Divergente (2011) – Veronica Roth | Resenha

Divergente é o primeiro volume da trilogia homônima, protagonizada por Tris. Infelizmente, o excesso de subjetividade prejudica a narrativa. Contém spoilers.

Escrito por Veronica Roth, Divergente é o primeiro volume da trilogia homônima, tendo sido publicado originalmente em 2011 e traduzido para o português no ano seguinte. Os outros volumes que compõem este universo são: Insurgente, Convergente e Quatro. Este último é um texto paralelo que oferece um ponto de vista alternativo àquele apresentado no primeiro livro, e funciona muito mais como um “complemento” ao primeiro livro do que um texto independente.

Em uma sociedade organizada a partir das aptidões individuais de um sujeito, a narrativa apresenta cinco facções que funcionam como castas: Abnegação, Franqueza, Erudição, Amizade e Audácia. Os integrantes de cada uma destas facções ocupam papéis específicos dentro da sociedade, de maneira que a Abnegação foca-se na produção de sujeitos nitidamente altruístas, a Franqueza em lideranças judiciárias, Erudição em professores e pesquisadores, Amizade em conselheiros e a Audácia como soldados.

A personagem principal, Beatrice, nasceu de uma família da Abnegação. Em um teste que antecede a Cerimônia da Escolha, única ocasião em que o indivíduo pode trocar de facção, seu resultado foi dado como divergente, de modo que não há especificamente uma facção exclusiva para ela. Considerada como um perigo, essa revelação é mantida em segredo por Beatrice.

Durante a Cerimônia, Beatrice opta por se juntar à facção da Audácia, marcando a ruptura com sua família. Assim, ela vai viver em meio a uma casta bastante diferente daquela em que fora criada. A Abnegação valorizava uma vida bastante estoica, com gestos que eram bastante refletidos e cuidadosos, e também buscavam constantemente eliminar qualquer ênfase na posse individual e valorizar o bem coletivo. Já na Audácia, nova facção de Beatrice, agora conhecida como Tris, vive-se em uma demanda constante por adrenalina e desafios – que talvez nas mãos de um autor mais maduro que Roth, poderia muito bem ser caracterizado como epicurista.

Nesta nova casta, Tris precisa passar por situações cada vez mais perigosas, bem como aprender a lutar e se defender. Todavia, seu aporte físico acaba sendo um problema. Era magra e pequena, o que se apresentou como uma séria desvantagem e demorou uma parcela de tempo significativa para ser transformada em uma condição furtiva bastante interessante.

A história individual é aglutinada pelo contato com vários outros personagens, o que permitiu que Tris pudesse desenvolver fortes laços de amizade e afetividade, inclusive entrando em um relacionamento amoroso com um de seus instrutores, o personagem Quatro. Este, por sua vez, também tinha nascido na Abnegação, e na medida em que sua história vai sendo desvendada, a antiga facção de Tris é desconstruída.

Em uma camada narrativa superior, Tris é posta em meio ao que seria equivalente a um “golpe de Estado”, protagonizado por duas facções contra uma outra. Procedimento este que conseguiu encerrar, com bastante interesse, o eixo narrativo focado apenas na personagem, e abriu a possibilidade de uma exploração maior dos problemas sociais inerentes desta sociedade distópica nos próximos livros.

Clique na imagem para adquirir o livro e ajudar o Scriptoriumm.

A obra de Roth se situa em um contexto de massiva produção de literatura que foca no protagonismo feminino e com uma distopia em plano de fundo. Ao concentrar o olhar do leitor apenas na personagem principal, a sociedade que a autora visou construir parece carecer de profundidade e reforçar modelos estereotipados de formas distintas de ação no mundo. Gerando uma obra opaca que é incapaz de problematizar as categorias contemporâneas de organização social.

A descrição da cidade, que sugere um mundo de vivência pós-apocalíptica, carece de vida e qualquer outra novidade. Os espaços não têm vida orgânica, sendo apenas peças funcionais que existem na medida em que a personagem principal os frequenta. Tal subjetivismo instrumentalista repercute nos outros elementos vivos da narrativa, que estão posicionados dentro de uma escala moral dualista, havendo pouco, ou nenhum espaço, para discussões éticas propriamente ditas.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: