Marcas da Guerra – Chuck Wendig | Resenha

Star Wars: Marcas da Guerra (Aftermath), é uma narrativa escrita por Chuck Wendig. Publicada no Brasil pela Editora Aleph em 2015, a obra faz parte de uma onda emergente de aventuras ambientais em Star Wars, que vêm tomando conta do mercado editorial nacional. Idealizada como uma trilogia, o segundo título foi publicado em 2016, Life Debt, e ainda não traduzido. O terceiro, Empire’s End, tem previsão para ser publicado ainda em 2017.

A proposta de Marcas da Guerra é oferecer o panorama social, histórico e político dos eventos subsequentes à destruição da Segunda Estrela da Morte, conforme retratados em Star Wars: O Retorno de Jedi (1983). Esta iniciativa já foi executada de modo magistral por Timothy Zahn, através da Trilogia de Thraw. Todavia, as obras de Zahn agora fazem parte do universo Legends de Star Wars, enquanto Wendig produz textos propriamente canônicos.

Marcas da Guerra é dividido em dois núcleos textuais intercalados. A história principal é completada por intrusões de diferentes interlúdios, os quais apresentam o desenrolar da estruturação da Nova República, bem como as mudanças estratégicas tomadas pelo Império Galáctico, agora que sua principal estação de comando deixou de existir, bem como o comando do Imperador Palpatine e de Darth Vader.

A ação narrativa do núcleo principal se desenrola no enigmático planeta de Akiva. Localizado na Orla Exterior, é dominado por um regime político corrupto, opressivo e caótico. Regido por uma pseudo-monarquia associada a um baronato criminoso, ambos em tênue aliança com o Império. Além disso, Akiva é uma experiência única.

 A urbanização e as cidades se misturam com florestas, criando um ambiente alien, “com raízes e brotos subindo pelo concreto”. O subsolo é repleto de mistérios, intricados sistemas de cavernas e a presença de uma antiga fábrica de droids. Indústria que no passado forneceu a base produtiva e econômica para os Separatistas, durante as Guerras Clônicas. Em teor lovecraftiano, a presença dos Uugten aponta para horrores que habitam a escuridão, esperando novas vítimas.

Wendig, apesar de tomar como ponto de partida para a abertura de seu texto dois personagens já conhecidos, como Wedge Antilles e Almirante Rae Sloane, rapidamente demonstra que seu foco é outro. Através de um milimétrico tracejar de diferentes pontos de vista, o leitor é apresentado a Norra Wexley, Temmim Wexley, Mister Bones, Jas Emari, Sinjir Rah Velus e John Barell.

Norra Wexley abandonou seu filho, Temmim, no planeta de Akiva para se juntar à rebelião. Seu marido, que era um operador rebelde, foi capturado pelo Império, e partir disso surge em Norra um certo “chamado para a aventura”. De acordo com Joseph Campbell, isto “significa que o destino convocou o herói e transferiu-lhe o centro de gravidade do seio da sociedade para uma região desconhecida”. Tal “região desconhecida” é justamente a Aliança Rebelde, em sua sangrenta e longa luta contra as forças imperiais.

Todavia, Marcas da Guerra é um livro orientado para o pós-guerra. A nova jornada de Norra agora é para Akiva. Uma vez lá, descobre que seu filho passou por duras mudanças e estabelecer uma relação com ele não será uma tarefa tão fácil quanto ela imaginava. O que mais se destaca em Norra é sua habilidade como piloto. Capaz de realizar manobras complexas e insanas, inclusive dentro de TIE-Fighters, ela é uma das poucas que participaram da batalha de Endor, com uma Y-Wing, e sobreviveram para contar a história.

Temmim, que fez sua aparição em Star Wars: The Force Awakens (2015) como o capitão Snap Wexley da Resistência, é um jovem com habilidades de engenharia mecânica e robóticas dignas de se tomar nota. Em vários aspectos, é um personagem que lembra tanto Anakin quanto Luke Skywalker. Mas, diferente deles, Temmim não depende da Força para realizar movimentos incríveis e manobras ousadas – tal como sua mãe.

Após Norra se juntar à rebelião, Temmim construiu um droid de batalha a partir da sucata encontrada no subsolo de Akiva. Apelidado de Mister Bones (Senhor Ossudo), trata-se de um modelo B1 incrível. Primeiramente, sua carcaça é decorada com ossos, e quando a entidade caminha, uma certa música é produzida por esse arranjo. No mais, Bones tem uma personalidade que beira o insano, e ao mesmo tempo, o genial. Habilidoso com armas de fogo, e também com vibroblades, o droid é uma máquina de guerra. No decorrer da narrativa, descobre-se que parte disso provém de sua programação especial, baseada em movimentos e ataques de um certo general cyborg das Guerras Clônicas: Grievous.

Jas Emari, sobrinha de Sugi (The Clone Wars) é uma caçadora de recompensas habilidosa e pragmática. Com uma visão sempre orientada para os objetivos, a personagem oferece um nível de ação fenomenal para a narrativa. Sem depender de um sabre de luz. Além disso, percebemos que seu emocional passa a ser descontruído na medida em que amizades e alianças são estabelecidas.

Sinjir Rah Velus é um ex-oficial de lealdade do Império, que abandonou seu posto durante a batalha de Endor. Ele fornece ao leitor um insight único sobre o funcionamento interno dos escalões imperiais. Tal como o fato da existência de recrutas e oficiais que se juntaram ao governo opressivo por opção. E, outros, que seguiram o mesmo caminho por necessidade, com o intuito de fugir da opressão doméstica, pobreza e vida no crime. Em uma passagem incrível, a ótica de Velus revela o horror da guerra, algo que as vezes é esquecido por muitos.

“Ele cambaleia através da floresta. A floresta queima. Pedaços de plantas passam escovando de forma ardente. Um capacete de stormtrooper está ali, carbonizado e meio derretido. Há um pequeno incêndio nas proximidades. A distância, o esqueleto de um andador AT-AT, com o topo aberto por uma explosão, descascado como uma flor de metal, também queima. Corpos por toda parte. Alguns deles não tem rosto, não têm nomes. Para ele, pelo menos. Mas há outros que ele conhece, ou conhecia. Ali…o oficial com cara de novato, Cerk Lormin. Bom garoto, sempre ansioso por agradar. Tinha se juntado ao Império porque era algo que se fazia, não por acreditar naquilo, nem de longe. Perto dele estava o capitão Blevins — esse, sim, acreditava na causa. Era um fanfarrão e um valentão, também. Seu rosto era uma máscara de sangue. Sinjir fica feliz que ele esteja morto. Nos arredores, uma jovem. Ele reconhece o rosto dela no meio da confusão, mas não sabe o seu nome, e a insígnia que indica a sua patente está coberta de sangue. Quem quer que tenha sido, agora ela não é ninguém. Adubo para a floresta. Comida para os Ewoks. Apenas pó estelar e mais nada. Todos somos pó estelar e mais nada, ele pensa. Um pensamento absurdo, entretanto. Mas não menos que o que se segue: Fizemos isto a nós mesmos. Ele deveria culpar os rebeldes. Mesmo agora ele os pode ouvir aplaudindo. Disparando raios para cima. Aldeões e caipiras. Guerreiros de fazenda e pilotos de encanamentos. Bom para eles. Eles merecem essa celebração. Assim como nós merecemos nossos túmulos.”

O personagem menos desenvolvido, mas que certamente irá receber maior destaque nos volumes seguintes, é o sargento da Nova República, Jom Barrell. Oriundo de Juntar, Barrell é integrante das forças especiais (SpecOps), e possui uma participação extremamente importante no conflito que se desenrola em Akiva.

Chuck Wendig, além de apresentar personagens brilhantes, nos brinda com duas concepções de guerra distintas. A tensão que a galáxia está experimentada, agora que o Império está fragmentado, é posta de maneira relacional através da fala de um cidadão comum, um chefe de família. E, tal noção, é oposta daquela proferida pela brilhante estadista, Mon Montha.

Glen, residente de Saleucami, experimenta o problema de possuir dois filhos em conflito ideológico, Webb e Dav. Webb trata seu irmão mais novo como um traidor, devido ao fato do mesmo ter se alistado as fileiras da rebelião. Dav, por sua vez, rebate que o Império, defendido com tanto vigor pelo seu familiar, é apenas um grande instrumento de opressão e silenciamento. Já a fala de Glen revela que nenhum dos dois está certo em seu posicionamento.

“Agora, escutem. O que aconteceu antes vai acontecer de novo. A República era o jeito do mundo antes, e será o jeito de novo. E, por um tempo, todo mundo ai saudá-la, e tudo será bonitinho, mas virá um momento em que tudo ficará amargo e alguém decidirá que tem um jeito melhor de fazer as coisas. E a Nova República, ou a Nova-Nova República, ou ainda a República-Que-Temos-Esta-Semana vai reprimir tudo isso com força. Então, essas pessoas, com seu suposto “jeito melhor de fazer as coisas”, vão se tornar a nova corajosa Aliança Rebelde, e a República vai virar o inimigo. E a roda vai girar uma vez mais. — Ele esfrega os olhos. — Sou velho o bastante para lembrar de quando a República deu um tiro no próprio pé. Ela não foi dominada pelo Império, ela se tornou o Império. De forma bem devagar, claro; não foi da noite para o dia, mas ao longo de anos e décadas. A fruta sempre é melhor quando madura. Mas nunca permanece assim: toda fruta estraga, se demora tempo demais para ser colhida. Lembrem-se disso.”

Justamente na contramão dessa fala, ou certamente considerando todo o peso dela, temos a concepção de Mon Montha. Criticada pelos seus assessores, a estadista propõe que as forças armadas da Nova República sejam reduzidas em noventa por cento, uma vez que o Império tenha sido derrotado. Isso, pois, manter um contingente armado é inviável, e irá criar uma sensação de guerra contínua que não se tem o intuito de manter.

“Não estamos enfrentando o Império apenas para nos tornarmos o Império. Não é uma simples tomada de poder, e é isso que quero mostrar à galáxia. Quero que saibam que confiamos neles, como a República sempre confiou. Se vamos pedir a alguém que lute por nós, esse alguém precisa saber pelo que estará lutando. E essas pessoas vão lutar por uma galáxia democrática unificada, não por uma que apenas finge ser uma democracia, enquanto fecha as mãos em um punho inflexível”

Para os fãs de Star Wars, ainda não está claro de que modo a First Order surgiu. Mas, se a fala e a proposta de Mon Montha foi efetivamente aplicada nos anos seguintes, percebe-se que há um certo vazio militar onde um, ou vários grupos armados podem surgir. E, a partir da imobilidade burocrática, marca da democracia, é que surgem entidades como a First Order e sua antítese, a Resistência.

Marcas da Guerra é um livro que deve ser lido – e com atenção. É nas entrelinhas que se pode detectar tamanha riqueza de detalhes e reflexões filosóficas – o que revela que o autor é, além de um gênio, grande fã de Star Wars.

Capa de Marcas da Guerra, edição brasileira
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Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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