George Meliés: um novo imaginário cinematográfico

George Meliés foi pioneiro na cinematografia de ficção científica. Este texto explora um pouco de suas obras e origens de seu trabalho.

Haveria ficção científica no mundo grego?
Haveria ficção científica no mundo grego?

Venho percebendo que o interesse pela ficção científica cresce cada vez mais no Brasil. Isso advém, suponho eu, desde 2005, em sincronia com a “Terceira Onda” da ficção científica brasileira. De minha parte, realizei uma dissertação de mestrado em Antropologia, na qual abordei a série Star Trek: Voyager através da Machine Oriented Ontology.

Durante a fase inicial de minha pesquisa, investiguei a origem do conceito de ficção científica. Trata-se de um termo que está constantemente em disputa, e é possível encontrar teorias bem divergentes sobre. Tal é o caso de Adam Roberts, que em The History of Science Fiction (2006), pauta por um conceito amplo, capaz de incluir até as obras Ilíada e Odisséia de Homero.

Na contramão de Roberts, há acepções mais tradicionais. Tais como aquelas que apontam para Mary Shelley como fundadora do gênero, enquanto outras traçam a gênese para autores como Jules Verne e H. G. Wells. E, por último, mas certamente não menos importante, há a proposta teórica de Leon Stover (1972), que aponta o surgimento da ficção científica para a organização editorial e conceitual de Hugh Gernsback na revista Amazing Stories.

Se o conceito literário recebe tamanho destaque, o mesmo não parece ser caso da origem do cinema de ficção científica. Visando suprir isso, Éric Dufour, em O Cinema de Ficção Científica (2011) estabelece Georges Mélies (1861-1938) como o responsável pelas fundações básicas do gênero. Ilusionista e mágico, as produções de Méliès fizeram uso extensivo dos efeitos especiais para a criação de um imaginário cinematográfico único. Alguns anos antes, em 1896, Méliès havia descoberto, de modo acidental, o Stop Motion Substitution. Através deste truque, era possível transformar diferentes personagens, e ao mesmo tempo manter a composição dos cenários. Na reflexão de Dufour (2011), o cinematográfo não era apenas um homem do teatro e do espetáculo, mas também da magia e da ilusão. Ao associar isso com as influências de Jules Verne e o recurso fílmico, foi possível criar uma realidade que não dependia de sua representação para existir. De tal maneira, a ficção científica cinematográfica nasce dissociada dos limites cognitivos da epistemologia kantiana, apontando para uma outra ontologia, que por sua vez é livre do domínio da representação.

Destaque da obra Viagem à Lua, em uma de suas cenas mais famosas.
Destaque da obra Viagem à Lua, em uma de suas cenas mais famosas.

A primeira obra que destaco de Méliès é Le Voyage Dans La Lune, de 1902. Essa narrativa apresenta a curiosa aventura de um grupo de intelectuais e cientistas, liderados pelo caricato Professor Barbenfouillis, interpretado por Méliès. Responsáveis por lançar um foguete tripulado para a Lua, lá os exploradores encontram um mundo desconhecido, fabuloso e estranho. Outra obra que chama atenção é Le Dirigible Fantastique, de 1906. Em um misto de euforia, sonho e alucinação, o personagem principal explora uma viagem fantástica e mágica em um incrível, e crível, equipamento voador.

A obra que mais gosto de Méliès é Deux cent Mille lieus les Mers, de 1907, que foi baseada na obra de Jules Verne, Vingt mille lieus sous les mers: Tour du monde sousmarin, de 1870. Na produção cinematográfica, o veículo que permite que a viagem ocorra é uma espécie de avião, equipado para navegar no oceano e no subsolo, entrando em contato com um mundo ainda mais estranho que aquele de 1902. Por fim, a última produção que destaco de Méliès é À La conquête du pôle, de 1912. Mais uma vez baseando-se em Verne, dessa vez em Voyages et aventures du capitaine Hatteras (1866). O filme apresenta dois grupos rivais de baloeiros, que competem para alcançar os ermos do Polo Norte.

Retrato de George Meliés (1861-1938).
Retrato de George Meliés (1861-1938).

Essa breve apresentação de Méliès teve o intuito de lançar algumas pistas para a investigação arqueológica da ficção científica, que venho realizando.  O que se tornou evidente é que, desde suas origens, há componentes característicos que se destacam: a viagem em direção ao desconhecido, a influência da literatura, o teor cômico e a utilização de efeitos especiais que exploram novas possibilidades para o imaginário humano.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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