O Lar das Crianças Peculiares (2016) | Resenha

O Lar das Crianças Peculiares é a versão cinematográfica do primeiro livro da trilogia O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares. Este texto versa sobre o filme e contém spoilers.

CONTEXTO

O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares foi o romance de estreia de Ramson Riggs, que é colecionador de fotografias e a princípio iria publicar um livro-imagem. Um editor, no entanto, sugeriu que ele inserisse uma narrativa, que conectasse as imagens. A partir disso, Riggs começou a pensar a história que se tornou o primeiro livro, intitulado O Lar (ou Orfanato, dependendo da edição) da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, que foi lançado em 2011. A continuação recebeu o título de Cidade dos Etéreos e o terceiro volume é chamado de Biblioteca das Almas. Todos eles foram publicados no Brasil em 2016. O primeiro livro tem duas edições, uma realizada pela Editora Leya e outra pela Editora Intrínseca, responsável pela publicação dos os outros dois números da trilogia.

Capa do primeiro livro, edição da Leya.
Capa do primeiro livro, edição da Leya.

Os direitos do primeiro livro foram comprados pela Fox, que contratou Jane Goldman para realizar o roteiro, Tim Burton para a direção e Eva Green para interpretar a Srta. Peregrine, além de Asa Butterfield para o papel de Jacob. A música ficou por conta de Michael Higham e Matthew Margeson. O filme estreou no Brasil em 30 de setembro de 2016.

TIM BURTON

Burton estreou como diretor em 1971, com o curta-metragem The Island of Doctor Agor. De lá para cá, foram 36 direções, entre animações e live actions. Alguns destaques são: Beetlejuice – Os Fantasmas se Divertem (1988), Batman (1989) e Batman: O Retorno (1992), Edward Mãos de Tesoura (1990), A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999), O Planeta dos Macacos (2001), Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2003), A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005), A Noiva Cadáver (2005), Sweeney Todd: O Barbeiro demoníaco da Rua Fleet (2007) e Alice no País das Maravilhas (2010).

Além de diretor, ele também cumpriu a função de produtor, escritor e ator. Participou ainda do departamento de arte e de animação. No total, suas participações relacionadas a filmes ultrapassam uma centena. Ele revolucionou o cinema de horror, agregando cenas cômicas e investindo na caracterização de personagens. Suas películas costumam ser lúdicos e voltados ao público infantil, apesar de terem um clima gótico e underground. Em geral, as obras acabam por agradar pessoas de todas as idades. Burton agregou uma legião de fãs e se tornou popular a ponto de receber uma exposição com o próprio nome, que já, inclusive, esteve em São Paulo.

Ele foi casado com Helena Bonham Carter, de 2001 a 2014 e, junto com ela e com Johnny Depp, se tornaram um importante trio para a cinematografia hollywoodiana. Por muito tempo, os filmes de Burton contaram com parceria entre Bonham Carter e Depp, o que garantia uma excelente atuação e proporcionava uma ótima experiência ao espectador. Nas últimas produções, vemos que Burton têm explorado novos atores e Eva Green, que aparece como protagonista de O Lar das Crianças Peculiares, já havia trabalhado com o diretor, em Sombras da Noite (2012).

Tim Burton
Tim Burton

EVA GREEN

A atriz francesa começou sua carreira em 2003 e já atuou em 20 obras diferentes. Teve seu primeiro destaque com o filme Cruzada, de 2005, onde interpretou Sibylla. Em 2006 participou da saga 007, no filme Cassino Royale, interpretando Vesper Lynd. Por este papel, ganhou um prêmio BAFTA e um Empire Awards.

Teve grande reconhecimento e agregou muitos fãs após a participação em duas séries. A primeira foi Camelot (2011) onde fez a antagonista principal da história, Morgan. Entre 2014 e 2016 compôs o elenco principal da aclamada série Penny Dreadful, onde interpretou Vanessa Ives. Por este papel, ela recebeu um Globo de Ouro, um Critics Choice Television Awards e um Satellite Awards.Em seu trabalho prévio com Tim Burton, Sombras da Noite (2012), a atriz interpretou a bruxa Angelique Bouchard, “Angie”.

eva-green-como-srta-peregrine
Eva Green

Acostumada com papéis misteriosos e que envolvem fantasia, aventura, ação e história, Green foi uma ótima escolha para interpretar a Srta. Peregrine e, como podemos ver no decorrer do filme, o papel se encaixou muito bem a ela. A atuação foi tão natural que nos resta esperar com muita ansiedade pelas continuações do filme.

O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES

O filme tem duração de 2 horas e 7 minutos e conta com um elenco incrível. A direção de Burton dá um toque especial já na cena de entrada, com as quebras sonoras e o cenário escurecido. O tom de fantasia e descobertas fica presente no decorrer de toda a história.

Apesar de não ter lido o livro, ouso dizer que a inserção das fotografias como pano de fundo para a narrativa foi bem colocada. A história fica bastante amarrada e desencadeia num final interessante. A crítica principal em relação à adaptação, resta na questão da fenda temporal, que acaba não sendo tão bem explicada. Imagino que no livro não haja este problema, mas no filme ficamos um tanto perdidos quanto a em que época se passam as cenas finais.

Por exemplo, quando a Srta. Peregrine não consegue mais reiniciar a fenda do Lar, as crianças saem da fenda, mas não sabemos se elas ficam em 1943 ou se vão para 2016. Imagino que o decorrer da história siga se passando em 1943, mas isso não fica definido e creio que teria sido válido colocar um pequeno letreiro com a data em que as cenas estavam ocorrendo.

Jacob, interpretado por Asa Butterfield.
Jacob, interpretado por Asa Butterfield.

Para quem não sabe do que se trata, a história versa sobre Jacob que, logo no início, presencia a morte de seu avô, Abe. Ocorre que Abe era muito idoso e contava histórias fantásticas para Jake desde sua infância. No dia de sua morte, o avô pediu para que Jake visitasse a ilha, em Gales, encontrando-se com a Srta. Peregrine.

Porém, os pais de Jacob não acreditavam nas histórias de Abe, que havia sido diagnosticado como portador de demência. Para eles, as histórias eram apenas fantasias e o garoto não deveria leva-las a sério. Devido ao grande trauma, Jacob começou a ir numa psicóloga e em uma das sessões teve a ideia de ir até a ilha, só para atestar se o que seu avô falava era verdade ou não. A psicóloga aprovou a ideia e ele e seu pai partiram em viagem para Gales.

criancas-peculiares
Algumas das “crianças peculiares”.

Dentre as histórias do avô, estava a de que ele havia morado em um lar para crianças peculiares, dirigido pela Srta. Peregrine. Segundo ele, no Lar havia uma menina que flutuava, um menino invisível, outro que tinha abelhas que saíam pela boca, outra que tinha fogos nas mãos, a Srta. Peregrine, que se transformava em pássaro e várias outras crianças igualmente peculiares.

No decorrer da história somos apresentadas ao dito Lar, à Srta. Peregrine e às crianças. Um fato bastante interessante do filme é que as crianças são o grande destaque da história, e não a Srta. Peregrine, como o título do livro poderia nos fazer imaginar. Este é um fator interessante também, pelo fato de Eva Green ter sido um dos nomes e rostos mais explorados no trabalho de marketing do filme. Na realidade, sua personagem desaparece na parte principal da história e só retorna ao final.

Isso é interessante, porque permite que as crianças peculiares tenham suas personalidades exploradas. As peculiaridades são levadas em conta e elas aprendem a utilizá-las de forma proveitosa e útil no quesito de resgatá-las.

etereo
Etéreo

Como toda aventura, o filme tem vilões. Neste caso, são seres que precisam comer olhos de crianças peculiares para continuarem vivos e com aparência minimamente humana. A grande batalha do filme é justamente das crianças tentando vencer estes seres e o papel que Jacob cumpre nesta trajetória é maestral, pois ele é o único que consegue enxergar as criaturas, que são chamadas de Etéreos.

