O Topo da Montanha – Lázaro Ramos e Taís Araújo

O Topo da Montanha é uma peça de teatro estrelada por Lázaro Ramos e Taís Araújo. O texto é de Katori Hall e a peça recebeu patrocínio da Porto Seguro seguradora e da Globo, mas foi produzida pelo próprio Lázaro Ramos. Com quase duas horas de duração, em um diálogo constante e pertinente, os atores revivem a última noite de Martin Luther King Jr. Lázaro interpreta o próprio e Taís cumpre a função de camareira do hotel em que ele estava hospedado.

Martin Luther King Jr (Lázaro Ramos) aparece, no início da peça, sofrendo para escrever o discurso que faria na caminhada do dia seguinte. Ele havia acabado de chegar no hotel e estava sob uma intensa chuva. Pediu ao serviço de quarto um café e CaMay (Taís Araújo) aparece em cena para realizar o pedido. Ao invés de ir embora após a entrega do serviço, eles engatam em uma conversa, que tem como catalisador uma troca de cigarros.

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Poster promocional da peça O Topo da Montanha, com Lázaro Ramos

King está muito preocupado com o destino das pessoas negras em seu país, os EUA, e CaMay tenta convencê-lo de que não acredita que as marchas vão salvar o mundo, mas sim o amor. Os dois se lançam em uma conversa muito densa e filosófica, que perpassa por momentos históricos de toda a trajetória do povo negro das Américas e é bastante fácil fazer uma contraposição da história abordada para com a história vivida ainda hoje. Esse fato, por si só, é interessante, pois a peça termina com um tom otimista, como se após a morte de Martin Luther King Jr as coisas tivessem melhorado muito.

De fato, é impossível dizer que elas não melhoraram. A existência da peça é uma prova disso e é a personificação de todo o discurso que o texto vocifera. Um casal negro, de origem humilde, ele da Bahia e ela do Rio de Janeiro, que conseguiram ser protagonistas de novelas na maior transmissora de televisão do Brasil, em seu horário mais nobre, que atualmente têm um seriado próprio, onde escrevem, produzem e atuam. Um casal que já participou de filmes, seriados e que não se cala diante de problemas de necessidade maior, como o genocídio dos jovens negros e a opressão por sobre a mulher negra.

Ver esse casal lotando um teatro em Curitiba, em pleno 2016, com uma plateia diversificada, que unia negros, brancos, nipônicos, pessoas com necessidades especiais, jovens e idosos, é a prova de que sim, as coisas melhoraram desde a época de Martin Luther King Jr.

Mas elas estão longe de estarem perfeitas e é exatamente isso que torna a peça tão relevante. Ela revive um problema que existe na nossa sociedade há décadas e ainda não foi totalmente resolvido e propõe que ao invés de superar com guerras, marchas de resistência ou vandalismo, sejam usados o amor e da união. No fim das contas, como os próprios atores informaram logo antes de o espetáculo começar, ele se tratava de afetos.

Pôster da peça O Topo da Montanha
Poster da peça O Topo da Montanha

A interseccionalidade gritou em todo o espetáculo. O discurso era de que não adianta lutar apenas pela igualdade entre pessoas de etnias diferentes, mas também entre as classes sociais, gêneros e religiões. Como a peça foi baseada nos discursos e na vida de Luther King Jr, compreende-se que esses eram apenas mais alguns de seus sonhos.

A representatividade, porém, é o que fala mais alto. A plateia, majoritariamente branca, destacou-se pelas pessoas negras que a compunham. No decorrer do espetáculo, elas interagiam nas pausas das falas, complementando as informações com dados atuais e coisas pertinentes. Ao final da peça, seus olhos brilhavam. Eles gritavam que havia sido sensacional e as palmas foram tantas e tão altas que eu, enquanto jovem branca, me senti deslocada e ao mesmo tempo extremamente feliz por poder presenciar um momento daqueles. Representatividade importa muito e cada dia que passa isso fica mais evidente.

Ao contrário do que se pode imaginar, o fato de os atores serem um casal na vida real não significou que eles se sentissem desconfortáveis em cena ou que a peça fosse sobre um relacionamento romântico. Inclusive, romance é algo que passa bem longe de tudo o que acontece. Há algumas cenas e falas de humor, mas a maior parte do espetáculo é composto por um intenso drama, que provoca grande catarse no espectador atento e interessado. A personagem de Taís Araújo é a mais cômica, explorando ironias e incoerências do fato de ser mulher, negra, bonita e camareira – mas ao mesmo tempo ser a heroína da história. A força feminina está bem representada.

Pôster promocional de O Topo da Montanha, com Taís Araújo
Pôster promocional de O Topo da Montanha, com Taís Araújo

A peça aborda a questão racial em sua essência, mas perpassa também por questões religiosas, devido ao fato de a profissão de Luther King Jr ser de reverendo. A personagem de Taís Araújo revela-se muito mais do que uma camareira no decorrer do espetáculo e a importância de seu diálogo e reflexão potencializa a história e gera a transformação do protagonista – algo que é meio básico de se ocorrer em qualquer drama.

Deus é uma mulher e ela é negra. E não foi a primeira vez em que eu vi isso acontecer, o que é algo que me deixa um tanto curiosa. Como não-negra, não me sinto à vontade para discorrer sobre os possíveis motivos para tal, mas tomo a liberdade para elencar alguns outros lugares em que vi isso acontecer. O primeiro foi no livro “A Cabana”, onde a revelação é feita já quase ao final da história, como parte do clímax e o segundo foi em “A Cor Púrpura”, onde a discussão sobre um deus imanente ao invés de transcendente chama muito a atenção. O que é interessante é que, em todas as vezes que esse discurso aparece, a palavra “deusa” não é utilizada. Continua sendo “deus”, como uma palavra unissex. A meu ver, a concepção faz todo sentido.

Eu tenho um sonho que minhas quatro crianças vão um dia viver em uma nação onde eles não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter - Martin Luther King, Jr
Eu tenho um sonho que minhas quatro crianças vão um dia viver em uma nação onde eles não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráterMartin Luther King Jr

Para quem desconhece a história de Martin Luther King Jr ou a frase inicial de seu derradeiro discurso, várias coisas no decorrer da peça podem parecer confusas. Isso porque muitos nomes, datas, cidades, palavras e momentos históricos dos EUA são mencionados. Particularmente, apesar de ter considerado uma das melhores peças teatrais que já assisti, fiquei curiosa para ver o mesmo casal interpretando Zumbi e Dandara em alguma outra oportunidade. Por hora e dada a atual conjuntura, me contentei com um mergulho na história do ícone estados-unidense.

A apresentação em Curitiba foi a primeira de uma turnê nacional da peça, que esteve em cartaz por um ano quase consecutivo na cidade de São Paulo. Ao final do espetáculo, os atores afirmaram que a apresentação seria única, porque eles não achavam que o teatro iria lotar. O fato é que o espaço, que é um dos maiores da cidade, estava repleto de pessoas. Na plateia, nos dois balcões e nos camarotes, o que foi absurdamente fantástico de se ver.

O ingresso é mais acessível do que o da grande maioria das atrações culturais, pelo menos das que chegam em Curitiba, custando pouco mais de 70 reais (meia entrada) para a plateia. Os balcões tinham ingressos que chegavam a 35 reais.

O Topo da Montanha no Teatro Guaíra
O Topo da Montanha no Teatro Guaíra

Com o tamanho sucesso, Taís e Lázaro afirmaram que voltarão à cidade com o espetáculo em outra ocasião. As próximas apresentações serão em Belo Horizonte, nos dias 15 e 16 de outubro.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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