A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin | Resenha

A Mão Esquerda da Escuridão é um clássico da ficção científica, escrito por Ursula Le Guin nos anos 60. Esmiuçamos a genialidade da narrativa com aproximações antropológicas e reflexões incisivas sobre as temáticas apresentadas. Contém spoilers.

A Mão Esquerda da Escuridão - O frio
O frio de Gethen, em representação realizada por fãs.

APROXIMAÇÕES INICIAIS

A Mão Esquerda da Escuridão foi escrito em 1969, ano em que venceu o prêmio Hugo. Em 1970 venceu também o prêmio Nébula. Foi publicado no Brasil em 2014 pela Editora Aleph.

O livro versa sobre Genly Ai, um estranho vivendo em outro mundo. Sua missão é convencer as pessoas desse lugar a se unirem a uma grande comunidade universal, mas há muitas diferenças. São outros costumes, outras lendas e percepções. Genly está numa terra única, na qual homens e mulheres existem juntos, dentro de cada indivíduo. Onde qualquer um pode ter filhos, pode ser pai e pode ser mãe. No gelado mundo chamado Inverno, ele terá de esquecer tudo o que sabia até agora e começar uma jornada de conhecimento, tolerância e descoberta.

A autora, Ursula Kroeber Le Guin, é filha do antropólogo Alfred Louis Kroeber e da antropóloga e escritora Theodora Kracaw Kroeber Quinn. Nasceu nos EUA em 1929 e começou a ser publicada com cerca de 30 anos. No entanto, seu interesse pela literatura vinha de sua infância. Possui, pelo menos, 20 obras traduzidas para o português, sendo A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos as mais populares.

A Mão Esquerda da Escuridão - Ursula K. Le Guin
Ursula Le Guin

ANTROPOLOGIA EM A MÃO ESQUERDA DA ESCURIDÃO

A antropologia é o estudo da cultura humana e costuma ser realizada através de um método próprio, o etnográfico. A etnografia consiste, em sua forma clássica, na presença de um observador participante. Isto significa que o pesquisador se desloca até o local em que o grupo que deseja pesquisar habita e passa um tempo por lá, tentando compreender as formas culturais e de entendimento de mundo do povo em questão. Tal processo de pesquisa é mediado pela escrita de um diário etnográfico, que narra em pormenores as descobertas. Este material, quando o antropólogo volta para seu local de origem, serve como contraponto entre a ontologia do grupo pesquisado e do seu próprio grupo, visando a construção do conhecimento antropológico.

Tendo isto em mente, é possível pensarmos em Genly Ai como um antropólogo terráqueo, enviado a um planeta outro a fim de entender suas formas de ver e pensar o mundo e gerar uma aproximação entre os planetas, através do Ekumen. A narrativa extremamente descritiva e perene complementa isso, sendo altamente semelhante com os relatos etnográficos que compõem os trabalhos antropológicos.

O esforço para demonstrar o estranhamento perante os diferentes povos e culturas, somado a proposta de apresentar diferentes pontos de vista por sobre os mesmos fatos, demonstram o direcionamento intencional dado por Le Guin para evidenciar que os construtos culturais são baseados em diversos pontos de vista.

Isto é visível logo na primeira página de relato, em que Genly Ai afirma ter aprendido em seu planeta natal que “a Verdade é uma questão de imaginação” e que:

 

O fato mais concreto pode fraquejar ou triunfar no estilo da narrativa: como a joia orgânica singular de nossos mares, cujo brilho aumenta quando determinada mulher a usa e, se usada por outra, torna-se opaca e perde o valor. Fatos não são mais sólidos, coerentes, perfeitos e reais do que pérolas. Ambos são sensíveis. (LE GUIN, 2014, p. 13)

 

Tudo isso tem muito a ver com o pensamento de um antropólogo em específico, Roy Wagner. Em seu livro A Invenção da Cultura, o autor tem um grande esforço em mostrar que a cultura não existe de modo palpável, mas através das relações de alteridade. A alteridade é qualquer relação que envolva eu e o outro. O que Roy Wagner quer dizer é que todo o entendimento realizado sobre uma outra cultura tem relação com o nosso entendimento da nossa própria cultura. E quando a gente tenta falar sobre a cultura do outro, é adequando-a aos nossos termos, que são os únicos que a gente consegue compreender. Dessa forma, a cultura do outro não existe por si. Ela é inventada.

 

Roy Wagner propõe que o antropólogo não inventa apenas a cultura do outro, mas inventa a sua própria, a fim de torná-la compreensível para o outro. Por essa razão, muitas vezes quando o grupo pesquisado tem acesso ao texto escrito pelo antropólogo não consegue entender ou se sentir representado pelo que está escrito.

 

Quando Ursula Le Guin deixa de contar a história utilizando-se apenas do ponto de vista do pesquisador, Genly Ai, e leva em consideração também a perspectiva do nativo, Estraven, utiliza-se de um artifício conhecido na antropologia como polifonia. A polifonia é o ato de trazer vozes nativas para a composição do texto antropológico, ampliando os pontos de vista e as formas de entendimento. O termo foi cunhado por James Clifford, que no livro A Experiência Etnográfica propunha uma antropologia múltipla, capaz de levar em consideração os pensamentos dos nativos por sobre seus aparatos culturais e não apenas os pensamentos dos antropólogos. Um exemplo impressionante desta técnica na antropologia se encontra no trabalho de Bruce Albert com Davi Kopenawa, expresso no livro A Queda do Céu.

 

Um dos problemas da polifonia, e no ato de doação de sentido para a voz de outrem, é que isto está inscrito dentro da cultura e da narrativa do antropólogo. Salienta-se, com isso, a diferença temporal que há entre Genly Ai e a população de Gethen. Tal diferença não é física e relativa ao espaço, mas sim  uma modalidade cultural. Ao buscar estabelecer a possibilidade de um primeiro contato, o enviado lida constantemente com a dúvida sobre as vantagens que a população de Gethen viria a ter, e muitas vezes ele não consegue entender a recusa ou postergação da acepção do tratado propriamente dito.

 

A Mão Esquerda da Escuridão - Estraven e Genly Ai
Arte realizada por fãs, representando Estraven e Genly Ai.

Outro ponto antropológico na narrativa é a constante evidência, por parte de Genly Ai, do estranhamento e do choque sentido através do contato com o povo de Gethen. O personagem chega a dizer que “Choque cultural não era quase nada comparado ao choque biológico que sofri como macho humano em meio a seres que eram, oitenta por cento do tempo, hermafroditas assexuados.” (p. 56)

 

O que não significa que não exista um estranhamento nativo com aquela figura que está ali. A população de Gethen precisa conviver constantemente com uma figura que, não é apenas estranha a sua cultura, como também a sua biologia. Isto inscreve um outro substrato no plano diferencial, na medida em que a própria maneira como os enunciados são proferidos localmente acabam por ser recebidos com uma intencionalidade distinta daquela inicial.

 

A antropologia lida constantemente com o estranhamento causado pelas diferenças do outro. O choque cultural foi conceituado por Roy Wagner como “quando a cultura local se manifesta primeiramente através da inadequação do antropólogo, gerada por pertencer a outro aparato cultural e que torna esse aparato cultural prévio visível e mensurável” (p. 50). O choque é, portanto, inevitável e extremamente importante para o trabalho do antropólogo. É a partir dele que a cultura do próprio pesquisador se faz visível e que a consciência por sobre sua própria forma de ver o mundo como algo construído e não natural surge. Entendimento que torna o conhecimento antropológico possível.

 

No caso de Genly Ai, a dificuldade perene a toda a narrativa era em lidar com o fato de que os gethenianos são hermafroditas assexuados, exceto nos períodos de Kemmer. O terráqueo muitas vezes esquecia do caráter hermafrodita e tratava os nativos como seres do sexo masculino. Em vários trechos do livro é possível perceber o estranhamento que ele sente a cada vez em que se lembra que os gethenianos são mulheres e homens ao mesmo tempo em que não são nenhum. Por ser uma disparidade inimaginável até chegar a Gethen, Genly não tem um preparo para lidar com isso.

 

Quando ele fala de “choque biológico” ao invés de cultural, está dizendo que foi o contato com uma biologia diferente que ele passou a perceber o quanto a biologia da sociedade dele afetou sua forma de pensar e entender a humanidade. O fato de os Gethenianos serem hermafroditas já trouxe a Genly Ai a oportunidade e necessidade de reconstruir seus entendimentos por sobre gênero e função social agregada a gênero. Apesar disso não são raros os trechos em que Ai tenta aproximar os comportamentos gethenianos aos de “homem” ou “mulher”, tentando adequá-los à sua própria forma de entender o mundo, sem pensar que ela também era incompreensível para eles.

