IZOMBiE (2015) – Análise da Segunda Temporada

IZOMBiE versa sobre Olivia Moore, uma médica que se descobre zumbi e tenta ter uma vida normal apesar disso. Falamos em detalhes sobre a primeira temporada da série neste texto.  Composta por dezenove episódios, a segunda temporada foi ao ar entre 2015 e 2016. Contém spoilers.

TRANSMISSÃO E SEXO EM IZOMBiE

Logo no início da temporada damos de cara com Olivia e Major novamente como casal. A primeira questão que aparece trata da possibilidade de um zumbi ter relações sexuais. Como Major havia recebido a cura zumbi, sua relação com Liv poderia fazer com que ele retornasse às condições de morto-vivo, às quais ele abomina. Tendo isto em mente, Ravi realiza diversos testes com a intenção de procurar um preservativo que barre a transmissão do vírus zumbi. No entanto, tal preservativo não é encontrado.

Neste contexto, há uma cena em que o casal está na cama e tem relações sexuais sem penetração. Seguindo a lógica de que o vírus é transmitido através do contato entre fluidos corporais, o casal imagina que uma relação sexual que não envolva troca de fluidos não vá transmitir o vírus. Com isso, além de beijos e amassos, eles fazem sexo oral e masturbação. O que chama atenção nesta cena, porém, é a concepção de que “isso não é sexo”. Ora, dizer que apenas penetração é sexo exclui toda uma comunidade de pessoas que transam sem penetrar, como as mulheres lésbicas. Em 2017 já há uma concepção mais ampla sobre o que é relação sexual e já deveria ser de senso comum que a penetração não é a única forma de fazer sexo. Quando uma série reitera este tipo de concepção, não apenas exclui toda uma comunidade e uma luta, quanto afirma uma noção ultrapassada sobre o que é fazer sexo.

Outro ponto esquisito do fato, é que Liv e Major não têm medo de se beijar. Todo beijo causa troca de fluidos corporais. Assim sendo, resta a questão: afinal de contas, como o vírus que transmite o modus zumbi é passado? Através de qualquer fluido, ou só de trocas sanguíneas? E mesmo se for só por trocas sanguíneas, o que garante que um dos dois não está com um machucado na gengiva ou na boca e não vá ser infectado da mesma forma? Sabemos que quando nos relacionamos com pessoas portadores de DST os cuidados devem ser redobrados, não apenas no momento de penetração. Visto que a penetração não é a única forma de fazer sexo, a camisinha não deve ser a única forma de prevenção. Toda troca sanguínea deve ser evitada.

Mas, vamos lá: se o vírus é transmitido através de trocas sanguíneas, como pode as pessoas se tornarem zumbis apenas com um arranhão? Quer dizer, o arranhão corta a pele do novo infectado, mas o único contato é entre a unha e a pele – que irrompe em sangue. Seria a unha a real transmissora do vírus?

Acredito que seja interessante pensarmos nisso, considerando que a transformação em zumbi é um dos grandes quês da série. É no mínimo estranho que um ponto tão importante seja tão pouco explicado e ainda possa gerar confusões.

A GANÂNCIA COMO RETRATO DO CAPITALISMO

A plot principal da temporada foi em torno do lançamento do SuperMax – o novo energético produzido pela MaxRager e que supostamente transformava as pessoas em zumbis.

Neste ponto, é bastante interessante pensarmos sobre a personalidade de Vaughn Du Clark, o dono da empresa. Cego pela sua ideia inovadora de um energético que garantia foco e força, ele deixou de enxergar as pessoas e as consequências de sua criação, focando apenas no retorno financeiro que ela lhe traria. É claro que na atual sociedade, onde tempo é dinheiro e a ansiedade é quase uma pandemia, um produto como o SuperMax seria muito bem vindo. No entanto, a displicência do criador quanto às questões éticas que transpunham sua criação é chocante.

O auge disso, é claro, é quando ele deixa a própria filha ser infectada e, em seguida, acaba com sua vida.

Se em todas as vezes que ele apareceu antes disso era protegendo a filha e guiando-a como sua sucessora na empresa, a cena em que ele abre mão disso e dela para salvar a própria pele, reitera o egoísmo do empresário. Mesmo se sentindo ameaçado pela própria criação, Vaughn Du Clark insistiu que ela era segura o suficiente para ser lançada, sem medir o poder da catástrofe que isso geraria. Inconsequente, o empresário visou o dinheiro e deixou a ganância falar mais alto.

A forma como ele manipulou Major e o utilizou para assassinar todos os zumbis que encontrasse e todas as suas outras ações são um importante alerta – ao mesmo tempo em que um reflexo – da nossa sociedade.

Cada vez mais o capitalismo que rege a maior parte dos países na atualidade permite que o dinheiro importe mais do que vidas. Com isso, diariamente milhares de pessoas padecem com guerras, fome e doenças que seriam facilmente evitadas. Grande parte dos nossos atuais problemas – incluindo a política nacional – derivam da ganância por poder e dinheiro, coisas que por muitas vezes são tratadas como sinônimos. A inconsequência que vimos em Vaughn Du Clark existe em milhares de empresários pelo mundo, que forçam seus funcionários a trabalhar em condições sub-humanas recebendo salários baixíssimos, por exemplo. A mais-valia, humanos sendo utilizados para teste de remédios e cosméticos e a desigualdade esquecida, que gera pessoas marginalizadas, são alguns dos principais problemas da nossa sociedade atual. Se continuarmos a seguir os mesmos caminhos de Vaughn Du Clark, a possibilidade de gerarmos uma catástrofe tão grande quanto a dele existe e, infelizmente, cada dia se demonstra mais próxima e mais real.

ZUMBIS: DE DOMINADOS A DOMINADORES?

