Brasil – 10 fatos que você não aprendeu na escola

Nossos estudos de História Brasileira, nas escolas de ensino básico, geralmente são iniciados com a fábula do “descobrimento do Brasil”. Nesta, somos apresentados a quadros que “retratam a chegada de Pedro Álvares Cabral e seus companheiros em Porto Seguro”. Aprendemos que o Brasil foi encontrado ao acaso, após as caravelas cabralinas terem se desviado do caminho que deveriam fazer, rumo às Índias, onde comprariam especiarias.

Os quadros mostram Cabral apontando um telescópio para a baía de Porto Seguro e dizendo “Terra à vista”. A história é eufórica e a gente confunde a descoberta do Brasil com a da América, realizada por Cristóvão Colombo anos antes. O importante é que se não fosse Cabral ter se perdido, “ainda seríamos selvagens” e nossa história teria um rumo bem diverso.

Descobrimento do Brasil. Quadro pintado por Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo em 1887.
Descobrimento do Brasil. Quadro pintado por Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo em 1887.

Aprendemos que Cabral e os outros portugueses aproximaram-se dos índios da região e lemos a carta de Pero Vaz Caminha, relatando ao rei de Portugal sobre os “selvagens” que eles encontraram ao desembarcar na baía. O horror de Caminha era causado, dentre outras coisas, pela nudez e o estranhamento foi forte. Aprendemos que aos poucos os índios foram morrendo, que os portugueses os escravizavam e que quando eles acabaram, trouxeram escravos da África.

Bom, pelo menos essas foram algumas das coisas que eu aprendi, em minha época de ensino -básico. Em nenhum momento me fora apresentada alguma perspectiva indígena do tal “descobrimento”. Em nenhum momento me falaram que existia um Brasil e que ele tinha uma história, mesmo antes de Cabral e seus companheiros chegaram. Não me contaram que de “descobrimento” aquilo não tinha nada. Não me disseram que havia sido um “achamento”, uma invasão. Em nenhum momento pontuaram claramente que aquelas terras tinham dono.

Mas… será que elas tinham? Será que os povos que aqui habitavam tinham a noção de propriedade que pairava por sobre a mente portuguesa? E quem exatamente eram essas pessoas, o que elas faziam, como se comportavam, onde moravam, há quanto tempo estavam aqui, como chegaram, o que elas comiam e em que elas acreditavam? Essas são algumas das coisas que vamos tentar elucidar com essa pequena lista de coisas que deveriam ser óbvias para todos nós, mas que acabam sendo restritas a quem se interessa por essa área.

Comecemos:

1 – O que é a pré-história?

A História é formada por registros escritos e orais de povos e épocas diferentes. É considerado pré-história tudo o que ocorreu antes da formulação desses registros. Dessa forma, o termo não quer dizer que antes dos registros não havia história, é o oposto. A história existe antes dos registros, mas é de mais difícil acesso, visto que não há documentos à qual se possa recorrer ou pessoas a quem perguntar sobre.

Como ressalta André Prous (2006),

Não houve glaciações ou mamutes no Brasil, por ser tropical. Moradia a céu aberto era mais preferida e confortável. Instrumentos de pedra sempre em minoria frente a vegetais, conchas e ossos. Muitas populações limitaram sua densidade, garantindo abundância em território fixo. (PROUS, 2006).

2 – Qual/quais disciplinas/áreas estudam a pré-história?

O estudo da pré-história, para ser abrangente e completo, precisa ser multidisciplinar. Uma vez que historiadores pesquisam através de documentos escritos e sociólogos e antropólogos através de observação direta e testemunhos orais, a arqueologia se faz também necessária, visto que ela pesquisa através de vestígios materiais (PROUS, 2006).

Ou seja, para um estudo bem realizado, é necessário, pelo menos, a junção dessas disciplinas. O intuito é remontar a realidade do passado, através de vestígios, relatos e documentos, afim de entender melhor as nossas origens e as consequências dela, ou seja, a nossa realidade atual.

3 – Como esse estudo é realizado?

No caso brasileiro, o estudo considera vestígios materiais, como cerâmicas e demais artefatos que resistiram ao tempo. Grande parte deles foi transformada em solo, fazendo com que uma análise do mesmo seja necessária. Há vestígios de cemitérios, onde além de esqueletos é possível encontrar alguns artefatos e, com isso, descobrir algumas coisas.

Nicho Policrômico - Toca do Boqueirão da Pedra Furada - Serra da Capivara - PI
Pintura rupestre do Nicho Policrômico – Toca do Boqueirão da Pedra Furada – Serra da Capivara (PI)

Há pinturas rupestres, que ajudam a reflexão sobre o pensamento do povo da época. Em algumas etnias, é possível conversar sobre os antepassados e formar paralelos entre os modos de vida atual e os da época pré-histórica. É ainda possível levar em consideração os relatos realizados pelos colonizadores e padres jesuítas nos primeiros séculos da história brasileira. Mesmo que esses relatos sejam em alguma medida fantasiosos, são importantes para iluminar algumas hipóteses e fortalecer outras.

4 – É possível saber se as hipóteses são verdadeiras? Ou seja, essas análises podem ser consideradas científicas?

A verdade científica nas ciências humanas não tem a mesma prerrogativa daquela composta nas ciências exatas, onde o resultado é sempre verificável através de uma equação inversa (prova real). Não existe uma “prova real” para uma teoria nas ciências humanas. Por essa razão, elas acabam tendo sua credibilidade questionada, visto que grande parte das pessoas é levada a considerar apenas verdades científicas prováveis, irrefutáveis e passíveis de uma “prova real” à sério.

As ciências humanas não funcionam de acordo com paradigmas, como as ciências exatas. Dessa forma, é possível que dados obtidos há centenas de anos sejam reanalisados atualmente, sob uma nova ótica teórica e empírica e cheguem a resultados diferentes. Por essa razão, é inadequado considerar que determinada hipótese é verdadeira e absoluta, irrefutável e inquestionável. Pelo contrário, a intenção é que todas as hipóteses sejam de conhecimento público, justamente para fomentar o questionamento e a curiosidade para encontrar novas possibilidades de resolução para essas novas questões. Por assim dizer, o estudo aprofundado nas ciências humanas é infinito.

Assim sendo, as análises podem ser consideradas científicas. Elas seguem uma metodologia estrita e demandam anos de pesquisa. Porém, não podem ser consideradas verdadeiras no quesito absoluto do termo. Elas devem sempre ser consideradas enquanto hipóteses, ou seja, possibilidades. Elas podem vir a ser verdadeiras, ou não, dependendo da ordem de análise e de fatos que reifiquem a proposta prévia.

5 – O Brasil já existia antes da chegada de Cabral?

Não. O Brasil como nós conhecemos hoje é bastante recente, sendo que o estado do Tocantins foi incorporado no nosso mapa apenas em 1988, com a reforma constituinte.

Na época em que a América foi invadida pelos europeus e começou a ser povoada por portugueses e espanhóis, ao sul, as fronteiras não eram definidas das formas que encontramos hoje. Por essa razão, não se pode dizer que o Brasil já existia.

Claramente, o território já estava aqui e as pessoas também. No entanto, a noção de país e a delimitação do espaço deste, ainda eram desconhecidas. É interessante reiterar que não apenas para o Brasil, mas para toda a América Latina. Ou seja, os países foram criados a partir do contato com os europeus, mais uma razão para ser inadequado dizer que eles nos “descobriram”.

O que quero pontuar é que as etnias e aldeias que se estendiam pelo território brasileiro não tinham compromisso de fronteira, podendo se estender para territórios que hoje consideramos como pertencentes a outros países. Por essa razão, não era raro encontrar etnias que habitassem uma região que para nós é fronteiriça hoje. Algumas etnias estavam presentes no Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai ao mesmo tempo.

A noção de espaço da época não era a mesma que a nossa atual, tão pouco a divisão política do mapa.

6 – Quem eram os tupi-guarani?

Na nossa aula de história, aprendemos que os portugueses encontraram os tupi-guarani quando chegaram na Bahia. Mas não sabemos nada exatamente sobre esse povo. Isso porque, a etnia tupi-guarani não existia. Ela era a junção de duas etnias diferentes, a tupi – formada, principalmente, pelos Tupinambá, e a Guarani.

Essas etnias são consideradas uma tradição arqueológica única, chamada tupiguarani. O termo corresponde às línguas que eram faladas por esses povos, ambas pertencentes ao tronco linguístico tupi-guarani, que era composto por diversas línguas bastante parecidas entre si. A tradição arqueológica é nominada sem o hífen, visto que a grafia hifenizada corresponde ao tronco linguístico e são coisas diferentes (PROUS, 2006).

Urna (cambuchi) realizada pelos tupiguarani para preparação de caium e sepultamento dos mortos.
Urna (cambuchi) realizada pelos tupiguarani para preparação de caium e sepultamento dos mortos.

As etnias foram acopladas na mesma tradição arqueológica por terem vestígios materiais muito semelhantes. No entanto, as pesquisas etnológicas e os relatos produzidos pelos primeiros colonizadores, são suficientes para mostrar que há diferenças entre elas. Não é possível, no entanto, deduzir como essas fronteiras inter-étnicas eram demarcadas e o que era considerado como uma extrapolação delas.

7 – Os tupi-guarani ocupavam todo o território?

Não. Quando os portugueses chegaram, eles habitavam toda a costa. Por essa razão, o que aprendemos na escola é que o Brasil era habitado exclusivamente por eles. Esquece-se, porém, que já havia povoamento no Norte, centro e Sul do Brasil na época da chegada de Cabral.

No século XV, eles habitavam a costa, com ramificações no interior, sempre a caminho dos rios. Evitavam regiões áridas e altas altitudes. Preferiam matas pluviais tropicais ou subtropicais. Dominavam a faixa litorânea, com exceção do estuário do Prata, a foz do rio Paraíba, o norte do Espirito Santo, o sul da Bahia e a divisa entre o Ceará e o Maranhão, onde havia intrusão dos povos macro-jê (FAUSTO, 2000).

É interessante ressaltar que a população indígena entrou em colapso após o contato com os portugueses, não apenas pela escravização exploradora. O contato trouxe doenças para os quais os povos indígenas não tinham imunidade, fazendo com que elas rapidamente se transformassem em epidemias e aniquilassem populações inteiras. Dessa forma, em pouco tempo após o contato não só a quantidade de pessoas nativas diminuiu, como também a quantidade de etnias (FAUSTO, 2000).

Outro ponto importante é que a origem dos tupi-guarani enquanto tronco linguístico e afinidades culturais ainda é desconhecida, apesar de haver grandes discussões sobre sua origem e distribuição populacional (PROUS, 2006).

8 – Existiam índios na Amazônia pré-histórica?

Sim. A Amazônia, ao contrário do que aprendemos na escola, não é um reduto natural. Não existe “mata virgem”. Isso, se considerarmos que natureza é aquilo que ainda não foi tocado pelo homem. Estima-se que tenha havido povoamento na região amazônica desde, pelo menos, 9 000 anos a.C. (FAUSTO, 2000).

Isso significa que muito daquilo que hoje consideramos “o pulmão do mundo” foi construído de acordo com as necessidades e interesses de diversas populações indígenas. Uma evidência disso é o fato de ser possível reconstruir trilhas no meio da floresta, que levam a locais onde existem vestígios de população. Ou seja, muito antes dos portugueses chegarem por aqui, a Amazônia já tinha deixado de ser “pura” e “natural”.

Para muitos arqueólogos (Lathrap e Roosevelt, por exemplo), a Amazônia era o polo cultural do “Brasil” da pré-história. Isso pode ser deduzido a partir da cerâmica de Santarém, que foi a primeira a ser encontrada e é a mais antiga até então. Lathrap acredita que a Amazônia funcionava como um coração, que bombeava cultura e população para outras áreas do continente, devido a ampla riqueza de recursos naturais, que proporcionava uma vida agradável e fazia com que a população fosse facilmente expansível, precisando atingir outras localidades (FAUSTO, 2000).

Apesar de as evidências de povoamento da Amazônia serem as mais antigas já encontradas no Brasil, estima-se que haja outros vestígios, ainda não devidamente pesquisados, com datações ainda mais antigas. A dificuldade de pesquisar na Amazônia diz respeito a ser um solo a céu aberto, o que dificulta a preservação dos materiais e demanda mais investimento e tempo para pesquisa. Dessa forma, tanto Fausto (2000) quanto Prous (2006), afirmam que há um grande potencial arqueológico ainda não explorado na Amazônia brasileira.

9 – Por que os indígenas brasileiros não atingiram níveis de civilização parecidos com os Maias, Incas e Astecas?

A ideia de “níveis de civilização” é bastante estranha para antropólogos, visto que a disciplina dispensou a ideia de “evolucionismo cultural” logo no início de sua consolidação. No entanto, a ideia ainda persiste entre a arqueologia, que tem sua fundamentação relacionada com disciplinas mais biológicas e geográficas, que demandam de esquemas para serem consolidadas e consideradas científicas.

Dessa forma, Fausto (2000) apresenta a teoria de Steward, que dividia a civilização em quatro níveis diferentes, baseadas em uma tipologia geral, proposta por Elman Service, em 1962. Para Steward existiam, em ordem crescente no quesito civilização:

  • Os “marginais” – formados por um conjunto heterogêneo de sociedades com tecnologia de subsistência rudimentar, que careciam de instituições políticas e eram caçadores-coletores, nômades e viviam em pequenos bandos.
  • Tribos da floresta tropical – formadas por aldeias mais permanentes, apesar de dispersas; careciam de instituições políticas e religiosas; organizavam-se por parentesco e o panorama social era dominado pela igualdade.
  • Andes setentrionais e Região Circuncaribenha – havia um desenvolvimento inicial de centralização política e religiosa, estratificação em classes sociais, estratificação econômica, especialização ocupacional e o igualitarismo cedia espaço para a hierarquia e o poder.
  • Império Inca – experiência expansionista que durou cem anos até os espanhóis chegarem e ela ruir. Formado por populações densas, sistemas intensivos de produção agrícola, criação de animais, aparelho estatal com formas sofisticadas de administração pública e extração de tributos, estratificação social, desenvolvimento de metalurgia.

Considerando esse esquema de Steward, as populações brasileiras mal chegariam ao terceiro nível. No entanto, há divergências em relação a isso, visto que houve desenvolvimento de agricultura, caça, pesca e produção de algumas ferramentas. Estima-se que o Brasil não tenha se tornado um “Império Inca” ou equivalente por não ter tido necessidade. O ambiente brasileiro era fértil, plano e aprazível. Não havia razão para disputas de espaço e criação de ferramentas mais sofisticadas. Como ressalta Prous (2006) “Muitas populações limitaram sua densidade, garantindo abundância em território fixo”.

vestígios Império Inca
Vestígios do Império Inca

Carlos Fausto (2000) defende que a tipologia de Steward deve ser desconstruída. Sugere que as perguntas sejam direcionadas à reconstrução dos processos pré-históricos que, em uma escala local e regional, conduziram a diversas formas de complexificação no continente. Acredita que a etnologia pode oferecer instrumentos críticos para a interpretação dos registros arqueológicos.

10 – Quem são os responsáveis pelas pesquisas realizadas no Brasil?

André Prous (2006) ressalta que a maior parte das pesquisas acadêmicas na área da arqueologia realizadas no Brasil é feita por estrangeiros, através de iniciativa privada vinda de outros países. Uma das razões que o autor aponta para tal, é o fato de não haverem (pelo menos até o momento da escrita do livro) graduações de arqueologia no Brasil e os mestrados serem considerados curtos para uma formação densa na disciplina.

O Brasil não fomenta essa área de pesquisa, havendo pouco estímulo para quem deseja seguir essa carreira. Apesar de haver muito campo para ser explorado, principalmente na Amazônia, atualmente dependemos do investimento de outros países para que essas pesquisas sejam realizadas e levadas adiante.

É interessante, porém, ressaltar que o trabalho arqueológico até então realizado no Brasil não foi exclusivamente masculino. Dentre as participações femininas, ressaltam-se as importantíssimas Betty Meggers e Anna Roosevelt, cujos padrões tipológicos e descobertas mudaram o curso da história, apresentando novas hipóteses e vieses de análise.

A fim de não ser injusta, ressalto que a colonização não barrou de imediato e absolutamente o desenvolvimento e a produção cultural indígena, sendo a principal prova disso a existência da tradição arqueológica de Marajó, densamente pesquisada por Ana Roosevelt e que conta com datações que variam entre IV d.C até XIV d.C (FAUSTO, 2000).

Por fim, vale ressaltar que a pesquisa de ciências humanas, relacionada com povos extintos, como é o caso dos pré-históricos, acaba perdendo muito em seu poder de análise quando os dados são observados de acordo com os padrões de pensamento dos pesquisadores. É necessário o esforço para entender a lógica desses povos agora inexistentes e reconstruir a história deles a partir disso, razão para que seja um trabalho árduo e complexo (PROUS, 2006).

Analisar esses materiais apontando desigualdades perante os nossos padrões atuais é ineficiente, como bem demonstrou Pierre Clastres (2007) em seu clássico “A Sociedade contra o Estado”. A mesma linha de raciocínio é apresentada por Prous (2006), na conclusão de seu livro e por Fausto (2000) no decorrer de toda a obra.

REFERÊNCIAS

CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

FAUSTO, Carlos. Os Indíos antes do Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros – A pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

0 thoughts on “Brasil – 10 fatos que você não aprendeu na escola

  1. Excelente texto.
    Nossas “verdades” históricas impostas a nossa elementar informação escolar ainda precisam ser repensadas .

    1. Infelizmente, com as atuais reformas do governo Temer, fica ainda mais difícil esperarmos que coisas assim apareçam no currículo obrigatório.
      Obrigada pelo elogio referente ao texto!

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