Orphan Black (2013) | Análise da quinta temporada

Explicamos Orphan Black de uma maneira resumida, para analisar a última temporada e promover considerações finais sobre a brilhante série da BBC que chegou ao fim na última semana. Contém spoilers.

Contexto de produção

Orphan Black é uma série canadense criada por Graeme Manson e John Fawcett em 2013. Produzida por uma associação entre Temple Street Productions, BBC America e o canal Space, em 2016 a série teve seus direitos adquiridos, no Brasil, pela rede de streaming Netflix, que disponibilizou todos os episódios, inclusive os das duas últimas temporadas, logo após sua exibição nos EUA.

Composta por cinco temporadas com uma média de dez episódios de 45 minutos cada, a série conta a história de Sarah Manning (Tatiana Maslany), uma jovem australiana criada por sua mãe adotiva, Siobhan (Maria Doyle Kennedy), que também adotou o garoto Felix (Jordan Gavaris). Sarah é mãe da criança Kira (Skyler Wexler).

A grande estrela da série é Tatiana Maslany, que deu vida a todas as clones do projeto LEDA de forma brilhante. Cada encarnação tinha suas características físicas e psicológicas próprias, a ponto de fazer com que os espectadores percebessem exatamente de quem se tratava, mesmo quando uma delas fingia ser a outra. A genialidade e destreza com a qual Maslany realizou a série deveriam lhe render todas as premiações de destaque por muitos anos, visto que por muitas vezes atrizes renomadas não conseguem lidar com um único papel em determinada obra.

O projeto LEDA

No primeiro episódio o grande conflito da série é apontado. Sarah se depara com uma pessoa idêntica a si em uma estação de metrô. Beth era uma policial que acabara de cometer suicídio. Como Sarah estava fugindo, resolveu tomar o lugar de sua sósia. Com isso, conheceu Allison e Cosima, outras sósias dela. Com o desenrolar da narrativa, descobre-se que todas são clones, parte de um grande projeto científico que visava evoluir geneticamente a humanidade.

Clones do projeto LEDA
Clones do projeto LEDA

O projeto era financiado por um comboio de geneticistas e grandes empresários, que se associavam em torno da ideia de “neolution”. A “neolution” acreditava na evolução genética propiciada por nano-modificações. Seus adeptos pagavam absurdos para mudar a cor dos olhos, inserir rabos, asas ou afins. A principal empresa que financiava este tipo de pesquisa clandestina com seres humanos é a DYAD, responsável pela criação dos clones à qual Sarah, Cosima e Alison pertencem.

Sarah, Alison e Cosima descobrem-se sendo monitoradas por pessoas muito próximas a elas, que repassavam seus dados vitais e comportamentais para os funcionários do DYAD. A empresa possuía um enorme banco de dados, com informações de todas as clones, que eram centenas e estavam espalhadas por todo o mundo. O projeto científico em questão era intitulado LEDA.

No decorrer da série, várias outras clones foram apresentadas. As principais foram Helena e Rachel. Entretanto, M.K e Krystal também tiveram papel importante. Além da família de Sarah e das outras clones, foram importantes para a série os personagens detetive Art (Kevin Hanchard), Donnie Hendrix (Kristian Bruun), Susan Duncan (Rosemary Dunsmore), Delphine Cornier (Evelyne Brochu), Scott (Josh Vokey), Aldous Leekie (Matt Frewer), Virginia Coady (Kyra Harper), Kendall Malone (Alison Steadman), Ferdinand Chevalier (James Frain), Adele (Lauren Hammerslay) e P. T Westmorland (Stephen McHattie).

A Narrativa

O projeto LEDA foi criado por Susan Duncan e financiado por Aldous Leekie, dono da DYAD. Em parceria, ambos tinham o projeto de desenvolver clones humanas perfeitas. Entretanto, quando atingiam determinada idade, todas elas ficavam com uma doença pulmonar que lhes causava a morte. Os cientistas do DYAD não conseguiam descobrir a cura para tal doença e tanto eles quanto Susan Duncan trabalhavam duramente para tal. Apenas a clone Cosima conseguiu avançar nesta pesquisa, quando descobriu que Kira – a filha de Sarah – possuía genes regenerativos que poderiam ser a base da cura. Porém, Cosima foi impedida de desenvolver a pesquisa no DYAD, tendo que migrar para um esconderijo secreto com seus ajudantes Scott e Delphine. A cura só seria eficaz caso o genoma gerador do LEDA fosse utilizado e isso gerou uma outra questão: quem seria esta fonte?

Após diversos conflitos, descobriu-se que Sarah e Helena eram irmãs gêmeas univitelinas originárias dos clones. Filhas uterinas de Siobhan, as duas foram parte do experimento ainda crianças, quando se separaram. Os genes do DNA provinham da mãe de Siobhan, Kendall Malone, que passou a vida inteira fugindo das grandes corporações que ainda queriam utilizar sua biologia para produzir mais pessoas. Quando conseguem entrar em contato com ela para produzir a cura, uma fatalidade ocorre e restam apenas poucos exemplares, os quais Cosima luta com a própria vida para defender e conquistar o direito de salvar todas as clones.

Organograma que mostra os "descendentes" de Kendall Malone
Organograma que mostra os “descendentes” de Kendall Malone

Paralelo à esta trama, temos Helena, sequestrada por um grupo de fanáticos religiosos que a maltrataram e estupraram, até que ela ficasse grávida – algo que ela não sabia ser possível. Sendo a única outra clone fértil, seus filhos passaram a ser de interesse máximo para as corporações de biogenética. O grupo que a sequestrou também abrigava alguns clones masculinos, conhecidos como o projeto CASTOR.

Criado por Virginia Coady, uma rival no âmbito acadêmico, de Susan Duncan, o projeto CASTOR era paralelo ao LEDA, mas também tinha como base os genes de Kendall Malone. Enquanto um criava mulheres, o outro criava homens. Assim como o LEDA, os CASTOR ficavam doentes e morriam. No caso deles, os problemas eram relativos à memória, que começava a falhar até que entrassem em colapso. A ideia do projeto CASTOR era formar soldados, mas não obteve bons resultados. No decorrer da série somos apresentados com maior ênfase a dois deles: Mark – habitante da fazenda que sequestrou Helena – e Ira – acompanhante de Susan Duncan.

projeto castor
Clones do projeto CASTOR

Helena, que havia sido treinada para matar todos os seus clones, tem seu coração amolecido no decorrer da narrativa e faz amizade com algumas de suas irmãs e, principalmente, com Donnie – o marido de Allison. Estar grávida causa grandes motivações no psicológico dela, que passa a querer proteger seus filhos à todo custo, enxergando-os como milagres divinos.

Alison, por sua vez, é a que tem a vida mais banal. Uma mulher simples do subúrbio, casada com seu monitor – que depois muda de time e passa a apoiar as clones – e mãe de dois filhos adotivos. Ela faz trabalhos voluntários e ajuda na comunidade. Frequenta a igreja e tem uma vida regular. Entretanto, é também ela que acaba se viciando em remédios e se envolvendo com tráfico de drogas, precisando ir para a reabilitação. A personagem também passa por uma grande modificação e desenvolvimento pessoal durante a série.

A quinta temporada

Uma das grandes vantagens de Orphan Black é saber o seu limite. Enquanto muitas séries seguem sendo produzidas, apesar de terem suas histórias saturadas, os produtores souberam finalizar a narrativa e encerrá-la de forma bonita, enquanto a série ainda fazia sentido.

Apesar de todas as reviravoltas genéticas, que apareceram com a “neolution” e a ideia de aplicar o desenvolvimento genético em seres humanos comuns para melhorar sua longevidade ou curar suas doenças, que apareceu como contraponto à ideia de desenvolver “seres humanos melhorados sinteticamente”, a partir de clones, a quinta temporada conseguiu fechar ambos os arcos de forma pacífica.

Rachel teve chance de redenção, em muito causada por sua aproximação com Kira. Ao mesmo tempo, Sarah teve oportunidade de crescer, confiando mais em Siobhan e na própria Rachel, além de ter aprendido a ouvir e respeitar a própria filha, o que foi muito bacana. Felix não apareceu tanto quanto costumava, mas sua relação com a irmã biológica descoberta na quarta temporada, Adele, fez com que o personagem encontrasse o seu espaço. O brilhante episódio em que a exposição dele é aberta mostra este desenvolvimento, sempre acompanhado com a trajetória da irmã e suas clones. Ao mesmo tempo em que o vimos abdicar de sua vida por Sarah e suas tramas, vimos que essas tramas o ajudaram a crescer e se desenvolver, inclusive como artista.

Art finalmente teve que entrar de cabeça no time das clones e agir com total parcialidade. Não seria diferente, tendo uma parceira descaradamente da neolution. Desmascarar todo mundo, colocar as pessoas na cadeia e finalizar a série sendo responsável pelo parto da Helena, mostra toda a redenção deste personagem que começou como o julgador colega de trabalho de Beth. A amizade entre Sarah e Art foi um dos grandes acertos da primeira temporada e o fato de ela não ter ultrapassado dos limites da amizade foi um grande ganho para a série, que soube trabalhar a parceria entre homens e mulheres sem o necessário envolvimento amoroso – algo que não é muito comum em Hollywood.

Siobhan (Maria Doyle Kennedy)
Siobhan (Maria Doyle Kennedy)

Um dos pontos altos da temporada foi o desfecho da personagem de Siobhan, que foi a fonte de força para todos e a força motriz da grande revolta contra o DYAD e seus gigantes. A cena, extremamente sensível e emocionante, foi importante para amadurecer ainda mais a personagem de Sarah e emancipar todas as LEDA, que tiveram sua liberdade garantida – reificada pelo fim do DYAD.

A liberdade mencionada deu-se pelo fato de Siobhan ter se tornado matriarca de todas as clones no decorrer da série. Com contatos secretos que ajudavam nos esquemas de fuga e tentativas de apreensão das falcatruas perpetuadas pelo DYAD, Siobhan atuava com precisão e estendia sua proteção materna para as clones de sua filha. Apesar dos inúmeros pontos positivos desta relação e do fato de que sem Siobhan nada teria sido resolvido, é evidente que sua proteção acabava por reter a liberdade das garotas, principalmente de Sarah, que era bastante dependente da mãe quando se tratava em tomar decisões sobre sua vida.

O desfecho de Siobhan, portanto, deixou Sarah completamente desamparada de um afago materno e tendo que, pela primeira vez, encarar todas as suas responsabilidades como adulta e mãe. Por conta disso, no último episódio é evidente os conflitos psicológicos vividos pela personagem, que só agora vai reaprender a existir e compartilhar tudo não mais com Siobhan, mas com suas irmãs.

O fim do DYAD, proporcionado pela brilhante artimanha estruturada por Siobhan em conluio com Delphine e Rachel, propiciou liberdade a todas as clones. Apesar de ter falhas no percurso, como o próprio desfecho de Siobhan e a persistência de P.T Westmorland e Virginia Coady na ideia de utilizar os filhos de Helena para produzir novos clones, as garotas finalmente puderam apreciar uma vida simples e comum – como a que Alison levava antes de tudo começar.

Considerações finais

O último episódio da série é brilhante. Dividido em uma parte tensa e tendo seus últimos minutos como aproveitamento da plenitude adquirida pelas personagens após a intensa trajetória percorrida nas cinco temporadas. A iluminação do final, a nominação dos filhos de Helena e a paz reinando entre todas elas fez com que toda a angústia sentida durante as temporadas valesse a pena.

A narrativa, como um todo, propiciou que as personagens se descobrissem como parte de um projeto científico, lutassem para conseguir sua liberdade e autonomia apesar de serem experiências patenteadas e, por fim, adquirissem o status de banalidade almejado por vários dos não-humanos da ficção e muitas vezes desprezado por grande parte dos humanos fora dela. É como se elas tivessem descoberto a Matrix, passado cinco temporadas para destruí-la, para enfim poderem viver tranquilamente em Zion.

Um ponto muito interessante é que apesar de ter todo o contexto para desenvolver uma discussão apurada sobre vida e como uma vida sintética/produzida em laboratório pode ou não ser considerada tão vida quanto uma que surge “naturalmente”, a série não desenvolve essas reflexões. É claro que elas aparecem nas entrelinhas, mas não são abordadas diretamente. Tal fator demonstra que os produtores não estavam interessados em produzir discussões sobre os limites da ciência e suas consequências, mas sim em levar a sério essas vidas produzidas sinteticamente e sua luta por autonomia.

clones leda afirmando não serem objetos

Se em momento algum fora questionado o fato de elas “serem” ou não, é porque elas simplesmente “eram”. Elas existiam, estavam ali, portanto eram vida. Este é um ponto bastante importante se levarmos em conta, por exemplo, discussões apresentadas em obras como Blade Runner, onde o princípio regulador do que é vida ou não é colocado em prova. Em Orphan Black não há a noção de “não vida” e em momento algum as clones são consideradas “menos” por serem produzidas em laboratório. Exceto pelos olhares de admiração de seus criadores, que ainda as veem como resultados de uma grande experiência científica, esquecemos desta produção laboratorial.

Neste aspecto, a personagem Rachel se faz importante por ser a personificação da experiência corporal adquirida pelo fato de ser um experimento científico criado dentro de um laboratório durante toda a sua vida. Se em algum momento podemos vê-las como “objetos” científicos, é quando pensamos na infância e trajetória de Rachel – curioso que seja o mesmo nome da androide criada por Philip K. Dick em Androides sonham com ovelhas elétricas (que originou o filme Blade Runner). No livro, a personagem Rachel também habita um laboratório, sabe de sua condição como androide e funciona como “teste” para as novas versões.

Esta falta de uma discussão filosófica explícita é marcante, por ser um fator componente das boas obras de ficção científica. Entretanto, como implicitamente as discussões aparecem, não é possível ignorar a potência da série em relação a estes questionamentos. É evidente, porém, que o espectador comum estará muito mais interessado no suspense e na ação do que nestas reflexões, mas a possibilidade de realizá-las é ofertada pelos produtores, sem dúvida.

Apesar da tristeza pelo fim de uma das séries mais envolventes, ricas em possibilidades de análise e formas de questionamentos, a forma como o desfecho foi construído é acalentadora. Juntamente com o brilhantismo da atuação de Maslany, que se sustenta até o último segundo do último episódio.

Além do importante protagonismo feminino na ficção científica, Orphan Black explorou com qualidade a diversidade de gênero. Com personagens lésbicas, gays e trans, a série mostrou que mesmo clones biologicamente iguais podem desenvolver gêneros diferentes, reificando a noção de que o gênero e sexualidade são construções sociaia e não parte de uma natureza humana universalmente compartilhada. Esperamos que o espaço deixado pela série seja preenchido por produções tão sensíveis a estas questões quanto Orphan Black foi. Da mesma forma, torcemos para que Tatiana Maslany continue a espalhar sua genialidade artística em outras produções.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR e pós-graduação, a nível de especialização, em Mídias Digitais, na Universidade Positivo. É graduada bacharela em Ciências Sociais pela UFPR, com foco em Antropologia e Arqueologia.

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