Com o final da temporada, vemos o possível surgimento dos zumbis como dominadores. De minoria reprimida e caçada, de sofredores que se arriscavam diariamente para conseguir alimento, eles têm a potência de aparecerem na próxima temporada como criadores de uma nova ordem. Agora em grande quantidade e após terem assassinado quase todas as pessoas da MaxRager, tendo acesso à criação do SuperMax – e com isso, havendo a possibilidade de gerar uma infecção em massa – a nova temporada deverá começar com o grande impasse: os zumbis vão se render à possibilidade de se tornarem maioria ou vão se contentar com sua posição de minoria?

Caso eles decidam subverter a ordem social da série e se tornarem “os novos humanos”, provavelmente se apresentarão como malvados e a hipótese de um apocalipse zumbi ipsis literis será real. Isso traria para a série um novo mol de possibilidades, visto que até o momento o apocalipse zumbi não foi abordado com grande ênfase. No entanto, talvez desviasse um pouco do foco investigativo corrente no trio Liv, Ravi e Clive. Só nos resta esperar pelos novos episódios para saber quais serão as decisões narrativas. Prevejo uma temporada eletrizante.

A REVELAÇÃO DO SEGREDO

No final da temporada temos a tão esperada revelação: Liv e Major finalmente contam para Clive que são zumbis, explicando a ele o que isso significava. O detetive, único humano ainda não afetado pelo vírus no galpão, tem uma das melhores reações frente à revelação.

No decorrer da série, o segredo já havia sido revelado para Ravi – que achou muito legal trabalhar como uma zumbi e passou a se dedicar à descoberta de uma cura para o vírus; Peyton, que teve uma reação brusca e triste e abandonou a amiga e Major, que ficou enojado e relacionou a ex-namorada ao assassino dos jovens com quem ele trabalhava, tendo repulsa dela por um bom tempo.

Ao decidir não contar sobre sua condição para sua família, Liv perdeu o contato com eles. Após negar realizar uma transfusão de sangue com seu irmão, que estava prestes a morrer no hospital, ela foi hostilizada por seus parentes, que pediram para que ela se afastasse. Como para ela manter o segredo de sua condição era o melhor a ser feito, em relação à sua família, ela aceitou o fato.

A única revelação que ainda restava era em relação à Clive, que já suspeitava dos “poderes psíquicos” de sua ajudante legista e a achava “mais pálida que o normal”. Ao saber da notícia, ao invés de querer matar a ela e a Major, ele passou a ouvi-los e até cogitou que eles o transformassem, para que pudesse sobreviver ao grande ataque – o que, felizmente, não foi necessário.

Esta revelação pode ter gerado mais coisas positivas para a próxima temporada, visto que agora Liv e Major podem ser honestos com Clive, o que pode auxiliar nas medidas protetivas que a polícia precisará tomar.

A CURA É UMA UTOPIA?

Mais uma vez, a temporada terminou sem a tão esperada cura. Apesar dos esforços contínuos de Ravi, chegar à fórmula ideal ainda não foi possível. Após Liv ter testado imprudentemente a primeira amostra em Major e Blaine, Ravi teve que recomeçar as pesquisas do zero. Isso fez com que ele tivesse que ir atrás da droga que gerou o vírus: Uthopium.

O nome da droga pode ser traduzido como Utopia que, resumidamente, é um desejo ou modelo de algo que jamais poderá ser alcançado. Subvertendo os nomes, é possível pensarmos na cura para o vírus como uma grande utopia. Toda vez que está próxima de ser concretizada, é impedida por alguma razão e Ravi é obrigado a recomeçar seus estudos e buscas.

Na conjuntora do último episódio, a cura se faz ainda mais necessária, caso os humanos não queiram perder para os zumbis o posto de “espécie dominante do planeta”. No entanto, para que isso seja realizado é necessário que Ravi chegue à dosagem correta de sua fórmula e consiga disseminá-la de forma tão eficaz quanto o vírus do SuperMax. A junção destes dois fatores pode deixar as coisas mais complicadas e difíceis.

Certamente caso a cura seja possível o viés da série terá que ser modificado. Uma vez que a narrativa depende de uma mulher zumbi para ocorrer, a cura se torna improvável ou impossível. Sabemos que, a qualquer custo, teremos pelo menos Liv de zumbi na história. As justificativas para que seja assim, porém, podem variar no decorrer dos próximos episódios.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Retornando ao problema do sexo e da transmissão, previamente abordados, é possível ficar feliz com um fator do último episódio: Liv e Major finalmente são zumbis ao mesmo tempo. Finalmente, Major parece estar aceitando a sua condição. Isso resolve o problema do sexo e permite que o casal volte a ter relações com penetração – algo que aparentemente é essencial para a felicidade de ambos. No entanto, com todo o caos ocorrendo, restam dúvidas sobre a possibilidade e viabilidade do romance engrenar. Após tantas idas e vindas, a confiança já está abalada e o amor dos dois, nesta nova condição, precisará ser reinventado. Será que eles terão forças e ânimo para tal?

A temporada teve uma desenvoltura narrativa que superou as expectativas. Foi capaz de explorar outros núcleos para além do principal, revelando histórias que não envolvessem a protagonista. Tais foram os casos de Clive, que foi mostrado fora do local de trabalho e com relacionamentos e Ravi, que teve um relacionamento sem ser Peyton e foi mostrado em situações até então inimaginadas.

Este tipo de realização traz ganhos à narrativa, que não fica cansativa e cresce em potencialidade e complexidade.

Para além destas mudanças, a temporada também trouxe questões interessantes e manteve o nível de produção em altos padrões.

Tudo isso nos faz ficar muito ansiosos para a estreia da terceira temporada, que está prevista para o dia 04 de abril deste ano.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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