade daquilo que se pensa, é inegável que esteja se pensando em algo.

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Eleven servindo como canal de comunicação com Will

Na obra do filósofo e psicanalista francês, Jacques Lacan (1901-1981), o conceito de coisa (thing), assume um posicionamento bastante interesse. No seminário de 09 de dezembro de 1959, Lacan diferencia os dois sentidos que chose (coisa em francês) pode ter em alemão: das Ding e die Sache. O segundo termo é dispensado pelo autor, pois é algo propriamente jurídico, sendo um objeto “produto da indústria ou da ação humana enquanto governada pela linguagem” (LACAN, 2008, p. 60). Assim, a questão passa a girar em torno do das Ding.

Pois bem, o que é o Ding? É algo que o sujeito isola “em sua experiência” e demarca como “estranho”. Ou seja, a realidade é construída por alguma coisa que é Outra do sujeito. Assim, “o mundo da percepção nos é dado por Freud como que dependendo dessa alucinação fundamental sem a qual não haveria nenhuma atenção disponível” (LACAN, 2008, p. 68). O Ding, a coisa, é um objeto perdido, algo que está aquém e além do sujeito. Inclusive, uma experiência fenomenológica merleau-pontyiana aponta que o cogito deve ser expandido justamente para integrar aquilo que está além do objetivo, pois a partir disto estaríamos então aptos a “restituir à coisa sua fisionomia concreta” (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 90–91).

Mas, de que modo isso pode ocorrer?

Eleven é uma personagem única neste sentido. Ela não é construída como um sujeito, diferente de todos os outros. Primeiramente que seu nome provém da tatuagem em seu braço, que já demarca a existência de pelo menos outros dez experimentos que fracassaram (n+1). Ao apontar para si como Eleven, em momento algum ela está dizendo que seu nome é esse.

"No more" - Eleven enfrentando o Monstro em um intenso choque de alteridades.
“No more” – Eleven enfrentando o Monstro em um intenso choque de alteridades.

Pensando a partir da questão que o filósofo Ludwig Wittgenstein propôs em Observações Filosóficas (1964): “Uma proposição matemática geral vincula alguma coisa a uma resposta Sim, ou Não?”. A resposta deste filósofo irá apontar, de maneira bastante intrigante que a proposição matemática está vinculada com sua prova, tal como “a superfície exterior de um corpo está ao próprio corpo”. E, para isso, é necessário supor “que existe um corpo trás da superfície” para que aquele enunciado tenha sentido (WITTGENSTEIN, 2005, p. 143,159).

O que ocorre com Eleven é que seu corpo nunca foi um corpo sujeito, e sim um corpo sujeitado. Sujeitado aos experimentos feitos pelo seu pai e pelo governo norte-americano, que o coisificaram. É uma versão do princípio de realidade freudiano. Eleven, portanto, é das Ding, o “fora-do-significado”, ela não é um sujeito, mas aquilo que este “conserva sua distância e constitui-se num mundo de relação, de afeto primário, anterior a todo recalque” (LACAN, 2008, p. 70).

Quando Eleven rompe para fora de sua prisão, ela o faz na medida que a própria realidade foi rompida. Ela, como um não-sujeito, foi capaz de ir para aquele outro mundo, estranho, o Upside Down (Mundo Invertido). Quando o fez, fraturou a realidade, bem como todos os sujeitos que se encontram nela. Foi rompida a dialética essencial com o Outro do Outro, de tal forma que a topologia que o instituía foi rompida.

A contemplação angustiante do real fraturado.
A contemplação angustiante do real fraturado.

Quando percebemos o par Jim e Joyce como personificações de dois conteúdos diferentes do inconsciente – o Animus e a Anima, é possível então compreender a jornada que estes fazem para o outro lado. De acordo com Carl Jung (1875-1961), o inconsciente não tem apenas conteúdos pessoais, tal como quis Freud, mas também coletivos. A jornada em direção ao inconsciente, entendida como uma individuação, opera a partir de uma desubjetivação. Isto é, enquanto estamos apenas no registro da consciência, dominado pelo sujeito, acreditamos em um Eu. Entretanto, ao cruzar o portal, e entramos no registro da coisa, “percebemos aterrorizados que somos objetos de fatores” (JUNG, 2008, p. 33).

Inclusive, tal jornada que leva ao encontro Self, representado na série pelo Will, precisa do Animus e da Anima. Neste reino não há nada na qual o sujeito possa ancorar sua realidade – algo que ficou evidente naquela cena onde um dos pesquisadores tenta explorar o outro lado apostando na segurança de um cabo de aço. E, como percebeu-se, não deu muito certo. O próprio Jim chega até o portal em outra ocasião, mas é só quando auxiliado pela intuição da Anima que pode explorá-lo. Para Jung, “a anima corresponde ao Eros materno”, enquanto o “animus corresponde ao Logos paterno” (JUNG, 2011, p. 27).

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A metáfora da jornada da Anima e do Animus no inconsciente.

Em Fringe, tal fratura na realidade acabou por sobrepor duas dimensões diferentes, aumentando a entropia em ambas e causando danos significativos. Já em Stranger Things, é um personagem que sofre esse processo – Will, que por sua vez está assumindo a posição de um arquétipo – aquilo que Jung definiu como a “criança divina”. Essa criança é entendida como pura virtualidade, ou seja, um “futuro em potencial” (JUNG, 2008, p. 165). E a condição que ela irá aparecer no inconsciente, naquele outro mundo, é o mesmo de Will – impotente, desamparado e ameaçado, sobretudo por “dragões e cobras” (JUNG, 2008, p. 167).

Eleven, como uma Stranger Things, não pode permanecer no real. É por isso que ela se sacrifica no combate final com o monstro. É o momento de encontro do Outro com seu Outro. Esse movimento é necessário para reestabelecer os limites entre sujeito e objeto, os quais permaneceram para todos os personagens, exceto para o Will, tal como podemos perceber na última cena, onde ele oscila entre o mundo comum e aquele Outro Lado.

Nas cenas finais, Will oscilando entre mundos.
Nas cenas finais, Will oscilando entre mundos.

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Aion – Estudo sobre o Simbolismo do Si-Mesmo. Rio de Janeiro: Vozes, 2011.

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.

LACAN, Jacques. Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise, 1959-1960. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Observações Filosóficas. São Paulo: Loyola, 2005.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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