 

A mudança de perspectiva para Estraven é essencial por mostrar que o choque biológico e cultural não ocorria em sentido único. Para Estraven, Genly Ai era tão alienígena quanto Estraven era para Ai. O momento em que eles estão sozinhos no gelo e podem conversar sobre alguns aspectos culturais é essencial para que esta reflexão atinja a ambos, como é perceptível no seguinte trecho do diário de Estraven:

 

[…] Afinal, sou uma esquisitice, uma aberração sexual, tanto quanto ele: aqui em cima, no Gelo, cada um de nós é singular, isolado. […] Somos iguais, finalmente, alienígenas, sozinhos. (LE GUIN, 2014, p. 225)

 

Este trecho demonstra ainda uma outra aproximação antropológica: a equiparação do estatuto da diferença. É a partir deste momento, em que eles passam a se “entender”, mutuamente, como alienígenas que a amizade pode começar a surgir. Tal forma de identificação, que não tem por base a semelhança, mas sim a diferença, permite a construção de uma afinidade entre a dupla. Se para Ai o importante é reconhecer os gethenianos como humanos, para Estraven o que funcionou foi se entender enquanto alienígena.

Há várias outras aproximações antropológicas possíveis. Inclusive, A Mão Esquerda da Escuridão é um prato de mão cheia para iniciantes nos estudos antropológicos e para professores de ensino médio, que tenham interesse em inserir o pensamento antropológico em seus alunos. Afinal, Genly Ai é um antropólogo do Ekumen, tentando preparar os gethenianos para uma nova era.

GÊNERO EM GETHEN

A discussão de gênero é extasiada no momento em que Estraven pede que Ai explique o que é a tal diferença sexual terráquea e caracterize uma mulher e Ai tem dificuldades para tal:

– […] Acho que a coisa mais importante, o fator isolado de maior peso na vida de alguém é se nasceu macho ou fêmea. Na maioria das sociedades esse fator determina as expectativas da pessoa, suas atividades, seus pontos de vista, sua ética e conduta… quase tudo. Vocabulário. Usos semióticos. Roupa. Até a comida. As mulheres… as mulheres tendem a comer menos… É extremamente difícil separar as diferenças inatas das aprendidas. Mesmo onde as mulheres participam, em igualdade com os homens, na sociedade, ainda são elas, afinal, que ficam grávidas e cuidam praticamente sozinhas da criação dos filhos…
– A igualdade não é regra geral, então? Elas são mentalmente inferiores?
– Não sei. Parece que não é comum terem inclinação para a matemática, composição musical ou pensamento abstrato. Mas não é que sejam estúpidas. Fisicamente, são menos musculosas, mas vivem mais que os homens. Psicologicamente… […] Harth, […] não posso lhe dizer como são as mulheres. […] De certa forma, as mulheres são mais estranhas para mim do que você. (LE GUIN, 2014, p. 228)

 

O que Ai está dizendo é que “ser mulher” não é apenas biológico, mas também cultural e social. São essas construções por sobre a biologia que nós chamamos de gênero. Quando Ai esclarece que “é difícil separar as diferenças inatas das aprendidas” está querendo dizer que, a olho nu, não dá para saber quais fatores biológicos – exceto o dimorfismo sexual – influem na diferença entre os gêneros masculino e feminino, que impera na Terra.

O fato de ele não saber explicar com detalhes o que é uma mulher e não conseguir deixar clara a diferença entre mulher e homem é mais um reflexo da necessidade do pesquisador em inventar a própria cultura, a partir do contato com o outro. Até chegar a Gethen/ter contato com Estraven, Genly Ai não havia gastado muito tempo refletindo sobre este tipo de diferença. Logo, não havia uma resposta formulada e ficou perdido.

Apesar da ambissexualidade getheniana, é evidente, no decorrer de todo o livro, o esforço em Ai por tentar encaixar o povo de gethen em alguma das compreensões que ele próprio tinha por sobre gênero. Em determinados momentos ele ressalta um caráter de “feminilidade” e em outros de “masculinidade”, frente a pessoas que não entendem estas diferenças como parte de suas vidas. Genly Ai, no auge de seu desentendimento e falta de aceitação por sobre as diferenças dos outros, insiste em tentar encaixá-los em seus próprios conceitos e entendimentos.

É nesse jogo que o vemos considerar, por exemplo, o pensamento abstrato e idealista como algo masculino. Ao mesmo tempo em que vê a feminilidade como algo prático e realista. É constante, ainda, que Ai deixe de admirar e de se sentir à vontade com os gethenianos quando os enxerga como mulheres. Por isso, é constante que ele tente encaixar a todos em seu padrão de masculinidade e, em decorrência, se assuste e estranhe cada vez que recorda a ambissexualidade de seus interlocutores: “Havia, nessa atitude, algo feminino, uma recusa ao abstrato, ao ideal, uma submissão à realidade que me desagradava um pouco.” (p. 206)

A partir desta dificuldade de Genly Ai, surge uma grande questão: o tratamento de gênero na linguagem de Gethen. Todos os gethenianos são tratados no masculino, em todas as situações. Mesmo o rei, é chamado de “rei” e, nem grávido, é chamado de “rainha”. Aparentemente, não há em Gethem a noção da flexão de gênero, nem na linguagem. Tal fator deve ser mais interessante de se observar na versão original de A Mão Esquerda da Escuridão, escrita em inglês. Isto porque o português acaba obrigando a existência de flexões de gênero que, em inglês, não existiriam.

Consideramos equivocado considerar a narrativa como pertencente a alguma das ondas do Movimento Feminista. Isto porque em nenhum momento do livro a igualdade entre gêneros é evidenciada como um dos anseios do Ekumen ou semelhantes. Pelo contrário, as falas de Ai reiteram que há diferenças de gênero entre os terráqueos do Ekumen. Tal fato é, ainda, evidenciado pela presença de duas mulheres na história: a Inspetora que fez a primeira viagem ao planeta e a outra viajante da Nave de Ai, que aparece no capítulo final. Não há qualquer tipo de protagonismo feminino no decorrer da narrativa.

Se for possível inserir a narrativa em alguma discussão de gênero, é em relação à Teoria Queer. Para a Teoria Queer, gênero é performance. Isto significa que todas as pessoas nascem bissexuais e performam determinados gêneros de acordo com as situações sociais em que são inseridos. Não havendo a separação completa entre “masculino” e “feminino”.

Neste aspecto, podemos considerar que os gethenianos são a personificação do ideal Queer. Não possuem um gênero definido e têm uma performance social neutra/andrógina, até o seu período de Kemmer, em que eles assumem, aleatoriamente, um gênero específico.

SEXO EM GETHEN

É relevante lembrarmos que o ciclo sexual dos gethenianos é diferente dos humanos. No entanto, há mais do que a diferença biológica, causada pelo fato de eles serem hermafroditas e estarem em período de Kemmer por poucos dias a cada mês.

É importante lembrarmos, por exemplo, que o incesto é permitido. Ou seja, irmãos podem vir a ser kemmerings uns dos outros. A única restrição é em relação à fidelidade. Como vimos nas narrativas nativas, após a união e a gestação do filho, eles devem se separar. Não é possível que irmãos jurem kemmering eterno.

A questão de jurar Kemmering também merece destaque. Não há a noção de amor romântico ou paixão. A união entre pessoas no kemmer ocorre de forma instintiva, casual e de acordo com as oportunidades. No entanto, em Karhide, pelo menos, é possível jurar Kemmering para com uma pessoa, o que significa que você só vai se relacionar com ela, até morrer. Não há noção de matrimônio. Não há noção de “pai” e “mãe”. A composição familiar é completamente diferente da que ocorre na Terra. Como diz a própria reflexão de Genly Ai:

 

Fardo e privilégio são compartilhados de modo bem igualitário; todos têm o mesmo risco a correr ou a mesma escolha a fazer. Portanto, ninguém aqui é tão completamente livre quanto um macho livre, em qualquer outro lugar. (LE GUIN, 2014, p. 97)

 

Neste trecho, Ai está se referindo à aleatoriedade sexual, que é outro dos pontos interessantes do Kemmer. Em Gethen, além de você ser hermafrodita e assexuado na maior parte do tempo, sua sexualidade é aleatória. Se em um mês, quando em Kemmer, você desenvolve os órgãos genitais masculinos, no próximo você pode desenvolver os femininos. A mesma pessoa pode assumir as duas funções.

Por esta razão, é possível que o rei fique grávido. É possível que Estraven tenha filhos gestados por ele e filhos que ele participou da copulação. É por isso que não existe “pai” ou “mãe” da forma como nós entendemos. Minha mãe pode ser pai do meu irmão, por exemplo. Ainda assim, seremos irmãos.

Este é mais um deslocamento genial realizado por Le Guin. O livro permite que imaginemos não apenas uma sociedade sem impulso sexual – e com isso, sem necessidade de guerra –, mas também uma sociedade sem um conceito definido de família e um parentesco bastante volúvel, principalmente quando comparamos Karhide com Orgoreyn. Ou seja: não basta criar um sistema diferente e imaginar a partir dele. Ela ainda criou um diferente do diferente, para diferenciar ainda mais.

KARHIDE E ORGOREYN

A Mão Esquerda da Escuridão - Karhide e Orgoreyn
Mapa imaginado e realizado por fãs, mostrando a divisão espacial entre Karhide e Orgoreyn.

A principal diferença entre Karhide e Orgoreyn é o sistema governamental. Enquanto Karhide é uma Monarquia parlamentarista, Orgoreyn é governada através da comensalidade. Isto significa que há 33 Comensais que decidem por sobre a forma como o povoado lida com questões políticas e territoriais. Quando se fala em “Comensais” em Orgoryen,

 

[…] geralmente significa os trinta e três Chefes de Distritos que formam o corpo governamental, executivo e legislativo da Grande Comensalidade de Orgoreyn, mas também pode significar os cidadãos, o próprio povo. Nesta curiosa falta de distinção entre a aplicação geral e específica da palavra, em seu uso tanto para o todo quanto para a parte, o estado e o indivíduo, nesta imprecisão é que reside seu significado mais preciso. (LE GUIN, 2014, p. 111)

 

Entre outras diferenças, estão o fato de em Orgoreyn todos os indivíduos receberem um trabalho por parte do Estado, assim que pisam no território. Inclusive os refugiados estrangeiros. Além disso:

 

Nenhuma criança com mais de um ano de idade vive com os pais; são todos criados nos Lares Comensais. Não existe linha de descendência. Testamentos particulares não são legais: quando um homem morre, deixa sua fortuna para o Estado. Todos começam iguais. (LE GUIN, 2014, p. 118)

 

Ou seja, em Orgoreyn há uma constante imprecisão sobre o que é o Estado e o que é o povo, pois considera-se que ambos sejam diferentes e ao mesmo tempo a mesma coisa. O país ainda tem a noção de meritocracia restrita, impedindo que os indivíduos tenham convivência familiar e diferenças sociais ou de renda. Com a ideia de que todos começam iguais, surge a noção de que todos são capazes de chegar aos mesmos postos.

Orgoreyn possui ainda as Fazendas Voluntárias, que são espaços para onde os desviantes da sociedade são enviados. Lá eles trabalham duramente, em um regime quase de escravidão, com a desculpa de estarem cumprindo determinada pena. Para evitar reproduções nestas Fazendas, o Estado faz uso de hormônios que bloqueiam as mudanças hormonais do Kemmer. Na perspectiva de Genly Ai: “Por ser uma supressão, e não meramente uma repressão, não causava frustração, mas algo mais funesto, talvez, com o decorrer do tempo: passividade.” (p. 174)

Tais Fazendas que, para a perspectiva de Genly Ai, são assustadoras e terríveis, são motivos de orgulho não só para o povo de Orgoreyn, como para todos os gethenianos. Como Estraven expressou, as Fazendas são sinal de sofisticação:

[…]  Iriam se gabar e lhe mostrar fitas e fotos das Fazendas Voluntárias, onde os transviados se reabilitam e grupos tribais em extinção se refugiam. Talvez o levassem para conhecer a Fazenda Voluntária do Primeiro Distrito, próxima a Mishnory, um belo monstruário, pelas descrições que ouvi. Se acredita que temos Fazendas em Karhide, sr. Ai, está nos superestimando seriamente. Não somos um povo sofisticado. (LE GUIN, 2014, p.191)

 

ESTRAVEN, O TRAIDOR

Logo no início da história, Estraven é banido de Karhide pelo rei e seu novo primeiro-ministro, Tibe. Pouco depois, somos apresentados a outro Estraven, desta vez parte de uma das narrativas nativas do Leste de Karhide.

O Estraven da história também ficou conhecido como “O Traidor”. E, assim como o Estraven da narrativa principal, possuía um irmão chamado Arek, chamava-se Therem e vinha de Estre. Após o conto nativo, descobrimos que os povos de Estre e Stok foram unidos por Therem de Estre, que ficou conhecido como traidor por isso e por ter matado três irmãos do lar.

O traidor do conto nativo viveu na época do rei Argaven I, enquanto a história principal se passa durante o reinado de Argaven XV. No entanto, pode-se depreender que o estigma de traidor dos Therem de Estre persistiu até tal momento. O único crime cometido pelo Estraven da história principal foi ter acreditado que Ai era alienígena e torcido pelo progresso do planeta Inverno e da humanidade.

OS DUALISMOS DE GETHEN

Uma das narrativas nativas apresentadas no livro conta a história da criação de Gethen. O planeta havia sido originado a partir do Sol e do Gelo. Sendo uma esfera de gelo, havia sido fraturada pelo contato com o sol, gerando duas extremidades distintas que, posteriormente, se tornaram os países que a narrativa apresentou. O mito de criação explica a razão para que o planeta seja tão frio. Também explica sua relação para com a sombra:

Cada filho nascido deles carregava um pedaço de escuridão que o seguia onde quer que fosse à luz do dia. Edondurath perguntou: “Por que meus filhos são seguidos assim, pela escuridão?”. Seu kemmering disse: “Porque nasceram na casa de carne, portanto a morte foi sempre atrás deles. Eles estão no meio do tempo. No princípio havia o sol e o gelo, e não havia sombra. No fim, quando tudo estiver terminado para nós, o sol irá devorar a si mesmo e a sombra engolirá a luz, e não restará nada senão o gelo e a escuridão. (LE GUIN, 2014, p. 230)

Este trecho explicita que a sombra passa a surgir em Gethen a partir do momento que o primeiro ser vivo lá surge. Como explicado no decorrer de A Mão Esquerda da Escuridão, os humanos são o único animal existente em Gethen. Por esta razão, são os únicos seres advindos da “casa da carne” e os únicos que carregam uma sombra. Esta sombra representa e simboliza a morte, que está sempre andando junto com a vida, sendo o seu outro extremo no principal dualismo existente de modo tácito para a simbologia getheniana.

O mito de fim de mundo getheniano está, assim como o nosso mito, relacionado com o fim da humanidade. Para eles, a partir do momento em que não houver mais o povo getheniano, “o sol irá devorar a si mesmo”. Ou seja, de alguma forma, o sol irá desaparecer e morrer. Com isso, o planeta deixará de existir, sendo uma escuridão eterna dominada por gelo constante.

Portanto, antes do dualismo vida-morte, Gethen apresenta o dualismo luz-escuridão como representante simbólico do primeiro e sua origem. Isto é perceptível em diversos trechos do livro, não apenas no mito nativo de criação e fim de mundo. Um dos principais exemplos é a canção Handdara que dá título à narrativa principal:

Luz é a mão esquerda da escuridão
e escuridão, a mão direita da luz.
Dois são um, vida e morte, unidas
como amantes no kemmer,
como mãos entrelaçadas,
como o fim e a jornada.
(LE GUIN, 2014, p. 226)

Tal canção expressa os pontos de dualidade que influenciam as perspectivas dos gethenianos. São eles a luz e a escuridão, a vida e a morte e os amantes no kemmer. Mais uma vez, é importante ressaltar que o dualismo existente no kemmer nada tem a ver com o dualismo terráqueo de masculino-feminino, mas sim com um dualismo baseado na noção de “eu e tu”. A diferença básica consiste no fato de que os gethenianos consideram seus parceiros como iguais, de fato, o que é bastante raro e quase impossível para o dualismo sexual terráqueo.

É relevante, ainda, que a noção de dualismo explicitada pela canção Handdara é entendida por Genly Ai através das lembranças sobre o símbolo do Yin-Yang. O terráqueo tenta explicar como o símbolo funciona, de forma a fazer uma analogia com a compreensão simbólica nativa de dualidade. Tal situação expressa um esforço de tradução e compreensão cultural louvável.

– […] É o yin e yang. A luz é a mão esquerda da escuridão… Como era o verso? Luz, escuro. Medo, coragem. Frio, calor. Fêmea, macho. É como você, Therem. Ambos e um. Uma sombra na neve. (LE GUIN, 2014, p. 257)

 

AMIZADE, IGNORÂNCIA E AMOR À PÁTRIA

Durante a jornada de Genly Ai com Estraven, embarcamos não apenas em uma aventura pelo Gelo, mas pelas relações emocionais entre dois alienígenas. Neste aspecto, foi bastante interessante observar a mudança de perspectiva de Ai por sobre Estraven no decorrer da travessia. Inicialmente, o terráqueo questiona a amizade do getheniano, explicitando o que ele próprio entendia como ser amigo:

Amigo. O que é um amigo, num mundo onde qualquer amigo pode ser um amante quando muda a fase da lua? Não eu, trancado em minha virilidade: não era amigo de Therem Harth, ou de qualquer outro de sua raça. Nem homem nem mulher, nenhum dos dois e ambos, cíclicos, lunares, metamorfoseando-se sob o toque das mãos, crianças defeituosas colocadas no berço da humanidade, não eram carne da minha carne, não eram meus amigos; não haveria amor entre nós. (LE GUIN, 2014, p. 207)

A perspectiva de Ai demonstra-se bastante preconceituosa. Apesar de viver há três anos em Gethen, ele ainda não havia compreendido por inteiro e se acostumado com o fato de os habitantes serem ambissexuais. Em seu interior, ainda havia desconfiança pelo fato de eles serem diferentes. De certa forma, Ai ainda compreendia os gethenianos como indecisos e metamorfoses ambulantes. Como eles não tinham um gênero/sexo fixo, não eram dignos de confiança. É apenas um pouco mais para frente que o terráqueo percebe seu erro. Afinal de contas, Estraven havia sido o único a acreditar no Ekumen e em sua missão. Ai se viu obrigado a superar seu medo em confiar:

Foi dessa tensão sexual entre nós, admitida agora e compreendida, mas não aplacada, que surgiu entre nós a certeza, grande súbita, da amizade: uma amizade tão necessária a ambos no exílio e já tão confirmada nos dias e noites de nossa rigorosa jornada, que é melhor que se chame esta amizade, agora e depois, de amor. Mas foi da diferença entre nós, não das afinidades e semelhanças, mas da diferença, que este amor nasceu: e ele foi a ponte, a única ponte unindo tudo o que nos separava. (LE GUIN, 2014, p. 239)

Quando Ai admite sua confiança, amizade e amor a Estraven, a narrativa de A Mão Esquerda da Escuridão ganha outro aspecto: o da aceitação. É a partir deste contato diverso, gerado por situações bastante pérfidas, que a missão conferida a Ai pode se tornar realidade.

A Mão Esquerda da Escuridão - A amizade
Representação da união entre Estraven e Ai, com a união de suas mãos.

Uma das principais diferenças conceituais entre os terráqueos e os gethenianos expressa-se por meio da noção de “ignorância”. No entanto, antes de a trazermos para a discussão, é importante lembrar que esta noção pertence aos Handdaras, que são os monges de uma importante seita religiosa do planeta. Desta forma, não sabemos se a noção está presente e guia a todos os gethenianos ou apenas àqueles que tiveram algum contato com tal religião e nutrem crença por ela.

 

– O desconhecido – disse a voz de Faxe na floresta -, o não previsto, o não provado: é nisso que se baseia a vida. A ignorância é a base do pensamento. A não-prova é a base da ação. Se houvesse certeza de que Deus não existe, não haveria religião. Nem Handdara, nem Yomesh, nada. Mas também, se houvesse certeza de que Deus existe, não haveria religião… Diga-me, Genry, o que sabemos? O que é certo, previsível, inevitável… a única certeza que você tem sobre seu futuro, e o meu?
– Que vamos morrer.
– Sim. Só existe realmente uma pergunta que pode ser respondida, Genry, e já sabemos a resposta… A única coisa que torna a vida possível é a incerteza permanente e intolerável: não saber o que vem depois. (LE GUIN, 2014, p. 76)

 

A ignorância é cultivada pelos Handdaras como sintoma de paz constante, mas também como reflexo da imprevisibilidade da vida. Tal fator é bastante curioso, considerando que os Handdaras são conhecidos pelo seu povo por serem videntes bastante exatos. Eles são constantemente procurados para dar respostas e fazer profecias. No entanto, eles próprios acreditam que há apenas uma pergunta a ser respondida com certeza e que é a incerteza do que ocorre depois dela que move a vida de todos. Esta filosofia é mais uma das grandes genialidades do livro. Genly Ai descreve os Handdaras da seguinte forma:

 

Era uma vida introvertida, autossuficiente, estagnada, impregnada daquela singular “ignorância” valorizada pelos handdaratas e leal à prática da inatividade ou não interferência. Essa prática (expressa pela palavra nusuth, que devo traduzir como “não importa”) é o cerne da seita, e não tenho a pretensão de compreendê-la. (LE GUIN, 2014, p. 66)

 

Uma das surpresas da narrativa é descobrir que Estraven, que usava constantemente a palavra nusuth, havia estudado com os Handdaras e, de certa forma, acreditava nas premissas básicas da seita.

Gethen traz ainda a noção de “patriotismo”, algo que já havia sido superado pelos planetas que fazem parte do Ekumen. Uma vez que 84 planetas estavam unidos de alguma forma, a noção de fronteiras e do que é romper com elas e ultrapassá-las, mudou junto.

Mapa Mundi de Gethen, realizado por fãs.
Mapa Mundi de Gethen, realizado por fãs.

A supressão da noção de “amor à pátria” é uma das coisas mais assustadoras que Genly Ai traz aos gethenianos. Toda a rivalidade entre Karhide e Orgoreyn é construída a partir desta noção. Sem ela, eles se sentem perdidos e com medo. Tal como é expressado pelo rei Argaven XV em conversa com Ai:

Patriotismo. Quero dizer medo. Medo do outro. E suas expressões são políticas, não poéticas: ódio, rivalidade, agressão. Cresce dentro de nós ese medo. Cresce dentro de nós ano após ano. Fomos longe demais nesse caminho. E você, que vem de um mundo que deixou as nações para trás há séculos, que mal sabe do que estou falando, que nos mostra um novo caminho… (LE GUIN, 2014, p. 29)

Estraven, o agente da mudança e transformação para Gethen, acaba demonstrando um entendimento diferente por sobre o conceito de amor à pátria. Para ele:

[…] O que é o amor pelo seu país? É o ódio pelo seu não-país? Então, não é uma coisa boa. É apenas amor-próprio? Isso é bom, mas não se deve fazer dele uma virtude ou uma profissão de fé… (LE GUIN, 2014, p. 206)

Tal expressão surge quando Ai o questiona sobre odiar ou não a Orgoreyn. Estraven demonstra que está preparado para entender o modus operandi do Ekumen e livrar-se das fronteiras territoriais. Infelizmente, tal desprendimento territorial não faz parte do entendimento dos poderosos de Gethen. Por outro lado, mais uma vez, tal tipo de pensamento aproxima o Estraven da narrativa principal ao Estraven traidor do conto nativo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A principal mensagem do livro é a de que se deve valorizar a jornada frente aos objetivos decorrentes dela. Tal noção está presente em diversas narrativas de ficção científica, sendo Star Trek uma delas.

 

É bom ter um objetivo nas jornadas que empreendemos; mas, no fim das contas, o que importa é a jornada em si. (LE GUIN, 2014, 214)

 

Tal noção valoriza o caráter empírico e transformador da jornada. Isto é evidente em todas as narrativas decorrentes da Jornada do Herói, traçada por Joseph Campbell. É também evidente em diversos estudos da área da psicologia, tendo como ápice O Livro Vermelho de C. G. Jung.

A jornada é, pois, o objetivo principal de A Mão Esquerda da Escuridão. A jornada e não o resultado do capítulo final. Não é a morte de Estraven que importa. Não é o resultado final. É o meio. É o caminho trilhado por dois alienígenas em imensas montanhas de gelo, capazes de transformá-los em dois iguais. Em amigos e confidentes, ao invés de dissidentes que guerreiam.

É a jornada que une. É ela que torna o final possível. É ela que faz com que Genly Ai finalmente supere seus pés atrás para com o povo de Gethen. Ao mesmo tempo, é ela que faz com que pelo menos um getheniano consiga compreender o terráqueo.

A Mão Esquerda da Escuridão - O percurso gelado
O Percurso Gelado de Genly Ai e Estraven.

Todas as páginas escritas antes da jornada foram apenas para deixá-la mais sólida, real e bem posicionada dentro de um contexto histórico e narrativo. E é justamente a parte da jornada que rende mais discussões, ao mesmo tempo em que é a parte mais difícil de se falar sobre. Pois, como toda boa jornada, ao ser lida ela transforma não apenas aos personagens que a compõem, mas também aos leitores que a acompanham. De forma a tornar realidade o caráter transformador de um bom livro, exaltado por Ursula Le Guin na introdução à sua obra.

Com relação ao fluxo de leitura, devemos concordar que é possível considerar o livro confuso. A mudança de pontos de vista entre Genly Ai e Estraven não é explicitada no início, fazendo com que o leitor fique um tanto perdido e demore para perceber quem é o narrador do capítulo em questão.

As narrativas e mitologias nativas, mescladas com os relatórios da primeira Investigadora do Ekumen, também tornam a leitura um pouco confusa. Tais trechos e capítulos são importantes para basear o que será discutido posteriormente, além de serem essenciais para dar ao leitor uma base concreta por sobre a existência de Gethen. Felizmente, nestes capítulos há uma marcação inicial, dizendo quando e para quem a história foi contada e de qual região e período ela faz parte.

A Mão Esquerda da Escuridão - Infográfico
Para quem entende inglês, este infográfico auxilia na compreensão da história.

Em uma abordagem positiva, o intercruzamento de pontos de vista e maneiras distintas de contar a história criam uma sensação de completude ao texto narrado. Muito além de um mero relato de viajante, A Mão Esquerda da Escuridão, apresenta um novo planeta, com diferentes construções sociais, mediadas por uma biologia sexual distinta.

Ressaltamos que a narrativa faz parte de uma série de livros que compõem o chamado Ciclo de Hainish e que conta a história da formação do Ekumen e outras missões. A Mão Esquerda da Escuridão é o quarto livro do Ciclo, mas pode ser lido independente dos outros. Le Guin afirma que apesar de vários livros se passarem no mesmo universo, não compõem necessariamente uma saga e podem ser compreendidos individualmente. No entanto, caso seja de seu interesse ter um panorama ainda mais global por sobre o universo em questão, sugerimos que leia os outros livros da autora.

A Mão Esquerda da Escuridão - Capa
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Texto escrito por Mayra Sousa Resende e Willian Perpétuo Busch.

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