O Outrem Maquínico em Blade Runner (1982) e Matrix (1999)

A máquina, frequente em narrativas de ficção científica, é aqui pensada a partir de um viés antropo-filosófico, tomando como base as obras cinematográficas Blade Runner (1982) e The Matrix (1999).

Memories of dreams, por Afantine
Memories of dreams, por Afantine

O gênero da ficção científica, seja em suas produções literárias, gráficas ou cinematográficas, é capaz de lançar vasta amplitude de questões antropológicas e filosóficas. Tal é o caso de Blade Runner (1982) e The Matrix (1999). Desde uma proposta do embate entre o estatuto epistemológico, e ontológico da realidade, que resultaria certamente em uma troca de socos entre Aristóteles e Morpheus, até uma profunda reflexão sobre as orientações éticas do Dasein diante de sua finitude existencial, que talvez resultasse em um abraço paterno de Roy Batty e Heidegger.

Deixando tais fan fictions de lado, aqui pretendo focar no estatuto da máquina, a partir de suas diferentes formas de agência. Algo recorrente em ambas as obras referidas. Esta “fenomenologia maquínica” foca-se na apresentação da máquina como uma alteridade com duas características constitutivas: radicalidade e potencialidade. As concepções de alteridade que aparecem na ficção científica demandam um posicionamento prévio em torno daquilo que é entendido por humanidade, em oposição à não-humanidade.

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Blade Runner, pôster.

Blade Runner, baseado na obra Os Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas (1968), de Philip K. Dick, aponta, logo em sua abertura, uma situação apocalíptica, e por isso contemporânea, na qual a ameaça causada pela possível confluência entre humanos e máquinas se desdobrou na prática conhecida como “aposentadoria”.

A partir do momento no qual a máquina deixa de servir aos interesses da sociedade, independentemente de quais sejam estes, há apenas um destino possível – o lixo. Este posicionamento é encarnado em Deckard (Harrison Ford) e evidenciado no primeiro diálogo  que ele  tem com a replicante Rachel (Sean Young):

Deckard: Replicantes são como qualquer outra máquina. Ou eles são um benefício, ou um problema. Se forem um benefício, não é meu problema.

A obsolescência da máquina é inerentemente humana. Abandona-se uma máquina na medida em que há a disponibilidade de consumo de uma versão posterior, caracterizada como mais atualizada. O elemento diferencial em Blade Runner é que há máquinas que recusam servir aos desígnios do homem e, quando isto ocorre, entra em cena a figura do caçador de androides.

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Deckard, em Blade Runner.

Apesar do caráter policial que é subjacente com a funcionalidade social de Deckard, ele é um mercenário, não sendo regido por nenhum código ético ou regulação. Para ele, os replicantes, apesar de sua aparência humana, são não-humanos. São máquinas, como qualquer outra. Para o humano, não há diferença entre o carro voador que o transporta, seu telefone, ou os corpos dotados de intencionalidade que rondam as fronteiras da Corporação Tyrell.

Entre a atualização que demanda o consumo de novas tecnologias e a prática de caça dos androides, há uma constante que é dada na forma de uma demanda: Gozo! Por sua vez, imposta pelo grande outro, na forma de uma sociedade cyberpunk contemporânea capitalista. Todavia, a própria relação tem suas metamorfoses.

As categorias de Deckard, no instante em que são enunciadas (ou caçadas), também se tornam obsoletas e questionáveis. Não é um problema propriamente epistemológico, mas  ontológico, formulado pela questão de Rachel, que coloca a humanidade do caçador em dúvida.

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Rachel, em Blade Runner.

A pergunta: Você já aposentou um humano por engano? Veicula uma diferença ontológica. Ao mesmo tempo que pergunta sobre a capacidade humana de cometer erros, desdobra-se na aparente incapacidade de Deckard em não errar.

A máquina não erra, mas sim seu operador ou programador. Em outros termos, o adágio “errar é humano”, lido em um viés cyberpunk, carrega consigo um oposto assimétrico: “não errar é maquínico”. Com isto, depura-se a existência de uma espécie de devir maquínico inconsciente, tido nos termos de um organismo que, em si, é cibernético.

É aquilo que Donna Haraway (1991) explicitou sobre as implicações da hibridização entre máquinas e organismos, dados como uma experiência vivida, bem como a confluência entre humano e animal, físico e não-físico, natural e artificial.

Já a posição de Rachel, diante de Deckard¸ é aquilo que Alexandre Kojève, ao interpretar o pensamento de Hegel, delimitou como nulidade. O nichtigkeit se diz no paradoxo do homem diante do mundo: “ele [o homem] depende do mundo exterior, não consegue suprimi-lo, nem consegue afirmar sua independência, sua liberdade”. Esta situação, descrita em termos ontológicos, é o “Ser por e para um outro (ser negativo). O Ser-Para-Si nega os outros; mas Ser para si é também Ser para os outros. Logo, ele nega a si ao negar o outro”. (KOJÈVE, 2002, p. 49)

Invertendo a interpretação hegeliana, Deckard é responsável por conferir a condição de replicante de Rachel, e não sua negativa. O caçador revela a origem das memórias da personagem, inscrevendo-a como uma não-humana. A negação, por sua vez, quando ocorre, soa “artificial”. Tratar a pergunta de Rachel como uma positividade demanda um esforço hermenêutico significativo, sendo necessário perceber que já havia em Rachel suspeitas sobre sua condição. Mas, desprovida de qualquer outra relação que reforce isso, tal questão permanece inerente. É necessário que Rachel formule isto para Deckard nos termos de uma “suspeita”.

A questão, em si, não está fundada na possibilidade de uma pluralidade de representações de identidade que teriam como solo uma base existencial única. A dúvida de Rachel é sobre sua relação de alteridade com o caçador. Não se trata de uma negação de Si, que incorreria na negação de Outrem, mas na constituição de uma identidade de Si a partir da relação com Outrem.

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Replicante, em Blade Runner.

Trata-se de um índice dialógico com a temática do perspectivismo ameríndio, sintetizado pelo pensamento antropológico de Eduardo Viveiros de Castro, a partir da ideia de que “se os humanos veem-se como humanos e são vistos como não-humanos – como animais ou espíritos – pelos não-humanos, então os animais devem necessariamente se ver como humanos”. O que, na ficção científica, é metamorfoseado na noção de que os não-humanos, e nesse caso, as máquinas, são para si radicalmente diferentes do que são para os humanos. (VIVEIROS DE CASTRO, 2011, p. 377).

Este procedimento dialógico tem uma inerência intercruzada de uma demanda entre eu e outrem. Para Merleau-Ponty, “outrem não está fechado em minha perspectiva sobre o mundo porque esta mesma perspectiva não tem limites definidos, porque ela escorrega espontaneamente na perspectiva de outrem e porque elas são ambas recolhidas em um só mundo do qual participamos todos enquanto sujeitos anônimos da percepção”. (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 420).

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Replicante, em Blade Runner.

Explica-se isto através da própria identidade de Rachel, que não está dada a priori. É necessária a existência de algum tipo de relação, seja com humano ou não-humano, para que tal identidade passe por um processo modulatório. A constatação feita por Deckard de que Rachel é replicante resulta em Dr. Tyrell (Joe Turkel) não falar mais com ela, considerando-a como um experimento fracassado. A replicante se encontra em uma situação solipcista. Ao questionar Deckard, cria-se um motor relacional imanente, tal como foi explicitado por Renato Sztutman:

A ideia de que o Outro – o não-humano, o androide, o inimigo – sou Eu, a ideia de que este outro me é imanente reenvia ao perspectivismo ameríndio como apresentado por Viveiros de Castro. O ponto é que entre os ameríndios estas posições são intercambiáveis, não sem um perigo extremo, ao passo que na ficção científica em questão a confusão de limites entre humano e não-humano é tida como um escândalo: ao replicante que rouba a condição humana só resta a repressão do Estado. (SZTUTMAN, 2014, p. 13)

Posteriormente na narrativa cinematográfica, Rachel irá questionar Deckard sobre o teste Voight-Kampff. O teste, em si, não diz nada. Para ser realizado, é necessário o estabelecimento de duas posições: aquele que testa e aquele que é testado. Deckard, como Blade Runner, sempre ocupou a posição daquele que testa. E, quando questionado por Rachel, cria-se um terceiro termo – a dúvida da humanidade de Deckard. Sua certeza de si, como humano, é dessubjetivada por outrem, maquínico.

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Deckard realizando o teste, em Blade Runner.

Lacan, ao tratar das relações entre objeto, afirmou que o processo de dessubjetivação é instaurado a partir de um furo na fantasia. O que o sujeito acredita ser o eu é desestabilizado, posto em uma condição de objeto, através de outrem. Essa fantasia é conceituada da seguinte maneira:

Ela porta em si o testemunho ainda muito visível, dos elementos significantes da palavra articulada no nível desse transobjeto, se podemos dizê-lo, que é o grande Outro, o lugar onde se articula a palavra inconsciente, o S na medida em que é palavra, história, memória, estrutura articulada. (Lacan, 1995, p. 120)

O transobjeto em questão é o olhar de Rachel sobre Deckard. A trajetória, bem como as memórias, fotos, piano, e diversos outros objetos revelam a possibilidade de uma existência – não de si, mas de outrem, e, portanto, artificiais para si. Assimetricamente, na facilidade de Deckard em decidir o estatuto não-humano de Rachel, através da negação das memórias como implantadas e não propriamente experimentadas por um cogito, há um retorno do “recalcado”, através de suas próprias memórias.

O sonho de Deckard sobre o unicórnio correndo na floresta é materializado pelos origamis de Gaff (Edward James Olmos).

"Ruim que ela não viverá... Mas, de novo, quem vive?"
“Ruim que ela não viverá… Mas, de novo, quem vive?”

Já em The Matrix (1999), há uma fenomenologia outra da máquina. Ao centrar a ação na jornada de Neo (Keanu Reeves), que pode ser lida nos termos de Joseph Campbell como uma jornada do herói, a posição da máquina acaba sendo secundária. Sabe-se que a máquina criou realidades virtuais nas quais os humanos habitam, todavia, aquilo que propriamente levou a isso não é aprofundado no filme. Diante disto, é necessário recorrer para The Animatrix (2003), para compreender  que as máquinas surgem de um contexto político muito específico.

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The Matrix, pôster.

Após um longo período servindo aos desígnios humanos na posição de escravos, as máquinas visam estabelecer um mundo para si, na África. Todavia, a reação humana é violenta e instaura um conflito aberto contra as alteridades mecânicas. O resultado do conflito é a transformação do planeta em uma terra devastada, aquilo que Slavoj Zizek chamou de “desertificação do real”. (ZIZEK, 2002)

Na percepção humana, a única maneira de vencer as máquinas é retirar delas sua fonte de energia – a iluminação solar. Para isso, executam uma operação global final que lança uma cortina de fumaça que transforma o dia em uma noite eterna. As máquinas, em resposta, buscam uma fonte secundária de energia. E a descobrem: os humanos.

Em um conflito final, os remanescentes da humanidade são forçados a viver no subsolo, em uma tonalidade tardeana completamente invertida. Os humanos do subsolo de Gabriel Tarde garantem sua humanização através da urbanização canibal. O resultado é uma aniquilação sistemática das árvores, animais, flores e qualquer tipo de fauna. É uma complicada aniquilação da alteridade não-humana, que resulta em uma existência solipcista e, curiosamente, artística. (TARDE, 2014, p. 56)

Morpheus oferecendo a escolha: ficar na Matrix ou sair dela?
Morpheus oferecendo a escolha: ficar na Matrix ou sair dela?

Já no universo de Matrix, a busca das máquinas é pela localização da última cidade humana. Na cena onde Agent Smith (Hugo Weaving) interroga Morpheus (Laurence Fishburne), sobre tal, revela-se que aquela versão da matrix que está sendo experimentada como o século XXI não foi a única, muito menos a primeira a existir:

Agent Smith: Você sabia que a primeira Matrix foi concebida para ser um mundo humano perfeito? Nele ninguém sofreria e todos seriam felizes. Foi um desastre. Ninguém aceitou o programa. Colheitas inteiras foram perdidas. Alguns acreditaram que nós não tínhamos a linguagem de programação capaz de descrever seu mundo perfeito. Mas eu acredito que, como espécie, o ser humano define sua realidade através do sofrimento e da miséria. O mundo perfeito é um sonho que seu cérebro primitivo tenta despertar. É por isso que a Matrix foi refeita para isso: o ápice de sua civilização.

A fala de Smith lança várias possibilidades de interpretação. Se a primeira Matrix era projetada em um espaço perfeito, uma utopia, então a humanidade se define como aquela que recusa tal noção. As máquinas “solucionam” tal problema ao projetar um duplo da utopia, caracterizado não apenas pela distopia pós-industrial de fins do século XX, mas por um espaço de miséria e sofrimento. Todavia, a existência de Neo e da profecia coloca em cheque também esta versão da matrix, pois, mais uma vez, a atitude de despertar do espaço virtual segue existindo. Mesmo que esse virtual seja o próprio real.

Fanart das pílulas de Matrix.
Fanart das pílulas de Matrix, que questionam o estatuto da realidade.

REFERÊNCIAS

CAMPBELL, Joseph. O heroi de mil faces. Tradução Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamento, 2007.

DICK, Philip K. Do Androids Dream of Electric Sheep. New York: Doubleday, 1968.

HARAWAY, Donna. A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century. Simians, Cyborgs, and Women: The Reinvention of Nature. New York: Routledge, 1991. p. 149–182.

KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel. Tradução Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Tradução Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

SZTUTMAN, Renato. Natureza e Cultura, versão americanista – Um sobrevoo. Ponto Urbe, v. 4, n. 4, 8 out. 2014.

TARDE, Gabriel. Fragmento de História Futura. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2014.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

ZIZEK, Slavoj. Welcome to the Desert of the Real! Five Essays on September 11 and Related Dates. London: Verso Books, 2002.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

3 thoughts on “O Outrem Maquínico em Blade Runner (1982) e Matrix (1999)

  1. Porque não somos eternos. O único interesse real do “ser humano” deveria ser a possibilidade de ser eterno.
    A ficção cientifica sempre coloca seres superiores, e nós nos maravilhamos disso.
    Caso fôssemos eternos, a ficção científica seria somente uma fantasia e talvez não precisaríamos dela.

    1. Oi Samuel! A eternidade é sim um dos motes da ficção científica, mas não é o único deles. A ficção científica é um exercício de extrapolação da realidade e, acredito que sempre seria necessária, pois há sempre algo a ser melhorado em nós. Quando a gente extrapola as nossas qualidades elas se transformam em defeitos e a gente acaba tendo que aprender novas formas de lidar com as coisas. O papel da ficção científica é gerar este tipo de reflexão. Talvez você goste de outro texto que escrevemos aqui: http://scriptoriumm.com/2016/12/porque-precisamos-da-ficcao-cientifica/
      Abraço!

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