Homeland (1990) – R. A. Salvatore | Resenha

Homeland de R. A. Salvatore, é o primeiro volume da trilogia Dark Elf, publicado originalmente em setembro de 1990. A história centra-se no personagem de Drizzt, um drow nascido na cidade Menzoberranzan, na Underdark. A obra oferece um olhar único sobre a maneira como a sociedade dos drow funciona, desde suas complexas hierarquias sociais, a divisão política entre grandes Casas, bem como a estruturação cultural matriarcal que tem por base a divindade Lolth, a Deusa Aranha.

Parte da casa Do’Urden (Daermon Na’shezbaernon), Drizzt nasceu em 1297 DR e, como terceiro filho da Matrona Malice, seu futuro já havia sido planejado. Isto porque a cultura drow tem consigo a noção religiosa de que, este, ao nascer, deve ser oferecido para a deusa Lolth e sacrificado. Porém, nesta mesma ocasião, a casa Do’Urden estava em um conflito com a casa DeVir, uma acima na hierarquia política da cidade. O irmão mais velho, Nalfein, foi assassinado pelo mais novo, Dinin, de tal forma que o sacrifício de Drizzt não era mais necessário.

É bastante interessante perceber que há uma visceralidade caótica na sociedade drow, marcada sobretudo pelos atos de traição e assassinato. Tanto no aspecto macro, pois o ataque feito pela casa Do’Urden à casa DeVir era extremo, no sentido de que era necessário um sucesso absoluto e a morte de todos os nobres da família, ou a casa agressora seria punida e destruída pelo conselho que os governa. No aspecto micro, já se mostra a opressão matriarcal inerente da sociedade drow, na medida em que parte das motivações de Dinin em assassinar seu irmão Nalfein, partem de uma ascensão sócio-política interna, mas a máxima permitida – pois em meio aos drows, o cargo superior será sempre feminino.

A infância de Drizzt foi bastante violenta. Sob os cuidados de sua irmã Vierna, ele foi ensinado sobre o funcionamento inerente da sociedade drow, bem como sua posição inferior por ser do sexo masculino. Seus poderes mágicos, apesar de simples, começam já a se destacar, e com dezesseis anos passa a ser treinado por Zaknafein, que além de ser um exímio guerreiro, é também seu pai biológico.

Drizzt rapidamente demonstrou impressionantes reflexos e coordenação motora. Ao perceber isto, Zaknafein convenceu Malice em transformar seu filho em um guerreiro, e não em um mago – cargo anteriormente ocupado por Nalfein. Com dezesseis anos, Drizzt iniciou seu treinamento com armas, um procedimento que acabou por transformá-lo em um dos principais guerreiros de todo Faerûn.

Representação da Mulher-Aranha.
Representação da Mulher-Aranha.

Com vinte anos, Drizzt ingressou na Melee-Magthere, a Academia para guerreiros de Menzoberranzan. Rapidamente os professores perceberam que ninguém em sua classe era capaz de derrotá-lo em combate, e assim enfrentou alunos de classes mais avançadas, e também os derrotou. A situação de Drizzt começou a mudar significativamente durante a cerimônia de graduação, nove anos depois, na qual o drow recusou participar do ritual orgiástico e se relacionar com duas altas sacerdotisas de Lolth, sendo sua irmã Vierna uma delas.

Vierna, ofendida, leva Drizzt para o lar de um drider, um símbolo da Rainha-Aranha, bem como um aviso para todos aqueles que a desrespeitavam. A mãe de Drizzt ameaça transformar seu filho em uma daquelas criaturas se ele voltar a insultar Lolth novamente.

Após a graduação, Drizzt passou a patrulhar o Underdark com um grupo e foi neste momento que começou a perceber o quanto os drows eram cruéis, não apenas entre si, mas também com outras espécies. O primeiro momento em que isto ocorreu foi em uma raid na superfície, no qual um grupo de elfos foi assassinado pelos drows. Drizzt acabou por esconder uma criança sob o corpo de sua mãe, evitando sua morte.

Em outra patrulha, o grupo de Drizzt encontra svirfneblin, e o drow enfrenta pela primeira vez um Elemental da Terra. Com a assistência de Guenhwyvar, uma pantera mágica que pertencia a outro drow da patrulha, Masoj, a entidade mágica é derrotada. Todavia, este mesmo Masoj alveja Drizzt com raios, e este é capturado pelos gnomos. Dinin e o restante da patrulha os encontram, e um grande massacre segue, com apenas Belwar Dissengulp, o líder dos gnomos, recebe a opção de fugir para sua cidade, Blingdenstone. Todavia, este ato de Drizzt foi percebido por Dinin, que cortou uma das mãos do gnomo antes.

Imagem representativa de Drizzt
Imagem representativa de Drizzt.

Lolth, a divindade aranha, sabia que a criança élfica do primeiro ataque havia sobrevivido e por conta disso a casa Do’Urden perdeu sua benção. O plano do mestre de armas e Drizzt era fugir da cidade, todavia Malice tinha uma outra ideia – oferecer seu filho em sacrifício para aplacar a fúria da deusa. Ao ser informado disso, Zaknafein oferece-se no lugar, o que era o plano da Matron Mother, pois sem ele, Drizzt passaria a se comportar como um drow, e assumiria a posição de mestre das armas. Quando Drizzt descobre que seu pai foi sacrificado para Lolth, entra em choque e foge para a Underdark, com Guenhwyvar ao seu lado.

Homeland é uma obra bastante interessante pois consegue equilibrar as complexidades inerentes de Dungeons & Dragons e do Forgotten Realms sem tornar isso algo hermético e inacessível para o leitor. Assim, não é necessário nenhum conhecimento prévio ou uma enciclopédia para compreender as referências que são feitas.

Apesar de centrado em Drizzt, o texto também é capaz de oferecer a narração de situações externas ao personagem, mas que de alguma medida estão relacionadas a ele. Isso cria um nível de complexidade que permite a exposição das intrigas políticas inerentes da sociedade drow.

Um outro aspecto que chama bastante atenção é a descrição de cenário feita por Salvatore. Isso porque a narrativa é ambientada em um espaço onde não há uma fonte de luz natural, e isso implica em uma percepção de mundo bastante diferente, seja para os personagens ou aqueles que especulam sobre a narrativa.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: