Castway (1947) – A. Bertram Chandler | Resenha

Castway é uma história curta escrita por A. Bertram Chandler (1912-1984), sob o pseudônimo de George Whitley, para a Weird  de novembro de 1947. A editora da revista, na época, era Dorothy McIlwraith (1891-1976), que havia assumido o posto sete anos antes, como sucessora de Farnsworth Wright. Tal transição foi marcada, sobretudo, pela mudança significativa no teor das obras que eram publicadas pela revista. Assim, McIlwraith acabou optar em não publicar histórias com aspectos orientados para o fantástico, e com isto, fornecendo espaço para escritores emergentes, como Ray Bradbury, Theodore Sturgeon, Jack Snow e outros.

A narrativa foca-se em um marinheiro que, em uma de suas viagens, avistou uma ilha e, para a sua surpresa, bem como de toda tripulação de sua embarcação, uma fogueira à distância. Um possível sinal de socorro, talvez de sobreviventes de um naufrágio ou de algum acidente que poderia ter se passado ali. O detalhe mais impressionante é que foi avistado, próximo à fogueira, uma silhueta que parecia gesticular ou mesmo dançar.

Enviado para a ilha, o marinheiro acorda desorientado. Provavelmente o bote no qual fora enviado tinha se acidentado e ele veio a desmaiar. Buscando reconstruir seus últimos passos, ele encontra vestígios da fogueira, agora apenas uma pilha de cinzas. Estupefato com este evento, segue em busca daquele que pedia ajuda. E, ao se aprofundar mais na ilha, encontra os destroços de uma embarcação bastante estranha:

It stood beside the stream, in the middle of a little clearing. It had been there for a long time. The metal of which it was built was dulled by age. Creepers from the growth all around it had evidently tried to find purchase on the smooth plating, but, with the exception of those around a ladder extending from a circular door or port to the ground, had failed. And as the man stared he began to see something familiar about the strange construction. It was like, although on a far vaster scale, the V.2 rockets used by Germany during the war. Its streamlined body stood upright, supported by four huge vanes. There were ports in its sides. And its nose, towering above the trees, was what an airman would have called a “greenhouse”.

O protagonista segue para dentro da embarcação, onde encontra os restos mortais da antiga tripulação. Diversas ossadas, corroídas tanto pelo tempo como pela ação constante dos roedores. A princípio isto surge como um alívio, pois não se tratava de algum tipo de alien ou visitante de outro planeta, e “death is only horrible and frightening when recent”.

Em uma espécie de diário, ele descobre o nome daquelas ruínas – Nave Interestelar Centauro. Neste momento, o estranhamento e a descrença misturam-se. Diante de equipamentos totalmente incompreensíveis, o marinheiro especula sobre a possível origem daquela embarcação. O que mais chama sua atenção é uma sessão rotulada como Mannschen Drive.

Arte de Francis Goeltner.

Ao adentrar nela, outros corpos são encontrados, e estes sim causam horror. A porta havia permanecido fechada desde o momento que aquela embarcação se acidentou ali, de tal forma que aqueles que estavam dentro passaram por um processo de mumificação assustador. Tomado pela náusea, é apenas com grande esforço que o marinheiro consegue se controlar.

Diante da máquina Mannschen, ele percebe que há dois botões: partida e parada. Ignorando as instruções que estavam por toda parte, seu raciocínio é que provavelmente aquela embarcação não tenha potência suficiente para reativar o dispositivo. Mas convém tentar e, caso algo dê errado, há o botão de parada.

Ele ativa a máquina, e seu funcionamento segue de modo normal. Todavia aquilo vai escalando em uma cena cada vez mais assustadora para o personagem, o qual opta por apertar o outro botão. Possuído pelo terror, foge em disparada para a praia e percebe que o navio em que se encontrava está a cerca de três milhas da costa. Em uma atitude desesperada, acende uma fogueira e observa de longe um pequeno barco se aproximar.

E, para seu desespero, ele entende o que aconteceu. E tudo recomeça.

Castway é uma narrativa que consegue produzir uma interface entre o horror e a ficção científica. Este tipo de horror lida, constantemente, com duas interlocuções distintas. O primeiro é o que se pode chamar de horror pessoal, e é experimentado pelo personagem na medida em que passa por situações constantes de estranhamento e incompreensão. Neste caso, há sempre um horizonte de eventos que o personagem quase consegue compreender, mas o sentido escapa constantemente.

Isto é bastante evidente pelo fato de que, apesar de o marinheiro entender as menções e instruções em inglês, ao mesmo tempo elas são incompreensíveis. Assim como sua situação naquela ilha, que beira para uma repetição que coloca a razão em suspenso, afinal, o marinheiro é aquele que pede socorro e, ao mesmo tempo, é o que vai ao resgate.

Arte de Francis Goeltner.

O segundo tipo, é o que chamo de horror científico, no sentido de que não está disponível para o personagem uma ciência, filosofia ou mesmo religião que torne aqueles eventos compreensíveis. Diante do absurdo, não há nenhuma fonte de salvação ou redenção, apenas o desespero. Este conceito é bastante similar àquele proposto por Quentin Meillassoux, através da noção de extro-ficção científica, que seria um gênero no qual as leis da ciência deixam de fazer sentido ou não podem servir de base para as categorias do entendimento.

Por fim, Castway é uma narrativa bastante marcada pela experiência pessoal do autor como marinheiro e, ao mesmo tempo, consegue se estabelecer, em termos ontológicos, como uma literatura de ficção científica. Talvez não por acaso, este conto foi republicado ao longo dos anos em diferentes revistas, marcando sua genialidade e, também, preciosidade.

REFERÊNCIAS

CHANDLER, A. Bertram. Castway. In: MCILWRAITH, DOROTHY (Org.). Weird Magazine. New York: Wildside Press, 1947.

MEILLASSOUX, Quentin. Science Fiction and Extro-Science Fiction. Tradução Alyosha Edlebi. Minneapolis: Univocal, 2015.

 

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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