20 Mil Léguas Submarinas | Jules Verne | Resenha

O romance 20 mil léguas submarinas (1870)  trata-se de um clássico da ficção científica. É também, e não sem razão, uma das mais conhecidas obras de Jules Verne, juntamente com Viagem ao centro da terra (1864) e Volta ao mundo em 80 dias (1873), todas compiladas na série Viagens extraordinárias. As adaptações deste romance são múltiplas, desde filmes à animações e programas de televisão. A primeira tradução para português foi feita pela editora David Corazzi em 1887. A edição em que se baseia o presente texto é a de 2014 da Editora Zahar, da coleção Clássicos Zahar.

Verne, um pessimista desorientado

Nascido na França, em 1828, Jules Vernes foi um dos primeiros autores de ficção científica (nomenclatura que ainda não existia na época). O escritor foi educado para ser advogado assim como seu pai. Contudo, já aos 20 anos Verne começou a publicar suas primeiras obras. Tratavam-se de dramas históricos, comédias, operetas e histórias de viagem.

O jovem escritor não encontrou sucesso cedo, por muito tempo suas histórias foram recusadas pelas editoras, que as consideravam muito científicas e pessimistas. Vivendo ainda numa época em que o desenvolvimento tecnológico era visto como um caminho ou sinal do progresso e glória da humanidade, o autor costumava associar a infelicidade humana às descobertas da ciência.

Verne conheceu grandes autores como Victor Hugo e Alexandre Dumas, mas nem com o aconselhamento deste último sua situação mudou. Foi apenas através da amizade com Pierre-Jules Hetzel que Verne adquiriu prestígio e pôde viver de seus livros. Hetzel era um editor respeitado na França e orientou Verne a melhorar a estrutura dos romances, adicionar um elemento de humor e reduzir a descrença em relação à humanidade e ao progresso.

Em 1864 Hetzel lançou a Revista de Educação e Recreação (Magasin d’Éducation et de Récréation), que visava o público jovem e aproveitou o talento de Verne na seção chamada Biblioteca de Educação e Recreação, na qual eram publicados folhetins que mesclavam a ficção e a ciência. Nesta seção a obra 20 mil léguas submarinas foi originalmente publicada.

O processo de produção do romance foi longo, iniciando-se com a troca de cartas entre Hetzel e Verne, em 1866. Através destas todo o planejamento do romance foi discutido – principalmente a personalidade do antagonista, Capitão Nemo, e o conflito entre dois navios ao fim do livro. Depois de escrita, a história ainda foi revisada por Hetzel e demoradamente ilustrada por Édouard Riou, sob a supervisão de Verne – processo que atrasou a publicação em meses, fato que nos dá uma ideia de como o escritor foi exigente e detalhista. O romance foi publicado de dois em dois capítulos, no formato de folhetim, entre 1869-1870, e em forma de livro em duas partes, a primeira em 1869 e a segunda em 1870.

A recepção da crítica foi fria, sendo decepcionante para o editor e o escritor, apesar do livro ter sido o terceiro maior sucesso de venda da revista, perdendo apenas para Volta ao mundo em 80 dias (1872) e Cinco semanas em um balão (1863). Após uma década de sucesso, a vida de Verne teve uma virada negativa, com o falecimento de sua mãe e de Hetzel, seguida por uma gradual queda nas vendas. No período entre estes eventos (começando por volta de 1887) e a morte de Verne (em 1905) seus livros tornaram-se mais e mais sombrios, sempre tematizando o lado negativo do avanço científico.

Enredo

O romance 20 mil léguas submarinas gira em torno das viagens de três protagonistas, tripulantes da embarcação submarina Nautilus. Apesar da presença das aventuras, o foco de Verne é visivelmente a técnica e a ciência, que tomam longas passagens do livro e esmiúçam detalhes do funcionamento do submarino, dos mares, dos tipos biológicos dos peixes etc.

A relação entre os protagonistas e do narrador com o antagonista é um dos pontos mais interessantes do romance, uma vez que que todas as personalidades envolvidas são ricas e intrigantes. O tom científico e misterioso é muito mais intrigante do que entediante – apesar de o tédio ser inevitável depois de 3 páginas de tipos de peixes. As descrições (com exceção das 3 páginas de tipos de peixes)  envolvem o leitor na narrativa e maravilham com espetáculos de um universo ainda amplamente inexplorado que são os abismos e profundezas dos oceanos.

Devido ao enfoque tecnológico, à importância que o detalhamento científico assume no texto e ao modo como Verne se preocupa em criar um submarino cientificamente plausível e milhares de vezes à frente dos submarinos do fim do século XIX (lembrando que o mundo estava vivendo ainda a Segunda Revolução Industrial), o  livro poderia ser definido como ficção científica hard. O mistério que envolve a obra é, também, o mesmo que deixa muitas das perguntas do leitor sem respostas e muitas curiosidades suspensas.

O misterioso nautilus

O enredo é narrado em primeira pessoa pelo protagonista Aronnax, mas só sabemos disso a partir do segundo capítulo. A história se inicia com uma narrativa de rumores sobre um evento estranho: diversos navios avistaram uma “coisa gigante” cuja natureza era desconhecida. O rumor que se difundiu inicialmente com o boca a boca tomou os jornais e depois os debates científicos. Trataria-se de um coral flutuante? De uma ilha flutuante? De um cetáceo gigantesco? De uma embarcação?

Os rumores de algum tipo de Moby Dick ou Kraken tomaram as discussões científicas e jornais, tornando-se uma fonte de humor até navios naufragarem em confrontos com a coisa misteriosa, endossando a idéia de que tratava-se de um animal monstruoso. Por outro lado, a ideia de que tratava-se de uma embarcação foi gradualmente eliminada, pois somente um governo poderia construir uma embarcação deste tipo e tamanho, capaz de alta velocidade e submersão.

Sendo assim: quando e onde teria sido construída? Como uma construção desta magnitude se manteve em segredo? Num tempo em que todas as potências se dedicavam à vigilância das outras, manter uma construção imensa em segredo seria impossível. Além disso todas as potências negaram a autoria de algo do gênero. Assim só restava a hipótese de tratar-se de um animal gigante ou um narval gigante, como defendido pelo narrador-protagonista, Aronnax.

Aronnax é professor suplente do Museu de História Natural de Paris. Sua personalidade gira em torno de suas ambições intelectuais e de seu fascínio pela ciência. A arrogância que marca o protagonista, manifesta nas referências sombrias que este continuamente faz e em sua intelectualidade e nacionalismo, é também presente em seu nome: a pronúncia de “arrogante” (arrogant) em francês é próxima da pronúncia do nome do professor.

O personagem possui, também, um marcante respeito por protocolos sociais e uma recusa a basear sua compreensão do mundo em seus sentidos; sua compreensão do real é sempre baseada na razão. Ao longo do enredo Aronnax gradualmente supera ou ameniza essas características devido a conflitos, confrontos e à sua relação com os personagens Ned Land e Capitão Nemo.

Outro personagem central é Conselho, descrito como racional, calmo e leal ao seu empregador e mestre, Aronnax. Todavia, a personalidade e história de Conselho é eclipsada pela sua servidão a Aronnax, numa relação trabalhista, no mínimo, exploratória.

Após uma exploração científica no Nebraska, Conselho e Aronnax se encontravam em Nova York quando receberam o convite para uma inusitada empreitada: a caçada ao Narval gigante. Convite este que, obviamente, Aronnax aceitou, sendo uma grande oportunidade científica para o professor. A embarcação que seria o palco de tal aventura é a fragata Abraham Lincoln. Ao embarcar nesta, Aronnax é apresentado a Ned Land, outro protagonista do romance.

Ned Land é, de certa forma, o oposto de Aronnax. Land é um arpoeiro canadense, mais especificamente o rei dos arpoeiros, convidado para a caçada devido à suas habilidades. Sua visão prodigiosa, diversas vezes ressaltada, é no romance tão real quanto metafórica. Enquanto Aronnax representa uma intelectualidade encantável e lapidada, Land, como o próprio nome diz, é terreno, possuidor de emoções fortes, confia em seus sentidos, é cético quanto a qualquer hipótese não confirmada, é impulsivo e agressivo. Sua relação com Aronnax é de uma parceria conflituosa. As teses de Aronnax e seu modo de lidar com os acontecimentos não são bem aceitos por Land, que discorda e se ocupa de seus próprios planos.

A fragata deixa a terra firme na região do Brooklyn. Seis meses se passam antes de algo de relevância acontecer. A ansiedade inicial dos marujos é substituída por impaciência, a vontade de voltar para casa se tornava mais forte e o desejo de confronto com o monstro enfraquecia. Passando pelo Pacífico, Ned Land avista o monstro. A batalha entre o Abrahan Lincoln e o Narval dura mais de 24 horas, sua narração é técnica, mas inspira ansiedade.

Repentinamente o enfoque do narrador muda. Ele não mais está em batalha, mas no mar. Apesar de ainda racional, a narração inspira razoável desespero, afinal, nada indicava a Aronnax que seria salvo, até que ouve a voz de seu mais que leal servo, Conselho, que havia se jogado ao mar quando viu o patrão caído. Ambos traçam um modo lógico de tentar alcançar a fragata em busca de salvação, mas antes de alcançá-la percebem que só restam destroços desta e encontram com Land.

Ned Land explica que quando viu o monstro não lhe restou dúvida de tratar-se de um animal, mas quando tentou abatê-lo seu arpão se chocou contra um casco de metal. Não se tratava de um animal e sim de um submarino. Mais que isso. A superfície em que Ned havia se sentado escapando do naufrágio do Abraham Lincoln era o próprio submarino.

Por algum tempo os personagens apenas sentam-se sobre o submarino e esperam que ele não submerja, pois isto significaria seu fim. Chega um ponto em que Land encontra a escotilha e, num ataque de fúria, a chuta e xinga seja lá quem estiver dentro da embarcação. Pouco depois os personagens são levados para dentro. Num clima de mistério ainda maior, estes ficam confinados dentro de um cômodo fechado e escuro. Depois de um tempo recebem a visita de alguns tripulantes, que falavam uma língua estranha. Ned Conselho e Aronnax tentam comunicar-se com os tripulantes em alemão, francês, latim e inglês, mas nada funciona.

Os personagens são levados para uma sala, onde se alimentam de algo estranho e desconhecido, e depois para seus aposentos, onde ficam até que outro ataque de fúria de Ned mude a situação. Ouvindo passos no corredor Land se joga sobre o sujeito e tenta estrangulá-lo. E assim os náufragos vêm a conhecer o Capitão da bizarra embarcação: Nemo. Ele revela que sabia falar todas as línguas nas quais Land, Conselho e Aronnax tentaram se comunicar, mas que não os respondeu pois estava analisando se suas histórias eram verídicas e o que faria sobre os novos tripulantes. Afinal, estes o haviam atacado e perturbavam o modo de vida que Nemo escolhera levar.

Aronnax discorda que tenha sido um ataque à Nemo, alegando que se soubessem que era uma embarcação e não um animal eles não teriam atacado. Ao que Nemo responde questionando: “Professor Aronnax, ousaria afirmar que sua fragata não teria perseguido e canhoado uma embarcação submarina da mesma forma que a um monstro?” A pergunta fica no ar. A partir deste ponto, Nemo – e a relação entre Aronnax e Nemo – trazem o questionamento da civilização e a negação desta para dentro da obra.

Por fim, Nemo define que sua decisão foi a de que os náufragos ficariam dentro do Nautilus (nome do submarino) com relativa liberdade, podendo ir e vir, participar da rotina e conhecer a embarcação, mas sob o dever da obediência, podendo ser confinados em seus quartos em ocasiões específicas e sem nunca mais poder voltar para suas pátrias. Obviamente houve discussão e forte resistência, principalmente por parte de Ned Land, mas a posição dos personagens ante o antagonista não era muito propícia à resistência. Assim, estes concordaram.

Considerações Finais

Nemo é possivelmente o mais intrigante e misterioso personagem escrito por Verne. Seu passado, identidade e nacionalidade ficam escondidos durante a maior parte da obra. O antagonista se apresenta como “Nemo”, ninguém em latim, fazendo referência à passagem de Odisséia em que o protagonista, Odisseu, confrontado por um ciclope, o engana dizendo chamar-se “ninguém”.

Verne nos conta que Nemo é riquíssimo e, aos poucos, revela que ele é indiano e rompeu com a civilização em busca de vingança. Nemo é obscuro, distante, melancólico. Seu rompimento com a civilização é intensamente retratado, o que, somado a sua melancolia e suas críticas, leva o leitor a pensar que podem haver motivos mais profundos para esta decisão radical. Verne opta por manter o mistério vivo em Nemo e o romance acaba sem termos a informação de sua identidade, passado e futuro. Nemo é uma incógnita.

O enredo segue para longas explicações técnicas sobre o funcionamento do submarino, sua fonte de energia, de alimentação, de ar e água, sua construção e acomodações. Neste momento a relação de Nemo e Aronnax é trabalhada e o encanto que o misterioso Nemo exerce sobre o professor é palpável; o flerte intelectual entre ambos surge e caracteriza toda sua relação. Aronnax admira Nemo e, apesar de ser um prisioneiro, estar no Náutilus o faz muito feliz.

Por capítulos a fio o enredo conta diversas aventuras dos protagonistas nas profundezas oceânicas, confrontos com animais marinhos, visitas a florestas submarinas, a morte inexplicada de um  tripulante, observação de ruínas de naus naufragadas, caça a um leão marinho, visitas à áreas de difícil acesso, exploração de ilhas inóspitas e confronto com seus nativos e busca por uma pérola gigante. Tudo isso dava a Aronnax a possibilidade de conhecimentos novos. Com Aronnax seduzido pela nova vida e Conselho ocupado em concordar com seu mestre, é Ned Land que se preocupa com a fuga do submarino. Ned é terreno, a vida submarina e os encantos intelectuais não o atraem, e, ao passarem pelo Mediterrâneo, Land propõe um plano de fuga.

O simples plano consiste em escapar a nado para as praias europeias assim que estivessem em uma distância possível e não submersos. A princípio Aronnax apresenta-se receoso, mas acaba por concordar com a premissa de que, assim que surgisse uma oportunidade ela deveria ser usada, pois poderia ser que nunca se repetisse. A fuga foi planejada e o erro não poderia ser uma opção.  Contudo, o plano do arpoador foi falho. O Náutilus passou pelo Mediterrâneo em menos de 48 horas sem ir a superfície.  Todavia, a tristeza de Ned não dura. Assim que adentram o Atlântico, Land anuncia sua fuga para aquela mesma noite. Apesar de relutante e assustado, o professor concorda.

Buscando ver Nemo mais uma vez, Aronnax o encontra no salão do submarino. Nemo começa a contar uma longa história que abordava as relações internacionais e querelas entre coroas européias, tendo por objetivo contar do naufrágio de um navio cheio de ouro espanhol. É então revelado a Aronnax que o Náutilus recolhe as riquezas perdidas no mar. Uma discussão se trava entre Nemo e Aronnax, que culmina numa fala apaixonada de Nemo sobre o uso dos tesouros para aqueles que sofrem, que buscam vingança; para as raças oprimidas. A função deste diálogo é complexificar a decisão de Aronnax. Mais do que por motivos intelectuais, sua empatia pelo capitão agora tem um laço emotivo; é revelada a humanidade de Nemo.

A retirada do tesouro submarino atrapalha os planos de Ned. A narrativa segue com mais aventuras, visitas a carvoarias submarinas e ao Polo Sul, confronto com uma lula gigante, travessia do Mar de Sargaços, etc. Ao longo delas, o protagonista-narrador aproxima-se mais e mais de Ned e se afasta de Nemo. Porém, o rompimento de laços entre Aronnax e Nemo só acontece por definitivo quase ao fim da obra, quando o professor percebe que o que afasta Nemo da terra firme era ódio e vingança, ao vê-lo destruir um navio, o Vingador.  Aronnax, Conselho e Ned tentam impedir a aniquilação da embarcação rival, mas falham. O derramamento de sangue é o que faz Aronnax mudar sua visão com relação a Nemo e realmente se conectar a tentativa de fuga de Ned.

O clímax da história é a tentativa de fuga, que se torna possível perto da costa da Noruega. A fuga é o ápice e o fim do dilema moral em que Aronnax teve de escolher entre o desenvolvimento intelectual banhado de sangue que seria permanecer no Nautilus ou o abandono da possibilidade devido a uma empatia por outros homens – ou humanidade, como preferir chamar.

A narrativa termina tão misteriosa como começa. A fuga dos personagens se concretiza sem explicar várias perguntas, como: Quem é Nemo? Quem são os homens que vivem com ele naquela embarcação? Por que eles vivem ali? Como foram recrutados? Mais que isso, o enredo termina com as perguntas levantadas pelo próprio Aronnax: “Qual terá sido o destino do Náutilus? Terá resistido? O capitão Nemo ainda vive? Continua a tramar sob o oceano suas terríveis represálias ou teve a carreira encerrada por aquela última hecatombe? As ondas entregarão um dia o manuscrito que esconde a história da sua vida? Saberei finalmente a história daquele homem? O navio afundado nos revelará, por meio de sua nacionalidade, a nacionalidade do Capitão Nemo?”

Por fim, considero que a leitura da obra seja interessante, mas pode ser um pouco lenta, devido às infinitas descrições. A narrativa possui personagens intrigantes, combate com uma lula gigante, uma relação rica entre Ned, Aronnax e Aronnax e Nemo, e um tom misterioso e envolvente. É uma leitura agradável e evoca uma sensação de steampunk para o leitor do século XXI. Além das longas descrições, a total ausência de personagens femininas, que nem parece ser notada pelo autor, é um fator que pode incomodar.A facilidade de encontrar o livro também é um fator que pesa a seu favor. Existem diversas edições interessantes à venda, em pdf e em bibliotecas.

Clique na imagem e adquira um exemplar!

Janis Caroline Boiko da Rosa

Graduanda de Licenciatura em história pela PUC-PR, estudando principalmente distopias. Áreas de interesse: literatura, ficção científica, cinema e ciências humanas.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: