Aelita (1924) | Resenha

É recorrente a afirmação de que a ficção científica é um produto norte-americano por excelência. Todavia, uma investigação mais cuidadosa em torno da origem do gênero, principalmente no cinema, revela outros passados possíveis.  A proposta deste comentário é discutir alguns elementos de Aelita (1924) de Yakov Protazanov e a construção da alteridade que é proposta pela obra cinematográfica.

243253-science-fiction-aelita-poster
Cartaz do filme Aelita, de 1924.

A obra de Protazanov foi produzida pela empresa Mezhrabprom-Rus, com roteiro de Fyodor Otysep e cenário de Alexei Faiko. Tal combinação opera constantemente de modo dialético. De um lado da narrativa, é apresentado a Rússia, após a gloriosa Revolução Comunista, passando por intensas transformações e urbanizações. E, de outro, o cenário marciano como avançado tecnologicamente, mas ao mesmo tempo opressivo e sem vida.

O trabalho artístico de Yuri Zhelyabuzhsky e Emil Schünemann é extremamente sofisticado. O que, sem dúvidas, funciona de modo afinado com as roupas, gestos e atuação dos personagens. O design, feito por Alexandra Exter, Isaak Rabinovich e Sergei Kozlovsky sugere uma sociedade marciana refinada e polida, ao mesmo tempo fria e solitária.

Aelita imitando o ato de beijar. Cena de Aelita (1924).
Aelita imitando o ato de beijar. Cena de Aelita (1924).

Aelita descobre a existência de Los através de um telescópio inventado por Gor (Yuri Zavadsky). Ao olhar para a Terra, a Rainha de Marte observa a intensa urbanização que o planeta experimenta no início do século XX, bem como um casal, Los e sua esposa Natasha (Vera Kuindzhi), se beijando. Curiosa com esse estranho movimento labial, rapidamente a marciana o imita, causando uma sensação de estranhamento e pavor em Gor.

O decorrer da história narra os cotidianos de Los e Aelita, contrastando duas vivências radicalmente diferentes. O engenheiro demonstra ser bastante ciumento com sua esposa Natasha, chegando ao extremo de praticar atos de violência contra ela.

25_aelita-fjeri_presse1
Cena de Aelita (1924).

Para não entrar em muitos detalhes sobre a trama, creio que é importante destacar o funcionamento da burocracia. No mundo onde Los vive, tudo é anotado, registrado e verificado. Inclusive, há uma cena em que um policial vai executar uma prisão, mas não é capaz pois não tinha o documento necessário para tal. Um pequeno detalhe do cotidiano que revela as amarras da burocracia.

Los, e outros dois colegas, acabam por “construir” a nave espacial e chegar em terras marcianas. Porém, o que ocorre lá é uma grande reviravolta. Percebendo o contexto no qual uma aristocracia detinha e exercia o poder, mantendo a população como escravos, a ação dos humanos é instaurar uma grande revolução. As lutas entre a população de escravos e as forças armadas são intensas e o conselho de anciões é finalmente deposto. Agora efetivamente uma rainha, Aelita ordena que seus ex-escravos deponham as armas… mas quando isso ocorre, o exército avança novamente sobre os rebelados, atendendo os ditames da rainha.

Com a revolução prestes a se esfacelar, cabe a Los enfrentar Aelita, matando-a em seguida. É uma cena interessante, pois mistura a imagem de Aelita com Natasha, oferecendo a sugestão (ou confirmação) de que tudo o que está sendo demonstrado como marciano é apenas uma especulação fabulativa do engenheiro. Por fim, a rainha é derrotada e se instaura a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Marcianas.

aelita_1924
Cena de Aelita (1924).

É recorrente a crítica de que Aelita é uma metáfora da viagem de Karl Marx para Marte. Mas, tal leitura, está baseada na noção de que tudo aquilo que se passa nas terras aliens é equivalente (ou idêntico) ao que ocorreu na Terra. Contra tal leitura, proponho que a obra de Aleksey N. Tolstoy, que deu origem ao filme, oferece detalhes importantes.

O primeiro deles é que os marcianos são, na realidade, descendentes dos atlantes. Trata-se de uma sociedade decadente, corrupta e manipuladora. O que se percebe com a trajetória da rainha é que há todo um amplo contexto social em movimento e efervescência. Com a chegada dos humanos, vistos como aliens para os marcianos, há uma catalisação para a revolução, e não uma manipulação propriamente dita. Os escravos de Marte não passaram a ler Marx da noite para o dia. E, se estivessem lendo, certamente interpretariam de modo bastante diferente daquele que estava sendo emprego na Rússia.

aelita-21
Cena de Aelita (1924).

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: