O Pistoleiro (1982) – Stephen King | Resenha

O Pistoleiro, de Stephen King, foi escrito originalmente entre 1978-1981, no formato de histórias curtas, publicadas na The Magazine of Fantasy and Science Fiction.

No ano seguinte as histórias foram organizadas como um livro. Em 2003, King revisou-o e fez algumas mudanças significativas. No Brasil, a obra foi traduzida de modo magistral por Mário Molina, e publicada pela Editora Objetiva em 2004. Trata-se do primeiro volume do conjunto de oito livros que compõem a série A Torre Negra.

A edição tupiniquim conta com uma introdução de King, intitulada Sobre Ter 19 Anos (e algumas outras coisas). Ali, o autor explica que entre a concepção original da obra, ainda na juventude, e sua escrita efectiva, vários anos se passaram. Seu contacto com a obra de Tolkien, Donaldson e Brooks foram significativos, o que instaurou um geist, certamente presente até os dias de hoje, que King sintetizou da seguinte maneira:

 

Gostei da ideia da busca – na realidade adorei -, mas não tinha interesse nem nos vigorosos personagens camponeses de Tolkien (o que não significa dizer que não tenha gostado deles, pois gostei) nem em seus frondosos cenários escandinavos. (KING, 2004, p. 12)

 

Diante disto, foi no próprio enquadramento cultural norte-americano que o autor encontrou a base para seu épico. Inspirado pelo filme The Good, the Bad and the Ugly de Sergio Leone (1966), King soube que “antes mesmo da metade da fita, percebi que o que eu queria escrever era uma história com o senso de busca e magia de Tolkien, mas ambientada no quase absurdamente majestoso cenário de faroeste de Leone” (KING, 2004, p. 12).

Não era apenas o senso de Velho Oeste que King buscava, mas sim um “desajustamento” (KING, 2004, p. 13). A ciência, na série da Torre Negra, não vive um registro constante e com sentido. A série pode ser posicionada em vista da teoria de Extro-Ficção Científica de Meillassoux (2015). Para o filósofo francês, há três procedimentos básicos que permitem a construção de uma história desde tipo: lógica negativa, ciência negativa e multiplicidade.

Assim, King produz um texto onde os eventos experimentados pelos personagens não estão sujeitos a uma lógica, seja ela real ou imaginária. O Ka, termo nativo que pouco tem a ver com destino, pode ser conceituado como a vivência em um mundo onde os eventos não estão fundados em uma realidade única e com sentido. A ciência negativa segue justamente isto, dado que o próprio real não está sujeito a análise. Os avanços científicos que aquele mundo experimentou vivem o apogeu de sua decadência, de modo que nada parece funcionar como deveria. Os fenômenos não são propriamente inexplicáveis, mas estão sempre aquém e além dos personagens, e também do leitor.

A multiplicidade, ao aflorar neste(s) universo(s) produz jorros de nonsense. Isso cria camadas de estranhamento bastante intrigantes, pois tal como no filme de Leone, o real não faz sentido. A decadência da ciência se aflora, e é combinado por certas indicações místico-religiosas que se confundem e produzem curiosas ramificações. No começo do livro, o protagonista, Roland Deschain vaga por um deserto e sente uma tontura – “a sensação de estar quase destacado do mundo” (KING, 2004, p. 29). Tontura que transpassa do plano ficcional e atinge directamente o leitor.

A escrita da Torre Negra, tal como apresentada por King na introdução, diz muito sobre o quanto a obra ganhou vida para além do seu controle. Mas ele próprio não sabia o que viria a ser a história. Em suas próprias palavras, “Para saber, tenho de escrever” (KING, 2004, p. 15). E do texto original até a retomada em 2001 para escrever o restante, muitas coisas haviam se passado. Tornou-se praticamente uma corrida contra a morte.

Já o prefácio, que segue a introdução, é outra importante revelação sobre a relação entre texto e contexto. King ocupa-se muito mais em falar do processo da sua escrita do que propriamente o texto em si. Seu método, “mergulhar de cabeça e avançar o mais depressa possível, mantendo o gume da lâmina da narrativa o mais afiado possível pelo uso constante, e tentando ultrapassar o inimigo mais insidioso do escritor, que é a dúvida” (KING, 2004, p. 20), interessa na medida em que qualquer um que tenha tentado escrever algo maior que dez páginas constantemente questiona o horizonte utilitário daquilo que se está p. Mas King consegue associar isso com um método de revisão cauteloso que lembra bastante as matanças metódicas de Dexter: “endireitar os quadros, passar aspirador no chão, esfregar os banheiros” (KING, 2004, p. 20).

Seguindo sua gênese em histórias curtas, o texto possui cinco grandes partes. O protagonista já mencionado, Roland Deschain, vaga por um amplo deserto em perseguição a uma enigmática figura – o Homem de Preto. A própria descrição desse processo já reifica tudo que mencionei anteriormente como fundamental para caracterizar o tom imbricado e extro do texto de King, e pode ser ilustrado por duas sentenças: “O mundo havia continuado desde então. O mundo havia se esvaziado” (KING, 2004, p. 27).

Roland é um pistoleiro. No universo de King, é uma espécie de cavaleiro da Távola Redonda que vaga pelo mundo, como um Ronin, com o intuito de manter a Ordem. Não por acaso, seus revólveres, são feitos do aço da Excalibur, a espada do mítico Arthur Eld – do qual o pistoleiro é descendente. O primeiro encontro de Roland foi com um fazendeiro ruivo, Brown, que possuía um corvo falante – Zoltan. O corvo é pura educação, e já recebe o pistoleiro de uma forma bastante carismática: “Dane-se – Dane-se você e o cavalo em que viajou”. Brown comentou que até tentou ensinar o Pai-Nosso para Zoltan, mas não teve sucesso: “Acho que este não é lugar para o pai-nosso” (KING, 2004, p. 33).

O pistoleiro narrou então os eventos de Tull, a última cidade que havia passado. E o que havia feito – matado dos que ali viviam. Esse polo narrativo termina no capítulo 2, O Posto de Parada. Roland havia seguido viagem, e encontrou um espaço de descanso abandonado. Ali, quase morto pelo excesso de exposição ao sol, ele é salvo por John Chambers, o Jake. Este garoto não veio daquele mundo, mas de outro. E a narrativa de como Jake foi parar ali será seguida da própria infância de Roland e a maneira como o pistoleiro começou a ingressar na vida adulta.

No capítulo 3, O Oráculo e as Montanhas, Roland encontra um espírito oracular que informa do seu futuro. Para seguir sua missão, ele irá encontrar três pessoas diferentes. A primeira é um jovem, que tem o corpo tomado por um demônio, “o nome do demônio é heroína”, uma palavra que o pistoleiro não reconhece. A segunda vem de rodas, e a terceira é “Morte… mas não para você” (KING, 2004, p. 142).

Em Os Vagos Mutantes, capítulo quatro, Roland e Jake adentram-se nas montanhas do fim do deserto, na pista do Homem de Preto. A jornada na escuridão, fugindo dos zumbis que ali habitam, é intercalada com a narrativa do ritual final que fez com Roland ingressa-se na vida adulta, algo que já havia sido introduzido anteriormente. E, em momento contemplativo:

 

A mente do pistoleiro se voltou meditativa para dentro de si mesma. Foi naquele silêncio quebrado pelo granizo, pouco antes de ser dominado pelo sono, que ele pensou, pela primeira vez, que talvez fosse o último pistoleiro. (KING, 2004, p. 12)

 

No último capítulo, O Pistoleiro e o Homem de Preto, Roland finalmente alcançou aquele que perseguia, e ambos instauram um diálogo denso e impactante. É um momento onde a narrativa de King deixa de ser apenas o relato de uma história e aprofunda-se em questões metafísicas e existenciais que haviam apenas sido mencionadas. Procedimento que é mediado pelo tarô que o Homem de Preto lê para Roland.

A concepção de universo exposta pelo Homem de Preto segue uma narração dos eventos históricos que ocorreram naquele mundo. A partir de uma empresa chamada North Central Positronics, a humanidade alcançou uma vasta “riqueza de informações”, desde conquistas da inseminação artificial, energia solar e até a conquista da Lua. Alguns poucos haviam começado a compreender a seguinte verdade: “o conhecimento conduz sempre a mistérios ainda mais espantosos. Maior conhecimento fisiológico do cérebro torna a existência da alma menos possível, ainda mais provável pela própria natureza da pesquisa” (KING, 2004, p. 243). E, apesar de Roland não estar entendendo, o Homem de Preto continua. O fundamental então é o tamanho: “o tamanho contém a vida e a Torre contém o tamanho”. A Torre é, propriamente, a Torre Negra que Roland buscava. O tamanho é uma categoria ontológica que está para além do pensamento humano:

 

O tamanho nos derrota. Para o peixe, o lado onde ele vive é o universo. O que pensa o peixe quando é puxado pela boca por um gancho prateado, nos limites da existência, e penetra num novo universo onde o ar afoga e a luminosidade é uma loucura azulada? Onde enormes bípedes sem guelras o amontoam para morrer numa caixa sufocante, forrada de vegetação úmida? (KING, 2004, p. 213).

 

Disso, o Homem de Preto inferiu que não há término ou fim. Supor isso seria absurdo. Pois:

 

A ponta do lápis não é sólida; é composta de átomos que giram e rodopiam como um trilhão de diabólicos planetas. O que nos parece sólido é apenas uma rede de coisas soltas, mantidas juntas pela gravidade. Vistas na sua real dimensão, as distâncias entre esses átomos podem se tornar quilômetros, abismos, eternidades. Os próprios átomos são compostos de núcleos com prótons e elétrons girando em torno deles. Podemos descer ainda mais até as partículas subatômicas. E depois para o que? Para os táquions? Para nada? Claro que não. (KING, 2004, p. 213).

 

Assim, o universo em que eles estão situados, não passa de uma “parte de um átomo numa camada de relva” (KING, 2004, p. 214). A existência, em si, não tem por horizonte um limite, ou um infinito único, mas uma multiplicidade de infinitos. E, tudo aquilo que existe, seja na perspectiva do macro e do micro, tem um único nexo que os sustenta – uma Torre – a Torre Negra que Roland busca.

O Pistoleiro é uma obra incrível. Não apenas por ter sido algo que King revisou, mas por ser capaz de instaurar as premissas daquele universo que compõe a Torre Negra. Ao intercalar narrativas sobre o presente do pistoleiro, passado, mas também o futuro, cria-se uma ambiência que torna a jornada em busca da Torre algo que está para além do épico. Não é uma jornada para remover o mal do mundo, ou dos mundos, mas sim um processo em direção aquilo que constitui o próprio real. Nas palavras do Homem de Preto – pode até ser que Roland chegue até a Torre, mas será que ele teria coragem de subir até o topo?

 

REFERÊNCIAS

KING, Stephen. A Torre Negra Vol. 1: O Pistoleiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2004.

MEILLASSOUX, Quentin. Science Fiction and Extro-Science Fiction. Minneapolis: Univocal, 2015.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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