[STAR WARS] Dark Forces – Soldier of the Empire | Resenha

Soldier for the Empire, de William C. Dietz, é o primeiro volume da trilogia Dark Forces. Publicado pela Dark Horse em 1997, a narrativa funciona como uma adaptação parcial do jogo Star Wars: Dark Forces, de 1995. O livro contém diversas ilustrações de Dean Williams, que contribuem para estabelecer um senso imagético para a narrativa.

Resumo

Dividido em sete capítulos, Soldier for the Empire abordou a história do agente Kyle Katarn, e de seu pai, Morgan. Kyle nasceu em Sulon, a lua do planeta de Sullust, e foi enviado por seu pai para estudar na Academia Imperial, em Carida. Anos depois, no dia de sua graduação como oficial, Kyle recebeu a notícia de que seu pai foi assassinado por rebeldes. O que Kyle desconhecia era o fato de que seu pai não era apenas um fazendeiro, mas um agente rebelde local. O crime não havia sido cometido pela Aliança, como Kyle foi informado, mas pelo Império.

A verdade foi relevada para Kyle por Jan Ors. Pertencente à Rebelião, Jan teve sua vida salva por Kyle, quando este havia sido imbuído da missão de destruir uma base de comunicação rebelde. No momento derradeiro, Kyle optou por não disparar contra a rebelde. O que salvou não apenas a vida dela, como também a sua, uma vez que reforços rebeldes apareceram para salvar Jan, e ela impediu que Kyle fosse executado.

Posteriormente à formatura de Kyle, o reencontro com Jan ocorreu. Ela revelou que a história sobre Morgan era falsa, e a partir das filmagens presentes na unidade A-Cee, um androide da Aliança, Kyle observou forças imperiais vestidas com uniformes da Aliança, executarem seu pai e seus compatriotas. Motivo suficiente para Kyle abandonar o Império.

Jan, que agiu como o elemento mediador, levou Kyle até a lider da Aliança, Mon Mothma. Diante da situação de desconfiança em relação ao ex-oficial, que poderia ser um agente duplo, ele é imbuído de uma missão extremamente arriscada. Mon Mothman explicou que o Império havia construído uma estação espacial capaz de erradicar planetas, e a tarefa de Kyle era infiltrar na base Imperial de Danuta, onde a arma foi desenvolvida, e recuperar seus planos de funcionamento. Kyle, apesar de questionar o risco e a baixa probabilidade de sucesso da missão, aceitou sua execução. Com Kyle fora da cena, Mon Montha instruiu que Jans Ors acompanhasse todo o processo e, se o oficial mostrasse qualquer sinal de traição, deveria ser eliminado.

O comandante responsável pelo controle da base era um colega de Kyle, Meek Odom. Ele não sabia qual era a finalidade da arma imperial e quando Kyle revelou a capacidade de destruição, o oficial optou por ajudar e facilitar o acesso na base. Jan Ors observou a estratégia de Kyle, e optou por confiar nele. Uma vez dentro da base imperial, Kyle eliminou os soldados imperiais que estavam em seu caminho e conseguiu roubar os planos da primeira Estrela da Morte. Seu resgate foi feito por Jan Ors, pilotando a Moldy Crown.

Análise

A década de 1990 foi marcada pelo crescimento das publicações do Universo Expandido de Star Wars. Entre 1976 e 1989, a existência de histórias para além dos filmes era reduzida. Em 1991, a situação começa a ganhar fôlego, a partir da publicação de Heir to the Empire, de Timothy Zahn. O interesse sobre os eventos posteriores ao Return of the Jedi foi constante até o lançamento de The Phantom Menace, em 1999.

A interação entre uma produção de videogame e um texto literário conquistou um espaço significativo dentro da franquia de Star Wars. Em 1996, X-Wing: Rogue Squadron de Michael A. Stackpole fez amplo uso do jogo Star Wars: X-Wing, de 1993, para a descrição das batalhas espaciais. Além disto, tanto o texto de Stackpole quanto o de Dietz possuem menções à trilogia de Zahn, o que contribuiu para construir uma razoável coesão narrativa.

O processo de transição entre as mídias é, no mínimo, complexo. No texto de Dietz, desenvolvimento de Kyle Katarn é apressado e, em parte, contraditório. Na função de Stormtrooper do Império, Katarn age como alguém seguro, mas o personagem é constantemente atravessado por pensamentos de hesitação, confusão, etc. Sua atitude de não executar os rebeldes demonstra um tipo de raciocínio inesperado. Mas, para além disso, não é informado ao leitor como foi o processo de formação de Katarn, suas dificuldades, etc. Justamente por se focar no dia de sua graduação, o que se passou antes é apagado.

Quando Katarn convence seu amigo, Meek Odom, em ajudar a Aliança e trair o Império, questionamos como este foi possível. Apenas a revelação da existência da Estrela da Morte não parece ser motivo suficiente para que um oficial recém-graduado abandone seu posto. Uma sugestão para esse processo provém de outra mídia, o audiodrama Dark Forces: Soldier for the Empire, também de 1997. Adaptado por John Whitman, a partir do texto de Dietz, onde a aproximação entre Katarn e Odom no período de formação é mais detalhada.

Se o caso do desenvolvimento da psique de Kyle Katarn é apressado, o de Jan Ors é inexistente. A personagem serve apenas como um possível interesse romântico de Katarn. Os motivos de seu alistamento na Rebelião, bem como seu papel ali dentro, são drasticamente resumidos e mencionados brevemente. A função da mulher como acessório ao homem reflete em Mon Mothma. Como líder da Aliança, sua ação em enviar Jan Ors para executar Katarn caso ele se mostre um traidor é um tanto quanto estranha e confusa. Inclusive, o único diálogo no livro entre duas mulheres, Ors e Mothma, é sobre Katarn.

Interpretação

Para além dos diversos aspectos mencionados, como a emergência do Universo Expandido na década de 1990, as interfaces entre mídias e narrativas, e o problemático papel da mulher, há outro elemento que convém discutir – o estatuto da verdade sobre as ações políticas do Império. Desde o primeiro capítulo até o último, as posições dos personagens a favor do Império são sempre deslocadas e desconstruídas, a partir da veiculação da verdade sobre aquilo que aconteceu.

Katarn é informado, inicialmente pelo Império, que seu pai foi executado pelos rebeldes. Todavia, quando Jan Ors mostra o vídeo de Morgan liderando forças rebeldes e mostrando os soldados do Império vestidos como tais, o personagem abandona seu posto. A estação de comunicação que Katarn destruiu, como Stormtrooper, era um veículo de divulgação de fatos manipulados como este. Quando Katarn hesita em aceitar a missão de Mothma, a revelação das capacidades destrutivas da Estrela da Morte é que o convence da necessidade de sua eventual destruição. O mesmo se passa com Odom, que auxilia o agente rebelde na medida em que este revela a verdade sobre a nova arma imperial.

Em Soldier for the Empire, a pretensa neutralidade da informação é uma das formas pela qual o Império Galáctico direcionou a opinião dos cidadãos da galáxia. Apenas sujeitos que tivessem amplo estudo das técnicas de guerra e de formação tática dos Stormtroopers poderiam identificar que aqueles soldados estavam encenando. Já a contra-propaganda da Aliança Rebelde, que revela as práticas punitivas e abusivas do Império, é um caminho para a emergência de simpatizantes e contestadores da Nova Ordem e sua eventual queda.

Conclusão

Soldier for the Empire colocou em foco diversos elementos que corroboram para a construção da franquia de Star Wars e que merecem discussões futuras. O texto de Dietz é capaz de dialogar com outras narrativas que o cercam, como aquelas de Zahn, mas também com a mídia de videogame. No mais, a aventura de Kyle Katarn dentro do conflito entre Aliança Rebelde e Império não remete apenas ao contexto interno da história que antecede a Batalha de Yavin, e sim as discussões históricas e sociais do período, destacando-se o uso da mídia como uma forma de emancipação dos sujeitos.

Os pontos narrativos revelam uma das fraquezas do texto – a questão da mulher. Quando comparamos esta obra com aquela de Chuck Wending, em Aftermatch (publicado no Brasil como Marcas da Guerra), percebemos a importância que o contexto tem para a formação de um texto literário que seja capaz de atender ao grande conjunto de fãs e não apenas aos grupos pretensamente dominantes.

Willian Perpétuo Busch

Pesquisador de Ficção Científica. Mestre em Antropologia (UFPR). Bacharel e licenciado em Filosofia (UFPR), e atualmente cursa História, Memória e Imagem (UFPR).

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: