Marvel’s Luke Cage (2016) – Análise da primeira temporada

Marvel’s Luke Cage é uma série realizada em 2016 através de uma parceria entre a Marvel e a Netflix. Em 13 episódios, a história do herói afro-americano superforte e com pele inviolável, é contada aos espectadores. Este texto é uma análise da primeira temporada, podendo conter spoilers.

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Luke Cage, em seu traje oficial.

Contexto

Luke Cage é um personagem da Marvel Comics, cuja primeira aparição ocorreu nos quadrinhos, em 1972. De lá para cá, o personagem esteve em diversas edições de HQ, tendo sua série inicial cancelada no final dos anos 80 e retomada em 2001. Ele é conectado com diversos personagens, núcleos e histórias do universo Marvel, que mudam dependendo da geração e forma editorial.

Algumas coisas são constantes na história do personagem: ele é afro-americano, advindo do Harlem, bairro de Nova York e se chama Carl Lucas. Foi preso por um crime que não cometeu e se voluntariou a experimentos científicos na cadeia, durante estes, foi prejudicado por um carcereiro e sofreu um acidente, que gerou seus superpoderes. Tais poderes são: superforça e pele inviolável e altamente regenerativa. Desta forma, Cage é basicamente indestrutível.

Nos quadrinhos, o personagem tem ligações, com diversos outros heróis. As principais relações são com o Demolidor e o Punho de Ferro. Há ainda uma vertente de histórias em que ele se casa com Jessica Jones e tem uma filha, chamada Danielle Cage.

Além dos heróis, o personagem se relaciona com várias das equipes de personagens da Marvel. Tais como os Heróis de Aluguel, os Vingadores, o Quarteto Fantástico, os Defensores, os Vingadores Secretos e os Novos Vingadores. Cada uma destas equipes tem seu próprio eixo de histórias em quadrinhos, que nem sempre estão interligadas.

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Luke Cage, na série homônima.

Cage atua tanto como herói quanto como guarda-costas, quando precisa de dinheiro.

Marvel e Netflix

A primeira série produzida pela aliança entre Marvel e Netflix foi O Demolidor, em 2015. Até o momento ela teve duas temporadas e 26 episódios. A terceira temporada já foi confirmada. A história gira em torno de Matt Murdock (Charlie Cox), um advogado cego que tem seus outros sentidos extraordinariamente aflorados. Durante o dia, ele atua na profissão de advogado e durante a noite como vigilante.

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O Demolidor, na série homônima.

A segunda série da aliança foi Marvel’s Jessica Jones, também de 2015. Por hora, ela é composta por apenas 13 episódios, foi renovada para a segunda temporada, mas ainda sem previsão de estreia. Ela conta a história de Jessica (Krysten Ritter), que tem superforça e um trauma forte referente a um abuso sexual sofrido perante seu ex-namorado, que tem poder de controlar mentes. Tentando fugir de seus poderes, do ex-namorado e superar o trauma, Jessica decide ser uma investigadora particular, criando a empresa “Alias”.

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Jessica Jones e Luke Cage, na série Marvel’s Jessica Jones.

A terceira série é Marvel’s Luke Cage. A quarta, prevista para lançamento no dia 17 de março de 2017, é Punho de Ferro, que provavelmente contará a história do referido herói. Ao final destas quatro séries, um crossover de todas ocorrerá, na série Os Defensores, onde há a previsão de um protagonismo compartilhado entre o Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. A previsão de estreia também é para 2017.

Em razão de ter Os Defensores como norte das produções, é evidente algumas relações e conectividades entre as séries existentes até então. A principal evidência disto é a personagem Claire Temple, interpretada pela atriz Rosario Dawson. A enfermeira cubana, especialista em lidar com metahumanos, já apareceu tanto em O Demolidor, quanto em Marvel’s Jessica Jones e Marvel’s Luke Cage.

Claire Temple no sexto episódio da primeira temporada de "O Demolidor".
Claire Temple no sexto episódio da primeira temporada da série O Demolidor

Dentre as outras conexões possíveis, estão o fato de o próprio Luke Cage ter aparecido em Jessica Jones, como parte importante para a resolução do conflito da série. Além disto, ao final de Luke Cage é evidente que Claire se refere a Matt Murdock quando comenta com Luke que conhece um ótimo advogado.

O afro-americanismo

Uma das principais características das séries da Marvel é o foco na humanidade do personagem que ocupa a posição de herói. No caso de Luke Cage, essa humanidade é intrinsicamente demarcada pela questão racial e isso transparece no decorrer de toda a série.

O elenco é majoritariamente composto por atores afro-americanos, que ocupam praticamente todas as posições notórias da narrativa. Não apenas o herói, mas o barbeiro, o dono do clube de jazz, a política, a delegada, a inspetora da polícia, os radialistas e também os motoristas de ônibus e demais coadjuvantes que aparecem na história. É possível contar nos dedos os personagens não negros e é relevante demarcar que, mesmo eles, não são brancos.

Os Estados Unidos da América, assim como o Brasil, têm sua população composta por imigrantes europeus e africanos. Nos últimos anos, porém, há um aumento na imigração de outros países da América, costumeiramente da região Sul. Estas pessoas são conhecidas nos EUA como “latinos”. Em Marvel’s Luke Cage, eles compõem o núcleo criminal, tendo um chefe de cada país latino. Um dos principais personagens da temporada, Shades (Theo Rossi), também é latino.

A já mencionada Claire Temple, importante ponto conectivo entre as séries da Marvel, é filha de cubana. Sua mãe (interpretada pela brasileira Sonia Braga) é dona de um restaurante e as duas ocupam uma função essencial no desenvolvimento narrativo da série. Tudo isso deixa bastante demarcada a posição de Marvel’s Luke Cage: é uma história sobre minorias étnicas, demonstrando que elas também são importantes e também podem ser heroicas.

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Claire Temple e sua mãe, Soledad, em Marvel’s Luke Cage.

2016 tem sido um ano complicado para as questões raciais nos EUA. Mortes de jovens negros, pela força policial, têm sido noticiadas frequentemente. Além disto, um dos fortes candidatos a assumir a presidência da república, Donald Trump, é declaradamente racista e xenófobo. Após oito anos sendo governados pelo primeiro presidente afro-americano da história, a disputa presidencial de 2016 é entre Donald Trump e Hillary Clinton e, surpreendentemente, Trump obteve ótimos resultados em diversas parciais.

Neste contexto, o lançamento de uma série composta por um elenco majoritariamente afro-americano e que ressalta as questões étnicas, o preconceito e a violência policial é notável. Marvel’s Luke Cage reforça a ideia de um país multicultural e composto pela miscigenação, que deveria valorizar toda a sua população, independentemente da cor de sua pele ou origem. Sua existência e lançamento demarcam um ato de coragem e posicionamento político tanto da Marvel quanto da Netflix – e de todos os envolvidos com a produção.

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Inspetora Priscila Ridley e Detetive Misty Knight, em Marvel’s Luke Cage.

Marvel’s Luke Cage engrandece traz à tona a cultura afro-americana, fortalecida e bem representada pelo bairro nova iorquino do Harlem. A raiz africana desta cultura, no entanto não é explorada. O foco da composição étnica dos personagens é voltado para ser um negro nos EUA e não ser um afro-descendente, o que são âmbitos diferentes.

As dissonâncias e dificuldades de ser negro no país são ressaltadas e evidenciadas nos episódios finais da série, onde o questionamento “se Luke é inocente, porque foge tanto da polícia?” é recorrente. Uma fala muito clara em relação a isto é a de que “antes de ser super-herói, Luke Cage é um homem negro sendo perseguido pela polícia”.

A qualidade técnica da produção

A Netflix é uma produtora de alto escalão, cuja qualidade vêm crescendo a cada nova obra original. Em Marvel’s Luke Cage podemos perceber um tom noir, onde o uso de cenas e telas escuras, contrastadas com cores fortes como o vermelho, geram um visual sério e denso – bastante condizente com a narrativa do programa.

Os cortes curtos e as tomadas da câmera lembram, em partes, as composições cinematográficas dirigidas por Quentin Tarantino, especialmente em Django Livre e Pulp Fiction. Tal semelhança é percebida principalmente nas cenas realizadas na boate comandada por Cottonmouth (Mahershala Ali). Este visual torna a narrativa um tanto lenta nos primeiros episódios, demorando para engrenar nos conflitos, mas permite que os personagens sejam bem desenvolvidos e tenham seu contexto pessoal bem trabalhado.

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Cottonmouth, em sua sala na boate Harlem Paradise. Cena da série Marvel’s Luke Cage.

A trilha sonora é um show à parte. Como um dos núcleos da série é composto por uma boate de Jazz, vemos este ritmo musical emplacando várias cenas. É perceptível a ação de musicistas negros, estejam eles aparecendo nas cenas ou apenas tendo suas músicas tocadas. Jazz, Hip Hop, Rap e Funk embalam toda a temporada da série. As músicas casam muito bem com as cenas e com a narrativa, tornando a produção ainda mais envolvente.

A atuação é louvável. Mike Colter (Luke Cage) interpreta com exatidão seu personagem, transmitindo todos os sentimentos, as vezes sem precisar de falas. Simone Missick (Misty Knight) e Alfre Woordard (Mariah Dillard) realizam interpretações fenomenais em suas personagens, transmitindo uma verdade cênica muito grande. Na maior parte dos episódios é bastante fácil o espectador esquecer que se trata de ficção e criar uma afinidade real para com os personagens. Creio que este seja o objetivo de qualquer produção cênica, ponto para a equipe de Marvel’s Luke Cage.

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Detalhe da fotografia de Marvel’s Luke Cage. Cena com Cottonmouth ao fundo, em sua sala na boate Harlem Paradise.

Conflitos da temporada

O grande diferencial das séries originais da Netflix é o fato de que todos os episódios da temporada são disponibilizados no mesmo dia. Isto proporciona ao espectador a impressão de estar assistindo a um grande filme, ao invés de a um seriado com vários episódios. Tal fator é evidenciado pelo termo “maratona”, muito presente entre os usuários da rede de streaming. A maratona consiste em assistir a vários episódios consecutivamente.

A Netflix não disponibiliza apenas produções próprias e é evidente que todas as produções seriais têm a necessidade de impulsionar o espectador a continuar na narrativa. Para tal a técnica do cliffhanger é costumeiramente utilizada, delegando um certo suspense na cena final, a ser resolvido na primeira cena do próximo episódio. Considerando a característica da Netflix, de proporcionar a sensação de continuidade com as suas produções seriais, nem sempre o cliffhanger é explorado.

É o que ocorre no início da temporada de Marvel’s Luke Cage. É perceptível que nos primeiros episódios não há a continuidade esperada de uma produção serial. A última cena de um episódio não necessariamente é a primeira do próximo e eles ocorrem de forma independente. O artifício utilizado, nos episódios iniciais, é o de colocar uma cena clímax no início do episódio e utilizá-lo para explicar o contexto da cena inicial, que reaparece na narrativa, na parte final do episódio.

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Luke Cage e Pop conversando, em frente à barbearia. Cena da série Marvel’s Luke Cage.

Outra diferença para com as séries de TV é que a Netflix não precisa separar as narrativas em blocos, que são interrompidos pelas propagandas. Isto significa que as cenas podem ser mais compridas e complexas, possibilitando maior densidade narrativa e diminuindo a necessidade de múltiplos clímax no decorrer da história. Quando a narrativa é dividida em blocos é necessário pelo menos um clímax por bloco, além de um final que delegue vontade ao espectador de permanecer no mesmo canal, apesar do intervalo.

Tal possibilidade de fornecer cenas mais longas faz com que o primeiro conflito de Marvel’s Luke Cage, que ocorre na barbearia de Pop (Frankie Faison), demore três episódios até estar consolidado. Isto significa que os três primeiros episódios funcionam como introdução para a grande narrativa da temporada, introduzindo o conflito inicial e mostrando o posicionamento dos personagens.

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O barbeiro Pop, em seu local de trabalho. Cena da série Marvel’s Luke Cage.

A barbearia de Pop aparece como um local neutro e sua morte é consolidada a partir de um erro de um dos membros da gangue de Cottonmouth. Luke, no entanto, não sabe que se trata de um erro e sente necessidade de fazer justiça por seu amigo. O que, de antemão, é estranho, é que Luke não tenha corrido para proteger Pop ao invés do outro garoto, quando a barbearia foi atacada. Mas relevemos o fato, visto que o desenvolvimento narrativo gerado por ele é compensador.

A resolução deste conflito demora mais três episódios. Desta forma, é possível dizer que a temporada foi pensada em atos. O primeiro seria o desenvolvimento do conflito entre Luke Cage e Cottonmouth, estabelecido pela morte de Pop. O segundo seria a resolução deste conflito, com o enfrentamento entre Cage e Cottonmouth.

Luke em frente às homenagens póstumas a Pop, próximo à sua barbearia. Cena da série Marvel's Luke Cage.
Luke em frente às homenagens póstumas a Pop, próximo à sua barbearia. Cena da série Marvel’s Luke Cage.

Durante este pretenso segundo ato, o surgimento da bala “judas”, a única capaz de matar Cage, introduz outro personagem importante para os próximos atos: Diamondback (Erik LaRay Harvey). Tal personagem é responsável tanto pelo segundo grande conflito da temporada, quanto pelos atos finais da mesma.

Tudo começa no sétimo episódio, com o aparecimento de Diamondback. O personagem já havia sido mencionado anteriormente, visto que era o principal fornecedor das armas vendidas por Cottonmouth. Logo descobrimos se tratar do meio-irmão de Luke. Os dois cresceram como melhores amigos e só depois Willis Strycker (nome de batismo de Diamondback) descobriu ser meio irmão de Carl Lucas. Decidiu que precisaria se vingar do carinho que Carl recebeu do pai, matando-o. No entanto, descobriu que seu meio-irmão agora era praticamente invencível e para tal criou uma nova arma, capaz de mata-lo.

O segundo conflito, portanto, é entre Luke Cage e seu meio-irmão, que veio à Nova York com a intenção de dominar o tráfico de armas e drogas, ocupando o lugar recém vago de Cottonmouth e, de quebra, realizar sua vingança pessoal, dando cabo em Luke Cage. Este conflito é estabelecido no terceiro ato da série, que também é composto por Mariah Dillard tendo um colapso nervoso e fazendo com que toda a cidade perseguisse Cage, como se ele fosse um grande bandido. A partir desta etapa o dispositivo de cliffhanger passa a ser explorado e parar de assistir aos episódios torna-se quase impossível ao espectador.

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Willis Strycker ou Diamondback. Cena da série Marvel’s Luke Cage.

O quarto ato e, portanto, o final, é a resolução de todos estes conflitos. Luke Cage já havia se desencantado com sua ex-esposa, Reva Connors (Parisa Fitz-Henley), já havia quase morrido e renascido, já havia desmascarado todos os seus inimigos e conquistado a confiança da delegada de polícia, além do coração de Claire. Tudo para desencadear no grande embate final: Carl Lucas vs Willis Stryker.

Em paralelo ao conflito do protagonista, temos Mariah Dillard e Cottonmouth. Ela, advogada e política e ele o chefe do tráfico de armas e drogas do Harlem. Os dois são primos e têm negócios envolvendo dinheiro e influências, o que desencadeia uma série de conflitos particulares. Tais conflitos são explorados no decorrer da série, que dá espaço para o contexto pessoal e o passado dos personagens, explicando sua construção psicológica e ações do presente. A ação deste núcleo da série é essencial para o conflito do protagonista e ocorre nos quatro atos já mencionados.

O final da temporada é interessante, por demarcar a possibilidade ou não de uma continuidade. Caso a série seja ali encerrada, não há problemas. Todos os conflitos estabelecidos na temporada foram resolvidos ou encaminhados e é possível que o espectador imagine o desencadeamento daqueles fatos, sem a necessidade de uma nova temporada. No entanto, caso haja uma continuidade, não é muito difícil imaginar para onde ela seria direcionada e é inquestionável o fato de que será realizada com equivalente densidade narrativa e de produção.

Impressões finais

A série impressionou. Mostrou muito bem a que veio, conseguiu inserir com clareza o personagem principal, explorando seu contexto e história. Para quem acompanha as outras produções da Marvel, Luke Cage faz ainda mais sentido, devido às possíveis conexões. No entanto, a série pode ser compreendida por leigos do universo. A única diferença é que eles não conseguirão captar todas as referências.

Senti uma dificuldade no quesito localidade temporal. A princípio, fica difícil compreender se os acontecimentos são prévios ou posteriores aos acontecimentos de Marvel’s Jessica Jones, que envolveram o personagem. A partir do momento que Claire Temple aparece e os dois já demonstram se conhecer, torna-se perceptível que a série é posterior a Marvel’s Jessica Jones. Isto é, inclusive, explicitado por uma das falas de Claire.

No entanto, ainda assim é um tanto complicado localizar o espectador temporalmente. Em Marvel’s Jessica Jones, Cage era dono de um bar e procurava saber sobre o assassinato de sua esposa. Em sua série própria, Cage aparece trabalhando para um barbeiro, que conhecia sua falecida esposa. A relação estabelecida entre ele e Pop teve Reva como alicerce e fica claro que o emprego concedido a ele só existe por causa de Reva. No entanto, se ela já estava morta há tempos, por que só agora Cage foi atrás de Pop? Por que só depois de todos os acontecimentos de Marvel’s Jessica Jones ele decidiu morar em Harlem? Além destas questões, a narrativa explicita que ele estava ali por apenas cinco meses. No entanto, os diálogos entre ele e Pop faziam parecer que ele tinha ido para Harlem desde que saiu de Seagate. Mas não foi o que ocorreu. Esta questão temporal ficou bastante confusa e a série não conseguiu explicar direito.

Outro ponto estranho é o fato de Jessica Jones não ser mencionada como possibilidade de ajuda para a resolução dos conflitos. Eles não terminaram a série dela brigados ou algo assim, não eram um casal propriamente dito, mas eram amigos. É estranho que ele passe por tudo aquilo e não a mencione. É estranho que nem Claire tente menciona-la.

Dois episódios destacaram-se, a meu ver. O quarto, intitulado Step in the Arena, por focar-se no momento em que Carl Lucas se torna Luke Cage, ainda na prisão de Seagate. O episódio também é importante por introduzir a personagem Reva e o relacionamento que ela estabelece com Luke. O outro episódio que me chamou atenção foi o nono, DWYCK, em que Claire e Luke vão atrás do médico responsável por sua transformação, para que ele ajude a recuperar Cage do tiro tomado. O episódio é relevante por demarcar o desencantamento de Luke perante Reva, ao entrar em contato com a pasta de arquivos que ela mantinha dele, enquanto preso. Acaba-se por descobrir que o relacionamento dos dois foi baseado em mentiras e isto acaba com Luke, que tinha em Reva seu alicerce para a nova persona.

Para além destes episódios, é interessante demarcar que a série é repleta de cenas que contam o passado dos personagens principais. Isto ocorre tanto com Carl Lucas, quanto com Willis Strycker, Cottonmouth e Mariah Dillard. A humanidade dos problemas enfrentados pelos personagens, explicada contextualmente, é sempre mostrada como parte relevante da história.

Outros destaques são para as relações de Luke com Claire e Luke com Misty. Enquanto Claire demonstra confiança indubitável em Cage, estando ao lado dele independentemente do que ocorresse, Misty, por ser delegada, era repleta de pés atrás. Ao final, Misty percebe que deveria ter confiado em Luke desde o começo e Claire torna-se a heroína do herói. No fim das contas, apesar de superpoderoso, Luke pouco seria se não tivesse mulheres como Reeva, Jessica Jones, Claire Temple e Misty Knight em sua vida.

A série é muito mais sobre ser um negro nos Estados Unidos do que sobre ser um super-herói. E não há problema algum nisto, pelo contrário, é uma decisão incrível dos produtores, pois faz com que a série passe uma mensagem muito poderosa ao país de origem. Mas é um bom alerta para quem acha que vai se deparar com uma série repleta de heroísmo. Cage é mostrado como um humano com conflitos psicológicos, familiares e existenciais, que, além de tudo isso, é superforte. E não o contrário. Isto dá um peso narrativo muito diferente para a história.

Por fim, ressalto que a série é boa, apesar de exigir paciência para que a história engate. Vale apena ser assistida e a Netflix está, mais uma vez, de parabéns.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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