Nós – Evgueny Zamiatin | Resenha

Nós é uma distopia soviética que serviu de base para outras obras importantes deste gênero. O texto contém spoilers e aborda a obra, o autor e seu contexto.

VISÃO GERAL: AUTOR E OBRA

Nós se trata de uma obra distópica escrita por Evgueny Zamiatin na União Soviética, em 1921. O romance foi publicado clandestinamente na Inglaterra, passando despercebido pelas autoridades soviéticas, contudo, uma posterior edição tchecoeslovaca provocou a perseguição do autor, o qual pediu exílio em 1931. A obra se situa num futuro pós-guerra, no qual os sobreviventes criaram uma sociedade cercada por muros, centrada na racionalidade e possuidora de um super Estado, que tudo controla e tudo vigia. O leitor experimenta este universo através do protagonista D-503, um matemático construtor do Integral (grande aeronave responsável por submeter os “selvagens livres” do universo ao julgo do Estado Unificado), e leal defensor de sua civilização. A narrativa é quase integralmente feita em primeira pessoa – exceto por trechos de jornal apresentados pelo protagonista – e se estrutura como um diário. Cada capítulo se trata de uma anotação feita pelo protagonista, desta forma, vemos o mundo através de suas vivências e memórias.

ilustração do enredo

Trata-se de um texto curto, com pouco mais de 200 páginas, com uma escrita clara, propositalmente contida e disciplinada, marcada pela ironia e pela racionalidade matemática do protagonista, e do próprio autor, que era engenheiro naval.

Zamiatin nasceu na Rússia, foi um revolucionário bolchevique (os bolcheviques eram militantes socialistas revolucionários na Rússia antes da Revolução de 1917, estes acreditavam na possibilidade de efetuar a revolução imediatamente, mesmo antes da construção de um Estado  liberal, regido pela burguesia, e por isso se diferiam dos mencheviques, os quais defendiam que era necessário consolidar o liberalismo e a burguesia enquanto classe dominante antes de fazer uma revolução),  preso  e deportado antes da Revolução de 1917. Após esta, Zamiatin retorna a sua pátria, mas se percebe deslocado num ambiente que não tinha mais espaço para o engenheiro naval:

“Não havia tempo para desenhos técnicos, a técnica prática secou e caiu de mim como uma folha amarela (da técnica restou apenas o ensino no Instituto Politécnico)”. (ZAMIATIN, 1990, p.5).

Assim, o engenheiro se torna professor no Instituto Politécnico e escritor, publicou poucas obras além de Nós. E após a perseguição política e o exílio, morreu sem deixar muitas obras. A obra é considerada pelo próprio uma das coisas mais importantes que fez, e traduz sua revolta com a União Soviética de Stalin, bem como clama por mudanças:

“Não existe uma revolução final. As revoluções são infinitas”. (ZAMIATIN, 1990, p.160).

ENREDO

A narrativa se inicia com a apresentação do Integral e do protagonista D-503, e segue para a inserção do leitor na mente racional de D e para a exposição da estrutura social em que vivem. O mundo criado por Zamiatin é como um grande cristal e como uma grande fábrica. As paredes de vidro, os muros verdes e o céu claro recebem destaque na obra. Cada indivíduo sob esta sociedade acorda, dorme, come, e trabalha no horário que lhe é ditado pela Tábua dos Mandamentos de Horários. Sua vida sexual também é controlada pelo Estado através dos chamados cartões rosas, que possibilitam o sujeito receber a visita de uma parceira ou parceiro previamente aprovado em determinado horário e, então, fechar as cortinas. Assim, os personagens de Zamiatin não têm privacidade, espaço para individualidade ou liberdade. A própria ausência de nomes já é um indicador da ausência de individualidade. Já a liberdade é apresentada pelo narrador como criminosa:

“Libertação? É assombroso como os instintos criminosos são arraigados no gênero humano. Uso deliberadamente a palavra ‘criminoso’. A liberdade e o crime estão tão indissoluvelmente ligados”. (ZAMIATIN, 1990, p.37).

O enredo gira em torno do romance de D-503 e de I-330 (uma misteriosa mulher que rompe com os padrões morais da sociedade e atrai D para a revolta), dos conflitos internos vividos pelo protagonista, da tentativa de quebra de D com o Estado e da reação do Estado às revoltas. I-330 é de longe o personagem mais vivaz que a obra apresenta. Cheia de energia e personalidade a personagem é autônoma e independente. Seus desejos e vontades “adoecem” D, que, logo após seus primeiros encontros com I, desenvolve “alma” – o que pode significar criatividade, individualidade e imaginação. Ao longo da narrativa D, dividido entre seu interesse por I, os questionamentos que ela gera, e sua lealdade ao Estado Unificado, começa a se aproximar dos atos de revolta que insurgem nas fileiras deste Estado de controle e acaba discutindo sua natureza com o próprio líder.

O texto traz diversos momentos de violência policial, censura, procedimentos cirúrgicos forçados, execuções e controle, todos narrados com excepcional naturalidade e racionalidade. O choque da narrativa é amenizado por um distanciamento de um narrador que vê tais atos com total naturalidade.  Ainda, o romance Nós enfoca a total absorção do indivíduo pelo Estado, o próprio título já é um indicativo disto, Nós é um livro sobre uma sociedade que funciona como um todo, não como um universo constituído por indivíduos livres, logo, o autor apresenta seus personagens sem nomes próprios, vivendo como peças de uma grande máquina e sem nenhum direito individual.

Um trecho do texto é marcante nesse sentido: a comparação do todo com o indivíduo

“Suponhamos dois pratos de uma balança: em um está uma grama, no outro – uma tonelada, um está o ‘eu’, no outro está o ‘Nós’, o Estado Unificado. Não está claro que supor que o ‘eu’ pode ter direitos em relação ao Estado é o mesmo que supor que o grama pode contrabalancear a tonelada”. (ZAMIATIN, 1990, p.110).

Deste modo, o texto apresenta seus personagens como sujeitos atomizados e massificados, partes do todo para as quais liberdades e direitos não eram opções. Este tipo de indivíduo perpassa toda a narrativa, e marca não só a distopia de Zamiatin, como a de outros autores distópicos do período.

IMPORTÂNCIA DA OBRA

A importância da obra de Zamiatin gira em torno das construções distópicas posteriores e deste gênero como um todo. Temas, situações e conceitos elaborados por Zamiatin se repetirão nos romances 1984, de George Orwell (1949),  e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (1932), os quais, posteriormente, influenciaram todo o desenvolvimento da literatura distópica. Assim como os outros romances supracitados, Nós se expressa como uma reação ao contexto de entre guerras e ascensão dos regimes totalitários.

Após a 1ª Guerra Mundial a desesperança e o medo do futuro marcaram as artes em geral, e, dentre estas, a literatura. Muitos artistas e escritores lutaram na então chamada Grande Guerra e, depois dos conflitos, abraçaram uma arte mais militante, engajada politicamente e escreveram romances narrando o cotidiano da guerra – como o Nada de Novo no Front, de Lewis Milestone (1929), marcados pela desesperança.

A partir da década de 1920 os movimentos fascistas e totalitários começaram a se espalhar pela Europa, e o receio dos fascismos, bem como de uma possível nova guerra, passam a mover a intelectualidade europeia contra estes movimentos e regimes. Neste contexto Zamiatin escreve Nós como um ataque ao totalitarismo, à violação dos direitos individuais, aos ataques à liberdade e individualidade humana. O romance se estrutura como uma analogia metafórica contra o totalitarismo que denuncia sua brutalidade nas entrelinhas.

Os totalitarismos, assim como os fascismos, são regimes nascidos no século XX após a Primeira Guerra Mundial. Os regimes totalitários são caracterizados por Estados policialescos sob controle de um partido único, marcados pela perseguição política, terror constante (com presença de  campos de concentração e extermínio), massificação da  pessoa que deixa de ser um indivíduo de direitos para se tornar sujeito da multidão, forte pressão ideológica por meio da propaganda, culto ao líder e  presença de um regime que controla todos os aspectos da vida dos cidadãos. São considerados totalitarismos os regimes de Hitler, na Alemanha nazista, e de Stalin na União Soviética.

capa em inglês

Enquanto distopia, Nós denúncia os movimentos totalitários em seu potencial destrutivo para a pessoa humana. O livro apresenta uma defesa da liberdade e individualidade contra as novas formas de Estado que ameaçavam de massificação e atomização os indivíduos. A literatura distópica funciona como um alarme de incêndio, o qual avisa à sociedade que se determinada tendência do seu presente vencer, o mundo pode se tornar um pesadelo. Assim, o objetivo da distopia é assombrar para impulsionar a mudança. O pesadelo construído por Zamiatin é um sufocante e invencível totalitarismo.  

Do mesmo modo que Nós, os romances Admirável Mundo Novo e 1984 se posicionam contra o totalitarismo e constituem analogias às práticas e ideais deste, mostrando-as em todo o seu potencial negativo. As três obras enfocam principalmente o controle dos Estados e a atomização dos indivíduos, sendo estes fatores centrais para a construção de seu universo e principais medos dos autores com relação ao totalitarismo. Deste modo distopias funcionam como reações contrárias e denúncias aos regimes totalitários. Zamiatin foi o primeiro a escrever uma distopia com este cunho e sua obra foi uma influência aos dois romances sucessores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Deste modo temos em Nós mais do que um romance distópico de casas de vidro, mas uma narrativa criada a partir do ponto de um sujeito condicionado pela sua realidade, uma obra política anti totalitária e uma reação de um bolchevique contra o resultado da revolução.

A leitura do texto em si é bastante simples, a linguagem usada por Zamiatin é bastante clara. O mundo elaborado por Zamiatin é criativo e interessante, assim como seus personagens que são construídos de forma vívida e complexa. Ainda mais interessante é a possibilidade de observar este universo inteiramente do ponto de vista de um apoiador do regime. D-503 é um personagem que desperta curiosidades e me parece a parte mais criativa da obra de Zamiatin. O principal problema com este romance no Brasil foi, por muito tempo, encontrá-lo à venda, pois a obra ficou anos esgotada no mercado nacional. Haviam poucas edições e os exemplares eram muito caros. As antigas edições da Editora Alpha ômega contêm erros ortográficos estranhos. A nova edição lançada pela Aleph não aparenta ter este problema, além de conter a crítica de George Orwell, outro distopista famoso do período. Valendo a pena conferir.

REFERÊNCIAS:

ZAMIATIN, Evgueny. Nós. São Paulo: Editora Alpha & Ômega, 1990.

ZAMIATIN, Evgueny. Entrevista inédita de Zamiatin. In: Antologia de Sátira e Humor da Rússia do século XX – Evgueny Zamiatin. Vol.28. Moscou: Editora Eksmo, 2004.

Janis Caroline Boiko da Rosa

Graduanda de Licenciatura em história pela PUC-PR, estudando principalmente distopias. Áreas de interesse: literatura, ficção científica, cinema e ciências humanas.

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