Neuromancer – William Gibson | Resenha

Neuromancer de William Gibson (1984) é responsável por fundar o cyberpunk, subgênero da Ficção Científica. Tendo recebido os principais prêmios, tais como:  Hugo, Nebula e Philip K. Dick.

A obra é o primeiro volume da  Trilogia Sprawl, em conjunto com Count Zero (1986) e Monalisa Overdrive (1988). Trata-se de uma prosa urbana sem censura, onde o uso de drogas, a sexualidade, as gírias e palavrões aparecem constantemente e são parte da climatização do enredo. A narrativa tem um certo ar noir. A ação se desenvolve cheia de mistérios, os motivos da maioria dos indivíduos envolvidos na trama não são claros.

O romance inspirou a trilogia de filmes Matrix das Wachowski e baseou a turnê Zoo TV do U2. Possui algumas adaptações: o RPG Neuromancer de 1988 para Apple II, Commodore C64, Amiga e Commodore 64; duas graphic novels, ambas intituladas Neuromancer; e dois audiobooks, um publicado em 1994 e outro em 2003.

GIBSON, UMA NOVA ATITUDE NO SCI-FI

William Ford Gibson nasceu nos Estados Unidos em 1948 e se mudou para o Canadá em 1972. Gibson conta que escreveu Neuromancer sem grandes expectativas, pretendendo publicar o livro na Inglaterra ou na França, caso o editor aceitasse e caso ele conseguisse terminar de escrever – coisas que lhe pareciam improváveis.

O escritor não contava com o público norte-americano, pois acreditava escrever deliberadamente contra o que supunha ser o que este público esperava da ficção científica. Gibson afirma que fazia isso porque não conseguia fazer diferente, uma atitude de dissidência o tomava, mas as únicas pessoas com quem o autor compartilhou o sentimento eram  outros escritores, a maioria do Texas, com os quais ele acabaria sendo rotulado de “cyberpunk”. Tais se tratam de Bruce Sterling (autor de Mirrorshades: a cyberpunk anthology), Rudy Rucker (tetralogia Ware) e John Shirley (mais conhecido pelas obras City come a-walkin e A Song Called Youth).

Gibson também é autor de Reconhecimento de Padrões, Spook Country, Zero History e  dos contos New Rose Hotel, Johnny Mnemonic e Burning Chrome. Além disso, trabalhou nos roteiros de New Rose Hotel, Johnny Mnemonic, Alien 3 e em dois episódios da série Arquivo X.

O CYBERPUNK

O termo “cyberpunk” originou-se no título de uma breve história de Bruce Bethke, mas, com a obra de Gibson, tornou-se um marco para descrever um conjunto estético e literário. O cyberpunk é uma encarnação literária da sobreposição dos mundos do domínio da alta tecnologia (high tech) e do universo underground, dominado por hackers, criminosos e usuários de drogas (low life). Cyber refere-se ao interesse pelos desenvolvimentos tecnocientíficos, pela realidade virtual, inteligência artificial, tecnologia da informação e por tecnologias destinadas à alteração do corpo humano – como próteses, circuitos implantados, cirurgia plástica, alteração genética, etc.

Existe no cyberpunk um fascínio com a ideia de ciberespaço, que liga o corpo à realidade virtual.  No subgênero, o corpo torna-se uma prisão da consciência e a tecnologia torna-se uma rota de fuga. Tanto o ciberespaço, quanto as transferências de consciência e as drogas são formas de escapar da “carne”. As drogas são marcantes também devido à sua conexão com a cultura jovem dos anos 80, o que leva ao segundo elemento do termo, punk, que indica tanto uma posição política, quanto a conexão com a cultura underground urbana que cria os cenários e a estética do subgênero.

Os cenários do cyberpunk são estabelecidos num futuro próximo, em que a tecnologia e o hipercapitalismo se tornaram dominantes. Seu universo é constituído por mega-corporações que governam o planeta, com uma desigualdade crescente, excluindo e marginalizando a maior parte da  humanidade. Destas margens saem os protagonistas do cyberpunk, estes são criminosos ou anarquistas que se rebelaram contra a ordem estabelecida, e, especialmente, hackers.

O subgênero é, na sua primeira geração, uma reação à ficção científica feminista da década de 1970, tendo autores e protagonistas masculinos com pouco tempo para abordar gênero. Não significa que os romances sejam particularmente machistas, mas sim que o espaço ganho pelo feminismo nesse terreno foi retomado pelo cyberpunk. Essa situação já muda na segunda geração, ainda nos anos 1980, quando autoras de cyberpunk começam a mesclar o subgênero com discussões feministas.

Neuromancer não tem representações femininas estereotipadas, frágeis ou diminutas. A personagem Molly é a única que realmente luta do núcleo central (essencialmente masculino), tem um passado forte, personalidade própria e não é reduzida pelo romance que vive na obra. As outras personagens femininas não são tão exploradas, mas também não são enfeites de cenário, elas possuem influência no enredo. Ainda assim, o romance não passaria no Bechdel Test (teste que identifica se uma obra, seja cinema, música, literatura, é ou não machista) já que as personagens femininas não interagem entre si.

DENTRO DO SPRAWL

Apesar de narrado em terceira pessoa, o livro gira em torno da história de Case, e boa parte da narrativa se passa dentro de sua mente. Seja nos momentos em que está sob efeito de drogas, seja nas memórias, na matrix (ciberespaço) ou nas flatlines (mortes cerebrais) em que o personagem tem sua consciência sob domínio de inteligências artificiais. Case é um anti herói viciado em drogas, com tendências suicidas. Originalmente o personagem era um cowboy (hacker), contudo perdeu a habilidade de se conectar à matrix quando roubou de um empregador e teve seu cérebro danificado por neurotoxinas que não lhe permitiriam mais tal conexão.

Depois de anos tentando encontrar uma cura, Case passou a viver como um criminoso em Night City, na periferia da cidade japonesa Chiba. É neste cenário periférico, urbano, sujo, empobrecido e violento que se passa a primeira parte da narrativa. A qual gira em torno do conflito de Case com o traficante para quem trabalhava, do seu uso de drogas e de sua interação com Linda Lee – ex-namorada viciada em drogas à beira da autodestruição. Trata-se de uma narrativa do desejo de morte, tudo que Case faz nesta primeira parte é forçar o ambiente a matá-lo.

Case é raptado por Molly Millions – uma samurai, ex-prostituta com instinto assassino e pouco previsível – e passa a trabalhar para o misterioso Armitage em troca de voltar a ser apto a se conectar à matrix. Case trabalha como cowboy para o grupo em diversas invasões (tanto de sistemas quanto das empresas físicas, parte realizada por Molly). Durante boa parte do enredo, o leitor não sabe quem é o contratante, qual seu objetivo ou qual o próximo passo. O grupo formado por Molly, Armitage, Case, Riviera  (uma espécie de ilusionista viciado em drogas que cria imagens quase reais a partir de implantes), Dixie (a memória gravada de um cowboy morto que continua a trabalhar como hacker dentro da matrix) e  Maelcun (um membro da marinha rastafari) viaja por diversas regiões do universo, cumprindo missões.

A partir deste rapto o clima da obra vai de mistério à ação e da ação ao mistério. Ao longo do enredo, Molly e Case buscam descobrir quem está por trás de Armitage, para quem realmente trabalham e qual o objetivo do que estão fazendo. Enquanto isso, realizam tarefas que vão de compras a invasões de corporações, com a ajuda de grupos como os Panteras Modernos – uma espécie de gang inspirada nos Panteras Negras – e dos zionitas.

ZION EM TEMPOS DE BLACK SCIENCE FICTION

Zion  é uma colônia espacial construída por trabalhadores que se recusaram a voltar pra Terra, que segue a filosofia rastafari, sendo uma espécie de nação livre. O nome Zion faz referência à Sião, que para o movimento rastafari ficaria na Etiópia. Gibson fez também referência ao jornalista Marcus Garvey (jornalista, empreendedor, herói Jamaicano e precursor do movimento rastafari), chamando a nave de Maelcun como Garvey, e ao reggae de Peter Tosh, Steppin’ Razor, através de Molly, que é chamada pelos zionitas de Navalha-que-anda.

O autor teve bastante cuidado na representação da comunidade rastafari de Zion, apesar da narrativa não explorá-la muito. Esse cuidado está presente na linguagem usada principalmente por Maelcun, e na representação do modo de vida e cultura em Zion.

Nos anos 1970-1980 o movimento rastafari teve grande visibilidade no mundo graças ao sucesso de Bob Marley. Também é um período em que a black science fiction ganhava força com os trabalhos de Octavia E. Butler e Samuel R. Delany. A black science fiction abrange as atividades dentro da ficção científica, fantasia e horror, das quais descendentes da diáspora africana são parte, como personagens e/ou autores. As primeiras obras desse subgênero são ainda do século XIX, e durante o século XX o número de autores cresceu consideravelmente. Levando na direção do que foi chamado de Afrofuturismo, nos anos de 1990.

O afrofuturismo é uma filosofia da ciência e da história, assim como uma estética cultural, que combina elementos de ficção científica, fantasia, afrocentrismo, realismo mágico e cosmologias não-ocidentais, para discutir os dilemas atuais dos negros, reexaminar eventos históricos do passado e imaginar futuros afrodescendentes. Na literatura, Delany e Butler foram propulsores desse movimento.

O UNIVERSO E SEUS SUJEITOS

Apesar do livro possuir continuação, a história que  tem um fim. Count Zero segue outros personagens sete anos depois de Neuromancer, vivendo repercussões das mudanças geradas pelas decisões tomadas em Neuromancer.

O universo criado na Trilogia Sprawl é distópico e dominado pelo hipercapitalismo e megacorporações, a diferença de classes é mais que palpável, assim como a desumanidade dessa estrutura, na qual o corpo e o indivíduo estão à total mercê das corporações. A vida é um bem de consumo numa sociedade onde o assassinato é impune e a imortalidade poder ser comprada.

Neste universo, onde vida e integridade física não são valores fundamentais e onde o corpo humano está ultrapassado, o instinto suicida dos personagens parece muito natural,  o desejo de morte parece inerente aos personagens, bem como parece reger suas ações. Os instintos de autopreservação são nulos no universo de Gibson, os personagens não têm apego à vida.

As corporações são mais que empresas, os indivíduos vivem nelas às vezes por toda uma vida, possuem hinos, ritos. Estas dominam o mundo, dão forma à vida humana e são imortais. Fora delas o que há é a marginalidade, o mercado negro e a sobrevivência no crime. Diferindo disso há apenas Zion.

A matrix,  ou o ciberespaço, é como a internet, conectam computadores do mundo todo. Só que os dados são representados de forma gráfica como formas geométricas em 3D e a conexão se dá através de eletrodos. A compreensão da tecnologia e do que faz um hacker de Gibson é estranha, parece muito mais com alucinações ou com o efeito de drogas alucinógenas.

A tecnologia em Neuromancer não é boa ou ruim, é parte integrante do real e é inevitável. Ela é inacessível para aqueles que não possuem recursos e pode fornecer possibilidades de trabalho e vida, como no caso de Case e Molly – que têm implantes de visores, lâminas nas unhas e aprimorações no sistema nervoso, capacitando-lhes para o trabalho como samurai.

O corpo humano em seu estado natural não é algo comum no universo de Neuromancer. Suas necessidades naturais são vistas como negativas. O corpo humano está ultrapassado. Implantes no cérebro, chips de memória, imortalidade, braços mecânicos, visores, lâminas e todos os tipos de alteração estão presentes.

Neste sentido Dixie Flatline é intrigante. Dixie foi um grande cowboy quando vivo, depois de morto se tornou um construto baseado nas suas memórias, atingindo uma espécie de imortalidade como algo parecido com um software. Mas sua existência não é equivalente à vida humana, Flatline não possui emoções ou sente o tempo.

As inteligências artificiais têm grande importância na obra. Apesar de limitadas por seus idealizadores, elas têm capacidade de tomada de decisões e de alterar o universo além de si mesmas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neuromancer (e, de forma geral, o cyberpunk) abre a discussão para a  possibilidade de uma sociedade que ultrapassa o plano social humano em direção ao pós-humano (como representado nos cyborgs do romance, como Case, Molly ou Dixie Flatline) ou o desumano (representado pelo AI Wintermute e Neuromancer). O humano em Gibson (e parte disso permanece no posthuman) é instável,  propenso à destruição, manipulação e limitação. O autor formula o único local para a potencial mudança social dentro do sistema desumano. É a fusão dos AIs que permite uma nova comunicação, para uma mudança potencial na matrix.

Por fim, o romance tem algo de estranhamente agradável nessa ambientação urbana marginalizada, na ausência de censura e de valores como bem e mal, certo e errado. Algo de real e tangível habita as figuras anti heróicas do romance e o impulso suicida dos personagens. Apesar de não ser uma leitura difícil, não é tão fácil seguir a narrativa, devido aos constantes cortes abruptos e alucinações, mas é o preço pago por um romance que não explica a si mesmo a cada cinco páginas.

Janis Caroline Boiko da Rosa

Licenciada história pela PUC-PR, estudando principalmente distopias. Áreas de interesse: literatura, ficção científica, cinema e ciências humanas.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: