Por que nós ainda precisamos da Ficção Científica?

A partir de filmes como Matrix, Blade Runner, Her e 1984, este texto visa refletir sobre as razões para que a ficção científica ainda se faça importante, mesmo após séculos de existência e dado o atual desenvolvimento tecnológico.

Fanart das pílulas de Matrix.
Fanart das pílulas de Matrix.

A Ficção Científica surgiu de forma difusa, havendo pelo menos três narrativas de origem. O primeiro afirma Mary Shelley, autora de Frankenstein ou o Prometeu Moderno, como fundadora do gênero. O segundo afirma o francês Jules Verne como criador e o terceiro remonta a origem do gênero às revistas pulp, editadas por Gernsback e Campbell.

O intuito da ficção científica é repensar o presente através de pressuposições sobre o futuro, baseadas tanto em nossos quanto em outros passados. O papel do gênero, portanto, é o de gerar reflexão sobre o mundo que cerca o telespectador ou leitor.

Com o cinema, a ficção científica ganhou fama graças aos efeitos especiais que podem ser utilizados na contação destas histórias. A necessidade de reflexão sobre o mundo e o futuro que construímos com o presente que vivemos faz com que estes filmes tenham grandes bilheterias e ajudem na construção do imaginário atual.

A reflexão acerca do que faz de nós humanos e de qual será o futuro do planeta em que vivemos se continuarmos a agir com ele da mesma forma como estamos agindo há todo este tempo é constante. É impossível terminar de assistir filmes como Blade Runner, Her, Matrix ou 1984 sem repensar a nossa posição no mundo. Estas narrativas são eficazes na proposta de deslocar o telespectador de sua própria zona de conforto.

Ao vermos Matrix somos todos os iludidos que estavam na Matrix sem saber e ao mesmo tempo em que queremos atingir a emancipação que foi proposta a Neo, percebemos que é ela também uma nova ilusão e uma nova prisão.

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Os códigos-fonte de Matrix. Cena da trilogia The Matrix.

Ao assistirmos 1984 vemos que nos anos 50 já havia previsão de governos totalitários e que, com regras absurdas e ditatoriais, regessem a vida de todos os cidadãos. Pensamos que isto jamais aconteceria no nosso mundo, que jamais aconteceu. E olhamos para as esquinas e encontramos câmeras de segurança. E as encontramos nos elevadores, corredores e em qualquer lugar público que resolvamos ir hoje em dia. Encontramos leis e mais leis sendo criadas sem o conhecimento do público e uma repressão desmotivadora e absurda quando este público decide reivindicar algo. Será que estamos tão distantes de 1984 quanto imaginamos estar?

Ao assistirmos Blade Runner e Her, ficamos com impressões de que tudo o que construímos em nossas mentes como sendo os diferenciais dos humanos para com os não humanos podem ser superados.

Já não nos diferenciamos pela coluna ereta e o polegar opositor, em um universo onde os androides e os replicantes possuem estas e outras das características ditas unicamente humanas, como a capacidade de sentir. Não nos diferenciamos quando é possível se apaixonar, relacionar e saciar os desejos carnais com uma pessoa que não existe corporalmente, mas apenas em forma de inteligência artificial, como no caso de Her.

E será que algum dia fomos tão diferentes dessas máquinas quanto nos imaginamos ser? Aliás, não é este o propósito do humano na feitoria das máquinas: construir algo tão perfeito quanto o humano ou, melhor, que consiga ser mais perfeito que ele? O que os filmes e os livros mostram é que quando este ideal é finalmente atingido, o não-humano, que superou a humanidade, gera raiva naqueles que ainda são apenas humanos. E a humanidade comum precisa exterminar as máquinas, uma vez que elas percebem as imperfeições dos humanos e decidem exterminá-los.

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Theodore e seu amor maquínico, no filme Her.

Seja em Star Wars, Star Trek ou qualquer outro Space Opera que conheçamos, a ideia de uma guerra entre homens e máquinas, homens e aliens ou homens e qualquer-outra-coisa-superior-a-eles é evidente. O homem, ao mesmo tempo em que busca desenvolver uma tecnologia que supere suas vãs capacidades motoras, quer se manter como o topo tecnológico existente.

Não é desejo deste homem que uma tecnologia o supere a ponto de querer construir um mundo sem ele. Porque, para o humano, não existe mundo sem ele.

Isto é mostrado pela própria narrativa da ficção científica. Em filmes como Wall-e, Eu sou a lenda ou Eu, Robô, onde vemos que o simples fato de o planeta estar sem humanos é tratado como se fosse o fim da vida do planeta – e não apenas o fim da vida dos humanos. Como se planeta e humanos devessem existir em simbiose perfeita e não pudessem existir sem co-existir. Esquece-se que o planeta tem mais de 6 bilhões de anos, enquanto os humanos como conhecemos mal chegam nos 15 mil. O planeta sobrevive sem os humanos, mas será que os humanos sobrevivem sem os planetas?

Na narrativa de Blade Runner sim, afinal, criam-se colônias espaciais para que os humanos habitem. Na narrativa de Matrix, porém, não. Por mais que os humanos estejam em máquinas batalhando, eles necessitam de um planeta, e é aí que surge Sion e o povo que lá reside, os ditos “humanos de verdade”.

Pensar em humanos vivendo em colônias espaciais, mas sem a existência de um planeta específico para eles é mais ou menos o que acontece em Interestelar, como forma possível de sobrevivência humana após fim do mundo.

Cena do filme Interestelar
Cena do filme Interestelar

E a discussão de humanidade e não humanidade fica um tanto perdida quando paramos para pensar no fato de que pouco importa para a ficção científica quem é ou não o humano da história, mas sim o que ele faz com o seu potencial de humanidade.

Em Star Trek a própria frota estelar é formada por seres de diversos planetas, que têm em comum características humanóides, mas não são todos terráqueos ou humanos. Eles encontram outro fator comum neles que não aquele do nascimento em um mesmo planeta. E, independente de onde eles sejam, a luta pela sobrevivência, pela paz e pelo bem comum é suficiente para uní-los.

O mundo atual tenta fazer parecido com a ONU, mas não dá tão certo. Porque a nossa condição de humanidade ainda não foi superada. Nós ainda tentamos nos construir como humanos enquanto construímos os outros por bases de semelhança. Provavelmente, se a história de Blade Runner se passasse nos dias de hoje, o teste para ver se o ser era um replicante ou um humano seria tão falho quanto. Nós ainda continuamos a acreditar que sentir é capacidade exclusiva do humano. Quando muito, tal capacidade é compartilhada para com os outros animais, mas jamais para com os objetos ou as máquinas.

Cena de realização do teste que confere humanidade no filme Blade Runner.
Cena de realização do teste que confere humanidade no filme Blade Runner.

O humano ainda se constrói e constrói o seu redor por base de dominação e colonização. Buscando ser superior a tudo aquilo que lhe passa por perto. As máquinas funcionam como auxílio em seus empreendimentos, não como possíveis mandatários para os humanos, que sempre quererão estar no poder.

A guerra entre humanos e máquinas existirá quando estas resolverem tomar o poder dos humanos. E talvez esta seja a diferença entre humanos e máquinas que ainda persiste nas obras de ficção científica, a vontade de poder. Afinal, raros são os enlaces onde máquinas ou seres alienígenas querem vir à Terra para dominá-la. Esta é apenas a leitura que os humanos fazem do caso.

Matrix poderia ser apontada como refuta à minha hipótese, pelo fato de que a guerra entre homens e máquinas é absurda e é clara a ânsia por poder destas máquinas. Mas eu discordo. Aquelas máquinas não querem dominar, elas querem apenas se livrar dos humanos. E isto porque, como dito por Smith, quando elas atingem a supremacia, criam uma Matrix perfeita e os humanos destróem tudo.

A visão que as máquinas têm dos humanos ali é a de que eles são destrutivos e malvados e que, não importa quão bom seja aquilo que os cerca, eles vão tentar drenar, destruir, colonizar e estragar. As máquinas querem tomar o lugar dos homens ali unicamente porque desistiram de tentar dar aos homens a chance de viver harmonicamente em um mundo tranquilo. Elas negam a eles este direito por saberem que eles são incapazes de viver em serenidade. E, na superioridade delas, isto cansa.

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O Big Brother, em cena do filme 1984.

Já nas narrativas de Blade Runner, 1984 e Her, as máquinas são louvadas. Em Blade Runner o problema é elas “ousam” viver como humanos, mas enquanto estão cumprindo suas funções de máquinas e deixando os humanos cumprirem o papel de mandatários e organizadores do mundo, a convivência está garantida. Em 1984 as máquinas são utilizadas justamente para garantir que os humanos possam se manter no controle e com o poder em mãos.

Em Her as máquinas servem para substituir as outras formas de comunicação e, com isso, em grande parte, substituir as pessoas, uma vez que você pode ter todas as suas necessidades de interação supridas sem sair de casa e conversando com um fone de ouvido com voz sensual, que só você escuta. O humano continua no poder, ou pelo menos com a ilusão de que está no poder, enquanto a máquina o direciona para a vida a-social e maquinalmente exclusiva que lhe parece necessária. Isto porque a máquina de Her ainda é falha e ainda não superou a humanidade, sendo uma versão inferior da humanidade, algo que tenta ser humano e se assemelhar ao humano, através da convivência com um. Provavelmente a evolução daquele sistema operacional começaria a apresentar os problemas de tentativa de superação da humanidade.

O ponto é: se até nas nossas tentativas de imaginar mundos distintos dos nossos e de potencializar as nossas capacidades tanto destruidoras quanto criativas, os mundos que criamos acabam por se destruir ou se envolver em alguma situação de violência e miséria, por que é que a ficção científica não é completamente distópica a ponto de causar angústia e tristeza em quem a assiste? Por que ela continua sendo tão fascinante?

Não quero pensar apenas no fato de que os humanos gostam de suposições ou no fato de que, com as grandes produções hollywoodianas, mais do que vender histórias, os filmes vendem atores e efeitos especiais. Acho que o que continua a fascinar o ser humano é que independente da vontade de superar aquilo que somos e de criar outras resoluções possíveis para problemas que assolam a todos (afinal, quem nunca se apaixonou por alguém que não podia e encontrou um outro alguém pra escapar da sensação ruim?), continua a ser vã.

Por mais que a gente tente imaginar um futuro, ele está sendo cada vez mais restrito. Se antigamente os filmes iam para mais de 50 anos no futuro, hoje em dia eles mal passam dos 20. Por mais que exista uma narrativa ficcional incrível, com novas formas de resolução de conflitos, continuamos a aplicar as mesmas. Continuamos a cometer os mesmos erros. Continuamos a degradar o planeta e destruir o que nos cerca mesmo após termos assistido intermináveis episódios de He Man. Continuamos a não acreditar em nossas próprias potencialidades e compramos a ideia do aceleracionismo e de que o mundo vai mesmo acabar, não importa o que a gente faça, e desistimos de tentar.

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Tradução: O Grande Irmão te observa

Vemos governos agindo de formas autoritárias e utilizando-se de câmeras e de artefatos da mídia para se manter no poder e não sabemos direito como agir. Tentamos encontrar vida em outros planetas e descobrir formas de sobreviver neles enquanto sequer conseguimos resolver os problemas das formas de vida que se encontram aqui mesmo.

Nos cercamos de aparatos tecnológicos ao invés de nos cercarmos de pessoas e desistimos cada vez com mais facilidade de tentar acreditar em algum Ser Superior, porque isto seria ir contra o fato de que nós somos os superiores. Mas, por mais que a gente aja como superior para com as outras formas de vida, acabamos dormindo diversas das nossas noites nos sentindo sozinhos e impotentes.

E não estou dizendo que nossos grandes heróis nunca se sentiram assim. Que Neo jamais foi dormir chateado e que Theodore nunca mais quis dar um beijo em alguém de carne e osso. Mas a gente têm se contentado cada vez mais fácil. A gente admira estas pessoas dos filmes justamente porque elas não se contentam, porque elas encontram formas sensacionais de lidar com aqueles problemas que nos fazem estagnar. E elas conseguem realmente superar as pedras de seus caminhos, enquanto nós ficamos paradas as encarando.

Estas histórias não perderam seu potencial porque nós ainda precisamos delas para nos motivar a tentar e a persistir e a resistir neste universo cada vez mais cabuloso. Nós precisamos lembrar sempre que o futuro é apenas uma hipótese a ser construída e comprovada por cada uma das decisões e atitudes que nós tomamos no tempo presente.

E enquanto nós não conseguimos superar as imperfeições da humanidade e nos tornarmos o super-homem nietzschiano, creio que continuaremos a precisar de ficção científica.

Continuaremos a precisar de provas de que não somos perfeitos, jamais fomos, provavelmente não seremos e de que ao contrário de todas as nossas lutas para que consigamos atingir a perfeição, não tem problema ser imperfeito. Não tem problema precisar de outras pessoas, precisar de máquinas, recorrer a fraquezas humanas como sentimentos, sejam eles românticos, a vontade de verdade ou a de poder.

Porque nem mesmo os que habitam em um futuro cibernético conseguem sobreviver perfeitamente e sozinhos. E, talvez se nós do presente de agora conseguíssemos embricar esta noção em nossas mentes, profundo a ponto de não sair, conseguíssemos ser mais felizes com nós mesmos e com o mundo que habitamos. Afinal de contas, tá tudo bem e o que não está, a gente ainda pode melhorar. É só lembrar de não ficar parado.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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