Jurassic Park – Michael Crichton | Resenha

Jurassic Park, de Michael Crichton, é uma importante obra para reflexões atuais como os limites das descobertas científicas e tecnológicas, além do impacto da humanidade por sobre a Terra. Contém  spoilers.

ENREDO

Jurassic Park é um livro escrito por Michael Crichton e publicado em 1990. Em 2015, a Editora Aleph re-editou a obra, traduzida por Marcia Men. O novo livro é composto pela história principal, uma entrevista com o autor e posfácio, escrito por Marcelo Hessel.

O livro versa sobre John Hammond, um idoso bilionário e aficionado por dinossauros, que decide gastar uma fortuna para montar um parque de diversões perfeito, que una um zoológico de animais extintos e brinquedos de entretenimento. Para tal, ele precisou investir em uma ilha na Costa Rica e contratou os melhores especialistas das mais diversas áreas, para garantir a existência e estabilidade do empreendimento. Para Hammond, o Jurassic Park seria o local perfeito para a diversão de crianças e, mais do que isso, seria a realização de seu próprio sonho.

Nas vésperas da inauguração do parque, porém, um dos investidores do empreendimento, Donald Gennaro, pede que Hammond lhe conceda uma visita ao local, a fim de certificar seu completo funcionamento e garantir que não haja falhas de segurança ou de outras ordens. Para tal, Hammond convida o paleontólogo Alan Grant e sua ajudante, a paleobotânica Ellie Satler; o publicitário responsável pelo marketing do parque, Ed Regis; o matemático especialista em teoria do caos – e consultor do parque – Ian Malcolm e o programador-chefe dos sistemas do parque, Dennis Nedry. De surpresa, o idoso convida ainda seus dois netos, Lex e Tim. Todos foram para passar um final de semana no local.

Chegando ao parque, outros personagens importantes são apresentados, como é o caso do veterinário Harding, o cuidador de animais Robert Muldoon, o chefe-geneticista, Henry Wu e o engenheiro e supervisor do parque, John Arnold.

Dennis Nedry age como espião e rouba alguns embriões de dinossauros. Para tal, o programador desligou a energia do parque inteiro e provocou uma pane no sistema. Com isso, todas as cercas elétricas e demais formas de contenção dos animais são desligadas, ao mesmo tempo em que a maior parte do grupo está retornando do final da visita guiada. A partir disso, o caos se instala.

A ESPECULAÇÃO FINANCEIRA

Jurassic Park é um livro muito rico em reflexões. A mais básica se faz em referência ao anseio inicial de Hammond: recriar animais extintos a fim de entreter e enriquecer de forma única.

A intensa guerra biológica para descobrir qual laboratório será o primeiro a recriar animais extintos demonstra um dos fatores mais importantes do atual mundo capitalista: a inconsequência.

Ao pensar em criar animais perfeitos, Hammond desconsidera coisas básicas:

  1. humanos nunca conviveram com dinossauros;
  2. muitos dinossauros não conviveram uns com os outros;
  3. as descobertas históricas em relação a estas espécies não são suficientes para recriar suas formas de vida .

E, o mais importante: Hammond desconsiderou que para que haja dinossauros exatamente como no período Cretáceo e Jurássico, a existência de seres humanos se faz impossível.

Na cegueira do idoso bilionário e do geneticista que vê a grande oportunidade de sua vida, moram o descaso científico para com as consequências de suas criações. Ambos desconsideram o impacto que o Jurassic Park teria para o planeta Terra e pensam nele unicamente como realização de sonhos próprios. Esta temática é frequente na ficção científica, como em sua obra originária Frankenstein ou o Prometeu Moderno, onde Dr. Frankenstein, ao criar seu Monstro, desconsidera as consequências que uma vida nova e única trariam. As duas obras, porém, em seu caráter de Hard Science Fiction acabam colocando em debate as motivações dos cientistas e refletindo sobre os impactos destas criações para o planeta como um todo.

