Reign (2013-2017) | Análise da Série

Reign conta a história da Rainha Mary da Escócia. A série permeia toda a vida desta personalidade real, que repercute nos reinos da França, Espanha, Inglaterra e Escócia. Com uma visão contemporânea de cunho teen, Reign não é um romance histórico do período. A série dá um foco maior para os romances do que para as tramas políticas, além de não seguir alguns fatos históricos. Entretanto, a partir da terceira temporada, a narrativa ganha densidade e pode despertar o interesse de quem gosta de romances históricos.

Quem foi Mary Stuart

Mary Stuart nasceu no dia 8 de dezembro de 1542 e faleceu em 8 de fevereiro de 1587, com apenas 44 anos. Ainda bebê seu pai – Rei James da Escócia – faleceu e ela foi coroada rainha. Entretanto, devido sua pouca idade, a Escócia foi regida por sua mãe, Marie de Guise, francesa.

Ainda criança, Mary foi prometida em casamento ao futuro rei da França, Francis de Valois. Quando adolescente, passou a viver na corte francesa. Casou-se com Francis e foi rainha consorte da França por cerca de um ano, até o falecimento de seu marido.

Á esquerda, Mary Stuart. À direita a atriz Adelaide Kane como Mary.
Á esquerda, Mary Stuart. À direita a atriz Adelaide Kane como Mary.

Pouco depois, Mary retornou à Escócia. O país até então era católico, mas estava sendo ameaçado por um grupo de protestantes que queria chegar ao poder. Marie de Guise já havia falecido e a regência estava nas mãos do meio irmão de Mary, James. Na luta por manter seu poder e a supremacia católica, Mary buscou um novo marido, que fosse nobre e católico.

Assim casou-se com Henry Stuart, o Lord Darnley. O casamento rendeu seu único herdeiro, James – que viria a ser o primeiro a governar a Escócia e a Inglaterra como um único país. Após a morte de Darnley, Mary pôde passar alguns anos ao lado de seu novo amor, James Hepburn, Lord de Bothwell. A morte de Mary ocorreu na Inglaterra, após anos de cárcere.

Mary Stuart e Elizabeth Tudor

Mary Stuart era neta da irmã mais velha do rei Henry VIII, da Inglaterra. Henry VIII é famoso por ter sido o primeiro rei a romper com o poder católico e se auto intitular líder político e religioso de seu país. Henry teve várias esposas e três filhos, com três diferentes mães. Dentre estes filhos, estava Elizabeth, que seguia a mesma religião de seu pai – o protestantismo. Após a morte de Henry, seu único filho homem assumiu o trono, mas não viveu muito tempo. O trono foi passado, para sua irmã mais velha, Mary, que era católica e ficou conhecida como “Bloody Mary” após intensa perseguição contra protestantes.

Quando Mary morreu, o trono britânico ficou em aberto e disputado. A próxima parente viva de Henry VIII era Elizabeth, mas, perante a Igreja Católica, ela nunca foi considerada filha legítima do rei, visto que era fruto de um casamento protestante. Sem Elizabeth na querela, a próxima indicada a ocupar o cargo era Mary Stuart.

Rachel Skarsten, interpretando a Rainha Elizabeth em Reign.
Rachel Skarsten, interpretando a Rainha Elizabeth em Reign.

Elizabeth acabou sendo oficialmente coroada como Rainha da Inglaterra, mas as ameaças para que ela tomasse a Escócia de Mary, que possuía vários apoiadores protestantes, era constante. Da mesma forma, Mary ameaçava se aliar a outras nações católicas e tomar o poder da monarca britânica. As duas eram as únicas parentes vivas uma da outra, mas não se permitiram conhecer e ter uma relação amigável, por conta das disputas políticas.

A partir de 1569 Mary foi mantida em cativeiro por Elizabeth, em uma pequena vila no interior da Inglaterra. Em 1585 Mary foi acusada de planejar o assassinato de Elizabeth, razão pela qual sua execução foi realizada em 1587.

Reign: temporadas 1 e 2

As duas primeiras temporadas de Reign contam a trajetória de Mary (Adelaide Kane) na França – ponto que não costuma ser focado em suas biografias. A monarca é apresentada como uma jovem inocente, que começa a descobrir o amor aos poucos. Dessa forma, o recorte temporal das duas temporadas vai de 1557 a meados 1559.

Nos primeiros episódios, tramas relacionadas com suas damas consortes e um triângulo amoroso envolvendo Mary, Francis (Toby Regbo) e seu meio irmão, Sebastian (Torrance Coombs), são apresentados.

Reign — Image: RE01_KEYGroup1 — Pictured (L-R): Toby Regbo as Prince Francis, Adelaide Kane as Mary, Queen of Scots, and Torrance Coombs as Bash – Photo: Mathieu Young/The CW — © 2013 The CW Network, LLC. All rights reserved.

Essa plot acompanha a série em quase toda a primeira temporada, até que o rei Henry da França (Alan Van Sprang) é declarado louco e afastado do trono, para depois morrer. O cargo é então ocupado por Mary e Francis, após seu casamento e a dissolução do triângulo amoroso.

Entretanto, o casamento deles estava ameaçado por uma profecia, na qual a mãe de Francis, Catherine di Medici (Megan Follows), acreditava piamente. A profecia dizia que Mary traria o fim da vida de Francis, antes que eles pudessem produzir um herdeiro. Por conta disso, Catherine tentou impedir o casamento dos dois, mas não foi bem sucedida.

A grande vilã da temporada 1 é revelada como sendo uma filha renegada de Catherine, fruto de adultério, Clarissa (Katie Boland) foi abandonada por ter nascido com deformidades.

Na segunda temporada, o drama é por conta de Mary, que se apaixona por Condé (Sean Teale) e trai seu marido. A traição de Mary e as consequências disso para o seu casamento e os reinos envolvidos geram vários episódios dramáticos, que incluem Francis muito doente.

Reign: Temporadas 3 e 4

Na terceira temporada o fatídico destino do rei Francis ocorre e Mary torna-se viúva. Ela segue vivendo na corte francesa por alguns meses, até que a sucessão de Francis fosse organizada e a busca por um novo marido continua. A situação na Escócia se complica e ela precisa voltar para seu país, abandonando a França. O recorte temporal das duas temporadas vai de 1560 a 1587. O enredo explora apenas os ocorridos até 1566 e pule para 1587.

Toby Regbo, como Francis e Adelaide Kaine como Mary em cena de Reign.
Toby Regbo, como Francis e Adelaide Kaine como Mary em cena de Reign.

Na Escócia, Mary não é bem recebida e passa a ser alvo de diversos ataques por parte do protestante John Knox (Jonathan Goad). Enquanto isso, Elizabeth (Rachel Skarsten) entra na série, primeiramente como amiga de Catherine di Medici e depois como alguém que trama invadir a Escócia. Uma das damas de Mary, Lola (Anna Popplewell), acaba indo morar na corte britânica, contra sua vontade. Lola era casada com o Lord chanceler francês, Stephane Narcisse (Craig Parker). Ela é acusada de tentar assassinar Elizabeth, que a condena para a execução. Narcisse vê tudo e jura vingança. Mary faz o mesmo.

A partir deste momento, a série começa a esmiuçar a história das três grandes líderes: Mary Stuart, Elizabeth Tudor e Catherine Di Medici. Desta forma, o espectador consegue ter uma visão panorâmica das tramas políticas, picuinhas e dificuldades pelas quais os reinos da Escócia, Inglaterra e França passavam. Na quarta temporada, a Espanha é somada à estes reinos, visto que uma das filhas de Catherine é a rainha consorte do país e que a Espanha é o país mais potente naquele momento.

Considerações Finais

A força, inteligência e destreza com a qual as três mulheres cuidam de suas nações, desconsiderando os anseios pessoais e sobrevivendo a constantes ameaças ao seu poder, deixa a trama mais interessante.

É dado um grande foco ao fato de que mulheres poderosas eram duplamente ameaçadas, primeiro por serem mulheres e segundo por serem poderosas. Isso significa que tanto Elizabeth quanto Mary só poderiam ganhar respeito de seu povo caso tivessem um bom marido ao seu lado. Mary se rendeu a isso, mas Elizabeth conseguiu sustentar seu reinado sendo solteira. A série, porém, endossa fortemente que apesar de solteira, Elizabeth estava longe de poder ser considerada “a rainha virgem”.

Rachel Skarsten, Adelaide Kaine e Megan Follows, respectivamente como Rainha Elizabeth, Rainha Mary e Rainha mãe Catherine di Medici
Rachel Skarsten, Adelaide Kaine e Megan Follows, respectivamente como Rainha Elizabeth, Rainha Mary e Rainha mãe Catherine di Medici

A sexualidade feminina, juntamente com o questionamento da posição da mulher na sociedade são as temáticas mais fortes das duas últimas temporadas. Apesar de não ser historicamente verídica em diversos pontos, a trama consegue prender o espectador. Em determinados momentos, os erros históricos são tão grandes que é possível se perguntar por que razão os produtores não chutaram o balde e fizeram uma alteração, na qual Elizabeth e Mary tivessem um relacionamento e reinaram juntas Escócia e Inglaterra, trazendo a França pro bonde do protestantismo. Com certeza, essa fanfic tornaria a série ainda mais interessante e justificaria as imensas fugas históricas que os roteiristas optaram por realizar.

Apesar dos pesares, Reign é uma série válida de ser assistida. Principalmente por focar na personalidade de Mary que é constantemente ofuscada pela indústria cinematográfica, que explora a família Tudor em demasia. Pensar na dificuldade que essas mulheres tiveram para sobreviver e sustentar suas vidas, há quase 500 anos nos faz também refletir sobre quantas dificuldades as mulheres de hoje ainda enfrentam para viverem a vida que querem e serem respeitadas por isso. Tal reflexão é importante para percebemos o quanto a humanidade é rápida para melhorar em alguns aspectos (como o tecnológico), mas extremamente devagar para melhorar em outros (como a igualdade entre mulheres e homens).

Mayra Sousa Resende

Cursa mestrado em Informática e Antropologia, ambos na UFPR. Possui especialização em Mídias Digitais pela UP e bacharelado em Ciências Sociais pela UFPR.

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