10 Animes com Boa Representação Feminina

No universo de animes (animações produzidas no Japão) e mangás, o machismo é absolutamente comum. A sexualização extrema de personagens femininas, erotização de meninas (menores), o incentivo à cultura do estupro, o assédio como alívio cômico e as representações estereotipadas são encontradas cotidianamente, mesmo nos mais renomados animes.

Isto sem discutir ecchis e hentais (animes eróticos e pornograficos), nos quais existem subgêneros como loli-con (hentais com meninas menores), shota-con (hentais com meninos menores), guro (hentais grotescos, violentos, contendo estupro ou sat) e toddlercon (hentais com crianças de 0-6 anos de idade). Então é um universo indubitavelmente machista, problemático e assustador. Mas obviamente nem todos os animes são assim.

Por décadas, se não até hoje, o Japão foi o maior produtor de histórias em quadrinhos (chamados de mangás, tendo diferenças entre estes e os quadrinhos, dentre elas: a ordem da leitura, o tipo de história e a existência de um único desenhista e roteirista para o mangá todo, este é chamado mangaká) de todo o mundo. Portanto, quando discutimos animes a questão é sempre mais ampla. Trata-se, afinal, de uma indústria cultural imensa que tem muito mais a ofertar do que assédio em nanquim. Tendo em vista todo esse debate, o objetivo deste post é trazer alguns animes pouco ou nada machistas, com bons enredos, de subgêneros e estilos variados, com representações femininas profundas e relações saudáveis entre personagens femininas. Os animes listados estão na ordem do mais leve ao mais denso.

1. A VIAGEM DE CHIHIRO (SEN TO CHIHIRO NO KAMIKAKUSHI 2001)

A viagem de Chihiro é a premiadíssima animação de Hayao Miyazaki lançada em 2001. Em formato de longa, o anime se aproxima da fantasia e aventura, lembrando muito Alice no país das maravilhas. O enredo segue a história de Chihiro,  uma menina que, após tomar um atalho na estrada com os pais, vai parar numa espécie de vilarejo abandonado que ganha vida ao anoitecer. A protagonista se aventura entre espíritos e bruxas tentando salvar os pais, mostrando bravura, gentileza, bondade e generosidade. A personagem, ainda criança, se porta como uma: chora, faz birra por mudar de colégio e faz cena porque suas flores foram amassadas. Deste modo, Chihiro é uma personagem forte e realista. O público alvo do anime é claramente infantil, mas, ainda assim, é um ótimo anime.

2. A GAROTA QUE CONQUISTOU O TEMPO (TOKI O KAKERU SHÔJO, 2006)


Também no formato de longa, a animação de 2006, dirigida por Mamoru Hosoda, é baseada no romance de mesmo nome de Yasutaka Tsutsui (também autora do romance que baseou o anime Paprika). O anime tem um grande enfoque em emoções e relacionamentos humanos (e amorosos). O enredo gira em torno de Makoto, uma menina no último ano do ensino médio, que adquire a habilidade de voltar no tempo e começa a usá-la para ganhos pessoais. O impacto dessas ações  na vida dos seus amigos é o que move o enredo e faz com que a protagonista tenha de se adaptar. Mokoto é divertida, joga basebol, possui inseguranças, medos, é uma adolescente comum – cuja primeira decisão, após aprender a usar seu poder, é impedir sua irmã de comer seu pudim.

3. PRINCESA MONONOKE (MONONOKE-HIME, 1997)

Assim como A viagem de Chihiro, A princesa Mononoke foi dirigido e escrito por Hayao Miyazaki. Trata-se de um longa de 1997 que explora temas ambientais e a espiritualidade que se liga à floresta. Com cara de épico, Princesa Mononoke tem um tom mais sombrio e violento. Apesar de representar uma guerra, o anime não é  maniqueísta. Nele vemos Ashitaka, príncipe de uma pequena região, buscar a cura para uma maldição que condenou seu corpo. Na sua trajetória o príncipe encontra duas personagens femininas marcantes: Lady Eboshi e San.

Lady Ebosh é senhora de uma região que vive de mineração e fabricação de armas, seu reino é pacífico. A personagem resgata mulheres de situações de risco e lhes abriga, além de ajudar leprosos. O problema é que sua indústria causa o desmatamento da floresta, o que a põe contra San, a princesa Mononoke. Adotada e criada por uma tribo de deuses-lobos, San é uma excelente lutadora e dona de um ódio profundo pelos humanos. As duas personagens estão em lados opostos de uma guerra que tem de um lado animais, espíritos da floresta e entidades divinas e do outro pessoas e armas. A discussão do anime é profunda rica em nuances.

