“JOI – Everything you Want” e a Figura Feminina no Futuro

Blade Runner 2049 (2017) é a sequência neo-noir ficção científica de Blade Runner (1982 – Ridley Scott). O filme com direção de Denis Villeneuve traz alguns questionamentos, como os do filme de 82, de forma aprofundada e nos apresenta novas, encaixando perfeitamente ao universo já estabelecido. Blade Runner 2049 nos apresenta um mundo ainda mais caótico, claramente um avanço desde 2019 (onde é ambientado o primeiro filme). Este artigo tem a intenção de suscitar mais questões do que respondê-las.

JOI (Ana de Armas) é um item que pode ser aberto a várias discussões. JOI é um holograma, uma inteligência artificial (inclusive que faz lembrar muito a Samantha de HER, 2013), que existe para servir e dar “alegria” (um trocadilho com “joy” – alegria em inglês) ao seu usuário. Ela só pode ficar dentro de uma sala específica, onde é projetada e precisa de um emulador para ter liberdade de ser “acionada” em qualquer lugar.

Não pretendo me aprofundar muito na relação JOI e K, mas vale salientar que me faz lembrar muito da relação do Deckard com a Rachel (Blade Runner). A cena do primeiro beijo deixa algumas dúvidas se é assédio ou não pela Rachel se mostrar muito vulnerável, fragilizada e até assustada no momento em que Deckard pede que ela o beije. Muita gente defende o lado de Deckard nessa cena por dizer que no momento ele tinha dúvidas sobre ser humano ou replicante e precisa disso pra se sentir vivo.

O mesmo é visto em K, replicante que sofre preconceito e precisa constantemente se sentir mais humano, mais amado. JOI, assim como Rachel na cena já mencionada, é totalmente submissa. A primeira cena em que ela aparece, está vestida como uma típica dona de casa dos anos 60, com saia mid e avental. Com um prato na mão e dedicando seus dias unicamente para satisfazer o companheiro. Ela existe com esse intuito. Na cena em que aparece o “comercial” da JOI, com um holograma gigantesco, ela se posiciona do mesmo jeito que na primeira cena no apartamento do K, perguntando “dia daqueles?”. Apesar da Joi do K demonstrar amor e eles manterem uma relação muito real, a Joi tem o intuito de ser submissa. Ela é a mulher ideal, é sexy, engraçada, prestativa, mas ela existe para preencher a falta de alegria presente no universo de Blade Runner. Pode-se ver isso até em cores, enquanto o K aparece com casacos pesados, em tons escuros, a JOI do outdoor na mesma cena está nua emanando luz em tons quentes.

K inegavelmente é apaixonado por ela, uma das melhores coisas do filme é a relação entre os dois, te transporta pra um futuro onde é muito forte a ideia de que o “real” é real porque você atribui este valor. Mas em outra cena, ele conhece uma prostituta replicante e ele diz não, ela responde com um “não gosta de mulher de verdade?” e isso me coloca na questão: desconsiderando que replicante não são humanos, a máquina vai substituir a mulher? Até onde o computador vai substituir a mulher? Por que gostariam que a mulher fosse substituída por uma programação? A mulher vai se tornar obsoleta? Se sim, em quanto tempo? Quais funções seriam “desativadas” das mulheres?

Um contraponto do positivismo trazido pela tecnologia é a relação homem vs. máquina, lindamente explorada na ficção cientifica, mas ainda insuficiente para darmos um veredito positivo. Quando uma mulher é criada e programada para ser inteiramente submissa e “apaixonante”, cria-se uma normalização para mulheres que não buscam se empoderar, oposto ao que a internet e a vastidão de informação propõe. A ideia atual é que mulheres (e minorias) possam ganhar voz e passem a ser vistas como iguais. Criar uma máquina que regride nisso, é encontrar uma brecha pra manter forte o sexismo.

O conceito desta “alegria” é bem tratada em Blade Runner. Quando se compara JOI e a personagem Luv (trocadilho para “Love”), vê-se o outro lado da moeda. Luv é dura, é brutal, tem uma presença marcante, é tocável, palpável, e isso é uma metáfora para o que nós entendemos do amor. E com tanta facilidade trazida pela tecnologia, você pode ter sua dose de alegria sem precisar que você passe pela brutalidade de amar. Mas e se considerarmos outra questão: é melhor que sejam criadas ginóides, inteligências artificiais que sofram abusos físicos e psicológicos ao invés de mulheres de verdade? E se elas têm sentimentos, pensam, elas também não são reais?

