Memórias, Sonhos e Reflexões – Carl G. Jung | Resenha

Memórias, Sonhos e Reflexões é a biografia autorizada de Carl Gustav Jung, importante pensador do século XX. Aqui realizamos o esforço de analisar a trajetória do pensador através de sua biografia e teorias relacionadas. Contém spoilers.

Carl Gustav Jung
Carl Gustav Jung

Sendo absurdamente contra a valorização do eu (ego) e a divinização de personalidades, que seria uma inflação da persona, Dr. Carl Jung recusou-se, a princípio, a participar de seu próprio projeto biográfico. A ideia de narrar a história de sua vida não partiu de si, mas sim do editor da Pantheon, editora de Nova Iorque, que foi apoiado por uma das colaboradoras de Jung, Dra. Jolande Jacobi. Jacobi indicou Aniela Jaffé, que já fora paciente de Jung e no momento trabalhava como sua secretária. Jaffé, que admirava muito seu mentor, gostou da ideia, mas encontrou dificuldades em convencê-lo a participar do experimento, justamente pela recusa de Jung ao culto aos ídolos.

Após muitas tentativas, foi combinado que eles se encontrariam, Jaffé faria perguntas a Jung que as responderia, enquanto ela anotava ou gravava o áudio e posteriormente transcreveria em forma de livro. No entanto, logo no início da conversa, quando o assunto era a infância de Jung, este decidiu que escreveria com suas próprias palavras aquilo que recordava e achava que deveria ser publicado a respeito. Assim sendo, os três primeiros capítulos do livro são “escritos” por Jung. Há também partes do apêndice que foram escritas por ele, tais como Os Sete Sermões dos Mortos e Sobre o Livro Vermelho. No meio do livro há mais dois capítulos que também contaram com sua colaboração ativa, sendo eles Sobre a vida depois da morte e Os últimos Pensamentos, além do pequeno trecho sobre a viagem ao Quênia e à Uganda e, claro, os trechos de cartas contidos também no apêndice.

As partes do livro que não foram escritas por Jung contaram, além dos relatos orais obtidos em conversas, de apoios documentais, palestras, relatos de aulas e alguns consertos literários feitos pela própria Jaffé. O Livro Vermelho e Os Sete Sermões dos Mortos não haviam sido publicados até a publicação desta biografia, sendo contidos exclusivamente nelas e adicionados pelo próprio Jung ao se dar conta de que precisava falar sobre eles, pois sabia  que seriam inicialmente incompreendidos – ele chega a afirmar que o Livro Vermelho só seria entendido quinhentos anos após sua publicação original.

O pacto auto-biográfico, do qual Philippe Lejeune (2008) discorre, fica claro logo no prefácio escrito por Jaffé explicando as condições de publicação do livro. Lejeune afirma que no início de toda biografia é feito um pacto que estabelece a relação entre o leitor e o texto. Em casos de auto-biografia, a relação pode suscitar no leitor dúvida da veracidade dos fatos ou crença absurda neles.

No caso de Memórias, Sonhos e Reflexões, é dito ao leitor que não será narrada linearmente a história de vida do pensador e também é deixado claro que o texto não é inteiramente escrito por ele, mesmo que a narrativa seja sempre feita em primeira pessoa. A dúvida sobre possíveis adendos produzidos unicamente por Jaffé persiste e gera um pouco de insalubridade na leitura, fazendo com que haja desconfiança acerca do que é narrado. No entanto, por se tratar de um personagem dotado de desenvolvimento intelectual e psíquico que dificilmente é atingido, a desconfiança tende a desaparecer no decorrer da leitura.

Como proposto na reflexão de Lejeune, a linearidade e cronologia dos fatos expostos no livro depende da montagem posterior à coleta de informações e não necessariamente corresponde à cronologia de ocorrência dos fatos. Fator absolutamente evidente na biografia de Jung. Além disso, é importante frisar que a maior parte do texto advém de transcrições feitas por Jaffé de suas conversas gravadas com Jung. A transcrição, como Lejeune afirma, “não é uma simples cópia”, mas sim uma “re-criação completa”, com isso deve-se ter em mente que a relação de Jaffé com a composição do livro não é diminuta, mas constitutiva para o processo de entendimento da redação biográfica. (Lejeune, 2008, p.164)

A versão de Jung sobre a história é “comprada”, pois vê-se como escrita inocentemente e sem a intenção de vangloriar-se ou aumentar suas histórias, mas sim como uma oportunidade de análise da construção e continuidade de sua própria vida. Ou, em seus próprios termos, o processo de individuação. Fornecer para um pensador a oportunidade de analisar a construção de sua trajetória teórica  é provavelmente uma das ideias mais geniais no campo das construções biográficas e acaba por minimizar a quantidade possível de críticas e aumentar a admiração pela genialidade alheia.

O livro foi originalmente publicado em 1961, ano da morte de Jung. Começara a ser escrito na primavera de 1957 e foi traduzido para português pela Editora Nova Fronteira em 1975 por Léon Bonaventure. Como o nome de Jung vem em letras garrafais no topo da capa, a confusão sobre ser uma legítima auto-biografia ou apenas uma biografia autorizada é comum.

Parto da hipótese de que há interferências de Aniela Jaffé na construção do texto, não só em sua organização, adições e correções, mas também – e principalmente – nas perguntas que foram por elas formuladas para Jung. Não é possível ter acesso a tais perguntas e tão pouco às anotações e gravações das conversas, forçando-nos a acreditar não apenas na formidável memória de um senhor de oitenta e três anos, mas também na capacidade de assimilação de pensamentos externos a si de sua secretária.

Aniela Jaffé e Carl G. Jung.
Aniela Jaffé e Carl G. Jung.

Memórias, Sonhos e Reflexões é dividido em catorze capítulos. Por cada capítulo corresponder a uma conversa diferente com a redatora, além de dias diferentes, momentos diferentes, perguntas diferentes e disposições de diálogo distintos, é impossível dispor uma linearidade prévia entre eles. É comum que um capítulo esteja falando sobre o período que antecede a primeira guerra mundial  e em seu decorrer faça referências a fatos ocorridos no pós-guerra. Além de surgirem referências não detalhadamente explicadas no decorrer do livro, como é o caso de quando a esposa de Jung é citada.

Tais fatos podem se explicar por se tratar de uma análise do passado do autor, literalmente falando. Os acontecimentos não são narrados secamente no sentido de “acordei e tomei banho”, pois faz parte da concepção de Jung que tais fatos pouco importam. Então, se o objetivo do capítulo é falar sobre como era sua vida escolar, ele só vai falar sobre aquilo que permeava seus pensamentos durante o período escolar.

Jung é narrador e personagem ao mesmo tempo, produzindo a sua própria trama. O texto é narrado em primeira pessoa, mas é evidente para o leitor que aquele que fala não está vivendo as histórias no momento em que narra e que não faz parte de seu objetivo relatar a história como se a estivesse revivendo.

A consciência de que aquelas coisas estão no passado, de que os detalhes dos acontecimentos não são lembrados e de que a memória seletiva do personagem permite que ele se lembre apenas daquilo que considera essencial para a construção do seu pensamento como intelectual do século é perceptível o tempo todo.

INFÂNCIA E JUVENTUDE

A fim de explicar a origem de sua personalidade pensadora, Jung rememora acontecimentos  remotos de sua vida que percorrem desde sua tenra infância, em idade que nós não recordaríamos com tanta proeza e facilidade, e vai até o final de sua faculdade. Seu pai era pastor luterano e o ensinava preceitos religiosos. Na escola, Jung considerava todos os assuntos interessantes e era o melhor da classe. Sua mãe se preocupava justamente com o fato desse interesse e de como isso poderia gerar falta de foco para a decisão e escolha de uma profissão quando o momento chegasse. Jung, talvez em resposta a isso, apresentou uma divisão bifurcada de sua personalidade.

A personalidade número 1 se focava no mundo empírico, nas ciências naturais e exatas. O teor aqui é a observação do mundo através de um viés empiricista e racionalista. E, à luz do Livro Vermelho, pode ser inserida dentro do “espírito da época”. Já a personalidade número 2 estava direcionada para as artes, Filosofia e assuntos da mitologia e religião. O confronto entre ambas era constante e assustador.

Como não gostava de chamar atenção, Jung se esforçava para ser o segundo da classe ao invés de o primeiro. Tinha poucos amigos pois falava sobre coisas que não costumava interessar os demais. A solidão o deprimia e buscava fugas em suas leituras. Teve seu primeiro contato com a Filosofia após questionar a existência de Deus e perceber que ninguém conseguia respondê-lo de forma que o convencesse.

Teve acesso a Kant, Schopenhauer e posteriormente ao Fausto de Goethe (há quem diga que Jung era descendente de Goethe), que se tornou um de seus livros preferidos para o resto de sua vida. Via em Fausto um retrato de sua personalidade número 2.

Posteriormente, entrou em contato com Nietzsche e adotou Assim Falava o Zaratrusta como outro de seus livros preferidos. Via Zaratrusta como “o Fausto de Nietzsche” e também sua personalidade número dois. Preocupava-se, no entanto, com a identificação que o livro nietchiziano o causava. Expressa a diferença entre ambos pelo fato de Nietzsche ter percebido tardiamente a sua multiplicidade, enquanto Jung o fez ainda jovem. Dessa forma, a incompreensão de si-mesmo afastou Nietzsche da humanidade, fazendo-o aprofundar-se no mundo misterioso do indizível e cair para “além de si mesmo” (Jung, 1975, p. 99).

A dúvida religiosa o fez se afastar de seu pai cada vez mais e procurar leituras independentes, a fim de alcançar a emancipação de seu pensamento. Não entendia como os fiéis podiam se contentar em crer em dogmas inexplicáveis, pois crer naquilo que não se pode provar, para ele, era reflexo de falta de curiosidade, pesquisa e vontade de saber. Nunca lhe faltou a tal vontade de saber e a certeza de que todas as coisas são passíveis de serem explicadas e que mesmo se não forem, você só pode saber disso depois que tentar explicá-las.

Seu princípio era quebrar as barreiras, neste momento não do inconsciente, pois ele ainda nem sabia do que isso se tratava. De qualquer forma, queria conseguir uma maneira de lidar com essa ambiguidade da dupla personalidade sem prejudicar nenhuma das partes e de lidar com as pessoas tentando entender suas formas de pensar.

Optou por medicina, o que a princípio considerou como ceder à personalidade empírica, ou seja, a número 1. A medicina fazia parte do rol de ciências concretas, no sentido de que podem ser observadas empiricamente, com ações e resultados. Especializou-se em psiquiatria e posteriormente teve contato com a psicanálise de Freud, acentuando seu interesse pela psique humana.

PSIQUIATRIA E FREUD

Jung e Jaffé dedicam dois capítulos para falar sobre suas atividades clínicas. O primeiro relata diversos sonhos de Jung, suas interpretações e influências no modo de analisar e tentar compreender seus pacientes. Junto com isso, diversos casos anônimos e não-anônimos, considerados essenciais para a formação teórica do pensador são narrados sucintamente.

Percebe-se que os métodos de Jung são ortodoxos e que seu desejo diverge da psiquiatria justamente por acreditar que ao invés de medicar o que já estava doente, era necessário tentar descobrir o que causava a doença. A relação de confiança que precisava ser estabelecida entre ele e seus pacientes era difícil de ser construída e demandava longas sessões terapêuticas, até que finalmente ele encontrava fatores que, quando organizados segundo seus padrões lógicos e explicados aos pacientes lhes faziam sentido o suficiente para que se convencessem de que não estavam doente. Tal fato é, a meu ver, o cerne da criação de um dos principais conceitos junguianos, o do inconsciente coletivo.

Para Jung o inconsciente pessoal é a camada superficial do inconsciente. Trata-se daquilo que Freud chama de inconsciente, e é o lugar dos conteúdos que são esquecidos e recalcados, e o contato com eles se dá no plano prático. Apesar de apresentar sinais e traços míticos, como uma leitura edipiana, é exclusivamente da ordem pessoal. Já o inconsciente coletivo, que nada tem a ver com as representações coletivas de Durkheim, é uma camada compartilhada por toda a humanidade. Por ser um universal vazio, é, em grande medida, próximo ao conceito de inconsciente de Lévi-Strauss (referência ao texto “A eficácia simbólica”, presente no livro Antropologia Estrutural).

No inconsciente coletivo, os arquétipos passam a se relacionar e produzir imagens arquetípicas. Tais imagens se apresentam nas mitologias, e por se manterem uma constante, são vistos por Jung como totais. Esta totalidade é uma espécie de relação de espelhos que o homem tem com a natuerza, e através dela pode se dispor da existência da comunidade, tanto interna quanto externa ao indivíduo.

É, pois, a partir de suas experiências clínicas e das relações que enxergava entre elas e seus próprios sonhos que formula a teoria de que há um nível no inconsciente dos indivíduos que compartilham os mesmos moldes sociais que os fazem pensar algumas coisas sob a mesma ordem lógica e assim responder a imputações de maneiras semelhantes.

Sigmund Freud e Carl G. Jung.
Sigmund Freud e Carl G. Jung.

A relação com Freud surge após a leitura de um de seus livros, Interpretação dos Sonhos, e a percepção de que aquele era um teórico que pensava semelhante a ele, no quesito de tratar as causas das doenças psiquícas ao invés de simplesmente medicar os doentes. Aproximou-se de Freud e virou seu amigo e herdeiro. Fizeram uma série de viagens juntos, pensaram, trocaram cartas, conviveram e, por fim, afastaram-se. Toda a história entre Jung e Freud é narrada em apenas um capítulo, mas Freud não desaparece do livro aí.

O rompimento entre os dois dá-se no momento em que Jung percebe que Freud não confia tanto nele assim. Freud via-se como pai teórico de Jung e dessa forma precisava sempre reafirmar sua superioridade perante a ele, não aceitando que suas ideias pudessem ser contrapostas pelas ideias de Jung. Como ambos eram intérpretes de sonhos, narravam um ao outro suas histórias e pensavam juntos em seus possíveis significados. Porém, Jung percebeu que Freud escondia diversos sonhos, provavelmente na gama de não demonstrar-se vulnerável perante a ele, e isso o desagradou.

Além deste fato, Jung estava decepcionado pela crescente dogmatização que Freud fazia à sua teoria sexual, afirmando que todos os problemas psicológicos têm uma origem em disfunções de ordem sexual. Jung não aceitava o conceito de libido como exclusivamente sexual (algo essencial para a teoria freudiana). Afirmava a existência da libido, mas sua canalização para a formação do símbolo não seria necessariamente sexual.

O problema não era só a teoria, que Jung discordava por ter visto muitos casos em que os problemas tinham ordens diferentes da sexual – embora soubesse que o sexo tem papel fundamental para a construção da individualidade e relação dos indivíduos com a comunidade.

Em uma das primeiras cartas que Jung mandou para Freud, a diferença entre as teorias foi marcada pela diferença entre pacientes. Enquanto Freud tratava de sujeitos histéricos de classe média alta, de número baixo, atendendo em um consultório, Jung atendia em um hospital público, e seu público era constituído majoritariamente por sujeitos pobres e psicóticos. E foi através da visão de um deles, sobre um “falo solar”, que Jung teve o insight sobre o inconsciente coletivo.

Para Jung, o maior problema estava no fato de Freud fechar-se à teoria sexual e não estar mais disposto a pensar em outras maneiras possíveis de resolver o problema, transformando sua própria teoria em um dogma a ser seguido por seus discípulos e disseminado pelo mundo. A psicanálise, como ciência, precisava se justificar.

Desde pequeno o mote de Jung foi romper as fronteiras que barram pensamentos diversos, produzindo diferentes maneiras de resolver os mesmos problemas e como para ele era nesta pesquisa por novas soluções e melhoria das já existentes que estava a ciência, decidiu que era o momento de se distanciar de Freud.

Porém, a solidão o espantava e a amizade lhe era quista, fato que o fez ponderar a publicação de seu livro Símbolos e Transformações da Libido especialmente por causa do capítulo “O Sacríficio”, onde expunha opiniões expressamente contrárias às Freudianas e que sabia que custaria sua amizade com o mesmo. Porém, Jung não foi detido pelas barreiras e acabou publicando.

Em sua análise sobre o ocorrido, afirma que o principal problema de Freud é que ele estava tão preocupado em resolver as questões psicológicas de seus pacientes, que não reparava em sua própria neurose. Tinha síncopes frequentes e pouco refletia sobre si, fatores que eram imprescindíveis para Jung. O fato de Freud não contar seu sonho pesou na separação não apenas por demonstrar falta de confiança, mas porque Jung evidencia que a importância que ele dava a seus sonhos era muito maior do que aquela operada por Freud.

De certa forma, entende-se que Jung considerava Freud limitado, no sentido de não estar disposto a explorar novos campos de saber que pudessem ajudar na emancipação psíquica. Tais fatos podem ser explicados por sua idade mais avançada que a de Jung e o cansaço que isso lhe causou e também pelo fato apontado por Jung de que ele pouco se preocupava com a própria psique.

AS VIAGENS

Sem Freud e se aproximando da alquimia e do interesse pela descoberta do significado de seus sonhos, Jung mergulha-se em seu interior e decide explorar os pólos do conciente e do inconsciente. O consciente é aquele que temos acesso rápido e o inconsciente se faz presente imperceptivelmente, exceto quando aparece em sonhos. Jung passa a ver os sonhos como maneiras de viajar dentro de si e entender-se melhor e tenta aplicar este método também em seus pacientes. A partir disso seu rol de conceitos cresce e a produção intelectual aumenta consideravelmente.

Destaco nesta parte do livro pequenas inflexões acerca de sua família, que raramente é mencionada. Sabe-se que seu pai faleceu durante seus estudos de medicina, gerando dificuldades financeiras para a família e para a continuidade de sua faculdade. A morte de sua mãe é citada apenas no momento em que se fala sobre a Torre e a existência de sua mulher e filhos é mencionada rapidamente no decorrer de alguma de suas histórias.

É perceptível neste ponto, mais uma vez, a intenção de não expor sua vida, em termos pessoais – o que ele explica como não cabendo apenas a ele. A ideia era falar apenas sobre aquilo que lhe dizia respeito, citando as pessoas que fossem necessárias para o decorrer da história e não para criar fofocas ou disseminar boatos a respeito de sua vida pessoal e a intimidade de quem os cerca. No entanto, acabamos sabendo da existência de sua mulher e de seus cinco filhos.

A Torre construída por Carl G. Jung.
A Torre construída por Carl G. Jung.

O encontro com o inconsciente e o impulso teórico que isso causa na vida de Jung é exprimido em forma de uma construção arquitetônica a qual ele chama de Torre. A Torre é uma casa em forma de torre que ele foi construindo de acordo com suas descobertas psicológicas. Cada parte da casa tem um significado, sendo um deles a representação do inconsciente,  do consciente e assim sucessivamente. Um de seus filhos afirmou que a casa havia sido construída em cima de um cemitério e que, por isso, poderia ser assombrada. Inicialmente Jung negou a afirmação, mas de fato encontrou defuntos durante as escavações dos terrenos. Descobriu pertencerem a oficiais do exército e enterrou-os dignamente. A partir disso, decidiu que a Torre seria dedicada aos mortos que lhe eram quistos. Expôs um brasão de sua família e diversos artifícios que recordassem seus mortos.

Ainda na Torre, construiu um quarto do que hoje seria considerado “nadismo”, ou seja, um cômodo em que intencionalmente não se faria nada. Era pequeno, decorado manualmente por Jung que o utilizava para práticas meditativas, momentos de reflexão e de solidão. A viagem interna e exteriorizada aos limites da mente humana foram também externalizadas por vias artísticas. Jung praticava o desenho de mandalas e fazia esculturas. Nesta parte do livro ele fala um pouco sobre o Livro Vermelho, que conteria o mesmo conteúdo dos Cadernos Negros, porém com imagens. Ambos a serem publicados apenas após a sua morte (os Cadernos Negros não foram publicados até hoje).

A seção que observo como sendo referente a viagens não fica apenas nas viagens por auto-descoberta junguiana, mas conta também sobre suas viagens pelo mundo. São narradas viagens à África (norte e tropical), Índia, tribo de índios Pueblos e, por fim, à Ravena e Roma. A descrição dos mundos diferentes e afastados da Europa encontrados por ele é magnífica. Nota-se a crescente vontade de explorar o universo e as humanidades, tudo visto sob uma ótica de maravilhosidade.

