Kindred – Octavia Butler | Resenha

Kindred é o primeiro livro de Octavia Butler, traduzido para português por Carolina Caires Coelho e publicado pela Editora Morro Branco. Kindred narra a história de Dana, uma jovem negra que mora na Califórnia dos anos 1970 e, inesperadamente, volta para o século XIX onde é tratada como escrava.

A autora

Octavia Estelle Butler (1947-2006) nasceu na cidade de Pasadena, California – EUA. Filha de uma empregada doméstica e um lustrador de sapatos, conheceu a sociedade branca pelas portas dos fundos, enquanto visitava o trabalho de sua mãe. Diagnosticada com dislexia ainda criança, Butler se isolou dos colegas da escola e passava seu tempo livre na biblioteca, onde teve seu primeiro contato com a ficção científica, através de revistas como a Amazing Stories. Já nesta época ela escrevia pequenas rimas. Aos dez anos ganhou sua primeira máquina de escrever e aos doze se arriscou em sua primeira história. Mesmo ouvindo que “negros não podem ser escritores”, visto que vivia na época de segregação estados-unidense. Graduou-se em Arte, com foco em História, em 1968.

Em 1984 ela ganhou o Hugo Award, o principal prêmio da Ficção Científica norte-americana, por sua história Speech Sounds. Um ano depois, sua história Bloodchild também recebeu o prêmio. Em 1999 Butler recebeu o Nebula Award de melhor história de ficção científica por The Parable of the Talents.

“Eu escrevo sobre pessoas que fazem coisas extraordinárias. Acabei descobrindo que isso é chamado de ficção científica.”

Octavia Butler foi a primeira mulher negra a ser reconhecida pela escrita de ficção científica, em um momento em que este gênero estava em ascendência nos EUA por conta da popularização das revistas. Apesar de popular, grande parte das histórias de ficção científica atingia um público jovem branco e masculino. Aos poucos este público passou a ter acesso a histórias negras e feministas, que mantinham as características básicas do gênero literário.

A autora teve quinze romances publicados, além de duas coletâneas de contos e seis ensaios. Os principais temas abordados em seus textos foram: criação de comunidades alternativas, sobrevivência enquanto herói, crítica de hierarquias do presente e a transformação do que é entendido como ser humano.

Kindred

Recentemente publicado no Brasil pela Editora Morro Branco, Kindred conta a história da jovem escritora Dana. Logo no início o leitor é apresentado a uma situação de desconforto, em que Dana salva um garoto de ser afogado. Com o decorrer da história, descobrimos que o garoto se trata de Rufus, o primeiro antepassado branco de Dana.

A jovem retorna ao século XIX sempre que Rufus esteja em uma situação próxima da morte. O transporte de Dana tem o intuito de salvar Rufus. Para retornar ao tempo presente, a década de 1970, é Dana quem tem que experimentar uma situação de risco de vida.

Rufus é filho de um grande fazendeiro, que possui uma plantação de algodão e vários escravos. Os escravos tanto fazem o serviço pesado na lavoura quanto cuidam dos afazeres domésticos. É comum que os escravos sejam vendidos de forma a se separarem de sua família e que sejam castigados com açoitamento – seja por tentar fugir, seja por desobedecer alguma ordem.

Se no começo da história Dana conhece Rufus ainda criança, Kindred perpassa toda a vida do personagem, visto que em cada nova etapa ele experimenta por uma nova situação de quase-morte. Enquanto para ele anos se passaram, para Dana foram apenas segundos, minutos ou horas. No total, menos de 2 meses se passam no tempo atual dela, enquanto que ela viveu décadas no século XIX.

Visto que para voltar para casa Dana precisava experimentar uma situação de risco, Rufus passou a protegê-la, pois gostava de sua presença e acabou se apegando a ela. Dana, por sua vez, utilizava sua proximidade para com Rufus para  inserir ideias libertárias nele, tentando convencê-lo a não separar famílias e a castigar menos os escravos. Dana acompanhou Rufus se apaixonar e se relacionar com sua ancestral negra e viu nascer sua bisavó.

Enquanto tudo isso acontecia, ela sofreu e sentiu na pele a escravidão. Dana foi açoitada, presenciou vendas e torturas, foi capturada fugindo e sofreu com isso e quase morreu o suficiente para voltar para casa cerca de cinco vezes durante o livro. O desfecho da história se dá com a morte de Rufus e a ida de Dana ao local onde fora a fazenda de seu antepassado, para que ela pudesse atestar que tudo o que viveu no século anterior ao seu havia sido real.

Análise

Diferente de outras histórias populares na ficção científica, Kindred não extrapola a realidade imaginando um futuro, mas faz o oposto. Butler faz um retrospecto contundente e consegue transmitir os sentimentos e as angústias do período de escravidão dos EUA, enquanto instiga o leitor sobre as razões e os desfechos de cada um de seus capítulos.

Os impasses de Dana, que era chamada de “negra-branca” por não se encaixar junto aos escravos, nem junto aos senhores, fazem com que o leitor reflita com ainda mais ênfase sobre o horror que foi o período da escravidão. Dana chega a concluir que é muito fácil para os brancos compreenderem e se acostumarem com o período da escravidão, enquanto é impossível para que os negros se sintam minimamente confortáveis com uma hora no ambiente.

A acuracidade com a qual o período histórico é construído e narrado tornam o livro impossível de ser largado, justamente por ser angustiante o sofrimento pela qual a personagem principal é imputada.

A passagem de tempo não é explicada e não parece ser foco da autora. Não há uma sincronicidade, enquanto às vezes Dana passa apenas horas em seu tempo atual e retorna para o século XIX cinco ou dez anos depois de quando saiu, as vezes ela passa dias em seu tempo atual e retorna para o século XIX com um intervalo de tempo parecido. Assim sendo, é dificultoso que o leitor compreenda como o tempo passa no universo do livro. Da mesma forma, a conexão entre Dana e Rufus não é explorada, não sendo explicado o motivo para que ocorra e nem para que ocorra da forma como ocorre.

Estes fatores não são um ponto fraco para o livro, mas são característicos de que não se trata de uma obra de hard science fiction e sim de uma ficção científica histórica, absurdamente bem vinda.

Considerações Finais

O momento de tradução e divulgação de Kindred no Brasil é interessante, visto que temos vivenciado um momento de força do movimento negro nacional, com campanhas que valorizam o respeito e mostram que o racismo está presente no nosso dia-a-dia, mesmo quando negado. Uma obra de tamanha potência e qualidade narrativa consegue fazer com que os brancos sintam 1% na pele o sofrimento que a população negra escravizada pelos países coloniais e imperialistas viveu.

É claro que isso não faz com que os brancos possam falar pelos negros ou possam dizer que sabem pelo que seus ancestrais passaram, mas a potência narrativa da obra faz com que isso seja refletido de forma intensa. Não apenas pelos brancos, mas também pelas pessoas negras que acham que seus ancestrais “permitiram” que a escravidão ocorresse, por serem submissos. Inclusive, a própria Butler compartilhou que este tipo de pensamento foi o mote para que ela escrevesse a obra.

A autora imaginava que se as pessoas tivessem uma noção empírica e empática da forma de vida da população escravizada a visão dos próprios negros por sobre sua ancestralidade mudaria, podendo ser transformada em empoderamento – o que segue sendo necessário e bem vindo.

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR. Possui especialização em Mídias Digitais pela UP e bacharelado em Ciências Sociais pela UFPR.

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