Escolha a Catástrofe – Isaac Asimov | Resenha

Isaac Asimov (1920-1992), um dos mestres da ficção científica, instiga o leitor em Escolha a Catástrofe com suas especulações sobre as diversas formas de um cataclisma, do fim do universo ou do colapso de nossa sociedade. Publicado originalmente em 1979, com o título A Choice of Catastrophes, teve sua edição brasileira em 1982 com tradução de Amarilis Eugênia Miazzi Pereira Lima, e publicada por Círculo do Livro.

Um visionário amante da escrita

Nascido na Rússia em 1920, mudou-se com a família para o bairro do Brooklyn em Nova York, nos Estados Unidos, em 1923, onde foi criado. Um autodidata, aprendeu a ler sozinho e, aos 14 anos começou a escrever diversos contos. Asimov estudou em escolas públicas que eram parte do sistema de cotas para admissão de determinados grupos étnicos, como ítalo-americanos e judeus.

No ano de 1950, o cultuado Eu, Robô foi lançado, livro esse que lhe rendeu o título de pai da robótica, por tratar da relação dos humanos com a inteligência artificial e as famosas Três Leis da Robótica. Escritor e bioquímico pela Universidade de Columbia, Asimov produziu mais de 500 obras e entre elas a série de livros Fundação, O Fim da Infância e Pedra no Céu. Escrever era sua paixão. Asimov escreveu diversas páginas por dia, chegando a lançar mais de 20 livros em um ano. O autor instigou e ainda instiga o imaginário de seus leitores, incentivou a exploração de novas ideias, contribuiu para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, apresentou termos acadêmicos de forma simples para leigos e influenciou gerações de escritores de ficção científica.

O ceticismo sobre o fim

A necessidade de conhecer a natureza a nossa volta faz com que haja mais segurança em relação ao funcionamento das coisas. Sempre nos questionamos “De onde viemos?” e “Para onde iremos?”. Uma pergunta está diretamente ligada a outra. Provavelmente não teremos uma resposta cem porcento precisa para ambas as perguntas tão cedo, mas procurar entender nossa origem e nossa possível extinção é de extrema importância que faz parte do que somos. Escolha a Catástrofe trata da morte, da destruição, do fim da humanidade, do mundo, do universo e suas causas, com ou sem um julgamento de alguma entidade religiosa. Dividido em cinco categorias, Asimov nos apresenta graus de devastação. Muito pessimista? Pois bem, a humanidade tende a cometer os mesmos erros e nem sempre aprende com eles a fim de evitá-los. Em pleno século XXI, com todo o nosso avanço científico e tecnológico, com a expansão da informação e com o advento da internet, ainda temos a tendência de ignorar fatos, avisos e tomada de precauções.

Escolha a Catástrofe examina as diversas possibilidades de um desastre ocorrer com um olhar cético e, por vezes, comparando e expondo as crenças sob a perspectiva de algumas religiões. Mesmo com alguns dados ultrapassados, o livro consegue dar uma boa visão científica e maior entendimento sobre o funcionamento do Universo. Para evitar uma destruição iminente, é necessário encarar o perigo com o objetivo de estudá-lo e avaliá-lo da melhor maneira possível. Asimov ainda cita em seu livro: “É inútil julgar o quadro assim apresentado como ameaçador, uma vez que é muito possível que não haja catástrofes inevitáveis.” Assim, a palavra catástrofe é usada na obra como um sinônimo para o final de uma natureza.

Catástrofes de Primeiro Grau

De Nico Bulder. Apocalypse - The Four Horsemen have arrived, 1955 - Collection Veenkoloniaal Museum Veendam (NL)
De Nico Bulder. Apocalypse – The Four Horsemen have arrived, 1955 – Collection Veenkoloniaal Museum Veendam (NL)

O autor inicia uma análise sobre mitos e crenças religiosas que profetizaram a morte do Universo, desde o Ragnarök (batalha final entre os deuses e seus inimigos que compõem a mitologia escandinava) ao Apocalipse cristão. Na seção MILENARISMO, o autor explica como a ideia do “milênio” foi introduzida. Supondo que os mil anos haviam começado com o nascimento de Cristo, esse período de tempo foi citado em Apocalipse 20: 1-3 referindo-se ao Juízo Final. Ao completar o milênio o dia do julgamento chegaria, mas até lá fiéis poderiam ficar mais aliviados quanto a vinda do Messias para a Terra. Os mil anos se passaram, o mundo não acabou e Jesus não voltou. Contudo, com o passar do tempo muitos religiosos, historiadores e até renomados cientistas como Isaac Newton, estudaram e fizeram releituras sobre as palavras de Daniel, para chegar a uma data precisa sobre o Juízo Final.

Os milenários são então, os que estudam e calculam onde se iniciam e onde terminam os “mil anos” para o tão aguardado e temido Apocalipse. Cálculos feito por numerólogos, e esotéricos, teoristas da conspiração e até os milenaristas continuam sendo publicados para alertar sobre a data do fim de tudo. Citando as previsões mais famosas, como a transição de 1999 para 2000 ou a polêmica do calendário maia no ano de 2012. Recentemente, a internet voltou a atenção para a previsão do numerólogo David Meade, que estava convicto que o mundo acabaria devido ao impacto do Planeta X com o nosso. Mas, casos como os dessas previsões não se encaixam restritamente a categoria de catástrofes de Primeiro Grau, pois não se relacionam ao fim do Universo em si, mas especificamente ao fim da Terra. Sendo assim, essas previsões feitas recentemente se adequam a categoria de catástrofes de Terceiro Grau que você verá adiante.

Em O Aumento da Entropia, começa a abordagem aos questionamentos científicos. Citando a Lei da Conservação de Massa que foi invalidada pois subentende-se que massa inclui-se como uma das formas de energia, Asimov cita a Lei de Conservação de Energia (ou Primeira Lei da Termodinâmica) que diz:

O calor recebido por um sistema é igual à soma entre a variação da energia interna do sistema e o trabalho efetuado pelo sistema.

Entropia é a disponibilidade de calor em um sistema. Então, conclui-se que o universo aparentemente não possui nem início e nem fim, já que sua energia sempre será a mesma, tanto na quantidade quanto em sua existência. No Primeiro Grau várias outras considerações são feitas, entre elas o Fluxo de Energia e a Segunda Lei da Termodinâmica. A comparação entre a destruição de um universo mítico com a de um científico é a base para os questionamentos de Asimov. Enquanto um universo mítico (Ragnarök por exemplo), possui todo um “esplendor” em seu término estrondoso, o universo científico (o real, que se pode provar a existência com experimentos e observação) morre por calor. Mas, em Movimento ao Acaso somos lembrados de que antes de pensarmos no aumento constante de entropia do Universo e sua morte, precisamos entender como ele surgiu.

A Segunda Lei da Termodinâmica diz que a energia do universo é lenta e sendo assim, subentende-se que a entropia começou há cerca de 15 bilhões de anos. O que ocorreu em seu início e  por que ele se iniciou? O que havia antes? Asimov propõe que somos um produto da morte de outro Universo. Supõe-se então, que um universo chegue a um estado de morte pelo calor. Inúmeras partículas entram em colisões e ricocheteiam entre si, levando a certas partículas a se moverem muito rápido e outras mais devagar. O resultado seria o surgimento de um universo com baixa entropia, provocando em seguida um aumento de entropia que dará origem às galáxias e os corpos que as compõem.

Comparando com as especulações de Asimov, em 2012 o CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), com Grande Colisor de Hádrons (LHC) conseguiu detectar a existência da partícula Bóson de Higgs que antes era apenas parte de uma teoria. Os bósons são como partículas mensageiras que transportam as forças fundamentais do Universo, sendo eles os fótons (força eletromagnética), glúons (força que mantém o núcleo dos átomos coeso), W e Z e os grávitons (partículas hipotéticas, que poderiam transportar a força da gravidade).

De acordo com o modelo atual da física, a massa existente nas partículas atômicas deve-se graças ao bóson, pois sem ele, a matéria não poderia ser criada. Sem sua existência, as diversas sub-partículas estariam em alta velocidade e não ligariam umas com as outras para formar os átomos.que formam a matéria. Essa descoberta é de extrema importância pois ajuda nos estudos e compreensão do universo e a entender como os corpos surgiram. Mas, a pergunta sobre o que havia antes do Big Bang ainda perpetua.

O Primeiro Grau ainda aborda questões sobre as distâncias entre as estrelas e a noção da quantidade de galáxias espalhadas pelo Universo. Em seguida, é abordado a descoberta do astrônomo Edwin Hubble (1889-1953) sobre o distanciamento das galáxias e sobre o Universo que está se expandindo constantemente desde sua explosão inicial (Big Bang). Entender a expansão do Universo é necessário para compreender seu fim (Big Crunch). Durante este grau, três catástrofes que podem inviabilizar a vida no Universo são citadas:

  • a expansão dele até sua morte pelo calor;
  • a sua contração até o ovo cósmico;
  • sua contração em buracos negros separados;

Catástrofes de Segundo Grau

Fonte: Wikimedia Commons/Fsgregs
Fonte: Wikimedia Commons/Fsgregs

Uma catástrofe de Segundo Grau, não necessita do envolvimento completo do Universo, sendo apenas local, seja em uma única galáxia ou em um sistema. As especulações de Asimov  são voltadas para catástrofes que envolvem nosso Sistema Solar, que inviabilizaria a existência de vida. Começando com as hipóteses sobre colisões com o Sol, ele analisa cuidadosamente a probabilidade de uma estrela colidir com a nossa e explica ao leitor  porque é improvável que isso ocorra (pelo menos não agora). A morte do Sol é uma catástrofe inevitável e o autor dá detalhes sobre nossa estrela e como isso afetaria os planetas em sua volta. Em aproximadamente 7 bilhões de anos, o Sol que já perde uma pequena parte de sua massa, irá começar a pulsar e seu diâmetro aumentar. Com isso, aos poucos os planetas serão engolidos pela estrela, começando é claro, por Mercúrio. Assim, é inevitável que a Terra fique em chamas.

Basta saber se os humanos estarão na Terra até lá. Se sim, Asimov chega a citar uma possível salvação para a humanidade: construir certas estruturas artificiais, ecologicamente independentes, com alta tecnologia e que comporte até 10 milhões de pessoas para viver pelo espaço. Improvável? O visionário escritor acreditava nessa possibilidade, até mesmo com a habilidade tecnológica que os anos 70 dispunha. Os únicos fatores que implicaram a construção dessas naves são os mesmos fatores que presenciamos hoje: fatores políticos, econômicos e psicológicos. A ideia dessas naves além de garantir e preservar a espécie humana, levaria à descoberta e sobrevivência em outros mundos. Uma catástrofe de segundo grau que considera o Sol o grande causador do fim da Terra, será inevitável.

Catástrofes de Terceiro Grau

Fonte: Eco4u
Fonte: Eco4u

Sempre usando o ceticismo em seus questionamentos, Asimov vai descartando as especulações que de certo modo são improváveis de ocorrer. Chegando ao Terceiro Grau, começa com análises sobre quais seriam as possibilidades de algum evento afetar a Terra de tal modo que a tornasse inabitável ou seja, esse grau de catástrofe atinge exclusivamente e intensamente nosso planeta. Os primeiros eventos que são analisados, são os impactos que a Terra pode sofrer por bombardeamento seja de  cometas, asteroides ou meteoritos. Vale lembrar que há 65 milhões de anos os dinossauros foram extintos do devido a colisão de um asteróide com a Terra, mas outras formas de vida continuaram a existir. Então, a possibilidade de um corpo atingir a Terra capaz de causar uma extinção em massa é avaliado pelo autor.

