The Crown (2016) – Análise da Primeira Temporada

The Crown conta a história do início do reinado de Elizabeth II. Além de apresentar a série, realizamos um breve panorama histórico da Família Real britânica, refletimos sobre a posição da religião dentro do Reino, o papel do Duque de Edimburgo enquanto esposo da Rainha e os conflitos psicológicos de Elizabeth. Finalizamos com uma reflexão sobre o Imperialismo da época os reflexos que experienciamos até hoje. O texto contém spoilers.

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A SÉRIE

The Crown é uma produção britânica realizada pela Netflix que tem a intenção de contar a trajetória da rainha Elizabeth II, desde os primórdios do seu reinado – que já é um dos mais longos da história, tendo sido iniciado em 1952. A primeira temporada foi ao ar em novembro de 2016 e contou com dez episódios, com pouco mais de 50 minutos cada.

Nela fomos apresentados à família real britânica, composta por: Victoria Mary Augusta Louise Olga Pauline Claudine Agnes AlbertRainha Mary (Eileen Atkins), mãe de George. Frederick Arthur GeorgeRei George VI (Jared Harris) e sua esposa Elizabeth Angela Marguerite Bowes-LyonRainha Elizabeth (Victoria Hamilton); Elizabeth Alexandra MaryElizabeth II (Claire Foy) e seu esposo Philip MountbattenDuque de Edimburgo (Matt Smith); Margaret RosePrincesa e Condessa de Snowdon (Vanessa Kirby), irmã de Elizabeth; Edward Albert Christian George Andrew Patrick DavidRei Edward VIII/Duque de Windsor (Alex Jennings), irmão de George e sua esposa Bessie Wallis WarfieldDuquesa de Windsor (Lia Williams).

Além da realeza, também conhecemos Winston Leonard Spencer-ChurchillPrimeiro Ministro britânico (John Lithgow) e sua esposa Clementine Ogilvy Spencer-ChurchillBaronesa (Harriet Walter), além do Capitão Real Peter Woolridge Townsend (Ben Miles), e de Robert Anthony EdenPrimeiro Ministro britânico (Jeremy Northam), que sucedeu Churhill. Vários funcionários da realeza, do Estado e da mídia nacional britânica também foram apresentados.

Os atores selecionados para compor o elenco da série realizaram muito bem sua função. A caracterização foi impecável, tanto no quesito maquiagem quanto figurino. É possível transportar-se para a época em que a série se passa e entender um pouco da visão de mundo que a realeza britânica tinha, o que é bastante interessante.

Claire Foy (Elizabeth II) e Matt Smith (Philip)
Claire Foy (Elizabeth II) e Matt Smith (Philip)

Outro ponto positivo da produção foi a ambientação. Os palácios e paisagens utilizados tiveram o cuidado de transparecer a época em questão. O mesmo ocorreu com as imprensas e, principalmente, com os artefatos tecnológicos. Estes pequenos detalhes fazem com que a densidade narrativa e a capacidade de transportar o espectador para a realidade contada se torne ainda mais eficaz. Nestes aspectos, podemos dizer que se trata de uma produção de ponta, o que condiz com o investimento milionário recebido pela série.

A fotografia e a trilha sonora da temporada também foram muito bem pensadas. Além da trilha corroborar com a época em que a narrativa é contada, coopta também com as cenas em que aparece, produzindo intensa harmonia cenográfica. O mesmo ocorre em relação à fotografia, que é o tempo todo planejada e consoante às cenas que se passam. A escolha dos focos é muito bem realizada, assim como a utilização de subtítulos para narrar detalhes históricos.

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A primeira temporada teve uma divisão temporal interessante, saindo do padrão das séries comuns, onde cada temporada relata um ano da vida dos personagens. Começamos em 1952, pouco antes da morte de George VI e terminamos em 1955, após o aniversário de 25 anos de Margaret. Esta passagem temporal ocorre de forma sutil, sendo que a maior parte da temporada mostra o período de adaptação de Elizabeth ao cargo de rainha, entre 1952-1953 e vai para 1955 apenas nos últimos episódios, a fim de mostrar o desfecho do romance de Margaret e do mandato de Churchill.

A divisão temporal realizada entre os capítulos é bastante interessante e fica evidente que os episódios foram pensados para abordar temáticas específicas em cada um deles, sendo narrativas fechadas. Tal fator é perceptível pelo fato de as primeiras cenas do episódio costumeiramente serem referentes ao passado dos personagens, utilizando-se de artifícios de flashback. Isso significa que a série não utiliza de artifícios de suspense ao final do episódio para prender o espectador à narrativa, mas aposta numa história que seja envolvente o suficiente para fazer com que o espectador persista.

Para quem gostou de The Crown e se interessa por outras histórias da corte/Família Real britânica, indico os filmes: Lady Jane (1986), Elizabeth (1998), Henry VIII (2003), A Rainha (2006), Elizabeth: A Era de Ouro (2007),  A Outra (2008), A Duquesa (2008), A Jovem Rainha Vitória (2009) e O Discurso do Rei (2010).

Há também outras duas séries relevantes: The Tudors (2007-2010) e Downton Abbey (2011-2015).

O ANGLICANISMO NA GRÃ-BRETANHA

Somos costumeiramente introduzidos ao anglicanismo em nossas aulas de História no final do ensino fundamental, quando aprendemos sobre a Reforma Protestante do século XVI. A Igreja Anglicana é associada ao Rei Henry VIII que era casado com Catherine de Aragão, viúva de seu irmão e com quem tinha uma filha, chamada Mary.

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Rei Henry VIII

Com idade avançada o suficiente para não poder dar mais filhos ao Rei, que precisava de um herdeiro homem (até então a Grã-Bretanha não havia sido gerida por uma Rainha), Catarina deixou de ser considerada uma boa esposa. Henry, por sua vez, estava apaixonado por Anne Boleyn, que ainda tinha idade para ter filhos. Ele queria torna-la sua esposa.

Para tal, foi até o Papa da Igreja Católica Apostólica Romana (até então a oficial da Grã-Bretanha), Leão X, pedindo que seu casamento com Catherine de Aragão fosse anulado. A justificativa para tal pedido foi baseada em um trecho do livro bíblico do Levítico, em que poderia ser considerada uma relação incestuosa a que ele tinha com a esposa, devido ao fato de ela ser viúva de seu irmão. O pedido de anulação foi negado. Catherine foi banida da corte e Henry casou-se escondido com Anne Boleyn, após se auto declarar chefe da Igreja da Inglatera.

A Igreja Anglicana tornou-se, então, a nova Igreja Oficial da Inglaterra. O casamento de Henry e Anne foi declarado oficial pelos bispos britânicos e da união nasceu Elizabeth. Anne teve outras gravidezes, mas foram espontaneamente interrompidas. Em uma delas, o feto era do sexo masculino. Tais perdas geraram a ira de Henry, que já estava apaixonado por Jane Seymour, que viria a ser sua terceira esposa. Anne Boleyn foi executada.

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As seis esposas do Rei Henry VIII

No total, Henry teve seis esposas e quatro filhos, sendo um deles reconhecidamente ilegítimo. Jane Seymour foi a única esposa do rei a fornecer-lhe o tão sonhado filho homem: Edward, que se tornou Rei Edward VI após a morte do pai. Elizabeth foi considerada ilegítima, visto que o casamento de seus pais foi anulado. Mary sequer foi considerada para assumir o cargo.

Após a morte de Edward o trono foi deixado para sua prima, Lady Jane Grey, a qual governou por nove dias, até ter seu reinado contestado por Mary. Mary tornou-se a Rainha Mary I, considerada a primeira rainha da corte Britânica. Nascida e criada como católica romana, seu governo foi marcado por uma intensa perseguição e execução a protestantes. Ela ficou conhecida como “Bloody Mary” (Maria Sangrenta). Governou por cinco anos, ao lado de seu marido Philip II, Rei da Espanha.

Com a morte de Mary I, o trono foi passado para sua irmã, Elizabeth, que se tornou a Rainha Elizabeth I. Nascida e criada protestante, seu reinado demarcou a consolidação da Grã-Bretanha como um reino anglicano/puritano. Seu reinado foi tão importante que é mundialmente conhecido como a “Era Elizabetana” e durou 45 anos, até sua morte. Não teve marido ou filhos e uma de suas frases célebres é a de que ela se casou com seu reino.

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Rainha Elizabeth I

Este panorama rápido e sem muitos detalhes históricos é necessário para que possamos entender a consolidação da Igreja Anglicana como Igreja da Inglaterra e sua importância para a continuidade da Família Real Britânica. A separação da Igreja da Inglaterra para com a Igreja Romana gerou, de imediato, uma diferença básica: as coroações não eram mais realizadas pelo Papa romano e sim por bispos britânicos. A Rainha ou Rei da Grã-Bretanha, portanto, ao ser coroada assumia não apenas a chefia do Estado, mas também da Igreja e tinha que tomar decisões e ter atitudes que corroborassem com ambas as éticas e posições.

Após a Era Elizabetana, a Inglaterra permaneceu com sua Igreja em separado, que precisou passar por um processo de consolidação de suas diferenças perante a Igreja Católica Romana. A princípio eram muitas as dúvidas sobre a Igreja Anglicana. Seria ela Católica ou Protestante? Alguns teóricos afirmam que é uma mistura dos dois, uma espécie de terceira via.

A religião segue o Livro das Oração Comum, que funciona como guia e fornece parâmetros para futuras decisões na vida, e os Trinta e Nove Artigos da Religião. As celebrações seguem o Ano e o Calendário litúrgico. Batismo e Eucaristia são sacramentos considerados necessários para a salvação. A Confirmação do batismo também deve ser realizada, após atingirem certa idade, por um bispo competente.

O CASAMENTO ANGLICANO

Ao contrário do que a história de Henry VIII faz parecer, o casamento após o divórcio não é permitido pela Igreja Anglicana. Assim como a Igreja Romana, o sacramento do matrimônio é considerado indissolúvel, “até que a morte os separe”, como já diz o famoso juramento.

Na Igreja Romana o divórcio é inconcebível e, até hoje, o que existe é o pedido de anulação do matrimônio, que deve ser analisado pontualmente e concedido por um bispo. Ou seja: uma vez casado na Igreja Católica Romana não é possível se divorciar, apenas anular o matrimônio, a partir de pressupostos religiosos bastante específicos e uma análise processual cautelosa, o que costuma ser demorado.

Na realidade prática, o que vemos são muitos casais que se divorciam no Civil e permanecem casados no religioso. Desta forma, os matrimônios subsequentes são realizados apenas no Registro Civil, fazendo com que, perante a Igreja Romana, o casal seja considerado adúltero e ilegítimo. O Papa Francisco tem proposto algumas mudanças na forma de a Igreja tratar os chamados “casais de segunda união”, propondo aceleração nos processos de nulidade e afirmando que a comunhão é permitida para os casais nesta situação, o que é já é um avanço.

A Igreja da Inglaterra ou Igreja Anglicana tem um processo semelhante. Nela o casamento também é considerado indissolúvel, no entanto é possível obter um divórcio e casar-se novamente. Assim como na Igreja Romana, isso demanda um processo burocrático a ser supervisionado e julgado pontualmente por um bispo competente. A princípio, uma vez que a/o cônjuge falece, a outra parte do casal pode se casar novamente. No entanto, uma vez que o ex-cônjuge ainda esteja vivo, é necessário passar pelo processo de divórcio e aceitação do novo relacionamento, o que é demorado e arriscado.

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Princesa Margaret e Peter, no episódio 6

É este último caso que a série The Crown retrata, tendo a Princesa Margaret e o Capitão Real Peter Townsend como protagonistas. Em se tratando da Família Real Britânica, as regras para o re-casamento valem com ainda maior rigor, visto que a Família é considerada um espelho dos bons costumes à qual a sociedade deve se refletir. Se a própria Chefe da Igreja, no caso, Elizabeth II, abrir precedência e romper um dos grandes dogmas de sua religião em prol de um familiar, isso faz com que todo o povo se sinta no direito de realizar o mesmo. Tal atitude poderia vir a enfraquecer a potência da Igreja e, com isso, a legitimidade de Elizabeth II enquanto rainha, o que não podia sequer ser considerado, visto que seu reinado ainda estava se estabelecendo.

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Príncipe Charles e sua esposa, Duquesa de Cronwell, Camilla.

Entretanto, para quem se recorda, o próprio filho de Elizabeth II, Príncipe Charles, consegue autorização para casar-se novamente, com uma mulher também divorciada, a Duquesa de Cronwell, Camilla. Apesar de sua primeira esposa, Lady Diana, ter falecido em 1997, o Príncipe só recebeu autorização para se casar com Camilla em 2005. Isso porque o primeiro esposo dela, Andrew Parker Bowles, ainda é vivo. Ele, porém, já havia se casado novamente, estando com a mesma esposa desde 1996.

Ou seja: apesar de ser de conhecimento público o relacionamento entre Charles e Camilla, a Igreja da Inglaterra demorou para considerar o casamento elegível para uma cerimônia religiosa. Provavelmente, a Rainha Elizabeth II se viu em um impasse bastante semelhante ao que esteve na situação de sua irmã. A diferença é de que na segunda situação seu reinado estava mais do que consolidado e o mundo já era notadamente outro, sendo os divórcios e re-casamentos muito mais comuns e bem recebidos.

A EDUCAÇÃO REAL

Um ponto bastante relevante de The Crown é a inserção de Elizabeth em um meio considerado masculino em sua época: a política. Se em pleno século XXI ainda temos dificuldade na representação feminina na política, no século XX pós-guerra a coisa era bastante complicada, ainda mais em se tratando de uma Rainha.

A questão tornou-se bastante evidente quando Elizabeth se viu próximo a um encontro com o atual presidente da URSS e não fazia ideia de quem ele era ou o que ela poderia debater com ele. Ao contrário do que corroboraria ao imaginário comum, a Rainha não passou por uma criação absorta do mundo plebeu, tendo sido, inclusive, mecânica durante a II Guerra Mundial.

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Rainha Elizabeth II atuando como mecânica na Segunda Guerra Mundial

Além de ter cumprido a função de mecânica, a Rainha sabia e gostava muito de dirigir e acompanhava com paixão as corridas de cavalo, realizando apostas e torcendo por seus varões. Todas estas atividades eram consideradas majoritariamente masculinas em sua época, mas isso não a detinha de realiza-las. No entanto, no que diz respeito à sua educação formal, a semelhança perante a educação das crianças plebeias era inexistente.

Desde pequena, Elizabeth havia sido ensinada por um tutor particular e por seu pai. A partir do momento que seu pai assumiu o Reinado, ela passou a ser preparada para ser sua sucessora. Tendo isto em vista, Elizabeth teve uma educação informal, amplamente focada na função que deveria vir a cumprir um dia: ser Rainha. Desta forma, ao invés de aprender sobre matemática, história geral e as novas descobertas da ciência, ela foi ensinada sobre a história da Corte britânica, os países que comporiam seu reinado, as peculiaridades de cada região e de cada povo da qual a Grã-Bretanha era colonizadora, dentre outras coisas.

Para além dos conhecimentos teóricos, ela foi ensinada a professar todos os valores morais, culturais e religiosos que expressavam a Coroa Britânica e a agir e pensar de acordo com essa futura função.

Quando ela se tornou Rainha, porém, passou a se sentir burra em algumas ocasiões. Primeiro pelo fato de que os homens têm a mania insuportável de desconsiderarem o que as mulheres pensam e falam, pelo simples fato de serem mulheres.  Segundo porque ela nunca teve a oportunidade de estudar e aprender as coisas sobre as quais os assuntos versavam.

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Elizabeth e seu tutor, no episódio 7.

Ao tomar nota deste impasse e do fato de que, na série, a Rainha passou a ter um tutor que a ensinasse sobre estes assuntos do qual ela tinha curiosidade, me pergunto como foi a educação que ela forneceu aos seus filhos. Dado que ela ficou descontente com o que chamou de “negligência” da mãe, por tê-la privado de acessar determinados conteúdos, será que ela conseguiu driblar a Coroa a ponto de fornecer a oportunidade de acesso a estas informações aos seus filhos? E mais, será que os bisnetos dela, que são crianças atualmente, têm uma educação semelhante às outras crianças da atual Inglaterra, ou eles já começam a vida pensando no futuro dever Real e não passam pelas experiências comuns da infância? Espero que as próximas temporadas da série, de alguma forma, respondam estes meus questionamentos.

DUQUE DE EDIMBURGO

Um dos grandes impasses da primeira temporada de The Crown se deu com relação ao casamento de Elizabeth e Philip. Começamos a série sabendo que o Duque havia aberto mão de sua nacionalidade para casar-se com Elizabeth. Em seguida, quando ela está prestes a se tornar oficialmente Rainha, vemos o impasse com relação ao nome – ele afirma que não quer perder também o próprio sobrenome e ela tenta fazer com que a Coroa permita que ela deixe de ser Windsor, o que não ocorre.

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Rainha Elizabeth II e o Duque de Edimburgo, seu marido, Príncipe Philip.

Estas situações colocam Philip em uma posição subalterna à Elizabeth, o que não o agrada. Ocorre que o Rei George VI, antes de falecer, avisou Philip de que ao se casar com Elizabeth ela seria sua carreira e toda a sua vida deveria girar em torno dela. Philip, provavelmente cego com o ardor da paixão, não considerou que o sogro estivesse falando tão sério quanto de fato estava.

Em uma sociedade comandada por homens e onde as famílias são comandadas por homens, estar em uma posição subalterna à mulher tanto na sociedade quanto na família pode ser problemático para alguns homens, e foi problemático para Philip. Isto é apenas mais um reflexo da relação patriarcal estabelecida pela sociedade Ocidental-Judaico-Cristã, em que indivíduos do século masculino ocupam as posições de dominância e os do sexo feminino as de dominados. Tal relação, declaradamente opressiva, é expressada cotidianamente na série, através dos atos de Philip.

Uma cena que demarca com clareza a situação é quando ele passa a questionar a proximidade de Elizabeth para com seu melhor amigo, que a ajuda nas apostas com cavalos. Ocorre que Philip não gosta de cavalos e Elizabeth precisava de alguém para compartilhar a paixão e a euforia das corridas. No entanto, para o marido, isso significa claramente que ela está apaixonada pelo amigo e quer trai-lo. A cena que desmonta isso é quando Elizabeth encara Philip e diz “Posso olhar na sua cara e dizer que você é o único homem que eu já amei na minha vida. E você, pode fazer o mesmo por mim?” e ele fica mudo.

Esta cena explicita que o questionamento dele perante a fidelidade dela – apesar de ela ser Rainha e a chefe da família – é aceitável e passível de uma resposta sincera. No entanto, quando a questão se volta para ele, há um respaldo implícito pelo gênero masculino, que permite seu silêncio. Ou seja, enquanto Elizabeth, apesar de ser uma pessoa pública e que declaradamente trabalha no meio de vários homens, precisa reafirmar sua fidelidade, o marido que não tem um emprego formal e vive em bares e festas com amigos não precisa fazer o mesmo.

A relação entre os dois recebe muita atenção na temporada. Elizabeth está sempre tentando incluir Philip em suas funções, para que ele não se sinta inútil. Ele, com ideias muito inovadoras para a época, é sempre desconsiderado pelos outros membros da Coroa e ela acaba gerando inimizades e precisando se impor muito para fazer com que ele seja aceito.

Philip não parece ter conseguido discernir por sobre o impacto da Coroa em sua vida até o final da temporada. Quando ele foi quase impedido de praticar voo, não entendeu porque seu hobby deveria ser mensurado pelo Estado. Quando pediram para que ele fosse sozinho à Australia, para que ele pudesse entender sua função na Família, ele entendeu que sua esposa estava cansada dele. Há um descompasso muito grande na relação dos dois. Ao mesmo tempo em que vemos Philip sempre atento e querendo ajudar Elizabeth, vemos que ele não enxerga que ele não é e não pode vir a ser prioridade na vida dela.

Novamente, o fato de Elizabeth ser a Rainha e a Chefe de Família imputa Philip à uma posição socialmente considerada como feminina, aquela que se refere apenas ao apoio. Quando se é marido de uma Rainha, sua individualidade já não importa. Você passa a ser apenas uma sombra dela, e ao mesmo tempo seu único e principal guardião.

Esta inversão de gênero, onde a mulher comanda e o homem cuida, é de difícil compreensão para ambos os envolvidos. Isso porque vai contra o ensinamento de gênero imputado pela sociedade a todos os indivíduos desde o seu nascimento, que coloca o homem como dominador e a mulher como dominada, em toda e qualquer relação.

Viver um relacionamento diário e cotidiano onde isso seja invertido em todos os sentidos certamente produz dificuldades. No entanto, pelo que vemos na série, parece que Elizabeth tem que lidar com todas estas dificuldades sozinha, visto que Philip ainda não conseguiu percebê-las ou entender que precisa modificar algumas de suas atitudes.

Tal descompasso entre a posição social de gênero imputada por sobre os indivíduos a partir do Contrato Social e as vivências construídas em cada relacionamento está presente também nas nossas vidas, ultrapassando o universo ficcional e o estamento Real.

É frente a este tipo de descompasso e questionamento que a desconstrução desta educação de gênero que acaba por ser repressora e opressora se faz relevante e deve ser ressaltada.

ELIZABETH WINDSOR VS. ELIZABETH REGINA

Outro ponto bastante evidente na primeira temporada de The Crown foi a construção da persona “Rainha” em Elizabeth.

Elizabeth Windsor era uma criança quando descobriu que era a próxima na linha de sucessão Real. Com pouco mais de vinte anos e recém-casada, ela esperava ter a oportunidade de aproveitar um pouco mais a sua vida de Princesa antes de precisar assumir a responsabilidade de ser a Rainha. Quando seu pai começou a ficar doente, provavelmente o peso da probabilidade começou a surgir em sua cabeça, mas é notável que mesmo com a certeza da morte de George e a imanência da proximidade de sua Coroação, ela ainda não estava preparada para ser Rainha.

Tal fator foi evidenciado tanto por Winston Churchill quanto pela própria mãe de Elizabeth. Churchill quis postergar a Coroação, por motivos estritamente pessoais, mas a desculpa de que seria para dar tempo à Elizabeth para se preparar fazia bastante sentido. Como sua mãe ressaltou, ela era apenas uma garota com pouco mais de vinte anos, com esparsa ideia de quais eram as responsabilidades de ser uma Rainha.

Todos os conflitos pela qual a personagem passa durante a temporada vão, aos poucos, mostrando a ela o que é ser Elizabeth Regina e o que isso significa para ela, sua família, seu país e o restante do mundo. Aos poucos ela aprende que, apesar da importância que a família tem em sua vida, nada nunca deve se sobrepor à Coroa. Tal percepção, contrária aos ensinamentos de seu pai e aparentemente fria, faz com que ela afaste até mesmo as pessoas mais próximas dela.

Podemos pensar que Elizabeth se torna uma “viciada em trabalho”, visto que prioriza sua função enquanto Rainha frente a qualquer outra situação de sua vida. Por exemplo: nenhuma cena da temporada demonstrou ela tendo algum tipo de relação maternal com seus filhos. Nós vemos Philip fazendo isso, mas ela não. Novamente, aqui está em voga a inversão dos papéis de gênero que o status dela proporciona. Mas está também o fato de que ela dá tanto valor ao seu trabalho que acaba esquecendo de ser sensível e de se aproximar de sua família. Isso causa um estranhamento ao espectador, desacostumado a ver frieza vindo de mães, ainda mais quando é feito um contraponto com o sentimentalismo aflorado da personalidade de George VI, mostrado nos primeiros episódios da série.

