Dear White People (2017) | Análise da Primeira Temporada

Dear White People explora o cotidiano de universitários afro-americanos em uma universidade majotariamente branca e acaba expondo as feridas de uma sociedade racista. Contém spoilers.

Contexto

Dear White People é uma série da Netflix, lançada em abril de 2017. A história-base para o enredo vem de um filme homônimo, de 2014. A película também se desdobrou para uma peça teatral, apresentada em 2016.

O criador da história, Justin Simien participou de todos os desdobramentos de sua obra. Apesar de a maior parte dos personagens se manter em todas as versões da história, os atores não são os mesmos.

O enredo principal de Dear White People é simples e tem a intenção de ser satírico, algo que já é deixado claro pelo próprio título da obra. Uma universidade da Ivy League dos EUA tem seu cotidiano narrado sob o ponto de vista dos alunos afro-americanos. O que deveria ser uma coisa simples, acaba se mostrando repleto de desdobramentos – não é à toa que a Netflix encomendou dez episódios para comporem uma temporada do seriado.

A primeira temporada contém dez episódios com uma média de meia hora cada. Seguindo o estilo da produtora de streaming, a série é fantástica para ser assistida em clima de maratona. Com a dose certa de ironia, ela desenvolve pontos persistentes de racismo, que afetam até as pessoas que se dizem “desconstruídas” e “imunes” a este tipo de preconceito.

Enredo

Dear White People é um programa de rádio apresentado por Samantha White (Logan Browning) em uma rádio universitária, nos Estado Unidos. Sam, como é conhecida pelos amigos, é uma importante militante do movimento negro da universidade. A primeira temporada da série é marcada por dois grandes conflitos, sendo o primeiro apresentado já no primeiro episódio.

Sam apresentando seu programa de rádio.
Sam apresentando seu programa de rádio.

Um grupo de alunos brancos realizou uma festa chamada “Dear Black People”, em resposta ao programa de Sam. Nela todos os convidados deveriam ir “fantasiados” de negros, algo que é conhecido nos movimentos negros como “blackface”. A polícia da universidade intervém e os próximos episódios são destinados a desvendar a festa e punir os responsáveis por ela.

Por conta da festa o público é apresentado à casa dos alunos afro-americanos da universidade. A existência da casa é apresentada como uma vitória do movimento negro. Os estudantes se dividem em, pelo menos, três grupos diferentes. Um deles é encabeçado pela própria Samantha White, que é militante e luta pelo reconhecimento da presença negra na universidade.

Troy Fairbanks (Brandon P. Bell) pode ser considerado líder de outra vertente. Filho do reitor da universidade, ele acaba sendo considerado a “voz” dos alunos negros perante a administração da universidade. Junto com isso, Troy recebe uma enorme pressão para que seja o melhor aluno e tenha uma vida perfeita, sendo considerado o “exemplo” do porquê uma universidade de alto padrão deve ter políticas de inclusão e lutar pela dignidade dos alunos negros.

Por fim, temos Colandrea Conners (Antoinette Robertson), carinhosamente conhecida por Coco. A personagem passou por uma luta intensa consigo mesma para se aceitar enquanto negra, devido ao fato de ser “a mais escura” dentre as suas amigas e sofrer inúmeras situações de preconceito desde que se entende por gente. Coco é inicialmente apresentada como contrária ao movimento negro universitário, considerando grande parte das ações da Sam radicais e desnecessárias. No decorrer da temporada, Colandrea acaba sendo uma das personagens que mais cresce e passa por uma importante situação de empoderamento estético, vivenciada por inúmeras jovens negras pelo mundo.

Para maior profundidade sobre o tema “colorismo”, clique na foto.

Reggie Green (Marque Richardson) protagoniza o outro grande conflito da temporada. Convidado a uma festa ofertada por um amigo branco, ele vai acompanhado de Samantha, Joelle e outros colegas. Em dado momento, o amigo o chama de “nigga” e ele diz que é uma palavra odiosa e que não pode ser dita, devido ao cargo simbólico que a palavra carrega. O amigo retruca com “você vive me chamando de nigga” e Reggie fala “eu posso, você não”. Isso dá início a uma imensa briga, que acaba envolvendo a polícia. Ao chegar na festa, os policiais estão armados – o que os alunos nem sabiam ser possível, pois se tratava de uma universidade. Além de armados, eles duvidaram que Reggie era aluno da universidade, encurralaram-no, apontaram uma arma para ele e exigiram que mostrasse seus documentos. A situação indignou a todos os presentes e, por mais que o dono da festa pedisse para que deixassem Reggie em paz, a arma só foi recolhida quando o mesmo mostrou seus documentos e comprovou ser aluno universitário.

A situação gerou uma enorme discussão sobre a segurança universitária, visto que os policiais estavam armados. E, principalmente, levantou questões sobre a dignidade dos alunos negros. Isso gerou diversos conflitos menores e reviravoltas nas opiniões dos personagens frente ao que enxergavam como importante e/ou radical. O conflito desembocou no último episódio, quando os alunos se reúnem para uma grande manifestação contra administração da universidade, que quer acabar com a casa exclusiva para alunos afro-americanos. Colandrea toma o lugar de Troy ao lado do reitor e Troy, ao se ver fora da grande reunião, quebra a porta de entrada e é algemado pela polícia, tendo seu pai ao lado dizendo “ele é meu filho! Soltem-o!” e não sendo ouvido.

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Elenco principal da série,

Além dos conflitos sobre serem parte do movimento negro, a série apresentou diversos conflitos em torno de relacionamentos amorosos. Isso se dá com a própria Sam, que começa a namorar um homem branco e causa desconforto em seus colegas, por até então ter o discurso de “não ame seu opressor”.

Troy protagoniza outro conflito, por se relacionar com uma mulher mais velha e em posição social superior a ele. Coco, por sua vez, acredita que precisa de um relacionamento bem sucedido, com um homem negro reconhecido socialmente, para que possa ser reconhecida por quem ela é. Por fim, temos o jornalista Lionel Higgings (DeRon Horton) que se descobre homossexual, com um crush em Troy.

A série foi renovada para a segunda temporada, mas ainda não há data de estreia.

O apagamento dos negros pela indústria da moda

O blackface, demonstrado na série, é infelizmente bastante presente no mundo real. Pessoas que utilizam perucas de black power e pintam seus rostos para irem a festas ou programas de televisão, infelizmente, seguem sendo comuns. Nos carnavais não é raro encontrar pessoas “fantasiadas” de negro.

Festa blackface retratada em Dear White People (2017).
Festa blackface retratada em Dear White People (2017).

Este tipo de fantasia minimiza a existência das pessoas negras, visto que as considera uma mera fantasia. Infelizmente, as fantasias étnicas não atingem apenas a população negra, mas também a indígena, asiática, indiana e árabe. A ironia e felicidade de uma fantasia acaba sendo travestida pela minimização de contextos e histórias de pessoas reais.

A estética negra é usualmente desprezada pelos brancos, exceto quando é utilizada por brancos. Exemplos disso são Grazi Massafera ser eleita a “mulata do gois” ou o fato de que os turbantes passaram a fazer sucesso somente quando brancas começaram a utilizá-lo.

A apropriação da estética negra diminui a luta do povo negro por ter sua própria estética reconhecida. Quando cabelos black power são utilizados como fantasias, as pessoas que realmente têm cabelos black power acabam sendo desmerecidas. Não é raro encontrarmos notícias de pessoas que foram demitidas ou não foram aceitas no mercado de trabalho por ter cabelo crespo. A existência de cosméticos capilares que valorizam os cachos é recente. Até então era de comum acordo que as negras e os negros deveriam alisar seus cabelos, escondê-los, mascará-los. Muitas vezes o black power é símbolo da coragem e do empoderamento estético da pessoa. Desmerecer todo esse processo pessoal transformando-o em uma fantasia e piada é, minimamente, cruel.

O processo de empoderamento estético é mostrado na série, principalmente, pela Coco. A personagem chega ao ponto de usar peruca para esconder seu cabelo natural. Certamente ela não é a primeira e, infelizmente, não é a última mulher negra a se sentir coagida a fazer isso para ser bem tratada pelas pessoas que a cercam.

A pele negra também não tinha maquiagem específica no Brasil, até muito recentemente. Enquanto havia várias tonalidades de maquiagem para a pele branca, havia apenas um tom para pele negra. Diversas pessoas acabavam usando tons muito diferentes dos da sua pele.

  • nude for all - naja lingerie
    nude for all - naja lingerie
  • um nude pra chamar de seu - quem disse berenice
    um nude pra chamar de seu - quem disse berenice

A moda também diminui as pessoas negras quando cria termos como “nude” e coloca apenas tons de bege claro, como se as pessoas negras não existissem. Recentemente vimos campanhas publicitárias com “nude para todas as cores”, como se fosse algo inovador e não uma obrigação de todas as empresas, visto que pessoas negras também são consumidoras em potenciais.

A ressignificação de palavras como forma de empoderamento

A briga de Reggie foi motivada pelo uso da palavra “nigga”. Historicamente, a palavra era uma forma pejorativa de tratar os negros, muito comum nos EUA durante o período de escravidão. Atualmente, porém, a palavra é utilizada entre a população negra dos EUA como forma de tratamento carinhoso. Entretanto, quando um branco a pronuncia a conotação opressiva reaparece – razão para que Reggie tenha ficado tão incomodado a ponto de iniciar uma briga.

A ressignificação de palavras para gerar empoderamento não é novidade. A palavra “queer”, utilizada como forma pejorativa para tratar os homossexuais nos EUA, acabou nominando uma importante teoria de gênero. A palavra “vadia” passa por um contínuo processo de ressignificação, em que as mulheres tentam desconstruir a ideia de que há “vadias” e “santas”, transformando para a noção de que todas são mulheres. Isso é feito pela Marcha das Vadias, por exemplo.

Um último exemplo dessa ressignificação é a palavra “Slay”, que significa “escravizar” e que foi ressignificada por Beyoncé, na música “Formation”. A música fala sobre um grupo de mulheres negras que se reúnem para realizar uma forma de “escravização inversa”. O refrão fala “I slay”, que seria uma forma de dizer que agora elas estão no comando – alusão ao poder de escravizar, que antigamente era legado a quem comandava alguma coisa. O termo passou a ser utilizado por pessoas de todas as cores, aparentemente não tendo o mesmo problema que a palavra “nigga”. Entretanto, a meu ver, um branco falando “I slay”, um homem falando “vadia” e um homofóbico xingando alguém de “queer” ou “viado” é tão errado quanto quando estas palavras não haviam sido ressignificadas.

Considerações Finais

Dear White People nos faz relembrar cada momento em que temos atitudes racistas. Apesar de não podermos generalizar o “homem branco” (da mesma forma que não o podemos fazer com as pessoas negras), sabe-se que a probabilidade de brancos nascidos e criados em sociedades com remanescentes escravagistas, como é o caso do Brasil e dos EUA, nunca agirem ou pensarem de forma racista é bastante baixa.

A presença de negros em cargos elevados de empresas é tão baixa quanto a quantidade de negros médicos e professores. Os números também são baixos quando pensamos em negros na política nacional. Sistemas como as cotas raciais tentam diminuir esse grave déficit, porém não são suficientes. Para que as pessoas negras possam ter sucesso em suas vidas profissionais elas precisam de oportunidades para toda a família, de dignidade social e de reconhecimento. Não adianta formar profissionais e não lhes dá emprego por conta de seu cabelo, roupa ou cor de pele. O nome disso é racismo.

Quando a gente utiliza verbetes como “fica com as tuas negas”, “ovelha negra”, “nega maluca” e afins estamos reiterando a ideia de que ser negro é ruim, errado, pior, inferior. Também é uma forma de racismo, mesmo que por vezes propagado de forma inconsciente.

Quando achamos que um boné de aba reta, bermuda, blusa e tênis é “roupa de mano” e com isso estigmatizamos pessoas, estamos sendo racistas. Assim como quando nos “fantasiamos” de “mano” ou “favelado” para comparecer a festas escolares cuja temática é “se nada der certo na sua vida”.

Quando as escolas ensinam a África apenas sob a perspectiva dos colonizadores europeus, focando no processo de descolonização e remarcação de fronteiras, ao invés de focar as especificidades e na história do continente que originou a humanidade, estamos sendo racistas. Assim como quando aprendemos a tomar chá para curar determinadas doenças, mas jogamos pedra nas pessoas que professam religiões afro-brasileiras.

Seja no cinema, quando um filme sobre jazz é hiper-premiado, apesar de ter elenco principal totalmente branco. E, principalmente, quando nos apropriamos da cultura negra.

Apesar de nos dizermos “desconstruídos”, quando séries como Dear White People surgem, nossas feridas são expostas e a gente não faz nada além de nossa obrigação ao irmos para um canto refletir.

INDICAÇÕES:

Dear White People e o silêncio ensurdecedor da internet

A série ‘Dear White People’ tem a ver com a realidade dos negros no Brasil?

Dear White People e o colorismo

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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