Pluralismo e Ficção Científica | Tradução

Pluralismo e Ficção Científica: Estranhamento, Alteridade e Divergência

Basta aceitar a definição de Darko Suvin (1979), que propõe a ficção científica como uma literatura de estranhamento cognitivo e o resultado é uma visão intermediária entre a ficção científica e a fantasia. Se o estranhamento envolvido não for apenas no nível de dispositivos específicos, hipóteses e invenções, mas em um nível mais abrangente, a título de construção de mundos, nós podemos perceber que existem pontes entre os dois gêneros, bem como casos híbridos. Além disso, penso que esse estranhamento vai além do nível formal de “desconstrução” do herói e do monomito, tal como Bob R. Bogle demonstrou em Duna e suas sequências.

Um aspecto da consciência que recebe grande destaque em Duna é a atenção e o gerenciamento da atenção. Se nós abordamos a Jihad Butleriana a partir de interpretações simbólicas ou alegóricas, percebemos que Herbert é precursor de uma crítica daquilo que atualmente é visto como a destruição da atenção que vem sendo feita através dos maus usos das tecnologias digitais. As Bene Gesserit, bem como outras, são uma escola da atenção, e ensina seus membros a prática da atenção profunda.

Universo de Duna

A prática da atenção provê às Bene Gesserit um critério para distinguir entre homens e mulheres comuns, controlados por suas pulsões, e seres humanos capazes de sublimar tais pulsões, ligando-se à sua energia e ascendendo para além da vida do desejo. Isso é possibilitado pela disciplina da atenção, que não é uma presença contínua, mas algo que manifesta em si através de faíscas de atenção e lampejos de discernimento. Um bom exemplo é o teste de Paul com o gom jabbar para ver se ele era humano. Se o monomito define, como Bogle aponta, como é ser um humano orgânico, os esporádicos lampejos de percepção caracterizam o que é um ser humano noético.

O problema é que constantemente estamos correndo risco da desindividuação: afundamos em hábitos e deixamos ser guiados por clichés e estereótipos, aceitamos de modo acrítico e repetimos as opiniões de outros e suas percepções, proferindo palavras padronizadas e ocupando papéis pré-definidos. “Noético” não significa apenas ser consciente, mas sim tornar-se consciente de uma encruzilhada no caminho, de alternativas, levando em conta o peso da situação e inventando sua própria solução no lugar de ser guiado pelo fluxo da maioria.

avatar

Slavoj Zizek tende a ver os filmes de ficção científica como instâncias e vetores de forças de desindividuação. Ele gosta de interpretar filmes subtraindo qualquer alteridade noética e vendo aquilo como o estereótipo do drama edipiano. Esse processo interpretativo é catastrófico para a ficção científica. Por exemplo, Zizek se foca na noção de realização do desejo heroico no caso de Avatar, e também na realização do desejo familiar, em Guerra dos Mundos:

 

É fácil imaginar o filme sem os alienígenas sedentos de sangue, de modo que o que resta, de certo modo, é aquilo de que ele “realmente trata”: a história de um pai operário divorciado que luta para recuperar o respeito dos dois filhos. Aí reside a ideologia do filme: entre os dois níveis da história (o nível edipiano da autoridade paterna perdida e recuperada e o nível espetacular do conflito com os alienígenas invasores), há uma assimetria óbvia, já que o nível edipiano é aquilo de que a história “realmente trata”, enquanto o exterior espetacular é apenas sua extensão metafórica. (ZIZEK, 2011, p. 181)

 

Sua aproximação monista redutiva pode ser vista em sua asserção de que o nível edípico é aquele que a história realmente trata, condenando qualquer elemento de alteridade para ser apenas um acesso metafórico. Percebe o absurdo deste tipo de interpretação em um filme como Avatar, no qual a construção de mundo é a questão principal do filme, especialmente como Pandora é um planeta de abundância noética. Ficção científica é definida como uma “literatura de estranhamento cognitivo” justamente por se constituir explicitamente pela alteridade. Qualquer monomito, como o drama edipiano, é desconstruído pela propensão de ficção científica pela alteridade.

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Shai Hulud e o Deus Imperador. Imagem por ErikShoemaker

Imagine o que Zizek teria a dizer sobre a narrativa de Duna (ou o filme). O drama édipo é deliberadamente o plano de fundo da realização de um desejo heroico: Paul vai de um aristocrata adolescente levando uma vida protegida para se transformar em Messias de um planeta deserto. Mas o alvo de fato é desconstruir o herói e o monomito edipiano e nos abrir para uma ontologia pluralista, como histórias subsequentes tornam ainda mais claro. Como argumentou Bob R. Bogle em sua análise:

 

No Caminho Dourado, Leto procurou uma divergência de futuros. A divergência em si é o grande tema do Deus Imperador de Duna. Leto está determinado em aniquilar a necessidade da fisiologia humana por um universo ilusório no qual todos os contos convergem para uma grande Mensagem Final. Esse tema é o clímax do design original de Herbert do começo de 1960 para obliterar o mito monolítico do herói. (BOGLE, 2013, p. 938)

 

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Shai Hulud – Imagem por Estreet

Bob R. Bogle considera esse princípio pluralista de divergência em vez de um princípio de convergência como o elemento constitutivo da série Duna. Herbert foi bastante influenciado por Jung, que constantemente favoreceu a multiplicidade e a diferenciação, e nós podemos ver essa influência em todos os livros de Dune. Bogle vai ainda mais longe para descrever esse privilégio da divergência e diversidade como parte da criação de um “novo mito” no qual o pluralismo e sua abundância são afirmados em todos os níveis: “é preferível viver em um universo no qual mitologias divergem infinitamente, como a luz passando por lentes bicôncavas. E isso significa que não respostas claras – talvez nem mesmo um enredo muito claro – que assim seja”. (BOGLE, 2013, p. 939)

Posso então concluir com uma nota positiva: Vamos ler mais Ficção Científica. Leia Duna. Assista Avatar. Abrace a alteridade e afirme a divergência.

Shai Halud, o criador - Imagem de Balaskas
Shai Halud, o criador – Imagem de Balaskas

 

REFERÊNCIAS

BOGLE, Bob R. Frank Herbert: The Works. United Kingdom: Hotspur Publishing, 2013.

SUVIN, Darko. Metamorphoses of Science Fiction: On the Poetics and History of a Literary Genre. New Haven & London: Yale University Press, 1979.

ZIZEK, Slavoj. Em Defesa das Causas Perdidas. Tradução Maria Beatriz De Medina. São Paulo: Boitempo, 2011.

Texto escrito por: Terence Blake @TPBlake

Tradução por: Mayra Sousa Resende e Willian Perpétuo Busch 

Essa tradução foi gentilmente autorizada por Terrence Blake. Veja aqui a publicação original. 

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