Van Helsing S01E01 (2016) | Resenha

Van Helsing apresenta um futuro não tão distante, situado em 2019, onde o mundo foi tomado por monstruosidades que se alimentam de sangue, em meio a poeira e caos. Sob um céu amarelado, nuvens e poeira cobrem a luz solar direta. Vampiros. Em meio a conflagração do apocalipse, surge uma esperança para a humanidade: Vanessa Helsing, interpretada pela talentosa Kelly Overton.

Produzido pela Syfy, o episódio piloto (que deveria ser duplo) centra-se em apresentar Axel (Jonatham Scarfe), membro das Forças Armadas Norte-Americanas, que se encontra entrincheirado em um hospital. Ali, ele alimenta uma doutora, (Rukiya Bernard), através de uma grade. Isto porque ela havia sido infectada por vampiros há algum tempo, e o soldado decidiu não a eliminar. Em um dos momentos que Axel estava alimentando a doutora, através de uma transfusão, um grupo de sobreviventes pede asilo: Sam (Christopher Heyerdahl), Nicole (Alison Wandzura), Mohamed (Trezzo Mahoro) e Ted (Tim Guinee).

Ao introduzir esse grande grupo de personagens, que evidentemente vão ganhar mais espaço nos próximos episódios, a produção de Neil LaButte tece uma série de reflexões sobre o comportamento humano, bem como a agressividade, perante situações de crise e risco. Um exemplo disto é o momento no qual o hospital é invadido por um grupo de vampiros e Vanessa, que se encontrava em uma espécie de coma, desperta e demonstra habilidades animalescas e impressionantes de luta corpo-a-corpo.

A direção de Michael Nankin, veterano de renomadas séries como Battlestar Galactica e Hell on Wheels, é densa, o que torna o piloto um episódio complexo. Há muita coisa acontecendo na história, tanto no nível macro quanto micro, e o espectador pode ficar bastante confuso. Uma sensação de desorientação um tanto quanto parecida com aquela que Vanessa experimentou ao descobrir a situação de cataclismo e caos do mundo em que despertou.

Van Helsing é ousado no sentido que visa desconstruir um elemento constitutivo do nosso imaginário: o vampiro. Primeiramente que a série não apresenta o vampiro no sentido clássico do termo. Não é nada parecido com as monstruosidades de Buffy ou aqueles vampiros essencialmente humanos, como The Vampire Diaries. Ao mesmo tempo, não é um caminho sem volta, e isso é um passo interessante. Por exemplo, em True Blood, após um personagem se transformar em vampiro, não havia retorno possível. Van Helsing muda isso, na medida em que insere a possibilidade de uma cura a partir do sangue de Vanessa. O título do episódio, Help Me é bastante importante nesse sentido.

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Vanessa Van Helsing

Outro ponto importante é a comparação errônea dos vampiros de Van Helsing com os zumbis. Desde o massivo, e certamente exagerado, sucesso de Walking Dead, fixou-se uma acepção bastante específica sobre a figura do zumbi, bem como seus usos. O espectador desatento, pode até comparar as criaturas. Um tipo de pensamento bastante preguiçoso, que não se atende para diferenças fundamentais entre essas duas figuras de alteridade.

O zumbi, costumeiramente, é apresentado como uma criatura pautada apenas no instinto de devorar. Suas andanças sem qualquer rumo, muitas vezes feitas em grandes grupos, não vão para nada além disso. O fato de ser necessário a decapitação ou algum tipo de dano massivo na cabeça para neutralizá-lo demarca que se trata apenas de um corpo sem qualquer consciência de si.

Ocorre que os vampiros de Van Helsing são diferentes. No episódio piloto, eles demonstram claramente possuir consciência de si, bem como intencionalidade e volição em suas ações. Certamente que elementos da individualidade são mutilados pelo contágio e a busca pelo sangue os transforma em monstruosidades. Entretanto, quanto descobre-se que há um caminho de volta, uma reconquista da humanidade, o estatuto existencial do vampiro é posto em questão.

Van Helsing - série de 2016
Van Helsing – série de 2016

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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