Na impossibilidade, imposta por Hammond, de modificar geneticamente os dinossauros, a fim de torná-los aptos a conviver com seres humanos, moram a displicência para com o modo de vida animal e, consequentemente, o humano. Mora o completo desleixo e egocentrismo de nossa espécie, que insiste em se achar o topo da cadeia alimentar e a mais racional de todas.

Todo o desfecho da história é maravilhoso para que Hammond entenda que há fatos históricos, como a extinção de animais gigantes e instintivamente predadores, que não podem/devem/necessitam ser modificados. E de que a natureza sabe retornar quem a ela fere.

O FIM DO MUNDO

Dentre as discussões interessantes apresentadas na obra, está a que diz respeito à concepção de Fim do Mundo.

Quando os diversos especialistas entram em contato com a Teoria do Caos e o Efeito Malcolm, colocam em questão toda a sua percepção e entendimento da matemática e do mundo. Malcolm, porém, tenta alertar seus colegas e Hammond, de que é impossível recriar animais extintos e manter-se no controle, principalmente pelo fator da imprevisibilidade no comportamento de tais animais.

Esta hipótese faz sentido já de cara, visto que como o conhecimento humano perante os dinossauros é escasso, prever a forma como eles se comportam, a quantidade de comida que ingerem e afins não se faz possível. A coisa fica ainda mais intensa quando começa-se a perceber que muito do que os humanos julgavam saber sobre os dinossauros estava errado. E ainda, quando percebe-se que os animais têm formas próprias de comportamento e organização de seus bandos.

A consequência máxima do Efeito Malcolm seria a extinção dos humanos. Isso seria dado pelo fato de que dinossauros escapariam da ilha e causariam mortes e devastação em diversos locais. Dr. Wu eficientemente nega essa possibilidade, afirmando que todos os animais do parque são fêmeas – o que impede a reprodução – e que todos necessitam se alimentar de um alto índice de lisina, algo escasso no ambiente existente fora do parque. Malcolm, porém, alerta que de acordo com a imprevisibilidade e com a Teoria do Caos, não seria possível confiar nestes fatores. No fim das contas, ele estava certo.

O fim dos humanos, esperado a partir da teoria de Malcolm, foi confundido com o fim do mundo, em uma discussão com Hammond. O matemático, porém, lembrou que o planeta existiu sem os humanos por bilhões de anos e que, certamente, continuaria a sobreviver por outros bilhões sem que nós estivéssemos por aqui.

Nós, leitores, junto com os personagens da história, fomos lembrados de que o nosso mundo ultrapassa as barreiras e os limites da humanidade, transcendendo à nossa existência – algo que muitas vezes ignoramos. Por conta disso, a nossa preocupação deveria deixar de ser em relação ao “fim do mundo”, mas sim em relação ao fim da humanidade. Se tem alguém que pode padecer com as nossas práticas ambientais criminosas e com a especulação financeira que faz com que nossa ciência perca a noção das consequências de suas práticas, somos única e totalmente nós mesmos.

É brilhante pensar que um livro que demorou tanto para ser escrito e foi lançado em 1990 já traga uma reflexão tão potente e brilhante sobre um problema que insiste em nos assolar e que, aparentemente, permanecerá assim por um bom tempo.

O ACELERACIONISMO

Ainda pensando na teoria de Malcolm, somos levados a refletir sobre o Aceleracionismo. Tal conceito se aplica à tendência humana e capitalista de esgotar todos os recursos naturais do planeta, de forma acelerada, gerando crises financeiras, sociais e ambientais. Na forma contemporânea, o conceito surge como resposta ao cataclisma global que tem origem dupla, tanto na devastação dos ecossistemas terrestres, quanto na crise do capitalismo. Ambas colocam em questão a forma como os humanos habitam a Terra.

O Aceleracionismo atual tem como expoentes, na direita, Nick Land e, na esquerda, Nick Srnicek e Alex Williams. Resumidamente, os teóricos preveem que com este aceleramento de desgaste, o planeta vai ser obrigado a encontrar formas enfáticas, precisas e rápidas de mudança social, que geraria melhoria nas coisas ruins. A solução apresentada, porém, não é de ordem a salvar ou repensar o gasto de recursos naturais, mas sim em prol do Capital que, atualmente, rege a nossa forma de entender o mundo.

Se pensarmos por este viés, a criação do Jurassic Park seria o auge do movimento aceleracionista, visto que com ele a corrida pelo desenvolvimento científico atinge seu ápice, assim como a especulação financeira e o gasto desnecessário de recursos.

A partir do Jurassic Park, todo o mundo foi levado a repensar as formas como realizam pesquisas científicas e empreendimentos biotecnológicos, levando em consideração o caráter da imprevisibilidade contida em qualquer vida, além de refletir por sobre possíveis consequências negativas de suas criações.

Mesmo que o aceleramento tenha sido realizado em uma pequena ilha da Costa Rica, o efeito de reflexão e mudança social foi eficiente para diversas empresas do ramo e para o próprio governo da Costa Rica, que precisou começar a refletir e agir por sobre os animais que haviam escapado do parque.

Infelizmente, para que ocorra no mundo não-ficcional, o aceleracionismo transformador precisará tornar escasso todos os nossos recursos e gerar um caos perceptível por todos os humanos. Apesar de parecer radical e distante, se pararmos para pensar no descaso para com as questões ambientais, sancionadas atualmente pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e pelas crescentes propostas de diminuição das terras de reflorestamento e florestas brasileiras, realizadas pelo nosso atual governo, é possível que o caos esteja mais próximo do que gostaríamos de imaginar.

Detalhe da edição da Aleph.
Detalhe da edição da Aleph.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A nova edição foi realizada com bastante cuidado, apostando na tipografia e no design, com lombada laranja e capa preta. A divisão dos capítulos e o espaçamento realizado entre as mudanças de perspectiva favorecem bastante a experiência de leitura.

A narrativa é extremamente fluida, fazendo com que a leitura seja dinâmica e fácil. O livro é repleto de termos e discussões científicas, tanto da área de biotecnologia, quanto paleontologia, botânica e engenharia de software. A história mistura suspense, ação e drama e a identificação para com o sofrimento dos personagens, assim como o anseio para sua sobrevivência, impulsionam o leitor a percorrer as 507 páginas com gosto.

Michael Crichton agradece a diversos teóricos ao final da narrativa, reificando que estudou, leu e foi apoiado por muitos teóricos reais para a construção de seus personagens fictícios e sua história trágica. Apesar disso, ele reitera que a história e os personagens são puramente ficcionais, assim como alguns fatores científicos.

O livro foi adaptado para o cinema sob a direção de Steven Spielberg em 1993, atingindo recordes de bilheteria, que garantiram mais três continuações. No entanto, as continuações não contaram com escrita do mesmo autor, que não havia levado em conta esta possibilidade durante a escrita de Jurassic Park.

Com todo o estrago que causamos para o nosso planeta e com todo o estrago potencial, que livros como Jurassic Park revelam, torna-se ainda mais necessário que reflitamos sobre nossas posições e ações no ecossistema em que habitamos. O antropocentrismo vigente há séculos é previsto de ser lembrado no futuro como o Antropoceno, uma idade geológica intrinsecamente marcada pelos estragos humanos ao planeta Terra. É assim que queremos ser lembrados no futuro? Ainda é possível fazermos algo em relação a estes problemas?

REFERÊNCIAS

WILLIAMS, Alex; SRNICEK, Nick. #Accelerate: Manifesto for an Accelerationist Politics. In: MACKAY, ROBIN; AVANESSIAN, ARMEN (Org.). #Accelerate# The Acceleracionist Reader.  Urbanomic Media, 2014. p. 347–362.

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Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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