O Guia do Mochileiro das Galáxias – Douglas Adams | Resenha

O Guia do Mochileiro das Galáxias é o primeiro livro da série homônima, escrita por Douglas Adams (1952 – 2001). Com seu modo sarcástico, conquistou milhares de leitores pelo mundo. Em O Guia do Mochileiro das Galáxias, somos imersos nas aventuras intergalácticas do pacato inglês Arthur Dent e de seu excêntrico amigo Ford Prefect. O livro foi publicado originalmente em 1979, com o título The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy e sua primeira edição no Brasil de 2004 foi publicada pela Editora Arqueiro, com tradução de Paulo Fernando Henrique Britto e Carlos Irineu da Costa.

O gênio do absurdo

Douglas Noël Adams nasceu no dia 11 de março de 1952 em Cambridge, na Inglaterra, mesmo lugar em que nove meses mais tarde James Watson e Francis Crick anunciaram a descoberta do ácido desoxirribonucleico, o popularmente conhecido DNA. Sigla esta, que foi usada anos depois por Adams, que alegava com bom humor que ele era o verdadeiro DNA.

A brilhante ideia do que viria a ser uma das obras mais influentes do gênero de ficção científica,  veio à tona em 1971, quando o escritor decidiu viajar pela Europa, fazendo o conhecido “mochilão”. Como Neil Gaiman conta no livro Não Entre em Pânico, durante essas viagens Adams tinha em posse um livro chamado O Guia do Mochileiro da Europa e a ideia de um guia para mochileiros espaciais ficou na sua cabeça.

A carreira de Adams como roteirista teve início quando escreveu alguns esquetes para o grupo de comédia britânico Monty Python’s Flying Circus. Já na época em que escreveu alguns roteiros para a série Doctor Who, com o ator Tom Baker na pele de Doctor, Adams também trabalhava no aclamado Guia, que foi ao ar como audiodrama na Rádio 4 da BBC, no dia 04 de março de 1978.

A partir do sucesso dos primeiros quatro episódios, a história virou série televisiva, literária e ganhou adaptações teatrais. Além de escritor, humorista, programador e futurista, durante sua vida Adams também trabalhou como limpador de galinheiros, guarda-costas para uma família real árabe e tocou na banda de rock Pink Floyd, como guitarrista, presente de aniversário de seu amigo Dave Gilmour.

Douglas Adams explora a narrativa transformando-a em algo confuso e não-linear para o leitor. Enquanto conta as situações de Arthur e Ford por exemplo, é muito comum, o autor fugir do foco dos seus personagens, para um detalhamento de um termo que ele citou. Emergindo assim, histórias paralelas que podem ser retomadas durante a história principal. Esses pequenos trechos parecem à primeira vista sem sentido e caóticos, mas são essenciais, pois além de ser a característica principal de escrita de Adams, serve para a construção do Universo apresentado e satiriza a nossa sociedade. Com seus planetas e civilizações exuberantes e de nomes excêntricos – alguns até impronunciáveis – o autor expõe o lado cru do nosso cotidiano, sendo irônico com as nossas crenças, nosso comportamento,  a burocracia, a política e as grandes corporações.

A obra de estupefação hilariante

Talvez a genialidade de Adams deva-se à sua facilidade em lidar e descrever para o leitor de forma cômica, alucinante, com cenários e momentos que fogem do imaginável. Na história, Arthur Dent é um pacato inglês que em uma manhã é surpreendido com uma empreiteira que precisa demolir sua casa para construir um desvio. Indignado e ainda de pijama e roupão, ele se deita na lama bem em frente ao trator para impedir que isso aconteça. Enquanto isso, seu amigo Ford Prefect – um ator fracassado que na verdade é um alienígena – está desesperado, pois a Terra será destruída em questão de minutos. Ford  tenta convencer Arthur do que está prestes a acontecer, contando  sua real intenção. O alienígena consegue, mesmo com relutância de Arthur, levá-lo até um bar para explicar que desde sua chegada ao planeta, Ford teve o trabalho de interagir e reunir diversas informações para acrescentar em seu livro chamado O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Em muitas das civilizações mais tranquilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo o conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase

NÃO ENTRE EM PÂNICO

As analogias que constituem a escrita de Adams, enriquecem a leitura e mostram o quão caótico e aleatório é o universo construído. Ao narrar o início da aventura em que Arthur é inserido, deixa claro o desconforto do personagem com a situação em que se encontra durante toda a obra, o que é diferente de histórias como O Hobbit (1920, J.R.R Tolkien) em que sabemos que o protagonista Bilbo Bolseiro, mesmo relutante quanto sua jornada, possui um espírito aventureiro dentro de si.

Arthur só queria continuar em sua casa, vivendo sua monótona vida. Mas, naves dos extraterrestres Vogons sobrevoam nosso planeta e nos avisam da nossa destruição. O que nos parece um ataque, na verdade é “apenas” o resultado da exigência do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galáctico de demolir alguns planetas (o nosso está na lista), para dar lugar a uma via expressa hiperespacial que vai passar pelo sistema estelar. Vemos então, um tipo de organização sociopolítica extraterrestre da qual nós, leitores, e os humanos da Terra presentes na história, desconheciam.

Ou seja, os humanos sempre viveram dia após dia achando que estavam sozinhos no Universo e não faziam ideia do quão são insignificantes eram perante a uma galáxia que possui até um presidente – mais conhecido como Presidente do Governo Imperial Galáctico. Vemos também, que assim como Arthur se preocupava com a demolição de sua casa pela empreiteira para construir uma via, a situação se repete ao mesmo tempo com a Terra e os Vogons. Assim que a destruição é anunciada por um alto falante para a Terra pelo alienígena Prostetnic Vogon Jeltz, a população, sem entender nada, entra em pânico:

Essa surpresa é injustificável! Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolição, estão em exposição no seu departamento local de planejamento, em Alfa do Centauro, há 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocês tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamação formal, e agora é tarde demais para criar caso. O Guia do Mochileiro das Galáxias, página 33.

Ao sair do bar, Arthur se depara com sua casa demolida e não dá a menor importância ao eminente “fim do mundo”, como se isso não estivesse diante dos olhos dele. A jornada se inicia quando Ford, certificando-se de que uma toalha estava em sua mochila, e sempre consultando o seu Guia, escapa com Arthur do terrível destino da Terra, pegando carona em uma das naves Vogon – sem o conhecimento dos mesmos. Arthur ainda está indignado com sua casa e aos poucos vai se dando conta de que não só ela, mas todo o planeta, deixou de existir. Sua aventura de fato começa quando são salvos pela nave Coração de Ouro que foi roubada por Zaphod que por coincidência é semiprimo de Ford. Na nave também está Trillian, uma jovem terráquea sonhadora que meses antes, partiu da Terra com o Zaphod logo após o conhecer na mesma festa onde conheceu Arthur.

Os personagens hiperespaciais

  • Arthur Dent

Um inglês que parece atrair situações negativas e que mesmo no espaço, chega a procurar por chá. Estava acostumado com sua vida monótona até ser tirado de sua rotina e encarar a vida no espaço, conhecendo seres e mundos. Mesmo assim, ainda sente falta da Terra e de sua casa e não se deixa encantar tão fácil pelas coisas exóticas que passa a conhecer. pois para Arthur, tudo parece não fazer sentido algum. Graças ao Peixe-Babel que vai dentro do orelha, Arthur consegue entender qualquer idioma dono Universo, pois o peixe faz tradução simultânea.

  • Ford Prefect

É um alienígena de um planeta que fica próximo Betelgeuse que veio para a Terra coletar informações para o Guia. Depois de passar anos no planeta, fez amizade com Arthur Dent na Terra e esperou por uma carona para sair daqui. Sempre carrega consigo uma toalha, pois é um objeto de extrema utilidade para qualquer mochileiro espacial já que se estiver molhada, torna-se uma poderosa arma em algum combate corpo-a-corpo.

  • Trillian McMillan

Uma terráquea e assim como Arthur, são os únicos humanos que sobreviveram ao fim da Terra. Trillian conhece Arthur Dent em uma festa e o convida para conhecer lugares exóticos, como Madagascar, mas ele leva na brincadeira e acha isso uma loucura. Então, na mesma festa, Trillian conhece Zaphod Beeblebrox e foge com ele para o espaço com a nave Coração de Ouro.

  • Zaphod Bebblebrox

Além de egocêntrico, possui duas cabeças e consequentemente duas personalidades diferentes. A mais predominante é a sua versão desprovida de inteligência enquanto a outra é mais agressiva. É semi-primo de Ford Prefect e foi eleito o Presidente da Galáxia devido a sua enorme capacidade em distrair a atenção das pessoas, recurso essencial para a política. Apesar de sua incompetência, roubou a nave Coração de Ouro, mas  nunca sabe o que realmente quer. Zaphod é o criador da famosa bebida espacial Dinamite Pangaláctica que tem mesmo efeito que ter o cérebro esmagado por uma fatia de limão embrulhado por uma enorme barra de ouro.

  • Coração de Ouro

A nave Coração de Ouro é movida por um Gerador de Improbabilidade Infinita e é graças a esse gerador que a nave salva Arthur e Ford da morte. O Gerador de Improbabilidade Infinita, possibilita atravessar imensas distâncias interestelares em apenas um zerésimo de segundo! A nave também possui inteligência e robô com PHG (Personalidade Humana Genuína), fazendo com que suas portas por exemplo, emitam sons de felicidade ao serem abertas e fechadas.

  • Marvin

Ele é o robô da nave, resultado de um protótipo fracassado da empresa Sirius Cybernetics Corporation e apresenta um estado depressivo de lamentos, resmungos, pessimismo e desânimo, resultado de seu nível avançadíssimo de inteligência. Possui um cérebro do tamanho um planeta, mas foi designado para realizar tarefas que não necessitam muito do uso de seu intelecto.

  • Vogons

São seres burocráticos, insensíveis, mal-humorados e tão feios que a própria evolução desistiu dessa espécie. Na história, eles precisam destruir a Terra para construir uma via expressa e sua nave serviu de carona para Ford e Arthur fugir do desastre. Também são conhecidos por possuírem a terceira pior poesia do universo!

A importância da obra e o existencialismo

Uma das grandes habilidades de Douglas Adams é a de abordar as questões filosóficas de modo que mostre o quão são importantes e ao mesmo tempo irrelevantes para nós. Uma das perguntas mais famosas e que rendeu até título para o terceiro livro da série é: Qual é o sentido da vida, do universo e tudo mais? Para saber a resposta, uma civilização avançada construiu um supercomputador que ao receber a pergunta, passou milênios calculando até chegar ao número 42. Quarenta e dois o quê? A brincadeira de Adams era apenas colocar um número qualquer para uma pergunta vital. O leitor pode então, entender que o verdadeiro sentido de tudo depende de cada um de nós. É uma visão individual do que é a existência e a nossa vida só tem sentido, quando aceitamos a realidade. Esse e muitos outros questionamentos estão presentes na obra em forma de piadas e brincadeiras,  que passam mensagens sobre o que somos e como agimos,  tornando O Guia do Mochileiro das Galáxias uma obra que vai além de uma mera aventura, pois provoca o leitor a refletir e a questionar a si próprio.

“Se um dia alguém descobrir para que serve o universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e algo ainda mais estranho e improvável o substituirá.”

REFERÊNCIAS

Obrigado Pelos Peixes | Como o Guia do Mochileiro das Galáxias pode tornar o mundo um lugar melhor

DNA/Biography

BBC Online – Cult – The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy

Douglas Adams e A Crítica Religiosa por Richard Dawkins

Imagem do peixe babel

NerdCast #209 – Douglas Adams

GAIMAN, Neil. Não Entre em Pânico: Douglas Adams e o Guia do Mochileiro das Galáxias. 1. ed. [S.l.]: Novo Século, 2014. 252 p.

Julia Brazolim Santos

Formada em Técnica em Informática (Centro Paula Souza), atualmente está trabalhando no desenvolvimento de um aplicativo sobre astronomia chamado Exoplaneta. Podcaster, leitora assídua dos mais diversos gêneros literários e fanática pela série Doctor Who. Mora em Ilha Comprida – SP.

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