Posteriormente, as influências da Lua na Terra, uma possível desaceleração no movimento terrestre, o efeito que as marés provocam em nosso planeta, o distanciamento anual do satélite natural e o que poderiam causar de catastrófico são questionamentos levantados. Tudo isso é diagnosticado cuidadosamente e, por fim, o autor descarta alguns pontos improváveis de ocorrer. Em seguida, o foco torna-se o núcleo terrestre. É argumentado a possibilidade de uma atividade vulcânica ser o suficiente para exterminar a vida (apenas desastres locais), mas sendo considerado pouco provável por Asimov para uma escala mundial, ele passa a dar relevância para os terremotos e o porquê de eles ocorrerem a todo momento em todas as partes do mundo, seja em baixíssima ou alta escala.

O autor ainda dá exemplo do poder destruidor dos terremotos, se ocorrer seja em média ou alta magnitude, em locais povoados, citando assim diversas atividades de grande intensidade que ocorrem no mundo até 1979. No livro, Asimov fala que havia na Terra cerca de 4 bilhões de habitantes e que com o aumento da população o número de mortes em um desastre natural tornar-se, consequentemente, maior. Atualmente, o planeta possui mais de 7 bilhões de habitantes e pode chegar a 8 bilhões em 2022! Terremotos,  muitos  seguidos por tsunamis, devastam cidades, ilhas e populações. Mesmo não sendo em escala continental ou mundial, são catastróficos.

O que contribui fortemente para o tamanho do desastre, deve-se às construções humanas. Quanto mais edifícios, casas e pontes possui o local atingido pelo tremor, maior a probabilidade de haver vítimas soterradas. Lembrando que um terremoto pode causar uma tsunami ou maremoto que só acrescenta na “catástrofe local”, ou seja, na destruição e no número de vítimas. Citando brevemente os exemplos da tsunami de 2004 que atingiu a Indonésia, o maremoto de 2011 que atingiu o Japão e desencadeou o acidente na usina de Fukushima e o mais recente terremoto no México de 8.1 de magnitude, que ocorreu no dia 08 de setembro, deixando mais de 98 mortos. Sendo provável ou não um terremoto ou tsunami atingir uma proporção global, se ocorrer em locais com alto número de habitantes o resultado por si só é devastador.

O clima do nosso planeta vem sendo discutido há muito tempo e Asimov já se preocupava com essas mudanças de temperatura na Terra. O aquecimento global influencia diretamente na produção agrícola, por exemplo. Lugares que possuíam um clima propício e típico para determinado tipo de plantação podem sofrer enchentes ou longas temporadas de seca, perdendo-se toda uma safra que, como em um efeito dominó, atinge produtor, indústria e deixa de servir alimento para a população. Outros fatores, como as pragas, podem ocasionar esse problema. E mesmo assim, devido a questões políticas e econômicas, uma boa parcela da população sofre com a fome.

Ainda nas catástrofes de Terceiro Grau, em A Mudança do Tempo, Asimov cita a situação do mundo naquela época: escassez de alimento e milhões de mortes provocadas pela fome, como no caso dos anos 1877 e 1878, quando 9,5 milhões de pessoas morreram na China. Isso porque estamos falando de um livro que foi escrito há 38 anos. Atualmente, a situação da China ainda não mudou muito e, pelo mundo, mesmo com o avanço da globalização, milhares morrem de fome a todo momento. Dados do relatório pela ONU no dia 15 de setembro deste ano, afirmam que cerca de 842 milhões de pessoas no mundo estejam em situação de fome crônica, ou seja, não consomem alimentos o suficiente para uma vida ativa e saudável, o que leva à desnutrição.

Com o aquecimento global acelerado, graças a agressão ao meio ambiente, além do uso desenfreado de recursos naturais pelas indústrias e emissão de gases tóxicos à atmosfera, diversos desastres tornaram-se recorrentes no planeta. Furacões, secas, enchentes e derretimento das calotas polares são exemplos de casos destrutivos. O autor fala brevemente sobre uma enchente que na China, mais precisamente em Huang-ho em agosto de 1931 e pode ter afogado cerca de 3,7 milhões de pessoas!

De 1931 pra cá, o número de enchentes tem aumentado devido ao elevado número de chuva. Em boa parte dessas ocasiões, a enchente ocorre devido a outro fator contribuinte: o lixo que produzimos e  não tem descarte correto, poluindo e entupindo bueiros, o que, consequentemente, inunda cidades. Mas, as enchentes também podem ocorrer por outros motivos e outro comum é o transbordamento de rios em locais povoados. Mas, em se tratando de clima, o que pode ser tão destrutivo quanto as enchentes e  fome? Asimov destaca a fúria das tempestades, furacões, tufões e ciclones que, combinando a alta velocidade dos ventos com a água, causam enormes estragos. Um exemplo é o caos que o recente furacão Irma causou.

Com essas mudanças climáticas, a Terra poderia entrar em uma nova era glacial ou tornar-se tão quente que ficaria desértica?  Asimov deduz que se caso o planeta tivesse mais uma era glacial, não haveriam muitas calamidades à humanidade visto que já vivenciamos esse período. Mas, ele leva em consideração que na última era glacial havia no mundo cerca de 20 milhões de pessoas e elas não eram tão apegadas e cômodas à terra como acontece hoje Antes, os humanos estavam em um período que eram coletores, caçadores de comida, iniciou-se a agricultura e a mineração. As pessoas se locomoviam mais “facilmente”, pois precisavam se adaptar para sobreviver. E quanto ao mundo desértico? A falta de água é iminente, caso não se tome alguma providência eficaz. A agricultura já está sendo prejudicada por grandes secas e até florestas estão pegando fogo devido às altas temperaturas. Será que hoje, com mais de 7 bilhões de pessoas que se acomodaram à tecnologia, ao conforto de suas casas, móveis, automóveis e fast foods, estariam prontas para se adaptarem à falta de algum destes recursos em um mundo que se depare com alguma dessas calamidades? Prontas ou não, eventos extremos como esses não são o suficientes para levar à extinção em massa dos humanos. Ainda durante o Terceiro Grau, Asimov fala em A Remoção do Magnetismo, sobre como os raios cósmicos afetariam o corpo humano, a radiação, mutações genéticas e o campo magnético da Terra.

Catástrofes de Quarto Grau

Fonte: Wall Pix
Fonte: Wall Pix

A catástrofe de Quarto Grau também implica em acontecimentos na Terra. Esse grau atingiria e exterminaria os humanos, algumas formas de vida, mas uma pequena parcela de seres continuariam existindo, evoluindo e se modificando com o tempo. O que leva à extinção de uma espécie? Modificações ambientais que tornam-se insuportáveis para determinados seres ou competição entre outras espécies são um exemplo. Não somos a única forma de vida no mundo e, sabendo que todo organismo vivo está sujeito a doenças, há uma alta probabilidade de sermos dizimados por vírus. Diversas doenças infecciosas já abalaram civilizações e o risco de um vírus que pode adaptar-se com o tempo e que são resistentes à vacinas é uma das grandes preocupações de virologistas pelo mundo. Isso porque as doenças infecciosas se alastram facilmente em áreas com densidade populacional que aumenta constantemente.

Mais adiante, as Guerras são o assunto abordado. “E isso pode bastar. Se a espécie humana está para ser completamente dizimada numa catástrofe do quarto grau, é a própria humanidade que pode fazê-lo.”

Utilizando categorias que já foram desconstruídas pela Antropologia, Asimov passa dos nômades, bárbaros para a pólvora e os armamentos nucleares. Uma viagem pela nossa história e nossas habilidades de guerra, mostrando que quanto mais inteligentes nos tornamos, mais estrategistas e letais somos. Destacando a probabilidade de uma guerra termonuclear longa e intensa, seja a responsável pela extinção lenta e árdua da espécie humana.

Catástrofes de Quinto Grau

Fonte: cbc.com
Fonte: cbc.com

Por fim, uma catástrofe de Quinto Grau possibilita a existência humana, mas em uma visão distópica da nossa civilização, onde algo poderá ocorrer que acabará impedindo o avanço tecnológico e a humanidade volta à uma vida primitiva. Em O Esgotamento de Recursos, Asimov propõe uma suposição na qual a Terra torne-se algum dia, pacífica e unificada. Caso isso ocorra, estaríamos ainda seguros de nós mesmos? Acontece que, mesmo que não haja guerras e conflitos, talvez não iremos nos importar em melhorar nossa tecnologia para evitar o aquecimento desenfreado da Terra, conhecer outros mundos, acabar com a fome ou evitar doenças. Agora supondo que a humanidade se preocupe realmente com esses problemas, para avançar nossa tecnologia vamos precisar explorar ainda mais os recursos naturais. Sabendo que nós somos a única espécie que lida com os recursos não-renováveis e não adotamos rigorosamente o hábito da reciclagem de recursos renováveis, Asimov propõe que somos os únicos que caso haja escassez de algum recurso, impactaria nossas vidas e poderia levar ao fim da civilização humana. Os metais, a poluição e as formas de geração de energia são cuidadosamente avaliados.

Em Os Riscos da Vitória o crescimento da população torna-se a preocupação. Acontece que, se durante um longo período o coeficiente de natalidade e mortalidade permanecerem os mesmos, então a população irá permanecer constante. Se o coeficiente de natalidade ultrapassar o coeficiente de mortalidade, o aumento da espécie é constante. Nesse mesmo raciocínio, caso acontece o contrário, a espécie tende a diminuir constantemente e chega a sua extinção. Nessa parte do livro, Asimov chega a citar que em 1979 (com 4 bilhões de habitantes), havia 2% de crescimento populacional ao ano e que a população se duplicaria a cada 35 anos. Em sua previsão, ele diz que no ano de 2014 o planeta teria cerca de 8 bilhões de habitantes e já citei anteriormente que se espera só atingir essa marca em 2022. Mesmo assim,  ainda não superamos a alimentação desproporcional, onde para alguns há escassez de alimentos para outros há abundância. Em ambos os casos, os riscos à saúde tornam-se causas de morte. Segundo a teoria neomalthusiana, uma versão mais atual da criada pelo economista e demógrafo Thomas Malthus (1766-1834), com o aumento acelerado da população o resultado é o avanço da pobreza e da fome.

A internet e seu impacto também são previstos por Asimov. Ele diz que chegaria um tempo que nós ficaríamos de frente para um computador e veríamos as cotações do mercado de ações, teríamos acesso a  jornais, revistas, livros e compras. Chamando de Biblioteca Computada Global, Asimov acreditava na importância que ela teria para os pesquisadores, estudantes e que só estaria acessível para uma pequena fração da sociedade. Representaria também uma revolução na educação, pois o indivíduo não precisaria dos assuntos massivos e cansativos que o sistema educacional impõe. Ele poderia usar a Biblioteca Computada Global para acessar qualquer tipo de informação, aprender e desenvolver coisas novas. Isso ainda preencheria o tédio com imagens e sons que competiriam com os canais de televisão com os seus programas de baixa qualidade. As suposições do autor são surpreendentes. Mas, o que mais chama a atenção nessa parte da obra, é que Asimov já expõe os fatores negativos disso: o isolamento social e a interação apenas através da máquina.

Tudo isso nos leva aos últimos pontos do Quinto Grau: a engenharia genética, o avanço e a capacidade tecnológica dos computadores tornando-os capazes de pensar por conta própria (inteligência artificial). A ideia da inteligência artificial poderia elevar-se de tal modo que em um futuro próximo, acabaria tornando-se superior a inteligência humana.

Minhas impressões

As diversas questões debatidas no livro me fizeram refletir por bastante tempo. Sempre fui atraída por filmes e livros que abordassem o futuro da humanidade, seja ele utópico ou distópico. Como o próprio título já diz: escolha a catástrofe. Depois de análises e dados, Asimov quer que você, leitor, depois de ser apresentado às especulações devastadoras, escolha qual é a mais provável. Diversas delas me chamam a atenção e a que acho mais provável é a de um vírus mortal assolar a humanidade. Com todos os problemas que enfrentamos durante anos, ainda não aprendemos a resolver os de maior impacto. Estamos vivendo uma era de alta conectividade uns com os outros. Tudo está ficando cada vez mais acessível e cômodo. Com o acesso à internet e à informação de todos os tipos, a desinformação e alienação tornou-se recorrente. Notícias falsas e a falta de investigação de elementos apresentados, fazem com que tudo torna-se polarizado: seus ideais, seus valores e suas atitudes.

Com isso, governos e grandes empresas tornaram-se mais cuidadosos quanto suas políticas e ações, já que tudo é acompanhado pela internet. A transparência exigida pelos usuários trouxe algo de novo: estamos de certo modo derrubando poderes, questionando e revolucionando atitudes que nos prejudicam. O problema disso é que nada mais é visto com ceticismo, com averiguação. Além do grave impacto que causa em países subdesenvolvidos em crianças e adolescentes que possuem fraco ensino em determinadas instituições públicas. Devido a isso, a sociedade acomodou-se em suas primeiras impressões sobre tudo. Não consegue muitas vezes ser contrariada e perde o que a tecnologia está trazendo de melhor: a oportunidade de todos nos interessar em debater e agir a favor de melhorias para o mundo, independente da religião, da política ou da cultura.

Essa visão é utópica demais? Sim, então por isso tenho a impressão que a desinformação e o desinteresse em buscar o conhecimento está maior, resultando em graves problemas para o nosso desenvolvimento. A propagação de falsas informações disseminou-se de tal forma, que tornou-se muito perigoso um presidente por exemplo, publicar um tweet que pode atingir o ego de algum outro líder ou até mesmo um fake news, pode gerar tensões e conflitos entre nações. Vemos isso quase que diariamente por exemplo, com as declarações do presidente dos EUA Donald Trump em sua conta do Twitter e das ameaças constantes do ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-un. Assim como Asimov disse: o perigo para a humanidade é a própria humanidade.

REFERÊNCIAS

Germanic Religion and Mythology | Britannica

A morte do Sol | Superinteressante

Primeira Lei da Termodinâmica

Painel Global

Apocalypse – The Four Horsemen have arrived, 1955

Global Health Observatory (GHO) data

Notícia sobre o relatório divulgado pela a ONU sobre a fome no mundo

ASIMOV. Isaac. Escolha a Catástrofe. Círculo do Livro. 1979.

ASIMOV. Isaac. O colapso do universo. Círculo do Livro. 1977.

CHERMAN, Alexandre. Sobre os ombros de gigantes – Uma História da Física. Zahar, 2005.

HAWKING, Stephen. O Universo Numa Casca de Noz. Nova Fronteira, 2009.

UJVARI. Stefan Cunha. A História da Humanidade Contada pelos Vírus. Contexto. 2011

Julia Brazolim Santos

Formada em Técnica em Informática (Centro Paula Souza), atualmente está trabalhando no desenvolvimento de um aplicativo sobre astronomia chamado Exoplaneta. Podcaster, leitora assídua dos mais diversos gêneros literários e fanática pela série Doctor Who. Mora em Ilha Comprida – SP.

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