A Bela e a Fera | Trajetória da História

A Bela e a Fera foi escrito por Madame de Villeneuve, na França, em 1740 e persiste em nosso imaginário contemporâneo, por conta de diversas adaptações cinematográficas. Contém spoilers.

 HISTÓRIA ORIGINAL

A Bela e a Fera foi originalmente escrita em 1740 pela francesa conhecida como Madame de Villeneuve. Publicada em forma de conto, a história tinha mais de cem páginas e versava sobre a terceira filha de um rico mercador. Enquanto suas duas irmãs mais velhas eram fúteis e interesseiras, Bela, a mais nova, era humilde e se esforçava ao máximo para ajudar o pai. A família tinha perdido uma grande riqueza e foi obrigada a se mudar para uma cabana bastante pequena, o que gerou revolta nas irmãs mais velhas, e compaixão em Bela.

Certo dia o pai partiu para a cidade, em busca de bons negócios, e perguntou para as filhas o que elas queriam que ele trouxesse de lá. As mais velhas encomendaram vestidos e futilidades, enquanto Bela quis apenas uma rosa.

Na volta para a casa o mercador se deparou com uma imensa tempestade, que impediu seu retorno. Ele encontrou um castelo e resolveu lá se abrigar durante a noite. O castelo era mágico e tudo que ele precisava para se acomodar e se alimentar simplesmente aparecia. Ao amanhecer, o mercador estava de partida e lembrou-se que Bela tinha lhe pedido uma rosa. Avistando uma linda roseira no quintal do castelo, colheu uma flor para a filha. Neste momento, uma Fera extremamente selvagem se apresentou como dona do castelo, acusou-o de roubo e exigiu que trouxesse uma das filhas para serem oferecidas em seu lugar, caso quisesse viver.

Ao saber da situação, e se sentindo culpada, Bela ofereceu-se para ser entregue para a Fera, imaginando que seria devorada logo no primeiro dia. Ao invés disso, desenvolveu uma amizade com o selvagem, que a tratava bem, lhe dava livros e realizava todas as suas vontades, com a intenção constante de casar-se com ela. Um dia, Bela pediu que fosse visitar sua família e a Fera permitiu, desde que ela voltasse em uma semana.

As irmãs de Bela ficaram com inveja ao verem que ela estava bem vestida e feliz e tentaram ao máximo fazer com que ela se atrasasse ao retorno. A Fera havia lhe dado um anel e bastava que ela colocasse sobre uma mesa e imaginasse o castelo, para que retornasse a ele. Após muito prorrogar a viagem, Bela sonhou que a Fera estava morrendo e voltou imediatamente para o castelo. Acabou encontrando-o morto de fome, pois havia deixado de se alimentar desde que Bela havia partido.

Bela cuidou dele e percebeu que o amava, aceitando o pedido de casamento. No momento em que eles se beijaram, a Fera se transformou em um lindo príncipe. Fora enunciado, então, que o príncipe tinha sido vítima de um feitiço e o amor de Bela o havia rompido.

ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS

Apesar do texto original ser de Madame Villeneuve, a versão mais popular é a de 1756, adaptada por  Jeanne-Marie LePrince de Beaumont. A publicação foi realizada no Magasin des enfants, ou dialogues entre une sage gouvernante et plusieurs de ses élèves. Esta versão era um resumo da grande obra de Villeneuve, com isso muitos personagens foram retirados e a história passou a ser contada de forma mais simples. Foi graças a esta adaptação que a história passou a ganhar visibilidade.

Já em 1757 surgiu a primeira versão inglesa da obra, que em pouco tempo ganhou versões diferentes pela Europa, até que se espalhasse mundialmente.

ADAPTAÇÕES CINEMATOGRÁFICAS

A primeira versão cinematográfica foi francesa, realizada em 1946. Em 1952 uma versão soviética foi ao ar. Em 1962 foi realizada a primeira adaptação inglesa, onde a fera era um lobisomem. Em 1987 foi realizada a primeira versão musical da história. Em 2011 um filme que retratava a história de forma contemporânea foi realizado. Em 2014 outro longa francês foi realizado, tomando por base o conto original.

ADAPTAÇÕES TELEVISIVAS

Na televisão, a história foi adaptada já em 1976, tendo uma readaptação em 1984. Entre 1987 e 1989 uma nova adaptação do conto, com uma série homônima, foi realizada. O conto também apareceu no seriado Once Upon a Time (2011 – atual) e na série de ficção científica produzida pela CW em 2012 e baseada na série de 1987.

O FENÔMENO DISNEY

            Animação 

Em 1991 foi ao ar a animação de A Bela e a Fera, realizada pela Disney. Com esta adaptação, a história se consagrou como sucesso mundial, fazendo parte da infância de inúmeras crianças ao redor do mundo. Com personagens encantadores, desenho leve e músicas coerentes, o filme era um prato cheio para o sucesso.

Com esta animação, Bela passou a fazer parte do grupo de “Princesas da Disney” e ganhou suas próprias atrações nos parques de diversão da empresa. Vários produtos mercadológicos foram criados em sua homenagem e a história contada por esta versão se tornou a mais conhecida.

Entre as principais diferenças para a versão original, está o fato de que Bela é filha única e seu pai é artesão ao invés de mercador. Há também diferenças em relação à Fera, que é menos selvagem e mais dócil desde o começo da história. A magia do castelo é relacionada com o feitiço da Fera e os móveis falantes proporcionam todo o encanto possível ao filme infantil.

