Mass Effect Evolution (2011) | Resenha

Esta resenha contém spoilers sobre o universo de Mass Effect.

Publicada pela Dark Horse Comics, Mass Effect – Evolution (2011) é uma série de HQs, composta por quatro volumes, que narra a arqueologia de um dos personagens mais emblemáticos de todo o universo de Mass Effect – o Illusive Man. Escrita por Mac Walters, com roteiro de John Jackson Miller e desenho de Omar Francia, Evolution é uma peça chave para compreender o “mal-estar” causado pelos humanos a partir da sua inserção no panorama sócio-político da galáxia.

No ano de 2149, um grupo de pesquisadores e cientistas humanos descobriu que aquilo que parecia ser uma lua orbitando Plutão era, na realidade, um Mass Relay. Isto é, uma tecnologia deixada por uma espécie conhecida como Protheans. Evento que, por sua vez, gerou grande curiosidade.

Uma equipe pioneira, liderada por John Grissom, foi enviada através desse relay e encontrou o sistema de Arcturus. Composto por três planetas e um cinturão de asteroides, a história da humanidade se transformou. Motivados em colonizar novos planetas na galáxia, os humanos se lançaram em uma grande empreitada de exploração interplanetária.

Mass Effect Evolution - Edição Capa Dura

Nos anos que se seguiram, os humanos se espalharam pelas regiões adjacentes, sempre buscando encontrar outros relays. No fatídico ano de 2157, tal descoberta ocorreu. Um grupo tomou contato com o Relay 314, que estava desativado. Curiosos, a primeira ação foi reativar o equipamento.

O que os humanos não sabiam, na ocasião, é que esse relay em específico havia sido vetado pelo Citadel – organização política de diferentes espécies que rege e regulamenta a galáxia. Tal proibição era datada de muitos séculos, pois no passado a exploração de tal relay resultou nas Rachni Wars, um conflito de proporções catastróficas.

Uma guarnição Turian que patrulhava as imediações do relay detectou a ação humana e abriu fogo. Seguido de um massacre, apenas uma embarcação foi capaz de se salvar e alertar a Alliance do que havia se passado.

Para a Hierarchy Turian, tal evento não passava de uma situação rotineira e menor, na qual uma espécie desavisada e ignorante estava violando as leis galáticas. Mas, para a humanidade, a situação era diferente. Tratava-se do primeiro encontro com outra espécie inteligente, e mediada por uma catástrofe bélica. O conflito se escalou e após três meses foi encerrado, com a intervenção da Citadel.

As diferentes espécies da galáxia, que já faziam parte da Citadel, passaram a ver os humanos como um grupo agressivo e expansivo. Já, para a humanidade, o alien passou a ser uma fonte de ameaça em potencial. Reagindo a isso, organizações paramilitares acabaram surgindo, com o intuito de defender a humanidade no futuro.

A narrativa se inicia, propriamente, com os três mercenários humanos, Jack Harper, Bem Hislop e Eva Coré, atacando um esquadrão Turian que tomava o controle da colônia de Shanxi, a qual havia sido recentemente bombardeada e reduzida a escombros. O grupo de Jack, que na realidade se define como “especialistas”, e operam de modo paramilitar, reportam ao General Williams, do qual Ashley Williams, de Mass Effect 1, descende diretamente.

General Williams entende que os movimentos recentes das patrulhas Turian não aparentam ter uma função propriamente militar, mas muito mais um padrão de “busca”. Nesse plano de fundo, percebe-se que os Turian consideram os humanos como primitivos e têm uma visão bastante negativa da espécie como um todo. Isso irá refletir bastante na importância posterior imputada na construção da Normandy SR-1, uma iniciativa humana e turian pós-guerra.

O turian capturado pelos especialistas não é um mero soldado, mas sim o General Desolas Arterius. Este utilizou das operações de guerra para encomendar uma busca de um tipo de relíquia desconhecido que se encontrava no planeta. O objeto, em si, era protegido por um grupo de turians que havia sido geneticamente modificados. A relíquia é tocada por Ben, que é mergulhado na energia azul que esta emite. Jack tenta salvar seu companheiro, mas a situação se torna ainda mais complexa pois General Desolas conseguiu se libertar e capturou o grupo.

Arte de Mass Effect Evolution

Na segunda etapa da narrativa, o leitor éintroduzido a um personagem que terá uma participação significativa em Mass Effect. Saren Desolas, irmão do General Desolas. Jack, que havia permanecido em coma algumas semanas, acorda em um novo contexto – a guerra entre Turians e humanos foi encerrada. Pode-se perceber que Saren já está sendo escoltado pelos turians geneticamente modificados, que se ocultam com longos mantos, criando um ar monástico e místico para o personagem.

Os efeitos da relíquia em Jack começam a aparecer progressivamente. Primeiramente uma série de dores de cabeça, as quais o personagem narra como tomadas por visões de escuridão e destruição que viriam a ocorrer no futuro. E, sincronicamente, Jack aprende uma espécie de pronúncia “cibernética”, idêntica àquelas dos turians que o haviam atacado para defender o artefato.

É também revelado que o artefato é intitulado pelos Turians como o Monolito Arca. Seguindo Saren e Desolas, Jack e Eva acabam são atacados em Illium por uma criatura parecida com aqueles turians de outrora, mas esta com feições humanas – seu antigo amigo, Ben, agora modificado radicalmente pela tecnologia alienígena.

Jack e Eva são capturados e levados para Palaven. Lá, revela-se que os sacerdotes de Saren e Desolas utilizam mantos Valluvian, pertencentes a uma ordem que há muito não existia e é a única que pode adentrar ao Templo Palaven. O discurso dado para os turians gira em torno de um “esclarecimento espiritual” que foi obtido por estes novos monges e que será compartilhado com toda a população. O plano, na realidade, é utilizar o monolito para transformar toda a população turian, colocando-a em uma nova esfera de evolução.

Ocorre que os turians que já passaram por tal processo não obedecem às ordens totalmente. A única anomalia é Jack, que além das visões e da língua, tem em seus olhos um brilho azul característico daqueles que se aproximaram do artefato. Outra habilidade de Jack é ler as inscrições no templo Turian e entender que os antigos sacerdotes haviam passado pelo mesmo processo de transformação, mas optaram por se isolar e não contaminar o restante da população.

Saren escuta Jack e concorda que a situação tomou uma proporção não esperada e age. Descolas, que visa tomar o controle do artefato para si, é impedido por Ben que consegue resistir ao controle da máquina antiga, que será destruída por Ben em um ato de sacríficio. Infelizmente, durante tal processo, Eva é ferida mortalmente.

Jack escapa com Eva, mas o Templo é destruído por Saren que entende que os segredos ali contidos devem permanecer ocultos.

Nas cenas finais, Jack está sentado em uma confortável poltrona a partir da qual vários vídeos são exibidos. Um canal de comunicação está aberto e ele explica que Eva e Ben se sacrificaram para proteger a humanidade, e que há algo lá fora que deseja destruir a humanidade. Assim, esse “manifesto” visa não apenas blindar a humanidade contra os perigos do espaço, como também a melhorar para o futuro.

Nascendo, assim, Cerberus. Afinal, Jack Harper é o Illusive Man.

O desenrolar dos eventos, que mencionei acima, torna perceptível diversos elementos que serão desenvolvidos posteriormente em Mass Effect. Partindo da questão de relação entre humanos e outras espécies, para os usos da tecnologia e seus impactos na sociedade, a grande chave de Mas Effect – Evolution é abrir as portas para as primeiras considerações em torno do que é humanidade, quais são seus limites e implicações, bem como as noções de evolução assistida e devolução causal.

Outro elemento importante para a narrativa, e muitas vezes deixado de lado pelos olhos pouco atentos, é a sensação de estranhamento causada na humanidade ao conhecer os planetas, a tecnologia e as sociedades aliens. Evolution é uma leitura basilar para todos que já conhecem o universo de Mass Effect. E, além disso, serve como um bom ponto de partida, pois irá lançar as primeiras questões que permearam todas as narrativas subsequentes.

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Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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