Videodrome (1983) | Resenha

Este texto é uma análise sobre o filme Videodrome – A Síndrome do Vídeo, de 1983. Pode conter spoilers.

Videodrome – A Síndrome do Vídeo é uma película de 1983, com 87 minutos de duração, que mistura suspense, horror e ficção científica. Com direção de David Cronenberg e estrelado por James Woods, que interpretou Max Renn. Centrado neste personagem, dono de um canal de televisão. Sua emissora tem o diferencial de contar com uma programação oriunda de outros países e carece de qualquer produção própria.

Renn aparece no início da narrativa disposto a encontrar um novo programa para chefiar a programação de sua televisão. Ele quer algo denso, violento, e duro, que cause sensações fortes nos espectadores. Para tal, conta com o auxílio de Harlan (Peter Dvorsky) que trabalha na emissora, coletando sinais de televisão pirata e gravando-os em fitas cassete. É assim que Renn entra em contato com Videodrome.

Harlen e Renn, na sala de pirataria da emissora. Cena de Videodrome (1983).
Harlan e Renn, na sala de pirataria da emissora. Cena de Videodrome (1983).

Videodrome, ou, Arena de Vídeo, é um show televisivo onde um espaço de tortura é exibido. O programa consiste em uma pessoa, vestida com um macacão laranja, sendo massacrada por um torturador, cujo rosto não é mostrado. A cena se passa em uma sala retangular com fundo vermelho. Aparentemente a parede é eletrificada, auxiliando no clima de tortura. Não é possível saber se as cenas são uma mera performance ou se são reais.

Renn interessa-se em transmitir Videodrome em sua rede de televisão. No entanto, ele começa a ter alucinações e descobre estarem relacionadas com o programa. Na realidade, o sinal não havia sido pirateado por Harlen, que havia infiltrado propositalmente o vídeo, com o intuito de fazer com que Renn o colocasse na programação do canal 83. Harlen já sabia que ao entrar em contato com o programa o espectador passaria a desenvolver alucinações e trabalhava para o desenvolvedor, que tinha a intenção de tornar a população global altamente dependente da televisão, vítima de Videodrome.

Ao experimentar as alucinações, Max Renn entra em contato com outras vítimas de Videodrome, tentando desmascarar seus criadores. É assim que ele conhece Bianca O’blivion (Sonja Smits), cujo pai havia sido a primeira vítima fatal do programa – e também um dos responsáveis por sua criação. É ela quem explica a Renn os efeitos do vídeo e tenta alertá-lo sobre seus perigos.

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Bianca O’Blivion na sala de seu pai. Cena de Videodrome (1983).

A principal fonte de alucinação de Max Renn é Nicki Brand (Debbie Harry), radialista por quem o protagonista nutre uma paixão violenta. Eles acabam tendo um relacionamento amoroso e Nicki segue aparecendo na narrativa como pivô de todas as alucinações de Max Renn, inclusive de sua derradeira. Não é possível saber se o relacionamento de fato existiu ou se foi sempre parte das alucinações do produtor televisivo. Uma questão constante para a própria experiência do Videodrome.

Nas tentativas de obter legalmente a licença de Videodrome, Max Renn pede o auxílio de Masha (Lynne Gorman), uma de suas funcionárias. Ela pede para que seu chefe fique longe da produção, afirmando-a como muito além daquilo que ele está disposto. Uma frase bastante importante da personagem é a que diz que Videodrome tem algo que o patrão não tem: uma filosofia.

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A personagem Masha. Cena do filme Videodrome (1983).

Quando paramos para pensar nos simbolismos da história, a princípio a percebemos como uma teoria conspiratória de dominação de massas através da virtualidade televisiva, um pensamento corriqueiro da era pré-informática. Há vários questionamentos e ideias no decorrer da narrativa, principalmente as expressadas por Brian O’blivion (Jack Creley), que dizem respeito à uma inversão de realidades causada pela era televisiva. O ápice desta imersão na outra realidade dá-se na cena em que Max Renn beixa Nicki através da tela da televisão.

Quando levamos a sério a ideia de Masha de que Videodrome se constitui como um projeto filosófico, convém perceber tal significância. Videodrome se constitui em pelo menos três níveis distintos: epistemológico, ético e político. Todos se direcionam para a criação de uma fenomenologia.

No nível epistemológico, a noção de espaço virtual é fundamental. Sua presença coloca constantemente tanto o espectador, quanto os personagens, em dúvida sobre a realidade daquelas experiências. Assim, a epistemologia de Videodrome, diferente da nossa, não está fundada na oposição entre enunciados verdadeiros e enunciados falsos, mas sim na possibilidade de enunciados falsos dentro de enunciados verdadeiros e vice-versa.

No nível ético, em um mundo de puras virtualidades, as ações do homem deixam de ser experimentadas em nível e impacto social. O’blivion mostra que uma epistemologia televisiva que visa experimentar os programas enquanto realidade tem um impacto na própria constituição de sujeito. Isto é, dentro de um espaço virtual maleável, as categorias éticas que nós aplicamos, e fundamentalmente a divisão entre certo e errado, são postas em xeque. É por isso que a tortura se transforma em um elemento comum e de ampla aceitação.

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Brian O’Blivion, falando através da televisão. Cena de Videodrome (1983).

Deste panorama ético, fica fácil pensar em uma forma de governo político, de si e de outros, que está pautada apenas nas experiências virtuais. A possibilidade de uma exibição massiva de Videodrome servia para coroar o domínio da população, que ao ser refém de camadas e camadas de virtualidades, perderia seu contato com a realidade. Todavia, o próprio Videodrome também seria uma maneira de se emancipar disto a parir da noção de “nova carne”.

A “nova carne”, que está no nível fenomenológico, aparece como uma forma de junção entre o virtual e o atual, a partir da confluência da técnica no corpo humano. Essa, inclusive, é a história propriamente dita da película, que está focada em narrar a construção de um novo corpo para Renn, na medida em que este experimenta o Videodrome, confluindo para a síntese entre carne e arma, tal como nas cenas finais.

A imagética do filme é impressionante. Fazendo um uso bastante criativo dos efeitos de alucinação, mediados pela distorção da imagem, a narrativa tem um efeito simétrico ao próprio Videodrome, na medida em que capta o espectador em sua órbita. O final, característico das obras de Cronenberg, fica em aberto para as mais diversas interpretações, sendo a emergência da “nova carne”, síntese entre orgânico e sintético, uma das principais questões.

Videodrome também chama atenção pela convergência entre o registro do horror e o da ficção científica. Apesar de típica dos filmes da década de 1980, convém destacar que tal junção já estava presente no Frankenstein ou o Prometeu Moderno, de Mary Shelley. Para além disso, Cronenberg resgata a ideia de uma televisão como forma de opressão e manipulação, recorrente de 1984 de George Orwell, mas faz siso de modo dialético, pois a virtualidade é responsável pela emergência da “nova carne” em um mundo pós-virtual.

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Max Renn. Cena do filme Videodrome (1983).

Texto escrito por Mayra Sousa Resende  e Willian Perpétuo Busch.

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