Em Blade Runner 2049 uma corporação conseguiu erradicar a fome com o uso do trabalho escravo de replicantes, os criaram para viverem mais e servirem suas funções programadas, são escravos perfeitos. Mas eles se sentem vivos, sentem que sofrem preconceito por ser “pele falsa”, isso não torna a escravização deles tão violenta quanto escravizar humanos?

Esta questão também é apresentada em Westworld, série da HBO (2016 – ), na qual um parque utiliza robôs extremamente realistas, que acreditam ser humanos, e que aquela realidade é o mundo real. Os visitantes do parque pagam para entrar, e lá eles podem fazer o que quiserem com os robôs, que são chamados de “anfitriões”. Podem estuprar, matar, torturar, tudo que for preciso para manter a experiência completa. Mas os robôs sentem, pensam, e principalmente: eles têm memória. Suas memórias, mesmo implantadas, os fazem ser quem são. E as memórias com os anfitriões são apagadas para que eles se mantenham na narrativa que foram designados.

Assim como em Blade Runner, a dúvida é: o que é ser humano? Nem a filosofia foi capaz de responder o que é ser humano, mas dentro do assunto, a obra de ficção que mais se aproximou em responder isso foi Ghost in the Shell. O mangá de, 1989 que mais tarde se tornou um anime (1995) e ganhou uma adaptação em live action estadunidense estrelada por Scarlett Johansson (2017), traz a história da agente cibernética Major Motoko Kusanagi, líder da unidade de serviço secreto Esquadrão Shell, responsável por combater o crime.

Motoko foi tão modificada que quase todo seu corpo era robótico. De humano só teria sobrado um fantasma de si mesma. A história se passa em 2029, quando a Terra se tornou um local altamente informatizado, a ponto dos seres humanos poderem acessar extensas redes de informações com seu cyber-cérebros. O anime levanta muitas teorias de que Major na verdade é uma ginóide e não uma humana passada para um corpo biônico. A cena em que ela sai de um longo mergulho e diz que gosta de nadar, mesmo se arriscando por ter um corpo muito pesado, Motoko afirma sentir que está nascendo de novo e que sempre se pergunta se ela realmente é humana, se ainda é humana. A personagem diz a seu parceiro que sente-se humana por causa da forma que as pessoas a tratam e por suas memórias. O enredo foca muito nas memórias. Memórias reais, memórias falsas. Memórias implantadas que podem te tornar um pobre coitado ou uma policial de elite.

Mais uma vez nos deparamos com o valor: as coisas têm o valor que atribuímos a elas. Como o navio de Teseu. Teseu tem um navio, em uma viagem, ele trocou todas as peças do navio pouco a pouco. Então, o novo navio, é o navio de Teseu? E se pegarmos as peças antigas e formarmos um novo navio, qual seria o navio de Teseu? O navio de Teseu é aquele que foi atribuído o valor a ele, assim como Major. Independente se ela é uma ginóide ou humana, ela é e se sente aquilo que foi atribuído a ela. Se ela é tratada como humana, tem memórias humanas, o que a faz não humana?

De acordo com a “Iniciativa 2045”, até 2045 será possível que sejamos seres de luz (hologramas como a JOI, mas com sua consciência e memórias, não de forma artificial, vai ser você literalmente), e antes disso, que uma máquina tenha nossa forma e nossas informações para se tornar uma réplica póstuma. O que faz com que esse robô não seja a pessoa que morreu? Se ela tem o mesmo rosto, a mesma forma de pensar, as mesmas memórias?

Quando pensamos em robôs com formas de crianças, programados para falarem “não” simulando um estupro. Esses robôs, com inteligências artificiais e memórias implantadas, o que os torna menos digno de serem respeitados do que os humanos que os criaram? E por que hologramas, sistemas operacionais como Samantha e JOI podem substituir mulheres de serem abusadas psicologicamente para gerar em homens a satisfação de “mandar” em alguém, gerando certa “alegria”? E como isso tudo nos impede de sermos humanos e ter sentimentos como amor e dor, reprimindo-os?

São questões ainda não respondidas e que possivelmente levarão anos para serem respondidas, mas que não nos impede de hoje pensarmos sobre e continuarmos produzindo obras que nos façam pensar nisso para que estejamos prontos socialmente para receber tecnologias cada vez mais avançadas. Para que elas sejam avanços, facilidades e não formas novas de opressão.

Larissa Limas

cyberjournalist, enthusiastic futurology, scientific disseminator, elon musk #1 fan, a science fiction girl.

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