A Encantadora de Baleias (2002) | Crítica

A Encantadora de Baleias (2002) conta a história de um povo tradicional da etnia Maori, residente na Nova Zelandia, que enfrenta problemas na relação entre globalização e manutenção das tradições. O filme pode ser relacionado com diversos autores da antropologia clássica, que pensaram as noções de parentesco. O texto a seguir contém spoilers.

INTRODUÇÃO

O pensamento antropológico se constituiu enquanto ciência a partir de um mergulho nas Teorias Evolucionistas, trazidas para o pensamento social através do evolucionismo biológico, proposto principalmente por Charles Darwin.

Com esta aproximação, fora postulado que a humanidade havia se desenvolvido unilinearmente através de diferentes tipos de conjunção social, que iniciavam de formas simples e iam até as mais complexas – sendo o principal exemplo desta, no século XIX, a Europa.

Para estes pensadores, os povos indígenas existentes no Novo Mundo seriam a única aproximação possível a estas formas simples de organização social. Por conta disso, os estudiosos começaram a utilizar-se de exemplos dos povos indígenas para tentar entender o processo de transformação e evolução social, que permitiu a humanidade a atingir o nível de desenvolvimento europeu.

Tendo em mente que A Encantadora de Baleias versa sobre um povo indígena neo-zelandês remanescente, é possível pensá-lo como uma base para o pensamento evolucionista que vigorou no século XIX. Por esta razão, a aproximação entre os dois contextos – a princípio distantes e dissonantes, se faz possível.

CONTEXTO DA PRODUÇÃO

A Encantadora de Baleias (Whale Rider) é um filme neo-zelandês/alemão, realizado em 2002. Nele estrelam Keisha Castle-Hughes, Rawiri Paratene e Vicky Haughton. A diretora é a neo-zelandesa Niki Caro, que também foi responsável pelo roteiro da película. A história foi baseada no livro homônimo, escrito pelo também neo-zelandês, Witi Ihimaera e publicado em 1987. Ihimaera também ajudou na produção do filme.

A Encantadora de Baleias ganhou o BAFTA Children’s Award, o Environmental Movie Awards, o Film Independent Spirit Awards, o Humanitas Prize, o National Board Review, dentre vários outros. Keisha Castle-Hughes foi nomeada e vencedora de diversas premiações, tendo sido a atriz mais jovem a concorrer à categoria de “Melhor Atriz” do Oscar (até ser desbancada, em 2013). A diretora Niki Caro também recebeu diversas premiações e foi nominada para várias outras.

A Encantadora de Baleias - dvd

ENREDO

A história versa sobre Paikea, uma jovem Maori descendente do chefe de seu povo, o avô Koro. A chefia era tradicionalmente passada de forma patrilinear e Koro esperava encontrar, entre seus descendentes, um escolhido (espécie de profeta) que viria a unir novamente sua gente e reavivar seus laços tradicionais. Entretanto, o filho mais velho de Koro, Porourangi, não realizou as expectativas do pai e o mais novo não cumpria um dos principais requisitos: ser primogênito. Dessa forma, a esperança estava nos netos advindos de Porourangi.

Porourangi era casado com uma moça Maori, que esperava gêmeos. Infelizmente, no momento do nascimento, tanto ela quanto o filho homem faleceram, restando apenas uma garota, a quem Porourangi chamou de Paikea.

A garota cresceu na casa de seus avós, sofrendo repressões diárias por parte de Koro, que seguia decepcionado por ter perdido a chance de ter um descendente apto a prosseguir com as tradições de seu povo. Paikea, por sua vez, sentia-se culpada pela morte tanto de sua mãe quanto de seu irmão e fazia o possível para estar perto de seu avô e estabelecer um bom relacionamento com ele, mesmo sendo menina. Por conta de sua ligação com as tradições Maori, ela era frequentemente hostilizada pelos colegas de classe, visto que era bastante incomum que meninas nutrissem interesse por estes fatores e que seu povo estava passando por uma forte desconexão com as tradições, devido à globalização eminente.

Paikea e Koro
Paikea e Koro

Porourangi foi morar na Alemanha, onde virou artista plástico e encontrou uma nova esposa, alemã, com quem esperava um filho. Este fator deixou Koro ainda mais decepcionado com seu filho e fez com que o atual chefe decidisse criar uma escola a fim de treinar todos os primogênitos da região segundo os preceitos das tradições de seu povo. Paikea, apesar de bastante interessada nas lições, foi excluída por ser menina.

Pai, como era chamada, não se satisfez com a exclusão e procurou outras formas de aprender aquilo que era ensinado nas aulas. Seu principal refúgio foram sua avó e seu tio, que ensinaram tudo que podiam e sabiam. A garota se sentia responsável por seu povo, não apenas pela questão genealógica, mas também por possuir o nome do fundador.

O Paikea original estaria navegando com uma canoa enorme sobre as águas da Nova Zelândia, mas teria sofrido um naufrágio. Nisso, ele teria encontrado uma enorme baleia e, cavalgando-a, teria guiado seu povo para o pedaço de terra onde, na época do filme, Koro e sua família habitavam. A tradição dizia que o primogênito macho da descendência de Paikea seria o chefe espiritual do povo, função atual de Koro.

A menina Paikea acaba aprendendo mais das tradições e tendo maior desenvoltura ritual que a maior parte dos garotos primogênitos, apesar de fazer tudo escondida de seu avô. Eis que ela resolve contar ao avô sobre suas aptidões, em uma apresentação escolar, onde ela ressalta que se mais pessoas tiverem a oportunidade de aprender as responsabilidades de um chefe, a única coisa de diferente é que o povo terá mais que um chefe.

Infelizmente, Koro não comparece à apresentação da neta, pois no meio do caminho depara-se com várias baleias encalhadas na praia. Assim, após a apresentação da escola de Pai, todo o povo da região se une para tentar desencalhar as baleias, que são consideradas seu animal sagrado. Apesar das tentativas serem intensas e fazerem com que todos atingissem a exaustão, os animais não se moviam e davam a impressão de estar prestes a falecer.

Paikea durante sua apresentação.
Paikea durante sua apresentação.

Quando todos desistiram de tentar salvar as baleias, por extremo cansaço, Paikea resolveu se aproximar dos animais, sentindo-se culpada pelo encalhamento, visto que havia cantado uma música que chamava os ancestrais, e decidiu tentar sozinha salvá-las. Após uma saudação respeitosa e um processo ritual específico, a baleia considerada como a que levou o Paikea original até aquela terra e que, consequentemente, servia de guia às outras, começou a se movimentar. Em pouco tempo, todos os animais voltaram a se mexer e Paikea foi vista por todo o seu povo, incluindo o avô, cavalgando sobre a baleia sagrada.

A partir daí a tradição foi reinventada, visto que fora compreendido que o chefe não precisava ser homem. E a lição de Paikea foi que entre deixar as tradições perecerem frente a um mundo globalizado e adaptá-las para que continuem a existir, é melhor a segunda opção.

APROXIMAÇÕES ANTROPOLÓGICAS

Adam Kuper, no primeiro capítulo de Invention of Primitive Society (1988), rememora a trajetória do evolucionismo – do biológico ao social – como parte constitutiva da ideia de ser humano e sociedade primitiva. O autor ressalta a importância de Charles Darwin, Henry Maine, John McLennan e Bachofen, chegando aos nomes de James Frazer, Lewis Morgan e Edward B. Tylor.

Kuper postula que até o final do século XIX quase todos os especialistas teriam concordado com cinco concepções básicas no que diz respeito ao evolucionismo social:

  1. as sociedades mais primitivas se organizavam por parentesco.
  2. a organização por parentesco seguia os grupos descendentes.
  3. os grupos seriam exogâmicos e se relacionariam por casamentos e trocas.
  4. as instituições primitivas foram preservadas em forma de fósseis, por conta de cerimônias e terminações linguísticas que remontavam práticas há muito não realizadas.
  5. os grupos descendentes se espalharam por conta do desenvolvimento da sociedade privada, responsável pelo surgimento do Estado, que marcaria a transição da sociedade primitiva para a moderna.

A Encantadora de Baleias, visto sob a perspectiva evolucionista, pode concordar e discordar com estas condições. De fato, a sociedade Maori organizava-se através do parentesco, de forma que o chefe do povo tinha uma conexão de descendência com seu criador. Entretanto, os Maori não organizavam seus matrimônios de forma exogâmica, pelo contrário. Koro ficou realmente chateado quando seu filho afirmou estar prestes a se casar com uma alemã, porque os Maori seguiam valorizando os casamentos endogâmicos, ou seja, os realizados entre pessoas de seu próprio povo. As trocas, por sua vez, também não aparecem no filme, que mostra o povo Maori como, de certa forma, isolado do restante do mundo.

A organização Maori da época do filme certamente não era a mesma da época do Paikea original. Como o próprio filme fala sobre a reinvenção de tradições, é possível entendermos que essas tradições já foram, em muito, reinventadas até o momento da menina Paikea. Desta forma, o fator de que as organizações primitivas permanecem como fósseis, talvez possa ser considerado. Entretanto, como falta conhecimento sobre as formas prévias de organização do povo Maori retratado na obra cinematográfica, não é possível fazer esta inferência de forma mais exata.

O quinto ponto é, talvez, o mais relevante para análise. Isto porque é evidente que o povo retratado no filme vive em uma terra com propriedade privada, que pertence a uma nação maior chamada Nova Zelândia e que, com isso, segue diversas imposições burocráticas e estatais. No entanto, apesar de tudo isso, o caráter que pode ser pensado como tribal de respeito e culto às tradições, animais e objetos totêmicos, permanece de forma evidente. É perceptível a coexistência entre Estado e tradições, que teriam sido consideradas pelos especialistas do século XIX como exclusivas de povos primitivos. Esta ambivalência é de extrema importância para a compreensão de que não necessariamente um povo é exclusivamente tribal ou exclusivamente burocrata.

Escola onde Koro ensinava as tradições para os meninos.
Escola onde Koro ensinava as tradições para os meninos.

Outra aproximação possível, é em relação à obra O Ramo de Ouro (1982), de Frazer. Em seu capítulo 3, A magia simpática, o autor postula a existência de dois tipos básicos de transmissão de magia: homeopática e por contágio. Enquanto a primeira fala que uma coisa semelhante possui o mesmo efeito da coisa em si, a segunda fala que uma coisa que foi parte da outra sempre terá as mesmas virtudes que sua fonte originária.

Ambas as formas de magia aparecem em A Encantadora de Baleias, apesar de o filme não as retratá-las enquanto magia, mas sim enquanto rituais. Estes rituais, que podem ser considerados totêmicos, são realizados em torno de máscaras de madeira que se imaginam ser semelhantes aos ancestrais. Da mesma forma, a imagem de Paikea por sobre a baleia, que fica na praia principal da ilha, age de forma homeopática como proteção por sobre aquele povo. A garota Paikea por sobre a baleia, ao final da película, rememora o ato realizado pelo Paikea original, agindo também de forma homeopática.

O contágio aparece no colar utilizado por Koro em todo o decorrer do filme. O totem ali presente era um dente de baleia e a crença é que para se carregar um dente de baleia é necessário ter tido contato com a mandíbula dela, o que é um ato de extrema honra. Por isso, aquele que possui o dente da baleia tem uma posição espiritual hierarquicamente privilegiada frente aos outros. Em diversos momentos, como em uma das práticas para tentar descobrir o próximo chefe, fica claro que possuir aquele totem é equivalente a ter as características necessárias para ser um bom chefe espiritual para o povo.

Baleia

Por fim, é possível fazer aproximações à obra de Lewis Morgan, que na parte I, Ethnical Periods, do capítulo 1 de Ancient Society (1877) postulou as principais formas de organização social através do parentesco, como sendo matrilineares e patrilineares. Para Morgan, o parentesco é tido como uma forma de mapear pessoas e entender a formação da sociedade através dos vínculos familiares – sejam eles consanguíneos ou por afinidades. O autor teve sua teoria baseada na de Henry Maine, que em sua obra Ancient Law (1906) propõe o surgimento do Estado e, com ele, o da burocracia, por conta da propriedade privada, como exposto nas 5 concepções básicas propostas por Kuper. Maine situou que a sociedade se organizara inicialmente por descendência patrilinear.

Em A Encantadora de Baleias, o povo Maori representado organizava-se espiritualmente através da patrilinearidade. O casamento endogâmico garantia que o novo chefe teria sangue Maori, de ambos os lados, mas seria a descendência masculina a responsável por garantir se a criança poderia ou não vir a ser um novo chefe espiritual.

Com o decorrer da narrativa, percebe-se que a patrilinearidade também pode ser colocada em discussão, o que acaba sendo o grande mote do filme, que desemboca em um novo resultado. Apesar de Paikea seguir garantindo a hierarquia patrilinear de seu povo, visto que ela descende diretamente dos homens da família do Paikea orignal, possivelmente o próximo chefe de seu povo não será mais parte da patrilinearidade. Isso porque uma vez que ela é compreendida como líder, o próximo líder deverá descender dela e a descendência feminina resulta em matrilinearidade.

A troca entre patrilinear e matrilinear não foi parte do pensamento de Morgan que, no máximo, seguiu a linha de McLennan (como explicitado por Kuper), acreditando que inicialmente as sociedades se organizavam de forma matrilinear, até que a noção da monogamia fosse instaurada e, com ela, a possibilidade de traçar a descendência de forma patrilinear. No entanto, uma nova troca entre patrilinearidade e matrilinearidade, uma possível fusão das duas ou o surgimento de uma nova forma, que conseguisse manter os pontos básicos das tradições previamente veiculadas por estes povos não foi abordada.

Árvore Genealógica da família de Paikea, mostrando as relações entre os indivíduos.

A imagem mostra, seguindo o diagrama primeiramente apresentado por Morgan, que pessoas fora da linha de descendência de Koro não podem ser consideradas chefes em potencial. Da mesma forma que não primogênitos, como é o caso de Rawiri. Os demais marcados de vermelho são a mãe e irmão de Paikea, falecidos. Ela se tornou, portanto, a primeira mulher a quebrar a tradição de seu povo e se tornar chefe espiritual.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar de ser um filme produzido no século XXI, sobre um povo indígena ainda existente e que, historicamente, foi palco de diversos estudos antropológicos – os Maori, A Encantadora de Baleias mostra de forma sensível que a coexistência entre a tradicionalidade e as revoluções cotidianas causadas pela passagem temporal são possíveis.

O filme proporciona discussões riquíssimas no sentido da tradição, principalmente quando Paikea assume a posição de chefe de seu grupo, mesmo sendo mulher. E permite diversas aproximações antropológicas, como observado. Seja no quesito das relações de parentesco, evidenciado principalmente por Henry Maine (1906) e Lewis Morgan (1877), seja nas aproximações com requisitos mágicos – que aqui relacionamos com a teoria de James Frazer (1982).

A Família de Paikea (avó, pai, tio e tia).
A Família de Paikea (avó, pai, tio e tia).

Além da qualidade técnica apresentada pela película, que uniu uma história apagada pelas grandes histórias imperialistas, mas importante para o povo neo-zelandês, com uma produção bem realizada, A Encantadora de Baleias ainda é eficaz no caráter reflexivo, tanto para leigos, quanto para estudantes das áreas de ciências humanas.

É bastante louvável nos depararmos com filmes que expressem tamanha grandeza e, ainda assim, tenha conseguido enorme reconhecimento do público e de outros especialistas na área, como vimos com a imensa quantidade de prêmios a que concorreu e venceu. Este tipo de obra merece ser reconhecida e impulsionada, para que cada vez mais histórias inicialmente esquecidas possam ser contadas e para que cada vez mais vozes possam ser ouvidas.

REFERÊNCIAS

FRAZER, James. O Ramo de Ouro. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

KUPER, Adam. The Invention of Primitive Society – Transformation of an Illusion. New York: Routledge, 1988.

MAINE, Sir Henry Sumner. Ancient Law – Its Connections with the Early History of Society and Its Relation to Modern Ideas. New York: Henry Holt and Company, 1906.

MORGAN, Lewis. Ancient Society. London: MacMillan & Company, 1877.

 

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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