Passageiros (2016) | Resenha

Passageiros  conta a história de um casal preso em uma nave espacial por 90 anos, rumo à uma nova colônia terrestre: Homestad II. Contém spoilers.

Passageiros (2016) é um filme de romance espacial que pode ser encaixado no gênero Sci-Fi. Por esta razão, não engloba grandes questões de ficção científica e, tão pouco, traz inovações para o gênero. Da mesma forma, não inova no quesito cinematográfico, sendo um blockbuster comum. A única diferença entre Passageiros e um filme de comédia-romântica qualquer é a sua localização: uma nave espacial.

Dirigido por Morten Tyldum e escrito por Jon Spaihts, Passageiros conta a história de uma nave espacial que está viajando da Terra para Homestad II. Homestad é uma grande empresa que produz não apenas as naves espaciais, como também planetas a serem colonizados. Homestad II, como o nome diz, é o segundo planeta-colônia da companhia. A nave espacial carrega 5 mil passageiros, mais tripulação. Todos eles pagaram para ter a chance de colonizar um novo planeta.

A viagem dura cerca de 120 anos e todos os passageiros fazem o percurso em cápsulas de hibernação. Faltando quatro meses para a chegada, todos seriam acordados para desfrutar da imensa espaçonave, até que chegassem ao destino. No entanto, por conta de um mal funcionamento, um passageiro acorda 90 anos antes do esperado.

Jim Preston (Chris Pratt), após passar um ano solitário tentando descobrir como voltar à hibernação, desiste e tenta se matar. Mal sucedido nesta empreitada, esbarra com Aurora Lane (Jennifer Lawrence), em sua cápsula de hibernação, e se apaixona por ela. Ele acaba acordando Aurora. As panes da nave pioram, até que Gus (Laurence Fishburne), pertencente à tripulação, também acorda da hibernação e auxilia o casal a resolver o problema. A presença de Gus é essencial, pois ele tem uma pulseira de acesso diferenciada, que permite a entrada em locais exclusivos à tripulação. É graças à esta pulseira que os problemas podem ser solucionados.

Entre inúmeros clichês, o filme explora uma noção já bastante conhecida na ficção científica: a de que a jornada é mais importante do que o destino final. A importância da jornada faz parte de grandes obras como A Mão Esquerda da Escuridão e Star Trek. O que o filme faz é transpor esta discussão, existente há décadas, para uma nova realidade: uma jornada no espaço, em uma nave que tem mais 89 anos de percurso. Ou seja, ao invés de o casal de protagonistas desfrutarem o destino final, eles tiveram que aprender a desfrutar o percurso.

O filme apresenta a já mencionada pane no sistema, que é resolvida durante a narrativa. Após isso, não há outros conflitos na vida do casal. Eles são jovens, bonitos e têm uma nave inteira para explorar da forma que quiserem. É como se estivessem abandonados em um enorme navio, repleto de entretenimento. Além disso, como estão no espaço, vivem em uma bolha social: não precisam se preocupar com a Terra, nem com Homestad II. Não há problemas sociais ou políticos.

Aproveitar a jornada deixa de ser uma obrigação e coisa ruim, para algo muito mais bacana do que esperar pelo destino final. Inclusive, se o filme fosse sobre como sobreviver em uma nave espacial por 89 anos teria sido mais interessante do que a escolha narrativa que foi executada.

O filme tem a intenção única de ser um blockbuster quando vemos os atores escolhidos para protagonizar a história. Jennifer Lawrence e Chris Pratt estão no auge de sua carreira. Ambos são brancos e correspondem aos padrões euro-ocidentais de beleza. Ambos têm experiência com filmes de ficção científica famosos, ela com Jogos Vorazes e ele com Guardiões da Galáxia. Juntar a fama individual destes atores com um cenário espacial deslumbrante já é suficiente para agregar espectadores. A trama acaba ficando em segundo plano, porque o trailer é chamativo e as pessoas vão sentir vontade de ver o filme. O fato de ele pouco agregar à vida do espectador não é relevante para os produtores, visto que o dinheiro do ingresso já foi gasto e o mercado cinematográfico já foi movimentado.

Este tipo de filme cumpre muito bem sua função de entretenimento. Consegue prender o espectador em diversas cenas e traz coisas interessantes para um público que não é muito acostumado com ficção científica. No entanto, para quem já conhece outras histórias do gênero, acaba sendo uma tremenda perda de tempo.

Para além da questão de aproveitar a jornada, o filme traz cenas muito semelhantes às de um outro blockbuster recente, e inovador para sua época: Gravidade (2013). Traz também uma noção de fim de mundo bastante comum no universo do cinema e também no de games. A noção de que após exaurir os recursos da Terra, os humanos resolveram colonizar outros planetas.

Se é possível elencar uma novidade na narrativa é o fato de explorarem um pouco como seria o trânsito entre um planeta e outro. A questão da quantidade de anos que a travessia demora e a necessidade de estar hibernado é interessante. A sacada de Aurora, de que poderia ir até Homestad II, conhecer e pegar a nave para voltar à Terra, é incrível. Ela conheceria a Terra em séculos completamente diferentes e teria viajado no tempo. Porém, isso não foi melhor explorado.

Outro fator interessante é a forma de escrita. Aurora diz estar escrevendo um livro, mas ela nunca sentou e escreveu, ela conversa com um apetrecho tecnológico que escreve as palavras para ela. Ou seja, no universo do filme, a escrita se tornou transcrição. Isso porque ao invés de ser o humano quem senta e escreve sua história, seja com uma caneta ou com um computador, é o próprio computador, através de reconhecimento de voz, que produz o texto. É a única diferença tecnológica realmente relevante.

Uma questão central do filme é sobre o valor da vida de outra pessoa. Jim Preston passa bastante tempo tentando decidir se desperta ou não Aurora. Apesar de ser uma pessoa desconhecida, ele se apaixonou por sua beleza e pelos relatos deixados por ela antes de entrar na embarcação, além de ter gostado de todos os livros que ela havia escrito. Tendo apenas este tipo de contato com a moça, Jim já se sentiu no direito de tomar uma decisão de vida-ou-morte por sobre a existência dela.

Mais uma vez, vimos um homem com poder de decisão e uma mulher na posição de vítima indefesa. Apesar de acompanharmos o sofrimento da solidão de Jim, devemos considerar que havia mais 4 999 pessoas à bordo. Ele poderia, depois de conhecer e se apaixonar por Aurora, ter ido em cada uma das cápsulas e conhecer e gostar de cada uma das pessoas. Ele poderia ter acordado alguém da tripulação, ou apenas aguardado, visto que Gus iria acordar de qualquer forma. Se ele estivesse sozinho, bastava entrar em hibernação na cápsula da enfermaria que chegaria ao destino planejado. Tudo que ele precisava era de uma pulseira de acesso, não de uma mulher bonita.

Como a história começou com o ponto de vista de Jim, quando tivemos a oportunidade de acompanhar Aurora despertando, já estávamos cansados de todo aquele processo. Isso gerou uma personagem feminina pouco desenvolvida.  Desde o primeiro momento, ficou claro que Jim não contaria que a acordou e que esperaria que ela confiasse inteiramente nele até que isso ocorresse. Se não fosse a falta de habilidade do android Arthur (Michael Sheen) para entender mentiras, ironias e segredos, talvez Aurora só soubesse que havia sido enganada quando já tivesse aceitado se casar com Jim.

Pôster brasileiro oficial do filme.
Pôster brasileiro oficial do filme.

Ao colocar o nome de Jennifer Lawrence primeiro e o rosto dela em cima do de Chris, no cartaz oficial de divulgação, a impressão que o espectador tem é de que o protagonismo será, pelo menos, igualmente dividido entre ambos. O trailer do filme dá a mesma impressão. Mas não é isso que ocorre. A personagem de Lawrence demora pelo menos meia hora para entrar em cena. E mesmo após entrar, a narrativa segue sendo sobre Jim. A cena mais impactante com Aurora é quando ela está sendo afogada em uma piscina quando, em uma das panes, a gravidade da nave cai para zero e a personagem fica, literalmente, presa em uma bolha de água. Além de ser uma cena visualmente bonita, a agonia da personagem atinge o espectador.

A soma de clichês na tomada de decisões da narrativa com a quantidade de reiterações sobre padrões sociais já estabelecidos – que deveriam estar sendo questionados, ao invés de reforçados – faz com que o filme seja pedante e uma obra de consumo rápido, sem espaço para qualquer reflexão positiva.

Acredito que ficção científica sem espaço para reflexão não pode ser considerada ficção científica. Por isso categorizei o filme como Sci-Fi, que é uma versão mais “leve” de ficção científica, onde a falta de reflexão, infelizmente, reina. A maior parte dos grandes blockbusters que se dizem ficção científica, infelizmente, são Sci-Fi. Isso significa que o cinema contemporâneo de ficção científica está cada vez mais pobre em qualidade narrativa, enquanto fica mais rico monetariamente.

Mesmo o espectador que espera um bom romance pode se decepcionar com Passageiros. Nada que se passa no relacionamento entre os protagonistas é estimulante ou inovador. A impressão que fica é que Jon Spaihts fez vários remendos entre filmes famosos, apenas com o intuito de ganhar dinheiro. Tanto na área de ficção científica, quanto no romance, a narrativa é previsível, chegando a ser pedante e chata.

Felizmente, a atuação dos protagonistas, a trilha sonora e a fotografia salvam alguns trechos da película.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

3 thoughts on “Passageiros (2016) | Resenha

  1. Muito bom filme eu adorei. Lembro dos seus papeis iniciais, em comparação com os seus filmes atuais, e vejo muita evolução, mostra personagens com maior seguridade e que enchem de emoções ao expectador. Desfrutei muito sua atuação em Filme Passageiros cuida todos os detalhes e como resultado é uma grande produção e muito bom elenco.

  2. Não assisti, mas a resenha foi bem no sentido que eu já esperava, já que eu não esperava muito desse filme. Desde o trailer deu pra perceber os clichês e a preguiça de colocar rostinhos bonitos para atuar em uma película que pouco ou nada acrescenta (sem contar o spoiler gigante que o trailer revela). Talvez eu veja algum dia, mas a empolgação está quase a zero…

    1. Exatamente… já era previsível de que não seria bom, mas surgiu a oportunidade de assistir e abracei. Fiquei com preguiça na metade do filme e ele parecia nunca acabar… Lamentável que este tipo de produção ainda exista :/

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