O Jogo Vol.1 (2010) – Anders de la Motte | Resenha

Este texto é uma resenha do primeiro livro da trilogia The Game, escrita por Anders de La Motte em 2010. Após expormos o básico da história, realizamos uma análise da narrativa e elencamos seus prós e contras. Contém spoilers.

The Game Volume 1 – Banner de divulgação, realizado pela editora DarkSide Books.

The Game é uma trilogia de livros escritos por Anders De la Motte. O primeiro volume, chamado O Jogo, foi lançado em 2010 na versão original, foi disponibilizado no Brasil em 2015, a partir da tradução de Alexandre Matias e Mariana Moreira Matias, pela editora DarkSide Books. É importante destacar que a tradução foi feita a partir da edição inglesa.

A história de O Jogo se passa na Suécia na época contemporânea, e tem como foco dois personagens: Henrik e Rebecca. Henrik encontra um celular que fornece tarefas para ele, relacionadas com “O Jogo”. Cada uma das tarefas realizadas tem uma pontuação específica, sendo filmadas e exibidas online dentro de uma rede secreta de jogadores e espectadores. As tarefas são controladas pelo Mestre do Jogo e, na medida em que Henrik as realiza, descobre que elas se tornam progressivamente mais difíceis com o passar do tempo.

A princípio Henrik não quer participar d’O Jogo e recorre ao seu amigo Farook, que é revertido ao islamismo e dono de uma loja de produtos de tecnologia, a fim de conseguir ajuda para não participar d’O Jogo, que funciona através do celular, e manter o aparelho em funcionamento.

A amizade dos dois continua no decorrer de toda a narrativa. O aparecimento da religião islâmica torna-se importante para o desencadear dos fatos, visto que um dos ápices da história é a possibilidade de o atentado às Torres Gêmeas ter sido apenas uma aventura d’O Jogo. Para saber o desencadeamento deste fato em específico e poder analisar a representação que a religião islâmica tem na obra, é necessário ler as outras obras da trilogia.

Rebecca é uma jovem policial da Polícia Especial da Suécia (algo como o FBI estados-unidense), que foi recém promovida para o cargo de Guarda-Costas de pessoas importantes. A jovem mora sozinha, na mesma cidade que Henrik. A narrativa de ambos os personagens é contada em paralelo, mas se intercruzam em determinado ponto, quando descobrimos que ambos são irmãos.

A relação entre Henrik e Rebecca é construída como uma resistência à violência do mundo. Rebecca protegia seu irmão de ser espancado pelo pai durante a infância, e Henrik fez o mesmo por ela, quando descobriu que ela sofria abuso sexual por parte de seu parceiro. O Jogo, em si, que tem um funcionamento bastante misterioso, é um fator agravante na medida em que constantemente coloca Henrik em situações de risco, sendo que as principais dela têm na figura de sua irmã a principal antagonista, pelo fato de ela ser Guarda Costas.

CRÍTICA

Belas capas podem conter boas obras, ou não. O trabalho de edição externo da DarkSide é muito bom, assim como a qualidade das folhas internas. Além disso, o livro conta com um marca-páginas exclusivo que tem referência direta ao trabalho de ficção em si. Todavia, basta começar a história para os problemas também ganhem forma.

A tradução, que se trata na realidade de uma tradução de tradução, produziu frases truncadas e confusas. No decorrer do texto, o leitor pode se perder pois o estilo de escrita não acompanha a velocidade da história. Além disto, o trabalho de edição interno não colabora para explicitar os momentos nos quais se está diante do ponto de vista de um personagem ou do outro. Isso gera situações bastante confusas que prejudicam o compasso da narrativa como um todo.

A narrativa em si não desperta muito interesse. Certamente que a premissa instituída pela noção de “jogo” é intrigante, mas não consegue ir para além disso. As tarefas realizadas por ambos os personagens carecem de sentido, mas que acabam ganhando uma certa forma nas páginas finais. Essa ida-e-vinda desprovida de propósito só consegue pretender a atenção do leitor na medida em que opera por camadas de reviravoltas textuais. Estas, por sua vez, são tão excessivas que comprometem a própria integridade dos personagens, alguns inclusive reduzidos a estereótipos.

Os pontos interessantes da narrativa estão na relação entre os protagonistas, que escapa do padrão romântico com o qual estamos acostumados e no aparecimento de um personagem revertido ao islamismo. No entanto, como já explicitado, para podermos formar uma opinião mais completa sobre a representação islâmica na história, seria necessário prosseguir para a leitura do restante da trilogia.

De desvantagens, vemos o excesso de coisas que podem ser relacionadas com outras obras literárias. Em específico, a pseudo-semelhanças para com a narrativa de Millennium, que foi o maior sucesso internacional da literatura sueca. Nesta história também ocorrem investigações e relação importante com a tecnologia. O caráter também é investigativo e há várias narrativas e pontos de vistas no decorrer dos livros. Tais premissas aparecem, de certa forma, em O Jogo. Talvez o Anders De la Motte se inspire em Stieg Larsson, ou talvez seja o gênero literário que faça mais sucesso na Suécia. O importante é destacar que, apesar das premissas parecidas, a qualidade da história de la Motte é menor que a de Larsson.

Há também possíveis semelhanças com o Projeto Desordem e Destruição, de Clube da Luta. Tal projeto visa tirar a ordem e destruir grandes corporações capitalistas, a fim de gerar um colapso no sistema. O Jogo, embora tenha premissa puramente lucrativa e seja financiado por grandes corporações, também causa desordem e destruição. As regras do Jogo são semelhantes às do Projeto de Clube da Luta, visto que o participante não pode contar sobre o Jogo ou sobre suas missões para outra pessoa.

Por fim, falta originalidade na história de La Motte. Apesar de ótimos elementos e oportunidades de construir envolvimento com o leitor, isso acaba sendo muito retardado. O final do livro é empolgante, mas isso acaba sendo um problema, visto que o leitor precisa chegar até o final da história para se empolgar. O preço da edição brasileira desmotiva a compra das continuações, visto que há o risco de elas serem tão tecnicamente complicadas quanto o primeiro livro.

REFERÊNCIA: De la Motte, Anders. O Jogo. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2015. 284 p.

Texto escrito por Mayra Sousa Resende e Willian Perpetuo Busch.

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