A Bela e a Fera - desenho disney

            Broadway

Após tamanho sucesso nos cinemas, a versão da Disney ganhou uma adaptação para o teatro. O musical de A Bela e a Fera produzido pela Broadway tornou-se uma das principais atrações do grupo teatral. Os musicais baseados em histórias da Disney tornaram-se bastante populares entre o público do teatro e a adaptação de A Bela e a Fera ficou em cartaz por vários anos, atraindo milhares de pessoas como público pagante.

A Bela e a Fera - broadway

            Live Action

Em 2017 a Disney lançou uma nova versão do filme, desta vez em live action, o que significa que atores foram usados ao invés de animação. A obra foi baseada na animação de 1991 e não na história original ou em qualquer outra adaptação literária. Por conta disso, as cenas e as músicas recontam as cenas clássicas da animação, mas desta vez com a graciosa atuação de Emma Watson no papel de Bela.

O filme também traz um personagem homossexual com destaque razoável. LeFou, amigo de Gaston, foi pensado como um personagem abertamente gay. No entanto, o assunto de sua sexualidade não é palco de discussões no decorrer da história e ele não aparece se relacionando com outros homens. Sua função no filme é apenas mostrar que a sociedade é diversa, o que também ocorre graças à presença de personagens negros – que não existiam na versão de animação.

Fora estes detalhes de representação da diversidade, a película manteve a fidelidade à animação original, o que agradou muitos fãs da obra.

A Bela e a Fera - pôster live action

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É bastante interessante percebermos que, ao contrário das histórias de contos de fadas escritas por homens – principalmente pelos Irmãos Grimm – em A Bela e a Fera não entramos em contato com uma donzela indefesa.

Sabemos que as histórias originais dos Irmãos Grimm em muito se diferem das versões da Disney, mas por serem violentas e sangrentas e não por serem diferentes no que diz respeito à representação feminina.

É claro que a história pode ser olhada sob o viés da Síndrome de Estocolmo, principalmente levando em consideração a versão original. Nos filmes da Disney, porém, esta perspectiva fica bastante apagada, visto que a relação entre a Fera e a Bela é mostrada de forma saudável e o fato de ela ser prisioneira não aparece como um fator decisório na maior parte do filme. Tanto o espectador quanto, aparentemente, a própria Bela, em determinado momento esquecem que ela era prisioneira. O convívio com os móveis falantes e a boa recepção do castelo fazem com que a personagem se sinta confortável e a história não transmita a sensação de ser um relacionamento forçado. É visível que Bela gosta de estar com a Fera, que gosta do castelo e, claro, que ama a biblioteca. Ao mesmo tempo, é visível que sente falta de seu pai. No entanto, não demonstra sentir falta de sua cidade e da vida que tinha antes de conhecer a Fera.

Outra impressão ruim que a história pode transmitir para as meninas é de que elas podem modificar qualquer homem. No entanto, a meu ver esta é uma visão enviesada. A impressão se concretizaria se, ao invés de ficar com a Fera, a Bela se contentasse em ficar com o grosseirão Gastão, com a premissa de que após casada ele mudaria de personalidade. No caso do relacionamento dela com a Fera, o que acontece é um bom convívio e compatibilidade de humores. A Fera a trata muito bem e aos poucos se mostra gentil e dócil. Na nova versão fica bastante claro o desenvolvimento da personagem: de um príncipe lindo e sem coração, a uma fera horrível, mas extremamente dócil. O convívio com a Bela não transforma a personalidade do personagem. Em nenhum momento ela passa por agressões ou violências e pensa “ele é bonzinho, é só uma fase”. Todas as vezes que a Fera é minimamente grossa com Bela, ela revida à altura. Quando a Fera percebe que não assusta a Bela, larga seu comportamento defensivo e se permite ser vulnerável. Esta é a grande diferença dele para Gastão: abrir mão da masculinidade inviolável para demonstrar que sentimentos também são coisa de homem.

A Bela e a Fera - live action - A Fera

Quando vemos uma história escrita em uma França do século XVIII por uma mulher, ter repercussões na sociedade de 300 anos depois, temos a mais absoluta certeza de que é possível que escritoras mulheres façam a diferença e que nossas histórias, nossa cultura e nossos costumes não foram escritos e orientados unicamente pelo viés masculino.

O Conto de madame Villeneuve, apesar de bastante desfigurado, segue transmitindo a mensagem de que meninas podem ser mais do que a sociedade diz que elas podem e devem, que é permitido ler, estudar e ter coragem e domínio sobre a própria vida. A história segue dizendo que as mulheres não são indefesas, pelo contrário, que podem ser tão corajosas e bondosas a ponto de se colocarem em risco por quem amam (como a Bela fez com seu pai) e por enfrentarem o maldizer de várias outras pessoas por quem amam (como ela fez para a Fera) e de enfrentarem os mal-olhados de toda uma cidade, como a Bela da versão da Disney faz para conseguir se manter uma leitora ativa.

Se grande parte dos contos de fada infantis mostra a ideia de mulheres que dependem de príncipes para serem salvas, A Bela e a Fera tem a potência de inverter esta mensagem, mostrando, pela primeira vez, um príncipe que precisa ser salvo por uma mulher. E é brilhante pensarmos que esta ideia intrinsecamente subversiva surgiu já no século XVIII, quando o papel da mulher na sociedade era ainda mais questionado.

Madame de Villleneuve e Madame de Beaumont são as responsáveis por gerações de mulheres que cresceram acreditando que podiam mais e que as aparências falam bem menos do que as ações.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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