Homem de Aço (2013) – Análise Completa

Contexto

Quando imaginamos o futuro, o fazemos a partir de nossas categorias cognitivas que tem base no presente. É por isso que a ficção científica nunca teve a pretensão de ser uma futurologia, mas sim uma ferramenta de estranhamento cognitivo. Trata-se de colocar as nossas categorias cognitivas, construídas culturalmente, em cheque, a partir da apresentação de alteridades. Man of Steel (Homem de Aço) faz de maneira magistral.

Superman interpretado por Henry Cavill (2013, 2016).
Superman interpretado por Henry Cavill (2013, 2016).

Com direção de Zack Snyder e estrelado por Henry Cavill (Clark Kent) e Amy Adams (Lois Lane), Man of Steel tomou por base o conceito de super-herói que havia sido criado por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938. Não fez isso de modo passivo, mas reinventou o mito de uma forma bastante intrigante e densa.

A figura do Superman, em constantes leituras, interpretações e performances faz parte constitutiva da história do cinema. Desde sua primeira aparição, em 1941 na forma de história curta e em 1948 como película, a narrativa sobre a entidade extraterrestre que foi enviada de seu planeta natal para a Terra é frequente. Superman já foi interpretado por um vasto conjunto de atores, como Kirk Alyn, Georges Reeves, Christopher Reeve, Tom Welling, Brandon Routh e finalmente Henry Cavill.

Superman interpretado por Kirk Alyn (1948).
Superman interpretado por Kirk Alyn (1948).

Cada um destes atores contribuiu, em seu período, para a construção de uma imagem do personagem que diz muito a respeito de sua época. O Superman de Alyn foi um marco, pois era a primeira vez que um personagem dos quadrinhos tomava a forma de um homem nas telas. Já Georges Reeves, em Superman and the Mole Men (1951), caracterizou o personagem em grandes voos e ao mesmo tempo fixou a associação do herói com a cultura e o patriotismo norte-americano.

Superman interpretado por George Reeves (1951-1958).
Superman interpretado por George Reeves (1951-1958).

A confluência entre ator e personagem chegou ao ápice com Christopher Reeve, que interpretou o Superman em nada menos que quatro filmes: Superman (1978) de Richard Donner, Superman II (1980) de Richard Lester e Richard Donner, Superman III (1983) de Richard Lester e Superman IV: The Quest for Peace (1987) de Sidney J. Furei. Reeve trouxe uma série de novos elementos para o personagem, na medida em que este se transformou em um ícone pop mundialmente conhecido. Infelizmente, a carreira do ator foi transpassada por um acidente com seu cavalo, que o deixou tetraplégico.

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Superman interpretado por Christopher Reeve (1978, 1980, 1983 e 1987).

Tom Welling, no seriado Smallville (2001-2011), inverteu a maneira como se pensava a relação entre Superman e Clark Kent. Até então, Clark era uma persona de um super-herói. Era uma atuação cotidiana superficial, que servia apenas como disfarce. Com Welling, é o oposto. O foco é em Clark, e em seu constante progresso para se tornar o Superman, sua persona.

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Superman interpretado por Tom Welling (2001-2011).

Narrativa de origem

Dentro deste contexto, a obra de Snyder, protagonizada por Cavill, irá reinventar o personagem, suas relações etc. Tal movimento pode ser identificado já nas primeiras cenas, quando Kripton é apresentada. Trata-se de uma sociedade decadente, que outrora havia se dedicado em explorar o universo e tornar outros mundos habitáveis através do processo de terraformação. Tal projeto acabou sendo abandonado, e o planeta vivia o ápice de sua exploração energética marcada por um cataclisma eminente. Um equivalente ao antropoceno.

Altamente hierárquicos, os kriptonianos nasciam a partir de manipulações genéticas. Criados em incubadoras, a sociedade se tornou estática e incapaz de pensar a solução de seus próprios problemas. Eis que Jor-El (Russell Crowe), e sua esposa, Lara Lor-Van (Ayelet Zurer), têm um filho, Kal-El (Henry Cavill). Este é o primeiro nativo do planeta em muito tempo, a nascer sem qualquer manipulação genética ou maquínica.

Tal violação do código ético e civil é eclipsada por uma tentativa de tomada de poder, protagonizada por General Zod (Michael Shannon), dando origem ao que seria a última guerra civil de Kripton, a qual experimentava a imbricação radical entre um cataclisma ecológico e outro social.

Jor-El rouba um artefato kriptoniano que possui toda a herança genética daquele povo. Os dados desse material são transpassados para o DNA de Kal-El e este é enviado para a Terra. A rebelião de Zod é derrotada e este é enviado para a Zona Fantasma.

Clark Kent conversando com seu pai, Jonathan Kent, no filme "Homem de Aço" de 2013.
Clark Kent conversando com seu pai, Jonathan Kent, no filme “Homem de Aço” de 2013.

A embarcação de Kal-El chega na Terra e é encontrada por um casal de fazendeiros, Martha (Diane Lane) e Jonathan Kent (Kevin Costner). Residentes de Smallville, no Kansas (EUA), coube a eles educarem uma criança que era bastante diferente das demais.

Experimentando as influências de um Sol ainda jovem, amarelo, os poderes de Clark são desenvolvidos desde sua infância. Todavia, o conhecimento de si, bem como de seu povo, só virá mais tarde, quando Clark entra em contato com uma inteligência artificial programada, que havia chego na Terra ainda na época da exploração espacial kriptoniana.

É importante perceber que há uma diferença significativa. O Clark de Welling, em Smallville, possuiu um guia que explicou qual era sua origem. No último episódio da segunda temporada, Exodus, Christopher Reeve apareceu interpretando o personagem Dr. Virgil Swann e revelou para Clark sobre seu planeta natal.

No caso da série Smallville, o destino de Clark está sempre sendo imaginado pelo espectador a partir de alguém que iria se tornar, no futuro, o Superman. É uma inevitabilidade que está subentendida em cada um dos episódios da série e se torna impossível desassociar. Em outras palavras, tornar-se herói é o destino do Clark de Welling.

Cena do filme "Homem de Aço" de 2013.
Cena do filme “Homem de Aço” de 2013.

Já em Man of Steel, não há um destino para ser manifestado por Clark. Kal-El tem todas as indicações do que seu pai imagina que ele possa se tornar, mas ao mesmo tempo é uma história em aberto. Não há nenhuma garantia transcendente que ele deverá se tornar um herói. Não há destino manifestado para esse novo Superman.

Lois Lane & Martha

O encontro entre Lois Lane e Clark é, antes de mais nada, a confluência de duas trajetórias distintas. Enquanto a jornalista estava atrás de uma história para contar para os outros, o kriptoniano buscava a sua própria narrativa.

A amizade entre os dois personagens se dá na confluência dessas duas trajetórias. Ao seguir as pistas das histórias sobre os feitos de Clark até o próprio personagem, Lois Lane compreende que aquela era a principal história de sua vida, mas era impublicável, visto que preservar o anonimato de Clark era fundamental. Uma ética jornalística bastante carente nos dias de hoje, inclusive.

Dado o fato já mencionado de o Clark de Cavil não se constituir primariamente pela humanidade, como ocorre com o de Welling, vemos que a convivência com Martha e Lois é fundamental para a aproximação do imaginário humano por parte do personagem.

Clark e Martha Kent em "Homem de Aço", de 2013.
Clark e Martha Kent em “Homem de Aço”, de 2013.

Enquanto Martha é responsável por inseri-lo no núcleo familiar e ensinar a ele a concepção cristã de família e amor materno, Lois Lane cumpre a função de ensiná-lo sobre o amor romântico – apesar de ficar implícito na narrativa que ele sentia o desabrochar desse sentimento já na época da infância, com Lana.

A perspicácia surpreendente de Lois, que não demora a descobrir a verdadeira identidade de Clark e se direciona à fazenda de sua mãe, em Smallville, instiga Clark a se aproximar da jornalista, vendo nela mais do que uma pessoa que precisava ser salva. É perceptível na narrativa observar o momento em que Clark é fisgado pela subjetividade de Lois Lane e começa a se envolver psicologicamente com ela, a partir da curiosidade e do instinto de proteção para com sua mãe.

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Lois Lane procura por Clark Kent, em “Homem de Aço” de 2013.

Martha, por sua vez, apesar de ter ensinado ao filho todos os valores morais cristãos do Ocidente terráqueo, tem a ciência de que ele é de outro planeta e em algum momento tomaria decisões por conta própria e teria responsabilidades maiores do que as que ela lhe preparou para assumir. O desprendimento dela, enquanto mãe, humaniza ainda mais o personagem, visto que, como toda mãe, ela tem receio em deixa-lo seguir sua sina sem a supervisão dela, mas tenta disfarçar e torcer para que dê certo.

Smallville e Martha acabam sendo o refúgio humano de Clark, visto que seu pai, Jonathan, já havia falecido. Posteriormente, esse refúgio se expande para Lois Lane e, como vemos no final do filme, para o Daily Planet (Planeta Diário) e a cidade de Metropolis.

Enquanto último kriptoniano, exilado em outro planeta, Kal-El se sente sozinho e perdido. Enquanto humano, a solidão não lhe é permitida, justamente pelo fato de a humanidade demandar relações sociais.

É a partir desses laços, que ele vai construindo no decorrer de sua vida, que Clark é capaz de criar uma conexão com a Terra forte o bastante para que ele se sinta impulsionado a arriscar a própria vida em prol de salvar este planeta outro e este povo outro. Essas relações funcionam como âncoras, capazes de lembra-lo, independentemente da situação, que ele é mais humano do que kriptoniano.

Assim, mais uma vez, a narrativa de Superman mostra que o contato social e a construção cultural por sobre a natureza biológica gera mais efeitos por sobre as ações e o caráter do que meros genes. Em contraponto, podemos pensar que a diferença intrínseca de Kal-El é justamente o fato de ele ter sido o único criado a partir dos genes dos próprios pais, sendo fruto da natureza e não da cultura tecnicista de seu povo.

De qualquer forma, o contraponto humano/não humano e a oposição natureza/cultura é entrelaçado e vivificado e, porque não, resolvido, a partir das relações sociais com Martha e Lois.

O fim do futuro kriptoniano

O mundo de Kripton, como mencionamos anteriormente, é marcado por decante. No passado, suas explorações espaciais atingiram os confins do universo, mas em algum momento foram abandonadas. É um ápice tecnológico bastante intrigante, que produz um estranhamento cognitivo sobre as nossas próprias pretensões humanas no universo.

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Embarcação kriptoniana que armazenava prisioneiros na Zona Fantasma e foi usada por Zod contra Kal-El. Cena de “Homem de Aço” (2013).

Máquinas, colônias e pessoas foram abandonadas. A jornada do General Zod, da Zona Fantasma até a Terra marca isso, apresentando uma série de imagens bastante chocantes. É um futuro que nós, como humanos, tínhamos durante a época da corrida espacial norte-americana/soviética, e que se torna cada dia mais difícil.

Por conta deste contexto, o Superman não é mais uma figura que possa ser imediatamente identificada como norte-americana, tal como foi anteriormente. Não se trata de um herói que obedece às ordens do governo norte-americano. Mas, sim, um imigrante. Se, atualmente, alguma identificação pode ser realizada, é Superman como um terrano.

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General Zod e seu exército, utilizando holotecnologia kriptoniana contra Kal-El e a Terra. Cena retirada de “Homem de Aço” (2013).

Há uma díade opositiva entre a tecnologia kriptoniana e a humana. A primeira é caracterizada por um retro-futurismo medieval, que combina armaduras pesadas e imponentes, com armas laser e embarcações espaciais. Além, é claro, de indicações de uso de holotecnologia, principalmente nos visores. Isso é oposto à apresentação das forças armadas norte-americanas, com seus soldados, helicópteros e aeronaves – o ápice do desenvolvimento tecnológico contemporâneo – que se tornam inúteis diante da invasão alienígena.

Simbologia

O primeiro elemento simbólico apresentado por Man of Steel é o ato de Kal-El ser enviado para a Terra. É a performance do último ato, a redenção de Kripton e de seu povo, a partir de uma criança que seria divina. Carl Jung (2011), analisando o fenômeno religioso cristão, afirma que Cristo vêm para a Terra como uma maneira de redimir Deus de seus próprios pecados.

Nas palavras de Jung, “Deus deve sofrer no homem, da mesma forma que o homem em Deus”. O que nos permite afirmar que Jor-El se coloca na perspectiva do Deus do Velho Testamento, o qual enviou seu filho para a Terra não apenas para redimir os males causados pelos homens, mas para corrigir uma falha divina. A falha divina é a própria maneira como a sociedade kriptoniana se direcionou em um fechamento sobre si que resultou em sua própria destruição. (JUNG, 2011, p. 70)

O segundo elemento simbólico de fundamental importância na obra de Snyder é a noção de limite. O Superman constrói seus preceitos éticos a partir daquilo que aprendeu com Martha e Jonathan. Diferentemente dos Kriptonianos que, após centenas de anos de manipulação genética, não se prenderam a códigos morais, o que por consequência acabou levando-os à sua própria destruição. Como um Deus exilado, Kent constrói sua humanidade na figura de um anjo guardião contemporâneo, o qual por sua vez está muito além dos interesses específicos de um governo.

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Clark Kent em contraponto com vitral de Jesus Cristo, no Getsêmani. Cena de “Homem de Aço” (2013).

O terceiro elemento simbólico é o emblemático diálogo entre Clark e um sacerdote cristão, Daniel Leone (Coburn Goss). Clark explicou que era ele quem o General Zod procurava e que cogitava se entregar, para salvar a humanidade da fúria do invasor. Todavia, não tinha certeza alguma se o General iria cumprir sua promessa e deixar a Terra. A questão, para o Superman, é que nem os próprios humanos são capazes de cumprir suas promessas.

Esse dilema tem ao fundo um vitral que apresenta uma das cenas mais complexas do Novo Testamento: Cristo no jardim de Getsêmani. Um dos momentos mais sombrios da história do salvador, na medida em que o nazareno reflete sobre a fúria dos homens e a fé diante de Deus, ao mesmo tempo em que Judas chega com soldados romanos para prendê-lo e posteriormente crucifica-lo.

Impressões Finais

Amir Mokri, o diretor de fotografia, fez um trabalho excelente. A semiótica do filme chama atenção da primeira à última cena, tendo vários ápices ao longo do filme. Em diversas cenas, a vontade é congelar a imagem apenas para observá-la. A fortaleza kriptoniana é uma fonte maravilhosa de imagens fantásticas, mas elas também aparecem em situações mais comuns, como a já referida cena da igreja.

Exemplo de fotografia maravilhosa. Cena retirada de "Homem de Aço" (2013).
Exemplo de fotografia maravilhosa. Cena retirada de “Homem de Aço” (2013).

Percebe-se que houve um grande empenho na construção fotográfica, semiótica e simbólica da narrativa e isso é extravasado quando observamos o filme enquanto película cinematográfica e atribuímos a ele um, porque não, estatuto de obra de arte. Man of Steel supera muito as expectativas.

Tal como um bom pontapé inicial para uma nova linha do tempo de universo de super-heróis, Homem de Aço conclui-se dando ao entender de que haveria uma continuação. Conseguiu inserir muito bem a história e o background do personagem Clark Kent, trazendo uma humanidade ao divino, apesar de ele ainda ser mostrado como indestrutível e, de certa forma, sagrado. As simbologias cristãs presentes no filme são muitas e Clark acaba sendo a personificação de Cristo, o que é bastante marcante em diversas narrativas sobre o Superman.

Lois Lane, por sua vez, passa de a donzela em perigo, do início do filme, para pivô da resolução dos problemas no decorrer e no final da narrativa, demonstrando-se bastante importante para manter sua densidade. A personagem é bastante ativa, como em todas as vezes que aparece dentro do universo Superman, tendo uma perspicácia surpreendente e sendo a personificação do arquétipo de jornalista imaginado pelos calouros do dito curso. Infelizmente, a nossa realidade não comporta um jornal como o Planeta Diário e os nossos jornalistas são desencorajados a seguir suas investigações próprias. Ainda assim, é eletrizante ver a profissão sendo honrada e levada a sério, como ocorre com Lois Lane.

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Superman em posição redentora. Cena de “Homem de Aço” (2013).

Por fim, consideramos Homem de Aço um filme bastante relevante para o universo de super-heróis da DC e o vemos como grande potencial para um bom desenrolar de novas narrativas. Não é à toa que o filme foi continuado em 2016, com Batman v Superman e pretende dar início a outras produções, como o filme solo da Mulher Maravilha, do Aquaman, do Flash e da Liga da Justiça, todos já em produção.

Texto escrito por Mayra Sousa Resende e Willian Perpétuo Busch 

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. Petrópolis: Vozes, 2011.

 

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