4. NANA (2006-7)

O anime Nana se baseia no mangá de mesmo nome, tendo Ali Ayakawa como mangaká (a única mangaká mulher presente na lista). O anime foi ao ar em forma de série, sob a direção de Morio Asaka, entre 2006-2007 e contém 47 episódios. As temáticas têm tom de drama e giram em torno de amor, família, começo da vida adulta numa nova cidade, prosseguimento dessa vida adulta e o afastamento de velhos amigos. O enfoque emocional é muito marcante no anime. Nele seguimos duas personagens chamadas Nana, que se encontram por força do acaso e passam a viver juntas no mesmo apartamento. Uma Nana é doce, delicada e confusa, a outra é cantora de uma banda de rock, independente e cheia de atitude. No convívio cotidiano as duas mulheres com personalidades tão diferentes acabam se ajudando e acompanhando uma à outra num processo de crescimento e amadurecimento.

5. A ATRIZ MILENAR (SENNEN JOYÛ, 2001)

Este longa de 2001, dirigido por Satoshi Kon, gira em torno de Chiyoko Fujiwara, uma atriz que cede uma entrevista de TV. Conforme responde as perguntas sobre sua carreira, a protagonista relembra seus filmes e sua vida, de modo que as duas realidades se misturam, contando sua história.

6. A LENDA DE KORRA (THE LEGEND OF KORRA, 2012)

Tendo em vista que anime seria uma animação japonesa, A lenda de Korra não seria um anime, mas a animação deve ser notada pela sua incrível qualidade e por ser a única das listadas a mostrar um relacionamento lésbico (apesar de ser algo muito discreto e subtendido). A série possui 52 episódios e foi ao ar 2012. Criada por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko a animação é uma continuidade de Avatar: a Lenda de Aang. A sucessora de Aang, a avatar Korra, possui teimosia, impulsividade e genialidade, razão para diversas crises que precisam ser superadas para que a personagem possa, assim, evoluir. Essa estrutura narrativa remete ao gênero de anime shounen. “Shounen” significa menino e geralmente se refere um um tipo de anime voltado para um público infantil, não muito realista, abordando e amizade, coragem, trabalho em equipe, superação de obstáculos, etc.

Nestes animes o protagonista (majoritariamente um menino ou homem) tem de superar diversos obstáculos para alcançar um objetivo, então ele apanha, apanha e apanha, assim ele evolui, supera o obstáculo, aprende alguma lição e passa pelo mesmo processo de novo. Isso é exatamente o que acontece com Korra, por isso a animação remete tanto aos animes, além disso o tipo de desenho, de roupas e da relação da protagonista com seus mestres também é uma clara referência ao mundo de animes.  Ao longo da série vemos a evolução de Korra e sua complexificação emocional. Vemos seu vocabulário emocional aumentar a cada crise, assim como sua técnica. Além disso, acompanhamos os romances dela com Mako e, posteriormente, com Asami – construído de forma extraordinariamente gradual e natural.

7. DURARARA!! (2010)


Baseado numa light novel também denominada Durarara!!, escrita por Ryōgo Narita, o anime, dirigido por Noboru Takagi, foi ao ar em 2010 e contém 24 episódios. Nele acompanhamos diversos personagens: o protagonista Mikado Ryūgamine, seu melhor amigo Masaomi Kida, assim como Anri Sonohara, Celty Sturluson, Izaya Orihara, Anri Sonohara, etc. Cada personagem tem seu arco de desenvolvimento e de forma leve, porém sombria, o anime explora temas delicados como violência urbana, suicídios, a adesão de jovens a gangs, solidão, etc.

Dentre as personagens femininas, Celty é a mais intrigante, ela é uma uma Dullahan Irlandesa – um cavaleiro sem cabeça – que dirige uma moto por Tokyo buscando por sua cabeça na esperança de encontrar suas memórias perdidas, essa busca das memórias tem no fundo uma busca de si e do motivo de sua existência muito profunda. Celty possui força sobre-humana e é capaz de manipular sua sombra tornando-a objetos, a personagem usa essa habilidade para interferir na realidade de sua cidade, protegendo pessoas e evitando agressões.

No anime, Celty possui uma leve história romântica e aparece seminua, mas é de própria vontade e tem sentido no enredo. Contudo, a representação de Anri é problemática, pois ela é menor de idade e o anime enfatiza diversas vezes seus seios. A perspectiva deste anime também é bastante masculina, na maior parte do tempo vemos o mundo a partir dos olhos de Mikado. Ainda assim, é um anime profundo, dinâmico e divertido, com personagens femininas complexas e independentes.

8. PAPRIKA (PAPURIKA, 2006)

Paprika é um anime de ficção científica na forma de longa, lançado em 2006 e dirigido por Santoshi Kon (também diretor de Uma atriz milenar). Foi baseado num livro de mesmo nome, escrito por Yasutaka Tsuitsui. Dos animes listados, este é o que tem uma mensagem mais feminista. O enredo é o seguinte: um aparelho foi criado para pesquisas psicológicas e neurológicas, este permite que a/o terapeuta entre no sonho do paciente. Logo depois de criada, a máquina passa a ser usada pela Dra. Atsuko Chiba ilegalmente para tratamentos. Nestes, seu alter ego Paprika assume o controle. Como não foram acabados, os aparelhos não têm restrição de uso, de modo que qualquer um pode usar o aparelho, e este começa a ser usado com objetivo de causar dano às pessoas envolvidas no projeto. Assim, começa uma caçada ao usuário desconhecido que termina com diversas batalhas dentro dos sonhos.

O anime aborda temas psicológicos como a repressão de desejos, temas éticos como o uso ou mal uso da ciência e a responsabilidade dos cientistas, e temas como violência e abuso sexual.

Suas protagonistas são Atsuko Chiba e Paprika. Enquanto Atsuko é séria, responsável, rígida e racional, Paprika é leve, criativa e divertida. A diferença entre personalidades se reflete na estética do anime, o mundo real e Atsuko Chiba são cinzentos e pálidos, já os tons do mundo dos sonhos e de Paprika são quentes e vibrantes.

9. CLAYMORE (KUREIMOA, 2007)

Claymore é um anime em forma de série que foi ao ar em 2007, sob a direção de Hiroyuki Tanaka. Com cores frias e clima sombrio, o anime emula um universo medievalesco. Monstros semi-humanos, chamados Youma, se alimentam de vísceras humanas, sendo necessária a existência de guerreiras especializadas na sua caça. Estas são chamadas claymores devido à suas espadas. Uma organização secreta cria essas guerreiras a partir da inserção de carne e sangue de Youma em humanas ainda crianças. Posteriormente, essas meninas serão treinadas e atuarão caçando Youmas. O problema é que a fonte do poder das Claymores é a sua metade inumana, que, se forçada além de um limite, faz com que a guerreira se torne um Kakuseisha (um Despertado).

O anime possui diversas batalhas, cenas dramáticas, sombrias,  e mesmo essa organização e a luta contra despertados serão questionadas. Como basicamente todas as Claymores são mulheres existem diversas personagens fortes, com diferentes personalidades, diferentes técnicas de luta. Os laços entre essas guerreiras e a ajuda mútua são frequentes, assim como a união contra inimigos comuns.

10. GHOST IN THE SHELL (KÔKAKU KIDÔTA, 1989)

Ghost in the Shell é enorme. O mangá, criado por Masamune Shirow, começou a ser lançado em 1989, sendo seguido por outro mangá de continuação e por diversas séries e filmes. O universo do anime é cyberpunk e altamente informatizado. Neste, a alteração de mentes e corpos humanos através de tecnologia se tornou comum. A protagonista é a agente Major Motoko Kusanagi, líder de uma unidade de serviço secreto chamada Esquadrão Shell. Seu corpo foi tão modificado que se tornou quase todo robótico. O anime aborda questões como a existência ou não de alma nos corpos modificados, a diferença e similaridade entre humano e máquina, o que torna nos torna humanos e qual é esse elemento essencial que nos difere. Temáticas clássicas da ficção científica.

BÔNUS: SERIAL EXPERIMENT LAIN (1998)

Serial Experiment Lain é um anime em forma de série, com 13 episódios, dirigido por Ryutaro Nakamura. A série foi transmitida em 1998. O anime foi considerado vanguardista por sua abordagem filosófica da realidade virtual. Aborda temas como realidade, identidade, comunicação e Deus. Além disso, a animação possui um clima cyberpunk tratando de violência, alucinações, drogas e realidade virtual em toda sua face sombria. Trata-se de um anime pesado, difícil, misterioso, sombrio e cheio de suspense.

A protagonista, Lain Iwakura é uma menina tímida que adentra a realidade virtual em busca de contato com uma colega de classe que cometeu suicídio. Gradualmente, o virtual se torna parte cada vez maior de Lain, e Lain dele. Este é um espaço em que outra face de Lain é descoberta. A protagonista vive desconectada do real e das outras pessoas – às quais aparecem para ela como desenhos ou borrões.  A realidade parece sem sentido e banal enquanto o virtual parece atraente e rico em possibilidades. Ao longo da série, Lain se torna cada vez mais complexa. É um tipo de personagem feminina diferente de todas as anteriores, dentro de um anime diferente de todos os listados.

Janis Caroline Boiko da Rosa

Mestranda em História na UFPR. Licenciada em História pela PUC-PR. Estuda principalmente distopias. Áreas de interesse: literatura, ficção científica, cinema e ciências humanas.

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