Enquanto cria sua persona Rainha, Elizabeth Windsor começa a ser reprimida, tendo seus sentimentos fechados em uma redoma que a gente não sabe quando ou se vai estourar. Acompanhamos a jovem Princesa se tornar uma líder com personalidade forte e decisões que, apesar de inicialmente conflituosas, acabam se resolvendo pelo lado que é melhor para o Reinado. Não importando quem ela esteja machucando para tal. Aos poucos ela aprende que não importa mais se ela machuca alguém próximo, desde que ela esteja protegendo o Todo.

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Cena do episódio 10

A temporada termina mostrando uma clara vitória da persona Elizabeth Regina. A frase final da temporada é justamente relacionada a isto. Ser Rainha não é um trabalho com hora de entrar e sair, é um modo de vida, que exige sacrifícios. Aparentemente, nem mesmo uma educação direcionada a um bom preparo para realizar a função garante que isto ocorra. Apesar de ter que se fazer de grande, forte e inabalável, em algum lugar dentro daquele ser, a jovem Elizabeth Windsor ainda vive. Resta saber se ela ainda terá alguma chance de aparecer.

REALEZA E MÍDIA

Quando pensamos em Casamento Real nos lembramos imediatamente do casamento entre o Príncipe William e a Duquesa Kate Middelton. Mundialmente televisionado ao vivo e com decorações excessivas em toda a cidade de Londres, o casamento tornou-se um dos maiores eventos públicos do ano de ocorrência. É até estranho pensar que nem sempre foi assim.

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Príncipe William e Kate Middelton no Casamento Real

Quando o Duque Philip propõe que a Coroação de Elizabeth II seja televisionada, os organizadores das Coroações anteriores entram em choque. A cerimônia, considerada sagrada por excelência, seria profanada ao entrar em contato com o grande público através da televisão e perderia um tanto de sua magia. Após um embate, a proposta de televisionamento é aceita e obtém um enorme sucesso. A ideia de Philip, de que o povo se interessaria por saber os detalhes da cerimônia e se sentiria mais próximo da Rainha ao vê-la tornar-se Rainha, surtiu um efeito melhor do que o esperado.

Provavelmente, a efusão causada por eventos como o Casamento Real só ocorre por causa do sentimento inovador de Philip.

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A Coroação vista pela televisão, no episódio 5

The Crown explora bastante a relação entre a Família Real e a mídia. O uso da televisão ainda era recente no período em que se passa a temporada, mas, apesar disso, se faz presente nas mais diversas situações. Diariamente um resumo dos afazeres Reais era anunciado, tanto na televisão quanto no rádio. Em situações de viagens internacionais, os resumos incluíam trechos dos discursos professados e das visitas realizadas. O dia-a-dia da Rainha passou a ser de conhecimento público e, aos poucos, isso foi estendido aos outros membros da Família Real.

Os jornais impressos seguiam sendo importantes para a consolidação da opinião pública. Por esta razão, todos os membros da Família Real realizavam a leitura dos folhetins diários. Entre boatos e reportagens baseadas em fatos reais, os jornais impressos eram responsáveis por fazer com que a imagem da Família Real fosse positivada ou negativada perante a opinião pública.

Elizabeth tentando limpar sua barra na mídia, no episódio 8
Elizabeth tentando limpar sua barra na mídia, no episódio 8

Nos mais diferentes aspectos e âmbitos, a presença da mídia era importante para a criação e consolidação de uma boa imagem para a Família Real, o que se convertia em simpatia e apoio público. Isso foi ressaltado em todos os episódios da temporada.

É muito interessante, neste aspecto, fazermos um contraponto com a atualidade, quando a mídia deixou de ser centralizada em poucos e relevantes jornalistas e passou a ser composta por uma rede de usuários comuns. Os escândalos envolvendo a Família Real existem e eles seguem sendo capa de inúmeros jornais e revistas, mas, incrivelmente, conseguem  ser minimizados e se expor muito menos do que poderiam e isso é, nas condições atuais, surpreendente.

