Supergirl V.01 N.01: Trail of the Madman | Resenha

 

Supergirl V.01 N.01 contava com duas narrativas e foi publicado em novembro de 1972. A primeira, focada na personagem homônima, intitulada Trial of the Madman, havia sido escrita por Cary Bates, com arte de Vince Colleta e Art Saaf. A segunda narrativa é protagonizada por Zatanna Zatara. O volume foi editado por Dorothy Woolfolk, e tomou por base as aparições que Supergirl já havia feito na DC, a partir de sua estreia na Action Comics #252, de maio de 1959.

Resumo

A HQ se abre com Supergirl voando pela Golden Gate de San Francisco. Após sair de seu emprego na KSF-TV, seguiu em busca de seu sonho: ingressar no curso de dramaturgia na Vandyre University. Enquanto realiza sua mudança, Linda Danvers recebeu uma carta comunicando que o dia da matrícula foi adiantando. Usando sua velocidade e força, ela rapidamente empilha a mudança e leva para sua nova casa Delta-Zan, um dormitório na faculdade. Lá descobre que sua colega de quarto já havia deixado alguns objetos, mas não se encontrava. Em meio a estes objetos, Danvers encontra estranhas esculturas de um metal que sequer existe no sistema solar. Para agravar o mistério, o nome de sua nova colega é Wanda Five. A curiosidade de Supergirl é interrompida quando a House Mother, Aunt Rosie, chega no quarto. Em instantes Danvers troca de roupa, e assume sua persona terrana.

Danvers segue para fazer seu registro, e chega até a School of Drama. Ali, um ensaio ocorria. Enquanto observa a cena, uma jovem foge do palco. Ouve-se, em meio a gritos, que alguém estava morto. Danvers, que acredita que estas exclamações faziam parte da encenação, descobre que se tratava de um evento propriamente dito – alguém havia sido assassinado. Com a chegada da polícia, é revelado que a vítima era um ator chamado Ron. Neste momento, Danvers conecta a fuga da moça e o ocorrido e decide investigar a situação como Supergirl. Seguindo para a secretaria de registro acadêmico, Supergirl solicita informações sobre a moça que procurava. A diretora Madison é chamada e autoriza que a heroína procure nos arquivos, uma busca que é facilitada por dois motivos: a velocidade de Supergirl e sua memória fotográfica. Esta descobre que quem ela está procurando é, na realidade, sua colega de quarto, Wanda Five.

No caminho de volta para a casa Delta-Zan, Supergirl encontra um carro de patrulha policial. Questionado se precisava de ajuda, o policial conta que a vítima do assassinato estava recebendo chantagem de um sujeito que sabia que Ron havia sido preso. Todavia, seu parceiro havia se entregue. Informada que o chantagista fugia em um carro preto, Supergirl facilmente o captura. Ela o interroga, e este informa que estava ali apenas para receber seu pagamento mensal. Supergirl sabe que o sujeito estava falando a verdade pois, através de seus dedos supersensíveis, ela era capaz de medir a pulsação, funcionando de maneira semelhante a um detector de mentiras. A polícia chega no local para realizar a prisão e Supergirl segue em busca de Wanda. Todavia, ela sente que algo estava tentando se comunicar com seu cérebro, e com isso, uma necessidade urgente de ir visitar a estátua de Vandyre Green.

Lá, Wanda encontra com Supergirl. Ela explica que possui capacidades mentais e que concentrou seus pensamentos para que a heroína pudesse escutá-los. Wanda sabia que um assassinato iria ocorrer no teatro naquele dia, mas não quem era a vítima ou o assassino. Quando chegou lá, percebeu que o crime já havia ocorrido, desesperou-se e fugiu. Quando soube da presença da Supergirl no campus, optou por explanar o que sabia. Quando questionada sobre o que ela poderia falar sobre o assassino, Wanda responde que se trata de alguém completamente insano. Ele é completamente instável, e nesse momento, ela detecta que mais um crime está para ocorrer. Supergirl voa com Wanda nos braços até o local do próximo crime, o Industrial Arts Workshop. Um estudante estava amarrado em uma plataforma acoplada a uma enorme serra. Supergirl elimina a ameaça, para descobrir que se tratava de uma réplica de plástico. Todavia, Wanda percebe que o estudante já havia sido morto e posteriormente colocado naquela plataforma.

Mais tarde, na delegacia próxima da Vandyre University, o médico legista informa que o assassino é “diabólico”, algo já percebido pelas capacidades extra-sensoriais de Wanda. A primeira vítima, Ron Buxton, foi morto pela sua própria maquiagem. Um componente letal foi misturado com o creme facial e produziu uma lenta ação, causando o óbito quando o ator já estava em palco. A segunda vítima, Michael Heimes, também ator, tinha um problema cardíaco que o assassino aparentemente sabia, pois, ao amarrar ele na serra falsa, causou um ataque fulminante. Supergirl direciona sua investigação para explorar a conexão entre ambos – serem estudantes de teatro. Enquanto isso, do outro lado do campus, um sujeito encontra outro, e é atacado.

Novamente com a reitora da universidade, Supergirl afirma que a partir dos arquivos dos estudantes que foram mortos, não encontrou nenhum traço de sua conexão. A reitoria explica que conhecia ambos, e que ambos estavam animados com a possibilidade de estrelarem no papel principal, Buxton na peça Winter Snow, e Heimes em Poison Please. Supergirl pergunta se não foi Basil Rasloff, a estrela original das produções quando elas foram lançadas anos atrás, e ao confirmar que sim, estabelece o ponto de conexão necessário.

Wanda começa a receber mais uma vez sinais mentais do assassino e a reitoria explica que uma terceira peça estava agendada para ocorrer, protagonizada pelo estudante Frank Morris. Wanda, com ajuda da Supergirl, consegue ter a visão do local onde o crime irá ocorrer, na nova construção do departamento de matemática. Lá, o assassino prendeu o estudante em um guindaste. O assassino, um senhor grisalho, afirma que não irá permitir que três amadores arruínem seus personagens. Quando ele ativa o guindaste para fazer com que o estudante seja jogado em uma placa com grandes pregos que servem como espinhos, Supergirl chega em cena e salva o futuro ator.  Ela pede desculpas, e disse que precisou esperar a confissão. Quando o assassino tenta se matar, Supergirl retira o oxigênio da cabine do guindaste, fazendo-o desmaiar.

Posteriormente, na Delta-Zan, Aunt Rosie está animada com o encontro de Linda Danvers e Wanda Five. Danvers se mostra bastante curiosa para descobrir a origem de sua nova amiga. Inclusive estes poderes psíquicos a preocupam, pois, sua identidade secreta de Supergirl não está mais segura. A história se encerra com a introdução de outras duas estudantes que moram na casa, Sheila Wong e Terry Black, que dão boas vindas às duas.

Análise

Um leitor contemporâneo, ao se deparar com o primeiro número de Supergirl, logo sentirá falta de uma história de origem. Ocorre que essa personagem que recebeu um espaço para desenvolver suas próprias histórias, vinha rondando as propostas editorias da DC havia anos, mas sem tomar uma concretude propriamente dita. A Kara Zor-El, tal como se conhece nessa narrativa, só surgiu no número 252 da Action Comics, de maio de 1959. Sua primeira aparição falava de como ela sobreviveu em uma cidade que havia escapado da destruição de Krypton, e depois esta foi destruída e a jovem enviada para a Terra para ser treinada por seu primo. De 1959 até 1972, as aparições da Supergirl são espaçadas, mas seu centro não está necessariamente fixado no Superman.

Pensar a Supergirl, principalmente em comparação com aquela do Arrowverse, demanda do contexto histórico que o cerca. Quando Supergirl é produzida e lançada como uma HQ independente da Action Comics, Superman ou Superboy, é coetânea com a aprovação e ratificação da Equal Rights Amendment (1972). Esta garantia direitos iguais para todos os cidadãos norte-americanos, independentemente de seu sexo. Este debate, por sua vez, estava em uma série de transformações ainda maiores que atravessam a década de 1960 e 1970, e que remete aos conflitos raciais nos EUA, o questionamento sobre a participação no conflito contra o Vietnam, a corrida espacial e a proliferação de armas nucleares. Supergirl abraça todas essas discussões, e o faz a partir de elementos bastante simples – uma moça, Danvers, que abandonou seu antigo emprego e foi cursar uma faculdade de dramaturgia. Ela não depende da imagética de um herói que a anteceda. Inclusive, Superman sequer é mencionado.

Junto com este aspecto, percebemos que a Supergirl é socialmente respeitada e aceita como tal. Se no Arrowverse, alguns episódios são direcionados para discutir a recepção pública da personagem, principalmente em termos de comparação com àquele de Metropolis, nesta HQ nada disto ocorre. Em duas situações nas quais a Supergirl precisa da ajuda de uma figura pública – uma reitoria, e depois um policial – ela é bem recebida. Em vista do que mencionei anteriormente, estes atos remetem a um posicionamento da editora sobre a aceitação e importância dos debates que cercam a Supergirl, bem como o valor de mercado destes. É correto mencionar que na segunda temporada de Supergirl do Arrowverse, houve dois grandes debates – um sobre sexualidade, e outro sobre alienígenas. Ambos compartilham consigo a importância de aceitar a diferença, tanto para si quanto para outrem. Com isto, percebemos mais um ponto de contato entre estas duas versões da Supergirl, que apesar de distantes no tempo, compartilham preocupações semelhantes em torno da sociedade e da cultura que as cercam.

Considerações Finais

Supergirl, assim como o Superman, não foi produzida do dia para a noite. Enquanto o Homem de Aço surgiu em uma fanzine de SF, Supergirl teve sua gênese a partir da ideia do protagonismo femino. Seja inicialmente com Lois Lane se transformando na Superwoman após receber uma transfusão de Clark Kent (uma ideia que rondaria a série Smallville por algum tempo), o contexto de recepção destas histórias não era necessariamente favorável. Foi necessário mais algumas tentativas, inclusive em uma delas na qual Kent é transformado em mulher – a Super-sister -, e depois, a partir de um desejo de Jimmy Olsen, para a história da Supergirl começar a ser cogitada. Da aparição da Superwoman em 1946 até a estréia de Kara em 1972, a sociedade norte-americana se transformou, e considerar tal transição é fundamental para perceber que as histórias são diálogos que vem e vão com sua época, e também com outras. Para visualizar isso, basta considerar a pertinência das questões que circundam a publicação original, e aquelas que se passam contemporaneamente. (BATES; SAAF; COLLETA, 1972; WEIN et al., 1972)

REFERÊNCIAS 

BATES, Cary; SAAF, Art; COLLETA, Vince. The Trail of the Madman. Supergirl, v. 1, n. 1, p. 1–16, nov. 1972.

WEIN, L. et al. Zatanna The Magician: Castle in the Clouds. Supergirl, v. 1, n. 1, p. 17–23, nov. 1972.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

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