Star Wars: Dawn of the Jedi – Into the Void | Tim Lebbon | Resenha

Star Wars: Dawn of the Jedi – Into the Void, escrito por Tim Lebbon, é uma obra fundamental para a composição do Universo Expandido de Star Wars, atualmente rebatizado com o selo Legends. Publicada pela LucasBooks em maio de 2013, a história se passa vinte e cinco mil anos antes dos eventos em Star Wars: A New Hope (1977). Seu intuito é fornecer bases remotas para a origem dos usuários da Força, os Je’daii, bem como sua relação de equilíbrio entre luz e sombras, diferindo-se bastante dos Jedi que o público está acostumado.

TIM LEBBON

O londrino Tim Lebbon (1969-) é um prolífico escritor de narrativas de cunho especulativo, destacando-se tanto no campo do horror como na fantasia. Sua primeira história curta foi publicada na revista Psychotrope, em 1994. Em 1997, lançou seu primeiro romance, Mesmer, o primeiro de muitas obras. A frequência de publicação de Lebbon é impressionante: White (1999), Flesh (1999), Naming of Parts (2000), The First Law (2000), Face (2001), The Nature of Balance (2001), Until She Sleeps (2002), Changing of Faces (2003), Fears Unnamed (2004), Pieces of Hate: Assassin’s Series #2 (2005), Desolation (2005), Berserk (2006), Dusk (2006), Dawn (2007), The Everlasting (2007), 30 Days of Nights (2007), After the War: Two Tales of Noreela (2008), Fallen (2008), Bar None (2008), The Reach of Children (2008), The Island (2009), Echo City (2010), The Thief of Broken Toys (2010), The Heretic Land (2012), Alien: Out of Shadows (2014), Coldbrook (2014), Embers (2015), The Silence (2015).

Além destas, foi co-autor de Hush (2000), com Gavin Williams. Já sua parceria com Christopher Golden, rendeu duas obras: Mind the Gap (2008) e The Map of Moments (2009). Sua história curta Reconstructing Amy venceu o prêmio Bram Stoker de Ficção Curta em 2001, e Dusk, em 2007, foi aclamado pela British Fantasy Society com o prêmio August Derleth de melhor romance do ano.

CONTEXTO

A narrativa de Into the Void (2013) está situada em um passado remoto de Star Wars. Cerca de vinte e seis mil anos da batalha de Yavin, diversos sujeitos que eram sensitivos à Força foram levados para o planeta de Tython por enormes embarcações, as Thor Yor. Localizado no Deep Core, o sistema de Tython era composto por onze planetas. Pistas na narrativa sugerem que Tython já havia sido habitada antes da chegada das Thor Yor, mas apenas remanescentes arquitetônicos remotos foram encontrados. A colonização de Tython foi mediada a partir de oito destas enormes naves, que permitiram a construção de templos para o estudo da Força.

O planeta de Tython possuía um ecossistema bastante rico. Na sua órbita, duas luas serviram como a base para o modelo filosófico da Ordem Je’daii: Ashla e Bogan. A primeira era uma lua que representava o lado da luz, enquanto a segunda seria a manifestação do lado negro. A ideia não era a supressão de um lado em prol do outro, como é o padrão das narrativas de Star Wars. O que os Je’daii buscam é o equilíbrio entre Ashla e Bogan.

Na medida em que a Ordem Je’daii começou a crescer, várias gerações que não eram sensíveis à Força surgiram. Para estes, o planeta de Tython era extremamente ameaçador, e eles decidem partir de lá e colonizar os outros astros do sistema. Esse cisma criou uma tensão entre os dois grupos, que foi escalonando ao longo dos anos. O conflito estourou em 25805 e foi intitulado A Guerra Déspota. De um lado, a Rainha Déspota Hadiya organizou sob seu comando diferentes grupos militares e criminosos. A partir do planeta de Shikaakwa, a rainha lançou uma campanha de conquista dos outros planetas do sistema. A Ordem Je’daii discordou das ações da Rainha, e se aliou com as aristocracias locais para fazer frente. Após uma série de escaramuças, Hadiya atacou Tython com seus exércitos. A resposta dos Je’daii foi massiva, e a Rainha bem como seus soldados foram eliminados.

NARRATIVA

A história de Into the Void é constituída a partir deste contexto posterior ao conflito entre os Je’daii e a Rainha. A personagem central é Lanoree Brock, uma Je’daii Ranger humana. A categoria de Ranger foi constituída para ser um modelo bastante próximo ao esquema do cavaleiro Jedi. Do Conselho Je’daii, Brock recebeu uma missão bastante delicada que diz respeito ao seu irmão, Dalien Brock. A partir desse simples esquema, Lebbon irá apresentar os dois personagens flertando com o passado e com o presente.

A narrativa é mediada por duas temporalidades. A primeira (25.802) é a passagem de Lanoree e Dalien, ainda jovens, por diferentes templos Je’daii em Tython, com o intuito de desenvolver diferentes capacidades no controle da Força. Desde combates físicos e preparo mental, até a manipulação das energias do planeta como um todo. Neste percurso, percebe-se que Dalien vai constituindo uma visão que recusa o uso da Força e vê sua irmã como excessivamente dependente desta. Já Lanoree tenta incentivar o treinamento e a aproximação de Dalien com a Força, mas não tem sucesso.

A segunda temporalidade (25.793) é a missão de Lanoree para encontrar seu irmão. Ela é informada que ele estava vivo, ao contrário do que ela presumia anteriormente. Dalien aparentemente está envolvido com um grupo religioso, os Stargazers, que visam utilizar algum tipo de equipamento que havia sido deixado pelos antigos habitantes de Tython para ir além do sistema planetário e explorar o restante da galáxia. Ocorre que este artefato para ser ativado demanda o manejo de um tipo de energia bastante específica, que pode resultar na destruição de Tython.

Lanoree é auxiliada por um ladrão Twi’lek, Tre Sana. Diferente dos outros membros da sua espécie que possuem apenas dois tentáculos, o personagem possui três. Essa aberração genética, rara dentro da espécie, foi responsável por excluí-lo e lança-lo em uma vida de crime. Para sair desta, Sana passou por um processo no qual sua mente foi transformada e tornou ele imune a qualquer tipo de leitura mental. Todavia, o efeito foi um verdadeiro abalo na sua própria psiquê.

Juntos, a ranger Lanoree e seu associado, visitam alguns dos planetas do sistema de Tython atrás dos Stargazers e de Dalien. A complexidade da Je’daii é construída em contraste com o restante dos habitantes do sistema, não sensitivos a Força. Em muitas situações, Lanoree é encontrada como uma espécie de entidade mágica e mística, capaz de realizar feitos incomuns. O que, de certa maneira, produz na personagem uma percepção de si como superior em relação aos demais, ocupando-se apenas no cumprimento da missão e não na reflexão sobre as sociedades que estão para além do circuito da ordem Je’daii.

Para além disto, a narrativa vai lançando uma série de pistas – a partir de visões e acontecimentos – que vão servindo como introdução para outra história. Trata-se de Dawn of the Jedi (2012-2014), de John Ostrander. Essa série de HQs, dividida em três arcos (Force Storm, The Prisoner of Bogan, Force War), com cinco números cada um deles, se passa logo após os eventos do texto de Lebbon, e conectam-se diretamente com o resto do universo de Star Wars, e com o jogo Star Wars: Knights of the Old Republic (2003).

FICÇÃO FANTÁSTICA ALQUÍMICA

Percebe-se uma influência, ou melhor, um eco, da narrativa de H. P. Lovecraft no texto de Lebbon. Esse recurso aparece em dois momentos finais da narrativa, tanto na primeira linha cronológica quanto na segunda, e que compartilham consigo a exploração das ruínas da Old City. Localizada em Tython, cercada por um amplo deserto, esse espaço combina formas geométricas de pirâmides, com canais e cavernas.

Ali, toda a imensidão de Tython, bem como dos outros planetas do sistema, é ocultado por pistas de um passado imemoriável. Este outro tempo, além de ausente nas lembranças e na história propriamente dita, é inacessível tanto para o personagem quanto para o leitor. Só podemos especular sobre quem são os “verdadeiros Tythans” que um dia viveram ali. Bem como os motivos de seu desaparecimento.

O jogo entre as duas cronologias temporais, bem como esse apelo ao próprio horror, é mediado por uma diferença que Into the Void consegue tratar bem: a relação entre fantasia e ficção científica. Evitando uma discussão propriamente dita sobre o grande conjunto de Star Wars, que em sua totalidade não se encaixa no gênero da fantasia, nem naquele da ficção científica, a narrativa de Lebbon produz uma relação dialógica bastante interessante.

Na narrativa da juventude de Lanoree, sua forma de narração e progressão, lembra bastante um texto de fantasia. É um momento do “mundo de Tython”, onde os diferentes locais são explorados pelos personagens, que tem um certo horizonte de conclusão de sua aventura – tornarem-se Je’daii. A construção dos cenários que vão sendo atravessadas é bastante paradigmática neste sentido, pois coloca os aventureiros diante de desafios e criaturas mágicas.

Todavia, a narrativa da vida adulta de Lanoree, e sua caçada, não segue esse modelo. É exatamente o oposto. Lebbon parte da premissa de pensar em um sistema planetário, e não mais de um único mundo. Este sistema é marcado por um evento específico – a existência dos Je’daii, e as relações sociais, políticas e culturais são pensadas a partir disto. O aspecto mais interessante, que produz um efeito de estranhamento cognitivo – aquilo que Darko Suvin (1979) definiu como fundamental para a ficção científica – é a própria manipulação da Força.

O estranhamento cognitivo está na “Alquimia do Corpo”. Convém destacar que a narrativa de Frankenstein, que abre as portas da ficção científica moderna, é pautada pela trajetória de um cientista que abandona os textos de Paracelso, Agrippa, bem como de outros alquimistas, e encontra no galvanismo e na eletricidade uma maneira de criar vida. Pode-se concluir que, no caso de Lanoree, sua manipulação alquímica seria mágica e não científica.

Lanoree havia criado, para si, seu próprio “monstro”. Diferentemente de Victor Frankenstein que violava tumbas, a ranger criou de sua própria carne uma espécie de criatura, e depois faz uso desta em um momento chave do texto. Alquimia, por sua vez, que é feita a partir da manipulação de aspectos dos dois lados da Força, algo constitutivo da própria ideia de Je’ddai. É esse o estranhamento cognitivo de Into the Void que diferencia essa narrativa de outras mais “tradicionais” dentro do selo Legends.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta de Lebbon é sólida e cumpre uma tarefa bastante árdua: a reapresentação de um universo tão conhecido, a partir de um ponto de vista narrativo e temporal único. Neste sentido, o autor cria vários desafios para o leitor, que tem que adequar seus conhecimentos prévios, de um “futuro”, para um “passado”, que tão remoto, oculta suas conexões com o “presente” narrativo. Uma outra dificuldade que surge, que Lebbon soube dosar muito bem, é o alcance dos poderes de Lanoree, que não são exagerados, mas também não são pífios. As limitações tecnológicas imaginadas para o período são interessantes e corroboram para a condição dos planetas daquele sistema.

Todavia, diferente de outras obras do selo Legends, que pode se esperar novos desenvolvimentos narrativos e dos personagens, o mesmo não ocorreu com Into the Void. Para além deste livro, há apenas duas aparições de Lanoree. A primeira é Eruption, uma história curta escrita por John Ostrander que foi publicada na Star Wars Insider 141 (2013). A narrativa, em termos cronológicos, está situada em um momento mediano, no qual Lanoree já é uma ranger, mas ainda não foi enviada na missão de capturar seu irmão. A segunda é The Adventures of Lanoree Brock, Je’daii Ranger. De autoria de Tim Lebbon, sua publicação ocorreu no Kindle Daily Post em vinte e quatro de abril de 2013. Diferente dos modelos anteriores, esta narrativa é dada na forma de um diário de bordo da própria ranger, e se passa nos primeiros capítulos de Into the Void.

 

REFERÊNCIAS

LEBBON, T. Star Wars: Dawn of the Jedi – Into the Void. Marin County: LucasBooks, 2013.

OSTRANDER, J. Eruption. Aurora, United States: Star Wars Insider, 2013. p. 50–55.

SUVIN, D. Metamorphoses of Science Fiction: On the Poetics and History of a Literary Genre. New Haven & London: Yale University Press, 1979.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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