RETRATOS DO IMPERIALISMO

The Crown se passa em uma época em que o Reino Britânico ainda era colonizador de diversos países africanos, asiáticos e oceânicos, alguns atualmente independentes. Tal ponto é ressaltado em diversos episódios, através das viagens realizadas pela Família Real a estas localidades e discursos mencionando-as.

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Países que pertenciam ao Reino Unido

Alguns espectadores ficaram incomodados com a forma como estas relações imperialistas foram retratadas, afirmando que a série poderia ter utilizado de artifícios ficcionais para minimizar o teor preconceituoso com o qual a Família Real lidava com a cultura dos povos de suas colônias. Eu acredito que tenha sido muito relevante eles terem tentado manter originalidade neste aspecto, a fim de não mascarar uma relação visivelmente opressora.

O Imperialismo é caracterizado pela supressão de diferenças, exceto quando elas agregam algo à nação Imperial em questão. Ele invade e explora terras alheias sem considerar as individualidades e culturas dos povos que já habitavam os espaços, por eles, recém descobertos. Estes povos foram e são historicamente ignorados e massacrados.

Isto não aconteceu apenas na África, Ásia e Oceania, mas também nas Américas e no próprio processo de formação da Europa. Minimizar a existência desta opressão e dos massacres é fantasiar a história da colonização, transformando-a em positiva e pouco abrasiva e isso necessita ser evitado.

O caráter histórico da série foi ressaltado quando cenas de contato que, vistas atualmente, são consideradas preconceituosas e racistas, foram realizadas, apesar de irem contra o contexto atual. Historicamente, a Família Real tratava seus súditos de forma a receber ovações com beijos nos pés e afins, independentemente de onde estivessem. A forma como as colônias são retratadas é bastante fiel à forma como elas eram vistas na época e isso é resultado de um esforço da produção da série em se manter fiel ao contexto da época em que a narrativa se passava.

Contato com povos nativos de Nairobi, no episódio 2
Contato com povos nativos de Nairobi, no episódio 2

Imputar por sobre a história as nossas concepções atuais de preconceito e racismo é incoerente, visto que são noções que vieram depois do massacre e da opressão sofrido pelos povos colonizados – e diretamente relacionadas com eles.

O colonialismo britânico rendeu morte, destruição, pobreza, guerras civis e o desmonte ecológico e social de diversos países africanos. A Índia, país de cultura milenar e forte, quase padeceu frente ao imperialismo britânico. Os povos nativos australianos foram fortemente massacrados e os polinésios foram alvos de estudos que os tratavam como “selvagens”, no sentido de “retratos de um passado morto” por anos. Nenhuma dessas coisas pode ou deve ser minimizada.

Quando uma série sobre a Família Real é realizada em um período onde o colonialismo do país em questão ainda é forte, ele precisa ser retratado, com toda a sua crueldade e vilanismo.

Nós precisamos ver, engolir e entender que moramos em um país construído a partir de muito sangue inocente derramado. E que não somos o único país construído e unido a partir de interesses econômicos de uma colônia opressora. Precisamos construir essa consciência, apagada por nossa educação escolar e pelo nosso contato com culturas colonizadoras e imperialistas, para que possamos aprender a honrar os nossos ancestrais e respeitar seus descendentes ainda vivos.

Entrar em contato com cenas de opressão, quando se faz parte do grupo oprimido, pode não ser confortável, mas também pode trazer novas perspectivas por sobre a opressão, que faz parte da nossa história e precisa ser entendida e encarada como real.

Atualmente vivemos em um tempo bastante sombrio, onde as diferenças seguem passando por um processo de supressão e opressão, agora não mais exclusivamente por parte de países declaradamente Imperialistas. Em meio a isso, a consciência da existência desta opressão e o entendimento de si enquanto oprimido se faz ainda mais necessário, para que possamos criar o entendimento de que é possível coexistir, apesar das diferenças.

REFERÊNCIAS

JENKINS, Simon. A Short History of England. New York PublicAffairs, 2011.

SACHS, William L. The Transformation of Anglicanism From state Church to global communion. New York Cambridge University Press, 1993.

SMITH, Sally Bedell. Elizabeth the Queen The Life of a Modern Monarch. New York Random House, 2012.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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