Ao conversar com os nativos e tentar entender sua lógica de pensamento e processo cultural, pode-se observar uma semente da raíz antropológica em Jung. Seu interesse em se comunicar com o desconhecido era justamente nos relatos pessoais que eles podiam fazer a respeito do mundo em que viviam. A surpresa de Jung foi justamente o fato de que grande parte deles fazia uma série de coisas sem fazer a menor ideia do motivo para tal. Além de uma comparação com a sociedade europeia da qual advinha, que também recria uma série de ritos e tradições anualmente sem saber exatamente as razões, há a percepção de que tais atitudes são regidas pelo inconsciente, reproduzidas e disseminadas por ele e por isso passam despercebidas.

Na antropologia isso é observado durante todo o processo de consolidação da disciplina e ainda nos trabalhos efetuados atualmente. Ao pensar o pensamento nativo, nós criamos uma ordem para ele e uma lógica que talvez não faça o menor sentido para o nativo. A intenção é que aquilo que vemos seja inteligível para nós e para tal retiramos fatos que aos nativos parecem banais e os estruturamos de formas a parecerem sensacionais.

Penso que o mesmo é feito em biografias, tal qual é dito por Pierre Bourdieu em A Ilusão Biográfica (2000). Construir uma biografia, sendo ela feita pelo próprio personagem ou por um ghost writer ou ainda por um grupo editorial específico, requer que se pense o pensamento de um terceiro. No entanto a vida, assim como as representações culturais observadas pelos antropólogos, não faz um sentido linear e lógico. O esforço de colocá-la em ordem é ilusório e gera uma história de vida que só existe no texto escrito e não nas memórias de quem viveu. Jung percebe isso e afirma que

Não tenho vontade nem capacidade de colocar-me fora de mim mesmo, a fim de olhar meu próprio destino a partir de um ponto de vista verdadeiramente objetivo. Poderia cair no frequente erro auto-biográfico que consiste em alimentar a ilusão do que poderia ter sido, ou compor uma apologia pro vita sua. Afinal de contas, cada um de nós é um acontecimento que não pode julgar-se a si mesmo e que deve entregar-se for better or worse – ao julgamento dos outros. (Jung, 1975, p. 107).

Este trecho prova que Jung sabia estar produzindo uma ilusão com sentido à respeito de sua própria construção teórica e também que, ao aceitar sua publicação, estava disposto a receber julgamentos e críticas – não que isso fosse novidade para ele. O livro reforça a ideia de ilusão conceituada por Bourdieu justamente por deixar claro que não há um esforço em organizar linearmente a vida do autor, mas sim separá-la em etapas e tópicos e explicá-los independentemente. Dessa forma, é claro o interesse de Jaffé e editores em estabelecer a superfície social que proporcionou a construção teórica de Jung.

Indicação teórica semelhante é feita por Roy Wagner em A Invenção da Cultura (2012). O autor afirma que só é possível termos noção da nossa própria cultura quando estamos afastados da mesma, ou seja, a alteridade produz um choque cultural capaz de nos fazer relacionar sobre as estruturas já naturalizadas em nossas operações cotidianas. Além da racionalização da nossa própria cultura, o contato com o outro faz com que racionalizemos a cultura dele e estipulemos uma estrutura ilusória que a contemple. Ilusória porque faz sentido apenas dentro do contexto do antropólogo que a concebeu, dificilmente sendo compreendida por quem de fato faz parte da mesma. Fato consequente do anterior, no qual só conseguimos racionalizar sobre nós mesmos a partir de um distanciamento.

A relação de alteridade, portanto, faz com que tanto o biógrafo quanto o antropólogo produzam uma cultura do outro que existe apenas ilusoriamente, em forma de modelo textual. Ao mesmo tempo, isso faz com que a cultura do próprio biógrafo e antropólogo apareça no texto de alguma forma, o que não é problemático em casos de auto-biografias, mas o é no caso de biografias organizadas por terceiros, como esta.

Outra maneira de pensarmos esta questão é a partir de Michael Pollak que em Memória e Identidade Social (1992) afirma que só enxergamos a identidade como problema quando há algum tipo de ruptura. Ruptura esta que, em termos de Wagner, pode ser entendida como choque cultural. Surgindo a necessidade de construir uma condição estrutural cronológica que faça sentido e informe ao outro a respeito da identidade que buscamos constituir – seja nossa ou do entrevistado em questão.

Percebe-se que a própria lembrança é regulada socialmente, considerando que cada ruptura desperta lembranças distintas. Pollak afirma ainda que para a melhor compreensão da identidade que o outro está tentando construir ao relatar as lembranças, é mais importante que observemos a maneira pela qual elas são relatadas e não exatamente o que se é dito. No caso de Jung, a própria construção da biografia já parte deste pressuposto, que é deixado claro logo no prefácio de Jaffé, ao afirmar que não falará sobre as ações de Jung, mas sim sobre sua teoria.

A relação entre autor e texto, portanto, não cria apenas um texto ilusório, mas também autor e personagens ilusórios. Por mais que haja esforço por parte dos envolvidos na construção textual para que ela seja neutra, jamais será. Como na anedota da pessoa que queria um mapa tão detalhado que acabou fazendo um mapa do tamanho da cidade real, ou seja, sem utilidade nenhuma enquanto mapa, é necessário haver a ciência de que em qualquer texto que fale sobre subjetividade, contextualização, pessoas e disputas entre consciente e inconsciente, haverá ilusão.

A PASSAGEM

Após a morte do pai, mãe, esposa, afastamento do amigo, percepção de que jamais conseguiria atingir em totalidade seu inconsciente e de que o processo de meditação e auto-análise seria eterno, vê-se finalmente um quê de desânimo na narrativa de Jung.

Com o contato com o ocultismo, alquimia, ciências orientais, povos desconhecidos, arqueologia, matemática, física, psicologia, antropologia e todas as áreas de conhecimento que estavam surgindo em sua época, é possível inferir que Jung foi uma das pessoas vivas que obteve a maior gama de conhecimento possível para um cérebro só. A crença de que no futuro ele seria compreendido, considerando que na sua época ele não era, sustentou seu otimismo por muito tempo.

Para finalizar o livro, Jaffé sabiamente escolhe trechos em que Jung fala sobre a vida após a morte, faz uma retrospectiva de seus sentimentos e atos, fala de suas visões e compartilha pensamentos até então não compartilhados, mas que ele considera necessários. Nesta parte vê-se Jung como humano e não como a quase divindade que é construída durante a trajetória do livro.

Com todo o contato teórico e a construção do pensamento interrupta, a vontade incessável de conhecer mais e saber mais, a aparência de ser uma pessoa muito perspicaz, que percebe lá no começo do século XX que o pensamento binário ainda vai nos levar ao fracasso e que tenta se constituir e ensinar aos outros a ser múltiplo e não apenas um, é difícil pensar que se tratava de um velhinho de oitenta e três anos sentado em uma cadeira com seu cachimbo e um bigode bem cuidado.

A desconstrução da divindade junguiana justamente no final do livro gera uma catarse que creio não ter sido intencional para ele e talvez sim para Jaffé e os editores. Pois ao retornarmos à nossa pequenez e percebermos que aquela pessoa sensacional é tão gente quanto a gente, com as mesmas aflições, angústias, dúvidas e sofrimentos, o otimismo de que a vida, as pessoas e o sistema tenham potencial de melhora, a percepção sobre nós mesmos acaba por ser também transformada.

A história de Jung não conta sobre cartas românticas, casamentos, traições, nascimentos de filhos e detalhes de mortes alheias. Não fala sobre sua cor, roupa ou comida preferida. Mas ela fala exatamente aquilo que cada um dos leitores precisa saber. Não apenas sobre Jung, mas sobre nós mesmos.

O processo de invenção, no sentido de Wagner, é bem sucedido pois provê não só a invenção do personagem e do livro, mas também a do leitor. Ao entrar em contato com a história de Jung somos obrigados a repensar nossa própria construção identitária, individuação e contato com os arquétipos que nos constituem. Dessa forma, acabamos por tentar construir uma estrutura consciente que reafirme a nossa existência no mundo. Exatamente o que Jung aponta como faltante em Freud.

CONCLUSÃO

À guisa de conclusão, sinto a necessidade de citar um trecho do final da biografia:

Quando criança, sentia-me solitário e o sou ainda hoje, pois sei e devo dizer aos outros coisas que aparentemente não conhecem ou não querem conhecer. A solidão não significa a ausência de pessoas à nossa volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improváveis. Minha solidão começa com a experiência vivida em sonhos precoces e atinge seu ápice na época que confrontei o inconsciente. Quando alguém sabe mais do que os outros, torna-se solitário. Mas a solidão não significa, necessariamente, oposição à comunidade; ninguém sente mais profundamente a comunidade do que o solitário, e esta só floresce quando cada um se lembra de sua própria natureza, sem identificar-se com os outros. (Jung, 1975, p. 307).

A humildade e o cuidado com as palavras presente em todo o texto (e a dúvida constante de saber se ela provém de Jung ou de Jaffé), suscita neste momento de reflexão final em que o autor expõe como se sentiu durante a sua vida. Ao dizer que “quando alguém sabe mais do que os outros, torna-se solitário”, ao contrário do que faríamos em qualquer outro contexto, é impossível indicar que se trata de uma pessoa egocêntrica, pelo contrário.

Trata-se de alguém que se sentiu excluído e abandonado durante a maior parte da sua vida simplesmente por não ser compreendido dentro dos termos que lhe pareciam corretos. Trata-se de alguém que foi marginalizado e é até hoje, mesmo tendo sido genial. Trata-se de alguém que é pouco lembrado, estudado ou levado a sério, mas que mesmo assim nunca desistiu de seus objetivos iniciais. Nunca desistiu de lutar por si mesmo. Jung é um símbolo de confiança e amor e serve de inspiração para cada um daqueles momentos em que nos sentimos diminuídos perante situações distintas.

Enxergo na ânsia por emancipação de Jung uma coisa muito aquém do iluminismo kantiano que visava a razão em absoluto. Vejo em Jung justamente o amalgama da personalidade denominada por ele como “número 1” e “número 2”. Ao mesmo tempo em que a razão e cientificidade lhe é hiper valorizada, os conhecimentos sentimentais, contextuais e enigmáticos possuem a mesma influência em seu pensamento. Jung chegou muito próximo do equilíbrio da sua multiplicidade e não vejo maneira para ele ter feito isso se não a ampliação de sua percepção do universo.

Jung, com uma vida de experiência e esforço, chega muito próximo de romper todas as barreiras e de enxergar as coisas como elas realmente são, ou seja, muito maiores do que nós realmente enxergamos. Ampliar nossas percepções não está ligado apenas às nossas percepções internas, ao contato com aquilo que escondemos de nós mesmos e às descobertas de nossas próprias mentiras e enganações.

As percepções externas também precisam ser ampliadas. Jung não viaja apenas dentro de sua mente, mas também viaja pelo mundo. Ele é introspectivo e expansivo ao mesmo tempo, pois valoriza ambos os tipos de conhecimento. A partir do problema do abandono e da solidão, vejo o surgimento da tolerância. Não só para com seus pacientes neuróticos, psicóticos ou histéricos, mas também para com as pessoas ditas normais. O simples fato de ele não ter tentado convencer Freud de que sua teoria era mais certa, mas sim ter se distanciado dele e continuado a produzir aquilo que lhe apetecia já mostra sua imensa capacidade de compor com as outras pessoas. De realmente viver em comunidade. Mesmo apreciando a solidão. Mesmo tendo um cômodo em sua Torre de mortos somente para isso.

Findo elogiando a disposição dos capítulos do livro. A não linearidade dá a sensação de uma história mais verdadeira, justamente por não ser perceptível uma narrativa que forçasse a construção de um sentido para pensamentos e lógicas que nasceram para serem nonsense. O início e o fim do livro humanizam um personagem que poderia facilmente ser endeusado pelo miolo da história, mas que talvez por pura displicência, humildade e tolerância própria (ou da Aniela Jaffé, ou dos editores), faz questão de se mostrar apenas humano. Demasiado humano.

Capa de Memórias, Sonhos e Reflexões
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REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: Amado, J. e Ferreira, M., Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos e Reflexões. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975.

LEJEUNE, Phillipe. O pacto autobiográfico. De Rousseau à internet. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

POLLAK Michael. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos, vol. 5, n. 10, 1992, pp. 200-212.

WAGNER, Roy. A Invenção da Cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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