Mass Effect: Revelation (2007) – Drew Karpyshyn | Resenha

Mass Effect: Revelation, escrito por Drew Karpyshyn, é o primeiro volume da trilogia. Lançado pela Del Rey Books em maio de 2007, a narrativa antecede em alguns meses Mass Effect, lançado em novembro do mesmo ano. A narrativa foi concebida para ser uma introdução ao jogo. Nela acompanhamos a jornada de David Anderson, desde seu recrutamento para lutar na First Contact Wars, até sua eventual candidatura aos Spectre.

DREW KARPYSHYN

O canadense Drew Karpyshyn(1971-), é um dos principais escritores contemporâneos no campo da ficção científica e fantasia abrangendo tanto a literatura quanto na mídia dos videogames. Seus trabalhos são bastante variados e oscilam nos diferentes campos da especulação. Na temática do fantástico, Baldur’s Gate II: Shadows of Amn (2000), Baldur’s Gate II: Throne of Bhaal (2001), Neverwinter Nights (2002) e sua segunda expansão, Hordes of the Underdark (2003), são exemplos de seu trabalho. Já na temática da ficção científica, seus trabalhos incluem Mass Effect e Mass Effect 2 (2010), além de Star Wars: Knights of the Old Republic (2003), e também Star Wars: The Old Republic (2011).

Já na literatura, as obras de Karpyshyn se dividem no campo do Forgotten Realms, Star Wars, Mass Effect e Chaos Born. O primeiro, baseado em Dungeons & Dragons, possui duas obras feitas pelo autor. Sendo elas Baldur’s Gate II: Throne of Bhaal (2001), uma novelização do jogo homônio, e Temple Hill (2001).

Ainda no campo do fantástico, Chaos Born é um universo criado pelo autor e definido como uma Sword and Sorcery que têm por base as narrativas de J. R. R. Tolkien, Terry Brooks e David Eddings, além de uma atmosfera do terror, que cruza H. P. Lovecraft, Stephen King e Clive Barker. Os três livros já lançados são: Children of Fire (2013), The Scorched Earth (2014) e Chaos Unleashed (2015).

Em Star Wars, Karpyshyn escreveu a trilogia do Sith Lord Darth Bane. Os livros que a compõe são: Path of Destruction (2006), Rule of Two (2007) e Dynasty of Evil (2009). Além disso, também é autor de Revan (2011) e Annihilation (2012). Em Mass Effect, integram sua trilogia: Revelation (2007), Ascension (2008) e Retribution (2010).

CONTEXTO

A narrativa de Revelation contextualiza o momento no qual as primeiras explorações da humanidade no espaço começam a apresentar resultados. Em 2148, é descoberta em Marte as ruínas de uma civilização mais antiga, que será chamada de Protheans. A partir de sua tecnologia, a humanidade é impulsionada de maneira magistral. Isso é possível por conta dos Mass Relays, rede de equipamentos supostamente construídos pelos Protheans, que permitem a transição pela galáxia de maneira instantânea.

Rapidamente a humanidade descobre que não estava sozinha na galáxia e o primeiro conflito é com o Império Turian. A situação escala para uma série de escaramuças que será conhecida como First Contact War. Estes embates, que resultaram em baixas para ambos os lados, poderiam se transformar uma guerra aberta e de grandes proporções. Mas o Conselho da Citadel agiu antes que isso tivesse efetivamente ocorrido.

O Conselho da Citadel é um grupo de diferentes espécies que controla uma parcela significativa da galáxia. Formado por três representantes, de origem asari, salarian e turian, o intuito da organização é fornecer as bases para uma comunidade galáctica. É importante destacar que várias raças estão excluídas do governo político da Citadel, como os krogan, quarian, humanos, volus, elkors, batarians e outros. O Citadel é uma estação espacial colossal, que serve como o ponto de encontro e vivência para estes diferentes grupos. Sua construção é atribuída aos Protheans, tal como os Mass Relays.

NARRATIVA

A narrativa de Revelation gira em torno de um ataque a uma base secreta da Aliança, a principal organização militar dos humanos. Este complexo era responsável pelas pesquisas com tecnologia direcionada para a compreensão da inteligência artificial, algo que é proibido em todo o espaço da Citadel. Isto porque, no passado, os quarians foram responsáveis pela criação dos geth. Unidades robóticas direcionadas para a realização de tarefas repetitivas e perigosas, eles desenvolveram a consciência de si, e se revoltaram contra seus criadores. O resultado foi a derrocada geral dos quarians, obrigados a se exilar em uma grande frota espacial. Todavia, os geth não seguiram para conquistar a galáxia, permanecendo apenas no Perseus Veil.

O ataque a base secreta de Sidon é investigado por David Anderson e seu esquadrão. É neste contexto que Kahlee Sanders surge na narrativa. Filha de um dos principais heróis da First Contact War, a jovem cientista fugiu da base antes da mesma ser destruída por mercenários e passa a ser vista como traidora da Alliance. Todavia, Anderson acredita na sua inocência e visa expor isso para a embaixadora humana na Citadel, Anita Goyle.

Os dados recolhidos por Sanders revelam aspectos sobre a pesquisa que se tornam uma questão de segurança para a galáxia. Assim, a Citadel envia o Spectre turian Saren para encontrar o responsável pelo ataque. Anderson é enviado para auxiliá-lo, e se tal missão tivesse o sucesso esperado, o humano seria posto como candidato para a unidade de elite da Citadel, que serve como o braço armado do Conselho, da qual Saren já fazia parte.

O que ocorre é que Saren despreza os humanos. Seu irmão foi morto na First Contact War, e desde então ele nutre um ódio enorme pela presença dos terráqueos, que têm ganhado cada vez mais espaço político e social dentro da Citadel.O Spectre encontra na missão com Anderson uma maneira de cumprir seu objetivo, e ao mesmo tempo se livrar do humano.

Sanders, que havia sido capturada pelos mercenários responsáveis pelo ataque à base humana, é resgatada por Anderson, mas o restante da missão fracassa e centenas de vidas são perdidas no processo, por conta de uma sabotagem do Spectre, que culpou o humano pela catástrofe.

REVELATION E SEU PAPEL EM MASS EFFECT

Revelation, além de oferecer a introdução para o complexo universo de Mass Effect, também coloca em jogo a oposição moral entre Paragon e Renegade. Anderson é o representante das ações de Paragon no jogo. Isso significa que ele evita que civis sejam feridos nas operações militares e tenta agir de uma maneira que minimiza os danos a outrem. As únicas situações que ele efetivamente usa da violência é para proteger a vida de outrem.

Saren é a representação do Renegade. Isso significa que a prioridade sempre está em cumprir a missão, e qualquer civil que se coloque no caminho é visto como uma baixa necessária. Saren toma para si a prerrogativa de que sua função é garantir a paz da galáxia, e para isso uma série de sacrifícios devem ser feitos. Neste ponto, o Spectre elimina qualquer um que esteja no seu caminho, independentemente de sua espécie ou afiliação política.

Além disso, a questão da inteligência artificial é o que modela Mass Effect como um todo. Saren escapa com os planos da pesquisa, que revelam uma embarcação espacial de tamanho colossal, encontrada na galáxia. Trata-se de Sovereign, um Reaper, que irá dominar a mente do Spectre e será o maior antagonista de Commander Shepard nos jogos. Convém lembrar, também, que a integração entre humanos e a inteligência artificial foi retomada e centralizada em Mass Effect: Andromeda (2017), a partir de Ryder e SAM.

Outro ponto bastante importante na narrativa, mas pouco desenvolvido, são os biotics. Trata-se de uma habilidade, presente em alguns indivíduos, de criar campos de mass effect em torno de si, bem como manipulá-los. Isso é possível a partir do contato entre orgânicos e o element zero, um composto químico que é fundamental para a saga como um todo. Ele serve como combustível para as naves espaciais, além de ser a base dos Mass Relays.

Em Revelation, descobre-se que algumas espécies, como as asari, têm uma relação mais próxima com os biotics. Algo que os krogan parecem ter em alguns casos, e os humanos carecem. Inclusive o desenvolvimento de humanos com capacidades bióticas é central para o segundo volume da trilogia, Ascensão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Karpyshyn, na medida em que desenvolve a história, executa de maneira bastante satisfatória a apresentação do universo de Mass Effect. O encadeamento lógico da narrativa é bem feito, e ao mesmo tempo fácil, e consegue equilibrar as cenas de ação e combate com outras dedicadas apenas ao diálogo e a construção dos personagens.

A imagem da alteridade é produzida a partir do ponto de vista da humanidade. Espécies que são mais próximas dos humanos, em termos de semelhança física, são contrastadas por outras bastante diferentes, como os batarians e os krogan.

Por conta da tecnologia dos Mass Relays e as relíquias deixadas pelos Prothean, a evolução das diferentes espécies parece ter sido modelada para fins específicos. Deste modo, quando os humanos encontram os turians pela primeira vez, não há uma superioridade tecnológica alienígena dada de antemão. O deslocamento temporal dos humanos, neste sentido, é muito mais social. É preciso que estes novos atores no circuito galáctico se desenvolvam em termos da aceitação da alteridade, bem como de seus diferentes modos de pensamento.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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