Clube da Luta 2, de Chuck Palahniuk | Resenha

Clube da Luta 2 é a continuação do livro Clube da Luta, escrito por Chuck Palahniuk em 1996 e mundialmente conhecido pela adaptação cinematográfica, de 1999. A edição em português, realizada pela editora Leya, foi lançada no mês de agosto. Nos EUA, o livro foi lançado em fascículos separados, para então ganhar uma versão completa em capa dura. No Brasil, a tradução optou por trazer apenas a versão completa.

Ao contrário do primeiro livro, desta vez temos uma graphic novel, o que significa que Palahniuk foi responsável apenas pelo roteiro da história, visto que os desenhos foram obra do talentosíssimo Cameron Stewart. As capas foram realizadas por David Mack, as cores por Dave Stewart e as fontes por Nate Piekos.

A primeira coisa interessante em se saber sobre o livro é que ele é uma continuação do outro livro, não da obra cinematográfica. Essa desambiguação é importante em razão de os finais do livro e do filme não serem o mesmo. Dessa forma, quem iniciar a leitura imaginando que está continuando o filme vai se decepcionar. Não se trata do filme, mas do livro.

Capas de Clube da Luta e Clube da Luta 2, ambos na versão da Editora Leya.
Capas de Clube da Luta e Clube da Luta 2, ambos na versão da Editora Leya.

Logo, antes de falar sobre Clube da Luta 2, é importante falar um pouco sobre Clube da Luta. O livro, apesar de escrito em 1996 e lançado no Brasil antes, foi relançado e reeditado pela editora Leya – que atualmente detém os direitos de publicação de Palahniuk no Brasil – em 2012. A tradução de Cassius Medauar teve a pretensão de manter a originalidade narrativa da obra em inglês. Tendo lido ambas as versões, acredito que isso se realizou.

No livro, Tyler Durden é a persona esquizofrênica de um outro rapaz, que não é nomeado, mas entendemos se chamar Joe, em razão das frases curtas presentes muitas vezes ao longo da narrativa. Exemplo: “Sou o disco rígido do Joe” (página 254). É interessante demarcar que esse tipo de adendo narrativo é comum nos livros de Palahniuk, quase como que uma marca de leitura. No filme, ao invés de “Joe”, entende-se que o nome dele é “Jack”.

Marla Singer se apaixona por Tyler e não por Joe, razão para que ela se sinta traída, desentendida, desorientada e decepcionada ao saber que não se tratavam da mesma pessoa – apesar de estarem no mesmo corpo.

A adaptação cinematográfica da obra é, ouso dizer, a melhor adaptação de livro para filme já realizada pelo cinema. David Fincher, o diretor, foi exemplar, assim como o roteirista e os atores que estrelaram a obra. Em minha singela opinião, seria impossível que Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter dividissem um filme com David Fincher e a coisa desandasse. Mas, após ter lido um relato do Palahniuk sobre ter seu livro vendido para uma grande produtora de cinema, consigo entender que não é uma conquista tão maravilhosa assim.

Apesar da brilhante adaptação, o filme acaba com os prédios explodindo e a famosa cena “You’ve met me in a very strange time of my life”, com direito a trilha sonora de The Pixies perguntando “Where is my mind?”. Essa cena também ocorre no livro, mas não é o final da história, que termina com Joe internado em uma clínica de reabilitação psicológica.

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Imagem retirada da cena final do filme Clube da Luta.

Clube da Luta 2, por sua vez, inicia-se dez anos depois do final do primeiro. Joe é finalmente introduzido em sua persona não esquizofrênica. Ele se chama Sebastien. Casou-se com Marla Singer e têm um filho, chamado Junior. Apesar de não estar mais na clínica, Sebastien demandava de cuidado constante para que não saísse dos eixos novamente, voltando a ser Durden em tempo integral. Por isso, fazia terapia com hipnose algumas vezes por semana.

Marla estava infeliz com seu casamento. Sentia falta da emoção e aventura de relacionar-se com Tyler e afirmava que Sebastien era um pé no saco. O filho deles, por sua vez, era meio esquisito e já estava fazendo telefonemas estranhos e aprendendo a construir bombas. Marla continuava a frequentar os grupos de apoio, apesar de não ter doenças.

O livro é uma meta-história, o que significa que Chuck Palahniuk é um dos personagens. O autor aparece na história em diversos momentos, estando em uma mesa com auxiliares, todos discutindo o futuro dos personagens do livro. Conforme eles falavam, a história se modificava. O momento de maior intensidade dessa dupla narrativa é no final, quando Palahniuk não parece se sentir confiante de que sua resolução será boa o suficiente para acalmar os ânimos dos fãs.

A ironia é forte nas histórias de Palahniuk e não foi diferente em Clube da Luta 2. Entre Tyler, Sebastien, Marla e Junior, as ironias são constantes. Uma das principais características de Tyler Durden, o niilismo travestido de ironia e de otimismo, acaba sendo ainda mais ressaltado, em confluência com outras características de Sebastien. Para além disto, o livro se demonstra um ótimo memorial para os fãs, fazendo renascer personagens e referências. Palahniuk demonstra que é possível continuar uma história mesmo após duas décadas e ainda assim manter o nível.

Acredito que a maior diferença entre os livros é que, enquanto o primeiro tem foco maior em Tyler Durden, nos clubes da luta, no projeto desordem e destruição e na ideia de acabar com a humanidade para fazê-la renascer das cinzas, de forma mais justa e menos infeliz, o segundo foca-se em Sebastien e sua luta para suprimir a existência de Durden, que é vista tanto por ele quanto pelos médicos como uma anomalia mental. Por essa razão, ao invés de os aparecimentos de Durden serem os momentos de maior êxtase do livro, como eram no primeiro, eles denotam apreensão.

Capa de Clube da Luta 2, versão da Editora Leya.
Capa de Clube da Luta 2, versão da Editora Leya.

A lição que fica, muito forte, é a de que não adianta tentar fugir da sociedade, vivendo à sua margem e criando revoluções malucas. Não adianta criar uma sociedade secreta e tentar transformar o mundo utilizando métodos questionados pelos outros. Não adianta suprimir o que há dentro de você, seja com remédios, terapias, excesso de rotina, alienação ou outros dos nossos diversos modos. De uma forma ou de outra, nós sempre vamos acabar sendo um produto da nossa sociedade. Não há escapatória para tal.

Não precisamos de Palahniuk ou Durden para dizer isso, considerando que Durkheim e diversos outros sociólogos e antropólogos alertam sobre a extrema influência da sociedade e da cultura por sobre o indivíduo. No entanto, é primoroso ver essas ideias conceituais postas em prática em narrativas tão densas e transformadoras de vida, como a de Clube da Luta 2.

Sob o discurso de não sermos flocos de neve únicos e especiais, nutridos de subjetividades únicas e especiais, Durden acabou se criando como deus na terra. Seu superego falou mais alto e ele achou que sozinho poderia resolver todos os problemas da humanidade. De uma patologia tratável com medicamentos e hipnose, ele se tornou maior que o próprio Sebastien. Indestrutível e imortal. Ainda assim, ele constituiu uma família nuclear e finalizou a história contente ao descobrir que seria pai. Mesmo lutando com todas as suas forças para não sucumbir à sociedade, ele, loiro, branco, forte e heterossexual, acabou sendo exatamente aquilo que a sociedade esperava.

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Sebastien e Tyler se encontram, em Clube da Luta 2.

A potência dessa ironia ainda não foi totalmente processada pelo meu cérebro, que insistiu em crer por anos que era possível viver em uma sociedade alternativa. No fim das contas, o principal personagem a me fazer acreditar nisso, foi quem me fez entender que não é possível.

O resultado disso é a resolução de que é mais importante ter os pés no chão, buscar o equilíbrio e o máximo de prazer e satisfação dentre as coisas que nossas próprias sociedades e culturas nos proporcionam. Mas, claro, sempre tendo uma válvula de escape, mesmo que ela não seja tão emocionante quanto clubes da luta ou grupos de apoio.

A sociedade sempre vai ser irônica, imperfeita e incompleta. E a resolução que se tira é de que os seres humanos também e que já passou da hora de a gente entender que não somos tão superiores aos macacos ou a qualquer outro ser vivo. Já passou da hora da gente aprender a viver em harmonia e a preservar o que nos resta, lutando para conseguir o melhor com a menor quantidade possível de abatidos no meio do caminho.

Capa do capítulo 7 - Paz a qualquer preço.
Capa do capítulo 7 – Paz a qualquer preço.

A leitura foi bastante fluida, por se tratar de uma história em quadrinhos. Os desenhos são muito bem trabalhados. O traçado é bem feito e a pintura é uma verdadeira obra de arte. Ou seja, apesar da pouca quantidade de texto, o livro fala muito. São 278 páginas no total, distribuídas em nove capítulos. No final há um bônus, onde o final do primeiro livro é relembrado e melhor explicado. O trabalho de tradução e edição da Leya foi exemplar. Érico Assis, o tradutor, certamente teve dificuldades em conseguir captar todas as letras implícitas e os escritos micros distribuídos pelo texto, mas só encontrei uma capa de jornal que permanecia em inglês, o que foi bastante impressionante, devido às dificuldades causadas pelas sobreposições características da obra.

Clique nos links abaixo para adquirir os livros:

Clube da Luta – 270 páginas. Edição da Leya, 2012. Tradução de Cassius Medauar.

Clube da Luta 2 – 278 páginas. Edição da Leya, 2016. Tradução de Érico Assis.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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