O filme rende cenas maravilhosas. Dentre a ansiedade, a escuridão e a angústia que a história transmitem, resta um enorme espaço para a comicidade e para a exploração das habilidades de Burton na direção, principalmente artística. Neste quesito, destaco a cena em que as crianças batalham com os Etéreos. É uma cena simples, sediada em um parque de diversões, que une todas as peculiaridades infantis em uma batalha possivelmente sanguinária. A ambientação é incrível, mas a maquiagem e a edição de som fazem toda a diferença.

trecho-cena-da-luta-das-criancas-contra-os-etereos
Imagem da cena em questão.

É a cena em que é mais visível ver como um trabalho de direção bem feito pode realizar coisas incríveis. Digo isso porque é uma cena aparentemente simples e que poderia ter sido montada e realizada de diversas outras maneiras, mas acoplou todas as características que fazem de Tim Burton uma excelência na direção cinematográfica hollywoodiana e se transformou em uma cena que é a cara do diretor, mas também dos atores e da narrativa. Recordo-me de ficar tão absorta no decorrer da cena que até senti saudades dela quando acabou. É uma cena que vale apena rever.

E, é claro, não foi a primeira vez que Burton me causou essa sensação. Em todo filme dele que assisto consigo elencar pelo menos uma cena que me cause exatamente a mesma vontade de rever em looping. Por isso categorizei aqui como “cena Burton”, acho que cabe bem o nome.

samuel-l-jackson-como-sr-barron
Samuel L. Jackson como Sr. Barron.

Ademais, destaco a participação de Samuel L. Jackson como antagonista. Fiquei muito surpresa em vê-lo em um filme de fantasia e mais surpresa ainda por ver o quanto ele abraçou o personagem e como ele se deu bem com o Sr. Barron. Sou acostumada a ver Jackson em filmes dirigidos pelo Tarantino, então foi realmente um baque enxergar o mesmo ator em um personagem tão diverso daqueles com os quais estou acostumada. Admiro muito os atores que conseguem ser versáteis a este ponto e acredito que para trabalhar com o Burton esse seja um dos pré-requisitos principais, vide todas as transformações pelas quais Johnny Depp e Helena Bonham Carter já passaram na mão dele. Foi incrível e, mais uma vez, apesar de uma forma bem diferente, Samuel L. Jackson me fez vibrar.

Por fim, como uma fã convicta das obras de Tim Burton e uma entusiasta das histórias da Srta. Peregrine gostei muito do resultado final proporcionado pelo filme. Acho que é um filme bastante agradável para se ver em família, mas também para ser assistido sozinho. É uma narrativa leve e ao mesmo tempo bastante envolvente, que consegue elevar o pensamento do espectador para a mesma fenda temporal na qual a história se passa e fazer com que ele vivencie a história junto com Jacob e as outras crianças peculiares. Para quem assistiu e gostou de Peixe Grande e suas histórias Maravilhosas, O Lar das Crianças Peculiares certamente é uma boa pedida.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

0 thoughts on “O Lar das Crianças Peculiares (2016) | Resenha

  1. Nossa, ainda não assisti o filme rs , mas fiquei mega curiosa pra conferir. Gosto muito das obras e filmes dirigidos pelo Tim também, e que bacana que eles focaram bastante nas crianças peculiares. Realmente a atriz Eva Green marcou bem a estreia do filme na mídia. As crianças são super talentosas, já vi o ator Asa que faz o Jacob no filme, e ele é um ator e tanto.
    Demais sua resenha, amei!! Super bem elaborada e deixa a gente super interessado em ver o filme.

    Beijo da Kaa😘
    // Senhorita Nerd.com //

    1. Oi Karina! Espero que você já tenha assistido o filme! Se sim, espero que tenha gostado! É incrível como o Burton consegue deixar sua marca registrada nas obras que dirige, né?
      Obrigada pela leitura e pelo comentário! Um abraço!

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: